Monthly Archives: dezembro 2018

Bolsonaro não precisa crer em mudança climática. Basta acreditar em boicote

O Brasil deve perder o protagonismo no combate global às mudanças climáticas com a chegada da gestão Jair Bolsonaro. Pelo menos é o que tudo indica até aqui. O novo ministro das Relações Exteriores acredita que a questão é um “dogma marxista” e aponta para uma espécie de “alarmismo climático”. Os filhos de Bolsonaro, todos políticos eleitos, são céticos a respeito do tema, atacando-o nas redes sociais. E o novo presidente tem criticado o Acordo de Paris, que trata das políticas a serem adotadas pelos países a fim de evitar um desastre climático global, defendendo o nosso direito de desmatar como fez a Europa no passado. Enquanto isso, espera-se a indicação da próxima pessoa a comandar o Ministério do Meio Ambiente – que pode ficar informalmente subordinado aos interesses da parte mais arcaica da agropecuária nacional.

Bolsonaro não precisa crer em mudança climática. Basta acreditar em boicote

Bolsonaro não precisa crer em mudança climática. Basta acreditar em boicote

No Brasil, dias frios durante o verão causam alvoroço em uma espécie fascinante de mamífero: o negacionista. Ele não acredita que a ação humana pode ser responsável por mudanças no clima e considera isso uma teoria da conspiração para impedir o desenvolvimento econômico por parte de países desenvolvidos.

Donald Trump, que durante sua exitosa campanha à Presidência, disse que o aquecimento global era uma invenção dos chineses para atrapalhar a economia dos Estados Unidos, é um deles. Mas temos muitos por aqui que pipocam nas redes sociais assim que os termômetros caem. É fácil identificá-los. Acham que estão lacrando a internet ao ironizar perguntando onde está o aquecimento global em momentos de frio de bater o queixo. Pois, se ele existe, não poderia estar tão frio, correto?

Errado.

A elevação na temperatura do ar próximo à superfície do planeta e dos oceanos, causada pelo aumento de gases que provocam efeito estufa, não significa transformar o mundo necessariamente em um grande forno. Também desregula o frágil equilíbrio que torna a terceira grande rocha a partir do Sol um lugar agradável para humanos, enlouquecendo o clima. Entre as consequências, está a proliferação no número de eventos extremos – como grandes secas e grandes inundações, nevascas e calor intenso, mais e maiores furacões/tufões e tornados. E se não agirmos agora para alterar nosso modelo de desenvolvimento, a fim de mitigar os já inevitáveis impactos causados pelos gases emitidos, vamos encontrar muita fome, pobreza, dor e morte nas próximas décadas.

Fortes quedas de temperatura pontuais podem ser provocadas por imensas massas de ar polar, por exemplo. E invernos podem ser mais ou menos rigorosos dependendo da interferência de fenômenos como o El Niño (de aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico), que inibe a entrada de frentes frias e massas de ar polar no país. Eventos específicos não são necessariamente consequência direta de mudanças climáticas. Pesquisadores preferem verificar a sua incidência ao longo do tempo e checar o aumento em sua frequência e em sua intensidade. Daí, olhando para uma série histórica, é possível entender a evolução do clima e quais suas manifestações extremas. Por exemplo, o índice pluviométrico (chuvas) no Brasil já sofre os efeitos das mudanças climáticas. O que afetará a geração de energia, a agropecuária e o abastecimento humano.

Falta a muitos que negam as mudanças climáticas a capacidade de enxergar o todo e aceitar que a vida pode ser mais complexa do que seus olhos podem enxergar. Não raro, observam apenas uma amostra visível do mundo e, metonimicamente, constroem a realidade baseado nesse recorte. O alerta sobre mudanças climáticas não são produto de fé, mas entendimento baseado em evidências científicas coletivamente chanceladas. Fé é acreditar que Jesus voltará antes do mundo virar geleia.

Bolsonaro afirmou que pediu para o Brasil retirar sua candidatura para sediar a COP-25, a conferência anual da ONU para discutir a implementação do Acordo de Paris, que trata do que os Estados devem fazer para frear as mudanças climáticas causadas pela ação humana. “Houve participação minha nessa decisão. Ao nosso futuro ministro [das Relações Exteriores], eu recomendei que se evitasse a realização desse evento aqui.” O mundo já contava que hospedássemos o evento.

Deixar o Acordo colocará o Brasil em uma lista de párias isolados do sistema multilateral e ainda vai expor o nosso país a retaliações comerciais, sobretudo de países europeus – que já assinalaram a imposição de “tarifas climáticas” a quem não estiver cumprindo o acordo. A soja, matéria-prima de óleos, rações e presente em boa parte dos alimentos industrializados e que é um dos principais itens de nossa pauta de exportação, deve sentir os efeitos disso. Boa parte de sua produção encontra-se na Amazônia Legal e no Cerrado.

Muitos negacionistas usam discursos de que a economia não pode pagar pelo custo das necessárias mudanças no modelo de desenvolvimento pela qual passa a solução. Mas nossa matriz energética já é vista internacionalmente como mais limpa (no que pese os profundos impactos negativos da construção de hidrelétricas). Por isso, nosso esforço de cumprimento do Acordo de Paris, apesar de significativo, é mais baseado no combate ao desmatamento ilegal. O que é, já em si, positivo e não passa por reformular e fechar bilhões de dólares em usinas de carvão – como é o caso de alguns outros países. Além disso, o acordo valoriza o sequestro de carbono, que é um serviço que o Brasil pode suprir, e com isso ganhar muito, seja via reflorestamento, seja via a produção de biocombustíveis e outras fontes renováveis de energia, em que temos grandes vantagens comparativas. Ou seja, além de queimar florestas, vamos queimar dinheiro. Dólares, euros, yuans.

É possível crescer economicamente, mas com responsabilidade. Respeitando o zoneamento econômico da região, que diz o que pode e o que não pode se produzido em uma área; realizando uma regularização fundiária geral e confiscando terras roubadas do Estado; executando uma reforma agrária com a garantia de que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades – responsáveis por garantir o alimento na mesa dos brasileiros – sejam, pelo menos, da mesma monta que os das grandes; preservando os direitos das populações tradicionais, cujas áreas possuem as mais altas taxas de conservação do país; mantendo o exército na caserna e longe da política fundiária e indígena. Ah, e sem usar trabalho escravo.

Para tanto, precisamos saber se o governo estará disposto a combater as ameaças reais que colocam em risco nossa casa comum ou zombará delas enquanto queima dinheiro de exportações, que ficarão bloqueadas em portos pelo mundo.

Em tempo: Questionado sobre o aquecimento global, Bolsonaro afirmou, no último sábado (1): “eu acredito na ciência e ponto final. Agora o que que a Europa fez para manter as suas florestas, as suas matas ciliares? O que que eles fizeram? Querem dar palpite aqui?”. A declaração remete a outra, proferida pelo então presidente Lula, em março de 2008, quando defendeu a produção sucroalcooleira nacional – que, naquela época, era uma das campeãs em resgates de trabalhadores em situação análoga à de escravo: “Vira e mexe, nós estamos vendo eles [estrangeiros] falarem do trabalho escravo no Brasil, sem lembrar que o desenvolvimento deles, à base do carvão, o trabalho era muito mais penoso do que o trabalho na cana-de-açúcar”.

Em ambos os casos, Bolsonaro e Lula compararam a realidade atual no Brasil com outra, do passado – o que é um absurdo, uma vez que a humanidade avançou nos últimos 200 anos. Claro que, em ambos os casos, há interesses econômicos estrangeiros de quem deseja usar a situação para alavancar o seu próprio protecionismo. Mas a verdade é que o Estado brasileiro permitiu que a exploração do meio ambiente e do ser humano acontecesse. Ao invés de reclamar, deveríamos continuar fazendo nossa lição de casa (e há muito a fazer) e mostrar o resultado mundo. O que é, ao mesmo tempo, a melhor vacina contra barreiras sob justificativas ambientais e trabalhistas e uma forma de ganhar dinheiro.

Estamos preparados para a 4ª Revolução Industrial?

Nosso planeta está em festa. Está completando 4,5 bilhões de primaveras! Se considerarmos que o principal fator externo para a nossa existência é o Sol, ainda teremos ao menos uns 6 bilhões de anos de vida pela frente! Haja festa para comemorar. Dito isso, partimos daqui em diante com a premissa de que a Terra não vai acabar amanhã, ok? Desastres ambientais, superaquecimento, hiperpopulação, guerra nuclear, robôs do mal… não importa o quão grave sejam nossos problemas, eles provavelmente não nos levarão ao fim literal do mundo.

Relógio Geológico. Imagem por Fabricio Lemos – Grupo Seixas

Será que o futuro nos reserva mais ameaças ou oportunidades?

Estamos preparados para a 4ª Revolução Industrial?

Mas isso também não significa que não vamos mudar! O processo de evolução nos acompanha desde sempre, ou melhor, há exatos 4.500.000.000 de anos. Toda essa angústia que sentimos hoje está mais relacionada à velocidade de acesso à informação de que dispomos. Tudo evolui tão rápido que perdemos a noção do todo. Vou dar um exemplo: vamos imaginar que todo esse tempo de vida na Terra fosse representado em 24h, como na imagem abaixo. Nesta escala, a tão famosa Era dos Dinossauros aconteceria em pouco menos de 2 minutos. Incrível, não? E essa velocidade está realmente aumentando muito. Se analisarmos apenas os últimos 100 anos, atingimos progressos antes inimagináveis, como voar ou ir à Lua.

Mas você não viu nada ainda. Sente medo daquelas montanhas russas radicais, como a Kingda Ka, nos Estados unidos, que atinge 205 km/h em 3,5 segundos? Ela é “fichinha” perto do que está por vir. Por isso, quero mostrar 4 cenários futuros que vão certamente fazer você refletir.

O primeiro trata de inclusão digital versus exclusão social. Isso porque, apesar de os n.os sobre a pobreza absoluta mundial estarem melhorando, e o capitalismo ser provavelmente o melhor sistema econômico que inventamos, as distribuições de riqueza ainda são um problema a ser tratado. Menos de 1% da população mundial acumula mais de 80% da riqueza total da economia, e esse desequilíbrio nos leva a uma forte exclusão social. Mais uma vez: isso não é novo! O que está mudando agora — e que na minha opinião pode ser uma notícia muito boa — está relacionado à inclusão digital.

Tive a oportunidade de acompanhar 3 projetos que podem ilustrar essa tendência. Na Tanzânia, as cidades ainda sofrem com a escassez de energia, às vezes com menos de 5h de energia por dia. Vendedores de rua locais começaram a oferecer recarga de bateria de celular como serviço. Não estou falando de crédito, mas sim de bateria. No Brasil não é muito diferente. De modo geral, o acesso à telefonia celular é considerado um fenômeno mundial, mesmo com tantas disparidades observadas na nossa sociedade. Em julho desse ano, o mercado brasileiro contava com quase 235 milhões de linhas telefônicas ativas. Nos Estados Unidos, país mais rico do mundo, a grande maioria dos moradores de rua tem aparelhos celulares e está conectada à rede. Isso demonstra que mesmo as pessoas socialmente marginalizadas estão 100% inclusas digitalmente, o que torna muito mais fácil localizá-las e compreender suas reais necessidades para que possamos ajudá-las – desde que exista interesse por parte da sociedade organizada e vontade política para isso, claro.Estamos preparados para a 4ª Revolução Industrial?

O segundo cenário já começamos a discutir no meu último texto sobre Inteligência Artificial (AI). O mundo inteiro começa a debater em quais aplicações a AI será mais útil. Mas isso terá um custo, e não me refiro apenas ao custo para seu desenvolvimento, mas sim ao custo social. Voltemos ao exemplo do texto – ter um robô como Presidente da República. Após um longo período de calibragem e aprendizagem do algoritmo, nosso governante já estaria apto a achar soluções originais para diversos problemas. Seriam literalmente “ideias” ou decisões suas. Quanto mais tempo em funcionamento, mais “sábio” ele se tornaria. Meu questionamento aqui é: será que depois de todo o seu trabalho e contribuição dados neste processo de “evolução artificial” poderíamos simplesmente “desligá-lo da tomada”? Estamos evoluindo para um futuro no qual a sociedade será composta por homens (Homo sapiens), homens com partes biônicas ou com melhorias genéticas (Homo Cyborgs) e androides funcionando a partir de AI. A essa altura, será que esses androides, que não têm partes humanas mas raciocinam usando algoritmos baseados na realidade humana, não deverão ter os mesmos direitos básicos de decidir quanto à vida e à morte e de serem remunerados por seus trabalhos?

Já o terceiro cenário diz respeito à chamada Internet das Coisas (IOT), que também já discutimos em outros textos. Começo a reflexão por alguns números importantes: em 2008 o número de conexões digitais ultrapassou o número total de habitantes do planeta. Mais impressionante ainda: em 2020, estima-se que teremos mais de 50 bilhões de “coisas” conectadas. Isso inclui eu, vocês, seu vizinho, sua máquina de lavar, carro, relógio, o contador de luz de sua casa…. TUDO! Isso é a Internet of Everything, como já está sendo chamada. Além da abordagem do lixo eletrônico que discutimos no texto sobre IoTrash, já pensou no volume de dados que serão produzidos nas nossas cidades? Se os dados são realmente o novo petróleo, nossas cidades estão ricas!

Agora una esses cenários que vimos até agora a mais dois ou três ingredientes tecnológicos, como internet 5G e misture tudo. Sabe qual será o resultado? Um vibrante e energético cenário chamado de Quarta Revolução Industrial. Se lembra da impressora 3D de comida que discutimos durante minha participação no evento do MIT na França, no início de outubro? Ou dos drones-táxis, hyperloops, e veículos autônomos? Todas essas inovações são somente a ponta do iceberg. Sim, um novo mundo está surgindo e será modelado pela Quarta Revolução, e muitos acreditam que ela será a mais disruptiva de todas, ainda mais importante do que a Primeira Revolução, a Agrícola, que ocorreu há mais de 12 mil anos e foi a responsável por sedimentar o homem à terra. Graças a ela deixamos de ser nômades para começar a construir comunidades e cidades. Capisce?

Se no relógio geológico que observamos os dinossauros estiveram aqui há menos de 2 minutos, quem, ou o quê, está por chegar? Como essas mudanças influenciarão diretamente a sua vida? Como os setores tão tradicionais da indústria, como o automobilístico ou o de seguros, vão se adaptar para sobreviverem às mudanças? Qual o seu palpite? Deixem seus comentários abaixo, será um prazer discutir com vocês mais profundamente. Nos vemos no próximo texto!

Novos estudos da física querem derrubar teorias de Einstein.

p>Albert Einstein já morreu? Sim. O velho gênio deu o suspiro final e murmurou, em alemão, suas últimas palavras indecifráveis no dia 18 de abril de 1955. Porém, atualmente, ele está m

Novos estudos da física querem derrubar teorias de Einstein.

orrendo pela segunda vez; isso se você acreditar na enxurrada de artigos e trabalhos lamentando a situação da física contemporânea.

Esqueça a recente e surpreendente descoberta das ondas gravitacionais, ondulações no espaço-tempo que Einstein já previra há um século e que indicam que o universo está coberto de buracos negros despedaçando e engolindo estrelas. Não, agora outro legado controverso de Einstein, algo muito mais profundo do que a gravidade ou a teoria quântica, está em jogo.

Mais do que qualquer um, foi Einstein quem estabeleceu o propósito da ciência moderna: a busca por uma teoria final do tudo, uma teoria unificada, como ele diria, que explicasse por que não haveria outra opção de constituição do universo a não ser esta em que vivemos. Ou, como ele colocou: “O que me interessa é saber se Deus teve alguma opção na criação do mundo.”

Se Albert lesse o título do artigo publicado no último verão na revista científica on-line “Quanta”, iria revirar no túmulo. Robbert Dijkgraaf, diretor do Instituto de Estudos Avançados, onde Einstein passou seus últimos 22 anos, escreve: “Não existem leis da física.” O que há é um espantoso cenário de possibilidades, quase infinitas, uma rede sutilmente conectada de versões da realidade. Há um universo para cada sonho bom ou ruim que você já teve, cada um com seu próprio conjunto de partículas, forças, leis e dimensões, ele afirma no artigo.

Esse cenário, também conhecido como multiverso, é o que vislumbram os estudiosos da teoria das cordas, que resolveram passar por cima do legado de Einstein na mais recente manifestação de criatividade científica. A teoria das cordas une a gravidade, que curva o cosmo, com a mecânica quântica, que descreve a aleatoriedade, ao estabelecer que as partes constituintes da natureza são como pequenas cordas de energia vibrando em 11 dimensões.

A teoria foi descrita como uma parte da física do século 21 que caiu no século 20 por acidente – e que talvez necessite de matemáticos do século 22 para poder ser compreendida. O resultado é um labirinto matemático com 10^500 soluções, cada uma representando um universo em potencial. A princípio, um desses universos seria o nosso, mas ninguém sabe qual, pois a matemática e a física são terrivelmente complexas. Ou como se lê no artigo de Dijkgraaf: “Se nosso mundo é um entre muitos, como lidar com as alternativas? O ponto de vista atual pode ser entendido como o extremo oposto do sonho de Einstein de um único cosmo.”

Questionado em Princeton, Dijkgraaf disse que o título do artigo, o qual ele não escreveu, talvez tenha sido um exagero e que provavelmente exista um princípio fundamental, mas, o que quer que ele seja, está por trás da teoria das cordas. No entanto, ninguém, nem mesmo os fundadores da teoria das cordas, consegue dizer o que é. Cientistas foram levados a essa ideia após descobrirem, há duas décadas, que uma força misteriosa, a energia escura, está acelerando a expansão do universo, fazendo com que as galáxias se distanciem umas das outras cada vez mais rapidamente através do tempo cósmico.

Essa energia escura carrega todas as características de um fator de correção, chamado constante cosmológica, que Einstein incluiu em suas equações um século atrás para depois rejeitá-lo como uma gafe. Mas a quantidade dessa energia escura é menor do que o valor previsto da constante cosmológica por uma razão de 10^60. Físicos só conseguem explicar a discrepância assumindo que o valor da constante de Einstein é aleatório em todos os universos em potencial; nós vivemos em um onde existe a quantidade correta de energia escura que possibilita a formação de estrelas e galáxias. Resumindo, nós moramos onde dá para morar.

Alguns físicos creem que o cenário é uma extensão lógica da revolução copernicana. Assim como a Terra não é o centro do sistema solar nem o único planeta, nosso universo também não é o único. Outros acreditam que a ideia de outros universos é um absurdo epistemológico, uma especulação sem saída, impossível de ser provada e uma traição do sonho einsteiniano de um único cosmo. Mesmo em nosso universo uno, os seguidores de Einstein estão enfrentando problemas, o caminho até o conhecimento definitivo está bloqueado ou talvez não exista.

A descoberta, após longa busca, em 2012, do bóson de Higgs confirmou a última parte pendente de um sistema matemático complexo conhecido como Modelo Padrão da Física de Partículas, o qual detalha todas as formas de matéria e energia que podem ser medidas em um laboratório. O Modelo Padrão explica, por exemplo, por que o computador liga e por que uma gardênia tem um cheiro tão doce.

Contudo, o modelo funciona bem demais. Físicos que estudam partículas filtraram os restos de trilhões de colisões subatômicas realizadas no Grande Colisor de Hádrons, a imensa máquina em que se descobriu o Bóson de Higgs. Até agora, eles conseguiram confirmar que o Higgs se comporta da maneira prevista pelo Modelo Padrão.

Apesar de ser uma grande conquista intelectual, foi incapaz de revelar alguma discrepância que pudesse levar a uma teoria mais abrangente. Mais especificamente, os pesquisadores não acharam pistas de um fenômeno que eles tanto buscam, a supersimetria, que faria a conexão entre as forças físicas individuais e forneceria toda uma nova gama de partículas elementares, incluindo, talvez, o que forma a matéria escura.

A supersimetria, no entanto, pode ter sido sempre uma ilusão, segundo Sabine Hossenfelder, teórica do Instituto de Estudos Avançados de Frankfurt. Ela se destacou no ano passado como uma das críticas mais contundentes da física moderna com seu novo e provocador livro, “Lost in Math: How Beauty Leads Physics Astray”. Ela argumenta que, ao exaltar a elegância matemática, físicos têm perdido o rumo. “Eles achavam que a Mãe Natureza era elegante, simples e generosa em dar pistas; eles acreditavam poder escutar seus sussurros enquanto conversavam entre si”, escreve ela. Físicos que estudam partículas respondem que eles apenas têm seguido princípios consagrados e de sucesso comprovado. Eles perseguiram o Bóson de Higgs por meio século e quase desistiram até a natureza finalmente cuspi-lo para eles.

Enquanto isso, os cosmólogos, um grupo sabidamente rabugento, chegaram ao próprio Modelo Padrão de Partículas para o nosso universo em particular. De acordo com eles, átomos — aquilo de que você, eu e as estrelas somos feitos– representam apenas 5% do peso do cosmos. A matéria escura, da qual nada conhecemos a não ser que sua gravidade coletiva esculpe e segura as galáxias unidas, representaria 25%. Os 70% restantes seriam de energia escura, que estaria afastando tudo; outro assunto do qual não sabemos nada. Nós só tomamos conhecimento dessa “parte escura” por causa do efeito que a gravidade tem sobre o universo luminoso, o movimento das estrelas e galáxias. Ora, uma teoria que deixa 95% do universo sem identificação dificilmente é uma indicação de que a ciência encerrou seu trabalho.

Alguns astronautas acreditam que, talvez, não tenhamos compreendido a gravidade no fim das contas. “Minha preocupação é que podemos estar endeusando Einstein de forma excessiva”, confessou Stacy McGaugh, astrônomo da Universidade Case Western Reserve, ao Gizmodo em junho.

O melhor presente para os cientistas neste Natal é uma nova teoria física que possa tirá-los desse impasse dos modelos padrões e fornecer novas pistas para nossa existência. Talvez esse avanço venha de finalmente descobrir o que é a matéria escura ou do Grande Colisor de Hádrons, que continuará provocando a colisão de partículas subatômicas pelos próximos 20 anos em busca de novas forças e fenômenos. Cada colisão registrada é mais um passo em direção ao desconhecido.

Por ora, o universo pode ter 11 dimensões ou ser um sonho de alguém. A vida pode ter começado em Marte ou em uma fonte hidrotermal, ou, talvez, sejamos todos bits de uma simulação computadorizada controlada por alguém. Descobrir quem somos e como a natureza se organiza é uma das buscas fundamentais do ser humano, como a arte ou a música. E continuará sendo.

Hossenfelder, apesar de todo o ceticismo, conclui seu livro de forma esperançosa ao profetizar: “A próxima grande descoberta ocorrerá neste século, e será linda”, conclui.

O que a ciência já sabe sobre o surgimento e a evolução da espécie humana

Recentemente, conversei com um cientista que trabalhava em um resumo sobre o que sabemos da evolução humana. Já tendo escrito um artigo semelhante há cinco anos, essa não deveria ser uma tarefa tão árdua, mas, quando retomou o trabalho antigo, percebeu que pouco do que produzira permanecia relevante. “Não consigo aproveitar quase nada”, lamentou.O que a ciência já sabe sobre o surgimento e a evolução da espécie humana

Como jornalista, entendo a aflição. Nos últimos anos, cientistas têm produzido pilhas de teorias de como a humanidade começou e, com certa frequência, a nova evidência não corrobora o que pensávamos ser verdade. Pelo contrário, muitos desses achados exigem que pesquisadores formulem novos questionamentos sobre o passado da humanidade e imaginem uma pré-história ainda mais complexa.

Quando a “Science Times” surgiu, há 40 anos, o conhecimento dos cientistas sobre como nossos antepassados evoluíram a partir de outros símios para uma nova espécie, conhecida como hominídeo, era muito menor. Naquela época, o fóssil de hominídeo mais antigo de que se tinha notícia era o de uma fêmea de estatura baixa e volume cerebral pequeno descoberto na Etiópia e batizado de Lucy. Essa espécie, agora denominada Australopithecus afarensis, existiu entre 3,85 e 2,95 milhões de anos atrás. Lucy e seus pares tinham características similares às dos símios, como braços longos e mãos envergadas, eram capazes de andar no chão, porém de forma ineficaz, e não podiam correr.

O que a ciência já sabe sobre o surgimento e a evolução da espécie humana

Modelo tridmensional de Lucy, uma Australopithecus afarensis.

Aparentemente, o caminho percorrido desde os hominídeos até a evolução dos humanos modernos foi uma trajetória direta a partir de Lucy. Os primeiros membros conhecidos do nosso gênero, Homo, eram mais altos e apresentavam longas pernas para caminhar e correr, além de possuírem cérebros muito maiores. Eventualmente, os primeiros Homo deram lugar à nossa espécie, Homo sapiens.

Hoje em dia é sabido que a espécie de Lucy não foi o ponto de partida para a nossa evolução, mas apenas um ramo que se desenvolveu no meio do caminho do desenvolvimento da nossa árvore genealógica. Pesquisadores encontraram fósseis de hominídeos de mais de 6 milhões de anos, e cada vestígio –um osso de perna aqui, um crânio esmagado ali– abre caminho para mais antepassados símios. Mesmo os hominídeos mais antigos eram semelhantes a nós em um traço importante: ao que tudo indica, eram capazes de andar no chão, pelo menos por curtas distâncias.

Paleoantropólogos descobriram novos fósseis preciosos que cobrem todo o espectro da evolução dos hominídeos. Ficou claro que uns pertenciam a espécies já conhecidas, como a Australopithecus afarensis, mas outros eram tão diferentes que receberam nova designação. Houve ainda casos de fósseis classificados entre um e outro.

Não raro, pareciam mosaicos de outras espécies com uma combinação notável de traços resultante do cruzamento entre elas. Por outro lado, os hominídeos podem ter desenvolvido muitas características de forma autônoma e constante ao longo de linhas de evolução independentes.

Toda essa mistura e essa experimentação produziram trinta tipos diferentes de hominídeos –de que temos conhecimento. Além disso, um tipo não sucedeu ao outro ordenadamente na história: por milhões de anos, diversos tipos de hominídeos coexistiram.

De fato, nossa espécie dividiu este planeta com seus “quase parentes” até há pouco tempo. Em 2017, pesquisadores encontraram, em Marrocos, os fósseis mais antigos da nossa espécie de que já se teve conhecimento: ossos de cerca de 300 mil anos. Nessa época, os neandertais já existiam; eles viveram pela Europa e Ásia até 40 mil anos atrás. Também nessa época, o Homo erectus, um dos membros mais antigos do nosso gênero, residia no que é hoje a Indonésia; a espécie não foi extinta até pelo menos 143 mil anos atrás.

O Homo erectus e o neandertal são velhos conhecidos de paleoantropólogos. Fósseis dos primeiros foram localizados nos anos 1890; já os neandertais tinham sido descobertos em 1851. Contudo, uma pesquisa recente mostrou que mesmo outros hominídeos compartilharam este planeta com nossa própria espécie.

Em 2015, pesquisadores desenterraram fósseis de 250 mil anos em uma caverna na África do Sul. Batizada de Homo naledi, o cérebro dessa nova espécie era do mesmo tamanho do de Lucy, mas apresentava uma estrutura complexa que se assemelhava à nossa. O pulso e outros ossos da mão do Homo naledi eram parecidos com os de um humano, enquanto os dedos longos e encurvados pareciam mais com os de símios.

Crânio de Homo naledi, encontrado em sítio arqueológico localizado próximo a Johannesburgo, na África do Sul .

Crânio de Homo naledi, encontrado em sítio arqueológico localizado próximo a Johannesburgo, na África do Sul .

Enquanto os Homo naledi prosperaram na África, uma espécie misteriosa podia ser encontrada em uma ilha hoje chamada Flores, na Indonésia. Denominada Homo floresiensis, essa espécie de hominídeo media apenas 90 centímetros e seu cérebro era ainda menor do que o do Homo naledi. Acredita-se que tenha chegado a Flores há 700 mil anos e resistido pelo menos até 60 mil anos. Além disso, é possível que tenha produzido ferramentas de pedra para caçar e abater elefantes-pigmeus que habitavam a ilha.

Paleoantropólogos não se limitam mais a apenas examinar o tamanho e a forma dos fósseis. Nos últimos 20 anos, geneticistas aprenderam a extrair DNA de ossos de dezenas de milhares de anos. Em uma extraordinária descoberta feita na Sibéria, pesquisadores que analisavam o osso de um mero dedo mindinho descobriram o genoma de uma nova linha de hominídeos, agora conhecidos como denisovans.

Ao que tudo leva a crer, habitamos o planeta de forma exclusiva há apenas 40 mil anos –uma pequena fração, considerando a longeva existência do Homo sapiens. Talvez tenhamos superado outras espécies. Talvez elas tenham tido azar na loteria da evolução. De qualquer maneira, ainda vivemos juntos. Tanto os neandertais quanto os denisovans cruzaram com nossos antepassados há 60 mil anos e, hoje, bilhões de pessoas carregam seu DNA. Mesmo depois de todo esse tempo, seguimos como mosaicos.

Terra daqui a 200 milhões de anos: cientistas mostram ‘supercontinente’ do futuro

Dentro de 200-250 milhões de anos, nosso planeta terá um aspecto totalmente distinto do que vemos hoje, ao juntar todos os continentes atuais em um novo supercontinente, descobriram os investigadores Mattias Green (da Universidade de Bangor, Reino Unido), Hannah Sophia Davies e João C. Duarte (da Universidade de Lisboa, Portugal).

No artigo, publicado no portal The Conversation, os cientistas explicam que as placas tectônicas que formam a crosta terrestre estão em movimento constante, deslocando-se a uma velocidade de poucos centímetros por ano. Em termos geológicos, isso faz com que, de vez em quando, os continentes se juntem em um supercontinente que se mantém unido durante centenas de milhões de anos antes de se dividir novamente.

O último supercontinente Pangeia, que existiu entre 200 a 540 milhões de anos atrás, durante a era Paleozoica, começou a se separar há aproximadamente 180 milhões de anos. Espera-se que o próximo seja formado em cerca de 200 a 250 milhões de anos. A ruptura de Pangeia levou a formação do oceano Atlântico que ainda está se ampliando, enquanto o oceano Pacífico está se estreitando.

Segundo os autores do estudo, há quatro cenários fundamentais para a formação do próximo supercontinente: Novopangea, Pangeia Última, Aurica e Amasia.

Novopangea

Se mantiverem as condições atuais — com o Atlântico a se ampliar e o Pacífico a diminuir — o novo supercontinente se formaria na parte oposta à antiga Pangeia, indicam especialistas. As Américas se colidiriam com a Antártida, que continuaria se movendo ao norte e, em seguida, com a África e Eurásia já unidas, para criar a chamada Novopangea.

Pangeia Última

Se a expansão do Atlântico começar a se interromper, seus dois pequenos arcos de subducção poderiam se estender ao longo da costa oriental das Américas, o que levaria a uma recreação de Pangeia. Os continentes voltariam a se unir em um supercontinente chamado Pangeia Última, que estaria rodeado por um superoceano Pacífico.

Aurica

No caso de aparecerem novas zonas de subducção no Atlântico, ambos os oceanos poderiam se fechar e criar uma bacia oceânica. Neste cenário, a rachadura pan-asiática, que atualmente atravessa a Ásia, iria se abrir para formar um novo oceano. O resultado disso seria a formação do supercontinente Aurica, em cujo centro estaria a Austrália.

Amasia

O quarto cenário supõe um “destino completamente diferente para a Terra futura”, segundo os pesquisadores. É destacado que várias placas tectônicas, inclusive a África e Ásia, estão se movendo atualmente ao norte. É possível que todos os continentes, exceto a Antártida, continuem avançando ao norte até se unir ao redor desse Polo em um supercontinente, nomeado de Amasia.

De acordo com as avaliações dos cientistas, o cenário da Novopangea é o mais provável, sendo uma progressão lógica das tendências atuais, enquanto os outros três precisam da intervenção de processos adicionais.