Monthly Archives: junho 2016

Físicos detectam novas ondas gravitacionais

Pela segunda vez nos últimos meses, cientistas conseguiram detectar ondas gravitacionais. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (15) pelos pesquisadores responsáveis, cuja descoberta foi aceita para publicação no periódico científico Physical Review Letters.

Físicos detectam novas ondas gravitacionais

Elas foram registradas no fim de 2015 e são resultado da colisão de dois buracos negros

As ondas gravitacionais foram detectadas na madrugada do dia 26 de dezembro de 2015 por meio dos dois detectores do LIGO (Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser) localizados nas cidades de Livingston, em Louisiana, e Hanford, em Washington, ambas nos Estados Unidos.

De acordo com os cientistas da Colaboração Cientifica LIGO (a qual inclui a Colaboração GEO600 e o Consórcio Australiano de Astronomia Interferométrica Gravitacional) e da Colaboração Virgo, responsáveis pela descoberta, estas ondas foram produzidas por uma fusão de dois buracos negros — que tinham 14 e 8 vezes a massa do Sol, respectivamente — que ocorreu há cerca de 1,4 bilhão de anos e produziu um novo buraco negro com 21 vezes a massa da nossa estrela. Durante o fenômeno, uma massa equivalente à do Sol foi convertida em ondas gravitacionais.

“É muito significativo que estes buracos negros sejam bem menores do que aqueles da primeira detecção”, afirmou Gabriela Gonzalez, porta-voz da Colaboração Científica LIGO e professora de física e astronomia da Universidade Estadual da Louisiana, nos Estados Unidos, no anúncio da descoberta. “Por causa das suas massas menores comparadas às da primeira detecção, eles passaram mais tempo — cerca de um segundo — na banda de maior sensibilidade dos detectores. É um começo promissor para mapear as populações de buracos negros do nosso universo.”

Ondas gravitacionais

As ondas gravitacionais foram previstas pela primeira vez por Albert Einstein há um século. Na Teoria da Relatividade, o cientista afirmou que qualquer evento cósmico que cause perturbação no espaço-tempo com força suficiente pode produzir ondulações gravitacionais que se propagam pelo Espaço.

As ondas são importantes pois carregam informações sobre suas origens e a natureza da gravidade que, segundo físicos, não podem ser obtidas de outra maneira.

As primeiras ondas foram detectadas em setembro de 2015. Elas foram captadas a partir de interferômetros, aparelhos que conseguem detectar interferências no espaço-tempo, a malha estrutural do universo descrito por Einstein. Trata-se de dois arranjos de lasers e espelhos em forma de L que conseguem registrar qualquer distorção provocada pela passagem do fenômeno.

LIGO

A pesquisa no Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser é realizada pela Colaboração Científica LIGO, que conta com mais de mil cientistas de 15 países. Ao todos,90 universidades e institutos de pesquisa desenvolvem tecnologia de detecção e analisam dados.

A descoberta das “novas” ondas gravitacionais contou com dois grupos de pesquisadores no Brasil, ambos em São Paulo. São eles: o grupo do INPE (Divisão de Astrofísica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que trabalha no aperfeiçoamento da instrumentação de isolamento vibracional do LIGO, na sua futura operação com espelhos resfriados e na caracterização dos detectores, buscando determinar as suas fontes de ruído e a minimização dos seus efeitos nos dados coletados, permitindo que sinais de ondas gravitacionais fortes sejam mais facilmente localizados nos dados.

O segundo grupo é do ICTP-SAIFR/IFT-UNESP e trabalha na modelagem e análise dos dados de sinais de sistemas estelares binários coalescentes, como os dois eventos detectados até agora. A modelagem é particularmente importante porque as ondas gravitacionais interagem fracamente com a matéria, tornando necessário, além de detectores de alto desempenho, técnicas de análises eficazes e uma modelagem teórica precisa dos sinais.

Pesquisa sugere canto da Via Láctea como melhor aposta para buscar vida fora da Terra

Segundo pesquisadores, aglomerados de estrelas podem ser local ideal para vida alienígena.

Aglomerados antigos e repletos de estrelas encontrados em um canto da Via Láctea são uma boa aposta na busca por vida extraterrestre inteligente (Seti, na sigla em inglês), de acordo com uma pesquisa apresentada no encontro da Sociedade de Astronomia americana.

Aglomerados globulares como estes podem ser o local certo para procurar vida alienígena? (Foto: NASA/ESA/Hubble Heritage

Pesquisa sugere canto da Via Láctea como melhor aposta para buscar vida fora da Terra

Devido à abundância de estrelas, esses “aglomerados globulares” sempre foram um dos queridinhos do campo.

Mas tentativas recentes de esmiuçar o espaço em busca de planetas orbitando estrelas não tiveram sucesso em aglomerados globulares.

Agora, porém, dois astrônomos dizem que há bons motivos para continuar a busca.

Rosanne Di Stefano, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, nos Estados Unidos, e Alak Ray, do Instituto de Pesquisa Fundamental, na Índia, descreveram o que chamaram de “oportunidade do aglomerado globular”.

Com uma idade média de 10 bilhões de anos (muito superior à do Sol, com 4 bilhões), aglomerados globulares não têm muitas estrelas jovens, ricas em elementos metálicos necessários para fazer planetas.

Mas durante participação no 227º encontro da Sociedade de Astronomia americana, Di Stefano disse que pesquisas recentes haviam descoberto exoplanetas (planetas que orbitam outras estrelas que não o Sol) – especialmente os pequenos e rochosos, parecidos à Terra – em torno de estrelas muito menos ricas em metal que nosso Sol.

E se isso aconteceu uma vez…

“Quando as pesquisas sobre vida alienígena começaram, nos anos 1950 e 1960, ainda nem sabíamos se havia exoplanetas” disse ela.

“Agora podemos usar a informação que reunimos de outras descobertas de planetas – e há mais de 2 mil planetas conhecidos hoje – para perguntar se é provável que eles estejam em aglomerados globulares.”

Di Stefano usou o exemplo do PSR B1620-26 b, às vezes chamada de “Methuselah”. É o único exoplaneta identificado até o momento que orbita uma estrela – ou, no caso, duas – em um aglomerado globular.

“Acho que a maior parte de nós diria que a descoberta desse planeta indica que deve haver outros planetas naquele aglomerado”, disse.

Além disso, Di Stefano e Ray identificaram um “ponto ideal” nas dimensões de aglomerados globulares.

Como a maioria das estrelas são velhas, anãs vermelhas e frias, qualquer planeta habitável teria que orbitar muito perto delas para manter água líquida.

Se manter molhado, porém, não é o único desafio para um planeta em que a vida seja viável em um aglomerado globular. Uma bola com um milhão de estrelas a apenas 100 anos-luz de distância é um forte tumulto de forças gravitacionais que poderiam desintegrar o Sistema Solar.

Mas há uma região nesses aglomerados, segundo Di Stefano, onde as estrelas não estão tão grudadas a ponto de planetas rochosos e pequenos serem arrancados de suas estrelas – mas que, apesar disso, as estrelas estão perto o suficiente para que uma civilização alienígena possa conseguir ir de uma estrela para outra.

Especulação divertida
“Nessa grande região (…) sistemas planetários podem sobreviver, e ela ainda é densa o suficiente para facilitar viagens interestelares.”

Ela acrescentou que esses planetas – se eles existirem – podem durar até mais do que a idade atual do Universo, deixando tempo suficiente para que florescessem vida inteligente e uma ambição interestelar.

Outros pesquisadores na conferência concordaram que essas são observações interessantes, mesmo se a noção de civilizações antigas saltando de estrela em estrela tenha sido, obviamente, uma especulação provocativa.

“(A tese) se sustenta”, disse Jessie Christiansen, do Instituto Científico de Exoplanetas da Nasa, na Universidade Caltech. “É muito especulativa, mas eu gosto da ideia de que como aglomerados globulares são antigos, eles tiveram mais tempo.”

“Formas de vida simples e unicelulares podem se desenvolver rápido, mas formas de vida complexas – isso para não falar de vida inteligente – parece levar muito tempo”, acrescentou, citando a história natural da Terra como um exemplo limitado. “Então talvez sejam necessários dezenas de bilhões de anos.”

Alan Penny, astrônomo da Universidade de St Andrews, na Escócia, e coordenador da rede de pesquisas sobre vida inteligente alienígena do Reino Unido, disse acreditar que a pesquisa “dá esperanças sobre os aglomerados globulares, na busca por alvos onde procurar”.

Mas eles continuam sendo alvos muito difíceis, acrescenta.

“Eles ainda estão muito, muito longe. O aglomerado globular mais próximo está a milhares de anos-luz.”

 

 

Astrônomos identificam estrela antiga e rara na Via Láctea

Pesquisa inclui cientistas do Brasil e dos EUA.

Achado pode ajudar estudo das origens da nossa galáxia.

Uma equipe de astrônomos do Brasil e dos EUA, liderada pelo professor Jorge Melendez, da Universidade de São Paulo, publicou um estudo que mostra que a estrela de nome 2MASS J18082002-5104378 é uma “relíquia” dos anos de formação da Via Láctea que oferece uma oportunidade única de estudar as primeiras estrelas que se surgiram na nossa galáxia.

Estrela ultrapobre em metais pode ajudar a entender origens da Via Láctea

Astrônomos identificam estrela antiga e rara na Via Láctea

A estrela 2MASS J18082002-5104378 foi descoberta em 2014, como informa o Observatório Europeu do Sul (ESO), em comunicado. Observações que se seguiram mostraram que, ao contrário de estrelas mais jovens, como o nosso Sol, essa estrela apresenta uma quantidade muito baixa de metais (nome que os astrônomos dão aos elementos mais pesados que o hidrogênio e o hélio). Ela é tão desprovida destes elementos que é chamada uma estrela ultrapobre em metais. E, ao mesmo tempo, é a mais brilhante desse tipo descoberta até hoje.

As estrelas pobres em metais são bastante raras tanto na Via Láctea, bem como em outras galáxias próximo de nós. Os metais formam-se durante a fusão nuclear nos núcleos das estrelas e espalham-se por todo o meio interestelar quando estas estrelas envelhecem e explodem. Consequentemente, gerações posteriores de estrelas formam-se a partir deste material cada vez mais rico em metais. As estrelas pobres em metais formaram-se a partir do meio não contaminado que existia logo após o Big Bang. Estudar estrelas como a 2MASS J18082002-5104378 pode, portanto, ajudar a entender segredos da formação do Universo.

Jorge Melendez, da USP

Astrônomos
Pesquisa inclui cientistas do Brasil e dos EUA.
Achado pode ajudar estudo das origens da nossa galáxia.

Os resultados deste estudo foram publicados na revista especializada “Astronomy & Astrophysics”. A equipe de autores é formada por Meléndez (Universidade de São Paulo), Vinicius M. Placco (Universidade de Notre Dame, EUA), Marcelo Tucci-Maia (USP), Iván Ramírez (Universidade do Texas, EUA), Ting S. Li (UniversidadeTexas A&M, EUA) e Gabriel Perez (USP, Brasil).

Astrofísicos escutam sons das estrelas mais antigas da Via Láctea

Pesquisadores detectaram oscilações em M4, antigo conjunto de estrelas.
Estudo foi divulgado nesta segunda pela Real Sociedade Astronômica.

Um grupo de astrofísicos da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, conseguiu registrar os sons de algumas das estrelas mais antigas da Via Láctea, segundo os resultados de um estudo divulgado nesta segunda-feira (6) pela Real Sociedade Astronômica.

Ilustração mostra galáxias encontradas na 'zona proibida' atrás da Via Láctea

Astrofísicos escutam sons das estrelas mais antigas da Via Láctea

A equipe de pesquisadores afirmou que detectaram as oscilações acústicas ressonantes em M4, um dos acúmulos de estrelas mais antigos conhecidos da Via Láctea, com uma antiguidade calculada de 13 bilhões de anos.

Graças aos dados da missão Kepler/K2 da Nasa, iniciada em 2014, os especialistas estudaram a oscilações ressonantes das estrelas para o que usaram a astrossismologia.

Dita técnica estuda as oscilações periódicas das superfícies das estrelas, que são objetos fluidos, que vibram com certos períodos naturais.

Essas oscilações criam mudanças diminutas e pulsos na luminosidade, que são causados pelo som registrado dentro das estrelas. Medindo os tons dessa “música estelar” é possível determinar a massa e a idade de uma estrela.

Esta descoberta abre a porta para o uso da astrossismologia para o estudo da história mais recente de nossa galáxia.

“Da mesma forma que os arqueólogos podem revelar o passado escavando na terra, nós podemos usar o som do interior das estrelas para realizar arqueologia galáctica”, comparou o professor Bill Chaplin.

A diretora do estudo, Andrea Miglio, da Escola de Física e Astronomia da Universidade de Birmingham, confirmou o entusiasmo da equipe por ser “capaz de escutar algumas das relíquias estelares de Universo”, segundo um comunicado da instituição.

As estrelas estudadas constituem “realmente fósseis viventes que datam da época em que se formou nossa galáxia e esperamos agora poder revelar os segredos de como as galáxias em espiral, como a nossa, se formaram e evoluíram”, acrescentou Miglio.

Outro dos autores do estudo, Guy Davies, afirmou que esta conquista proporcionou a prova de que a “astrossismologia pode dar as idades precisas das estrelas mais idosas da galáxia”.

Ilustração mostra galáxias encontradas na 'zona proibida' atrás da Via Láctea

Astrofísicos escutam sons das estrelas mais antigas da Via Láctea

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um terço do planeta não pode ver a Via Láctea devido à poluição luminosa

Um terço do planeta não pode ver a Via Láctea devido à poluição luminosa

Mapa permitirá estudo sobre efeito da luz sobre a saúde e o meio ambiente.
Níveis de poluição luminosa quase não são medidos, dizem cientistas.

Via Láctea registrada por astrofotógrafo em Santa Rita de Caldas, MG

Mapa permitirá estudo sobre efeito da luz sobre a saúde e o meio ambiente.
Níveis de poluição luminosa quase não são medidos, dizem cientistas.

Mais de 80% da humanidade vive sob céus repletos de luz artificial, e um terço da população mundial não consegue ver a Via Láctea, segundo um novo atlas mundial da poluição luminosa.

O mapa, publicado na sexta-feira (11) pela revista americana ScienceAdvances, permitirá estudar a iluminação artificial como um poluidor com impacto potencial sobre a saúde e o meio ambiente, explica a equipe internacional de pesquisa que elaborou o estudo.

“Este novo atlas fornece uma documentação essencial do meio ambiente noturno no momento em que a tecnologia de diodos emissores de luz (LED) se impõe cada vez mais no mundo”, explica o chefe da equipe, Falbio Falci, pesquisador do Instituto Italiano da Tecnologia e da Ciência da Poluição Luminosa.

“Os níveis luminosos da tecnologia LED e suas cores poderão, lamentavelmente, levar a uma duplicação ou a uma triplicação da luminosidade do céu à noite”, indica.

Já na Europa ocidental restam poucos lugares onde, durante a noite, o céu continua relativamente pouco contaminado pela luz artificial, sobretudo em Escócia, Suécia, Noruega e em certas partes da Espanha e da Áustria.

A poluição de luz artificial já não é somente um incomodo para os astrônomos, mas também altera profundamente a possibilidade de que as pessoas observem e admirem a abóbada celeste durante a noite.

Inclusive leves aumentos da luminosidade durante as noites sem lua afetam esta experiência, dizem os cientistas.

A poluição luminosa atrai pouco a atenção, e, diferentemente de outras poluições, seus níveis quase não são medidos, expressam os pesquisadores. Estes mesmos cientistas, incluindo Falchi, criaram em 2001 o primeiro atlas mundial da luz artificial.

Esta atualização permite ter uma maior precisão graças a novas ferramentas e à utilização de novas imagens, provenientes de satélites equipados com câmeras de alta resolução.

Desta maneira, o atlas mostra que mais de 80% do mundo e 99% dos Estados Unidos e da Europa ocidental vivem sob céus poluídos pela luz artificial.

Fotografia feita com longa exposição mostra dois meteoros cortando o céu durante a chuva de meteoros chamada de Liríadas em vista do céu de Thanlyin, Mianmar. A Via Láctea também é visível na imagem (Foto: Ye Aung Thu/AFP)

Um terço do planeta não pode ver a Via Láctea devido à poluição luminosa

Este mapa-múndi da luminosidade do céu revela que certos países, como Cingapura, experimentam níveis tão altos de poluição luminosa que seus habitantes não sabem realmente o que é uma noite escura.

Nestes lugares, a maior parte da população vive sob céus tão contaminados à noite que seus olhos não conseguem se adaptar completamente à visão noturna.

Por outro lado, o atlas mostra que os países menos afetados pela luminosidade noturna são Chade, República Centro-Africana e Madagascar, onde mais de três quartos da população vivem em lugares preservados, com noites realmente escuras.

Além de representar um problema para a astronomia, as noites com grande luz artifical afetam igualmente os animais e outros organismos noturnos, advertem os especialistas.

‘A matemática é um barato’, diz cientista brasileiro premiado

PARIS, França – O carioca Marcelo Viana, 54 anos, se tornou ontem o primeiro brasileiro a receber o Grande Prêmio Científico Louis D., maior distinção da França na área da pesquisa científica. É a primeira vez que a matemática éagraciada com a prestigiosa láurea concedida pelo Instituto da França, composto por cinco diferentes academias de ciências e artes, e considerado como o “parlamento dos sábios” no país.

O matemático Marcelo Viana logo após a premiação, ontem, em Paris - Leia mais sobre esse assunto em https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/a-matematica-um-barato-diz-cientista-brasileiro-premiado-19467663#ixzz4B7QWMsjj © 1996 - 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

‘A matemática é um barato’, diz cientista brasileiro premiado

Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), Viana foi recompensado pelo conjunto de seus estudos sobre Sistemas Dinâmicos.

— Sistemas Dinâmicos são fenômenos que ao longo do tempo vão mudando. Você quer saber como eles vão evoluir e como se pode influenciar esta evolução. No Impa, trabalhamos mais na parte teórica. Se fosse indicar uma área de aplicação mais próxima seria a previsão do tempo — resumiu o matemático em entrevista a jornalistas brasileiros após ter recebido o prêmio.

A solenidade de premiação ocorreu na tarde de ontem no salão nobre do Instituto da França, instalado à beira do rio Sena, com direito a toda pompa e circunstância cerimonial característica da secular instituição, criada em 1795. Viana dividiu o prêmio de 450 mil euros com o matemático francês François Labourie, da Universidade de Nice, sendo 90% do valor total destinado a um projeto científico. Ele acredita que seu prêmio, aliado às atividades em torno do Biênio da Matemática no Brasil – com a organização da Olímpiada Internacional da Matemática, em 2017, e o Congresso Mundial da Matemática, em 2018 —, contribuem de forma importante para popularizar e mudar a imagem da matemática no país.

“Muito mais do que uma honra, o prêmio que ora me é concedido representa um instrumento com potencial para impactar de forma duradoura a matemática no nosso país e o modo como esta disciplina, tão bonita, tão importante e tão incompreendida, é percebida na sociedade brasileira”, escreveu Viana, em um comunicado distribuído após a premiação.

Ensino catastrófico

Para Viana, a matemática no Brasil é “subvalorizada”, e o ensino da disciplina é “catastrófico” por causa da má formação dos professores e da falta de incentivos na carreira.

“Primeiro o professor precisa saber matemática. Pode parecer óbvio, mas não é”, diz ele, acrescentando que apenas 5% dos formandos nessa área estudaram em universidades públicas e que muitos deles preferem não integrar o sistema de ensino.

A grande maioria, afirma, cursa faculdades privadas, “cujo controle de qualidade é no mínimo duvidoso”.

“E mesmo quem, apesar de tudo, decidiu ser professor não terá um salário compensador nem uma carreira motivadora.”

Além disso, esses profissionais acabam trabalhando até 70 horas por semana para complementar a renda, diz Viana.

Para ele, o Brasil deveria dar prioridade à situação “muito grave” do ensino da disciplina.

“Temos dados (mostrando) que, ao final do ensino médio, nem sequer 10% dos alunos que são aprovados aprenderam o mínimo desejável.”

No último estudo internacional PISA, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizado com alunos de 15 e 16 anos, os alunos brasileiros ficaram no 58° lugar em matemática em um ranking composto por 65 países, atrás de lugares como Albânia e Costa Rica.

De acordo com o mesmo estudo, 67,1% dos estudantes brasileiros na faixa etária analisada têm baixa performance na disciplina e poderão, mais tarde, ter dificuldades no mercado de trabalho, o que limita a possibilidade de ascensão social.

‘Bicho-papão’

Para o diretor-geral do Impa, a matemática precisa ser valorizada e se tornar “mais atraente, criativa e próxima das pessoas”. Para isso, o papel das famílias é fundamental, diz ele.

“A matemática é um barato. É preciso mostrar isso para a criança desde cedo. Nosso diagnóstico é que o bicho-papão da matemática não existe nos primeiros anos”, afirma.

“As crianças gostam de matemática, mas como ela é ensinada nas escolas e a falta de relevância dada pelas famílias faz com que a criança vá se afastando da disciplina.”

A área, explica, começa a se tornar um “bicho-papão” para as crianças a partir dos nove anos de idade.

“Pai que diz à criança que ele nunca gostou de matemática está passando o sinal de que não é importante conhecer o assunto”, completa.

Marcelo Viana (no meio) dividiu prêmio com pesquisador francês

Marcelo Viana (no meio) dividiu prêmio com pesquisador francês

Pesquisadores têm criticado o corte de verbas do governo na ciência e também a recente fusão do Ministério de Ciência e Tecnologia com o das Comunicações. Como você avalia isso?

O efeito da fusão ainda não conhecemos, mas pessoalmente acho que é uma má ideia. Primeiro, porque não vejo muita afinidade entre a área de Ciência e Tecnologia e a atividade do Ministério das Comunicações. E talvez ainda mais importante do que isso: o Ministério de Ciência e Tecnologia foi criado há pouco mais de 30 anos, e se você olhar a evolução dos indicadores científicos e teconológicos do país, tem sido um progresso muito significativo. Boa parte do mérito disso é do Ministério de Ciência e Tecnologia, do CNPq, da Finep, da Capes e de outros órgãos do Ministério da Educação. Vamos ser simples: é um time que está ganhando, e em time que está ganhando você não mexe. É uma má ideia mexer. A menos que queiramos tomar outro 7 a 1.

E sobre os cortes de verbas?

Sou um otimista incurável. Estamos em crise, temos tido de lidar com equipes ministeriais que mudam etc, mas é justo agora que vamos lançar o Biênio da Matemática 2017-2018. É na crise que temos de acreditar, de ir em frente, e aproveitar as oportunidades que surgem. É um clichê dizer que crise é oportunidade, mas eu acredito que sim. Vou ser otimista até debaixo d’água.

A mudança de governo tem algum impacto importante na sua área?

Tenho notado nas diferentes equipes ministeriais com as quais tenho lidado como diretor do Impa uma grande vontade de contribuir. O que acontece é que qualquer tipo de iniciativa precisa de um pouco de estabilidade. Precisamos rapidamente chegar numa situação mais estável. Ciência em particular é muito sensível. Já tivemos casos de cientistas de renome desistirem do Brasil e saírem para o exterior porque é difícil passar o tempo lutando por verbas, não tendo garantias. E ciência precisa de continuidade.

O que pode ser feito para melhorar o aprenizado da matemática no ensino básico no Brasil?

O Impa está muito envolvido nisso. Vamos aproveitar o fato de que em 2017 o Brasil vai receber pela primeira vez, em julho, a Olímpiada Internacional de Matemática — que é a Copa do Mundo da matemática —, e no ano seguinte, em agosto de 2018, vamos receber o Congresso Internacional de Matemática, o mais importante da área, onde são concedidas as medalhas Fields. Este congresso é realizado a cada quatro anos, desde o final do século XIX, e nunca aconteceu no Hemisfério Sul. Vamos usar esta circunstância para lançar uma iniciativa ambiciosa de atividades para aproximar a matemática das escolas, das crianças e das famílias, que também são um ator muito importante. Para abril do próximo ano estamos preparando um festival da matemática, para o qual esperamos dezenas de milhares de participantes. Esperamos que no Rio de Janeiro, em vez de irem para a praia neste dias, os pais levem as crianças no festival. A matemática precisa ser tornada mais atraente, mais criativa, a matemática é um barato. E devemos mostrar isso para a criança desde o início. Nosso diagnóstico é de que o bicho-papão da matemática não existe nos primeiros anos. Mas o modo de como ela é ensinada na escola, e a falta de relevância dada pela famílias, faz com que a criança vá se afastando da matemática, e o bicho-papão começa a aparecer pelos 9, 10 anos.

A matemática de pesquisa no Brasil mudou nos últimos anos, e é isso que vem sendo reconhecido?

Sem dúvida. A medalha Fields do Artur Ávila é uma conquista pessoal, mas não é só isso. Ele foi o primeiro laureado que nasceu, cresceu e foi educado num país em desenvolvimento. Ele fez todos seus estudos no Brasil. Quando ele ganha a medalha é também um reconhecimento da nossa capacidade de descobrirmos e cuidarmos destes talentos. Não precisamos enviá-lo aos EUA ou para a Europa para que aprenda. Na União Matemática Internacional há uma classificação de países em cinco grupos. O Brasil começou em 1954 no grupo um, o mais baixo, e há 11 anos estamos no grupo quatro. Esperemos em breve chegar ao grupo cinco.

Como você avalia hoje o ensino da matemática no país, que você já definiu como catastrófico?

E é. Temos dados de que ao final do ensino médio nem sequer 10% dos alunos aprovados aprenderam o mínimo desejável de matemática. Dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE) mostram que o Brasil é um dos últimos nesta área. Tem um estudo feito por colegas da Unicamp sobre a necessidade que o país tem de engenheiros, de desenvolvimento tecnólogico. Fizeram uma análise do percentual de nossos jovens de 15 anos que fazem o Pisa que alcançam o nível quatro, considerado adequado para uma profissão tecnológica, e não chega nem a 4%. A situação do ensino é realmente muito grave. Não tenho solução mágica para isso. Passa por valorizar a carreira do professor, fazer uma formação decente do professor. Cerca de 5% dos licenciados em matemática são formados em universidades públicas. O restante é formado em faculdades particulares, cujo controle de qualidade é no mínimo duvidoso. E mesmo estes 5% que se formam em universidades públicas, tipicamente não vão para a sala de aula, fazem concurso etc. Temos um sitema com muito desperdício, pouquíssimo controle de qualidade e forma maus professores. E o professor que ainda vai para a sala de aula, tem um salário que não é compensador, uma carreira que não é motivadora. Há dois anos assisti na Coreia a palestra de um economista da universidade de Harvard que usou o Brasil como exemplo de que quantidade não basta, precisa qualidade. O país se preocupou muito em ter a criança na escola muitas horas, e menos em como e o que a criança aprendia. Temos professores que dão até 70 horas de aula por semana, porque precisam complementar a renda familiar. Ninguém pode dar 70 horas de aula de matemática por semana.

O que faz um professor de matemática ser bom?

Primeiro, precisa saber matemática. Segundo, precisa ter uma formação que o habilite a transmitir o conhecimento. Precisa estar na sala de aula feliz para ter disposição para transmitir este conhecimento da forma mais lúdica, mais agradável. Infelizmente estas condições raramente são satisfeitas. E não vamos jogar tudo só no professor. As famílias são fundamentais. Um pai ou uma mãe que diz “eu nunca gostei de matemática” está passando um sinal de que não é importante conhecer matemática.

Qual a importância da matemática?

Ganhei de presente de uma amigo um vídeo que mostra uma moça de sotaque nordestino vendendo castanha de caju. Ela diz em voz alta no mercado que cada sacola é R$ 3,00, e duas são R$ 5,00. Aí chega um cliente pergunta para ela: “Eu queria três por R$ 10,00, pode ser?”. E ela diz: “Moço, não dá não, três por R$ 10,00 não consigo fazer”. Este é um exemplo de que as carências matemáticas chegam ao nível do exercício da cidadania. O país tem de encarar isso como uma prioridade. Como a língua portuguesa também é uma prioridade.

Os eventos que serão realizados no Rio em 2017-2018 poderão ser um diferencial?

Vão chamar muito a atenção, vamos permitir alcançar um público que de outra forma não conseguiríamos. Volta e meia faço uma busca no Google para saber o que o povo pensa da matemática e fico assustado. Acredito que vamos mudar esta cultura. E queremos expandir as Olímpiadas das escolas públicas para que cobrir também os últimos anos do ensino fundamental I. Temos muitas esperanças nestas atividades do Biênio.

Cientistas escolhem nomes de 4 novos elementos químicos

Cientistas escolhem nomes de 4 novos elementos químicos

Nihonium, Moscovium, Tennessine e Oganesson completam sétima fila da Tabela Periódica e foram produzidos artificialmente.

Os quatro novos elementos da Tabela Periódica foram “batizados” nesta quarta-feira (8) pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC). Produzidos artificialmente, eles se chamarão Nihonium (símbolo Nh e elemento 113), Moscovium (símbobo Mc e elemento 115), Tennessine (símbolo Ts e elemento 117) e Oganesson (símbolo Og e elemento 118).

Nihonium homenageia o Japão, já que é uma variação do nome do país em japonês; já o nome Moscovium lembra a região de Moscou, na Rússia; Tennessine é uma referência ao estado de Tennessee, nos Estados Unidos; e Oganesson presta homenagem ao cientista russo Yuri Oganessian.

Esses novos elementos químicos tiveram sua existência confirmada no início deste ano pela IUPAC e completam a sétima linha da Tabela Periódica.

Os novos átomos produzidos foram batizados por cientistas japoneses, americanos e russos. Para conquistar a honra de escolher o nome, os grupos de pesquisa tiveram de confirmar seus resultados repetindo experimentos. O elemento 113 foi criado três vezes pelos japoneses, entre 2004 e 2012.

Esses quatro novos elementos não existem na natureza e são criados por aceleradores de partículas que fazem elementos menores colidirem entre si e se fundir. Os átomos criados nessas condições sobrevivem por apenas algumas frações de segundo.

Segundo a IUPAC, laboratórios já trabalham em pesquisas para elementos que criarão a 8ª linha da tabela periódica.

Cientistas escolhem nomes de 4 novos elementos químicos

Nihonium, Moscovium, Tennessine e Oganesson completam sétima fila da Tabela Periódica e foram produzidos artificialmente.