Monthly Archives: dezembro 2018

Rastros de aviões no céu geram teorias conspiratórias. Ciência explica

Para muita gente, o rastro branco deixado por aviões que rasgam os céus é algo natural ou desimportante. Mas para outros, inspira teorias conspiratórias — tanto que os EUA chegaram a emitir um relatório para acalmar a população.

Mas, afinal, o que são os rastros deixado nos céus e por que muita gente desconfia deles? Entenda:

Sem pânico: especialistas afirmam que rastros deixados por aviões são inofensivos

Sem pânico: especialistas afirmam que rastros deixados por aviões são inofensivos

O que são as ‘fumacinhas dos aviões’?

Cientificamente falando, trata-se de ‘trilhas de condensação’, ou ‘contrails’, em inglês – condensed trail, explica José Eduardo Mautone Barros, do Departamento de Engenharia Mecânica da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

“São sempre causadas por aviões que utilizam combustão”, diz Mario Festa, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (Universidade de São Paulo).

Em português mais simples: o vapor d’água emitido pela combustão do motor do avião, em contato com o ar frio, se torna líquido e até sólido – e tudo isso em uma velocidade muito rápida, formando as vistosas nuvenzinhas.

Isso porque na faixa onde os aviões circulam, de aproximadamente 3 a 12 quilômetros de altitude, a temperatura varia de -30°C a -50°C.

“O rastro branco é formado apenas por cristais de gelo. Já a fumaça contém partículas sólidas que tendem a fornecer uma cor mais escura para a nossa visão. A tendência é as fumaças serem muito semelhantes uma com a outra, independente do local onde são produzidas”, explica Festa.

Por que às vezes vemos as tais trilhas e às vezes não?

Fatores ambientais, em especial a umidade e a temperatura, impactam o rastro, dizem os especialistas.

“Uma atmosfera mais seca, como a de uma região desértica, propicia trilhas mais curtas, porque só a água resultante da combustão vai condensar”, exemplifica Mautone. Já em um ambiente mais úmido, a água do ar também será condensada, alongando o rastro.

“São mais facilmente visíveis nas rotas dos aviões que trafegam em grandes alturas, mas, na época do inverno, se houver temperatura abaixo de zero numa região de aeroportos, é possível ver as trilhas em alturas bem menores”, diz Festa.

Trilhas deixadas pelos aviões fazem mal?

O professor Festa é categórico: “São totalmente inofensivas tanto para os humanos, como para a fauna e a flora.” Mautone ecoa: “Não fazem mal, porque a princípio trata-se só de água mesmo”.

O professor da UFMG ressalva, contudo, que há um efeito meteorológico local, de efeito limitado: “Com a condensação, os rastros aumentam o índice de nuvem. Mais nuvem significa menos luminosidade. Mas, ao mesmo tempo, com menos sol, há menos evaporação e, portanto, menos chuva, então os fatores se compensam”, aprofunda.

Ele também cita o efeito da emissão de gases estufa por parte dos aviões, mas lembra que a taxa é minúscula perto de outros agentes, como carros ou indústria.

Quais são as teorias da conspiração ao redor dos rastros aéreos?

Festa lembra que a ideia dos chemtrails ganhou força a partir do Projeto HAARP (do inglês Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência), iniciado em 1993 no Alasca, Estados Unidos. O objetivo é entender como ondas de rádio são transmitidas na faixa da ionosfera, camada da atmosfera que começa aproximadamente 60 quilômetros acima da superfície terrestre.

“Montaram uma enorme estação produtora de ondas altamente energizadas, no intuito de estudar as Auroras Polares. Elas ocorrem acima dos 100 quilômetros de altura, e a ideia do projeto é bombardear a baixa Ionosfera e estudar os resultados”, diz. A energia de alta potência gera uma fonte de calor na Ionosfera, e os resultados podem ser inesperados.

“Em vários locais foram observados enormes buracos ou lacunas em camadas de nuvens, que teriam sido causadas pela dissipação de parte da nuvem que teria recebido aquela energia”, lembra.

Registros fotográficos desses fenômenos, acusações por parte da Rússia e paranoia popular ligaram o assunto às trilhas de condensação, gerando um campo fértil para ideias conspiratórias.

“Há interpretações mais dramáticas de que esses experimentos seriam utilizados para alterar o clima”, diz.

Mautone descarta qualquer possibilidade de as contrails terem esses efeitos imaginados.

“O único procedimento que aviões são capazes de realizar é fazer chover, no processo chamado cloud seeding [semeadura de nuvens]. Ainda assim é necessário ter nuvem no céu”, diz.

Ele explica que já há procedimentos avançados para alterar a meteorologia local, como o lançamento de foguetes que saturam nuvens para diminuir a incidência de granizo na chuva. Mas ainda não atingimos a tecnologia necessária para mudanças climáticas significativas e intencionais em uma região:

“Fala-se, por exemplo, na ideia de um instalar um espelho no espaço para refletir luz solar em determinada região, mas isso ainda é teoria”, diz.

Missão Juno: as tempestades polares gigantes encontradas pela Nasa em Júpiter.

A Missão Juno ao gigante Júpiter chegou à metade e revelou novas imagens de ciclones nos polos do planeta.
Ao orbitar o planeta a cada 53 dias, a sonda Juno faz um levantamento científico de polo a polo.

Seus sensores estão medindo a composição do planeta para decifrar como o maior mundo do nosso sistema solar se formou.
Mapear os campos magnéticos e gravitacionais também deve expor a estrutura de Júpiter.

JunoCam registrou ciclones gigantes nos polos (esq.) e revelou uma tempestade em formato de golfinho (dir.)

Missão Juno: as tempestades polares gigantes encontradas pela Nasa em Júpiter

 

Mas imagens da JunoCam, uma câmera que foi instalada para registrar imagens que possam ser compartilhadas com o público – já nos trazem algumas revelações surpreendentes.

Candice Hansen, do Instituto de Ciência Planetária do Arizona, que está chefiando o projeto, apresentou algumas delas na reunião da União Geofísica Americana, em Washington DC.

“Quando fizemos os primeiros registros dos polos, tivemos certeza de que estávamos vendo um território de Júpiter que nunca tínhamos visto”, disse a professora Hansen.

“O que a gente não esperava era que veríamos esses polígonos de ciclones organizadinhos, tempestades com o dobro do tamanho do Estado do Texas. Pensamos ‘uau, espetacular’.”

E depois de 16 sobrevoadas, essas formações ainda estão lá.

Essas “belas fotos” estão começando a dar informações aos cientistas sobre como o maior planeta do sistema solar se formou e evoluiu.

“O objetivo da Juno é estudar o interior da estrutura de Júpiter e entender como ela se expressa no topo das nuvens. É esse o tipo de ligação que estamos tentando fazer, mas ainda não chegamos lá.”

Jack Connerney, pesquisador do projeto, diz que a segunda parte da missão daria ainda mais detalhes sobre “o que faz Juno funcionar”.

Nova sonda em Marte vai fazer uma espécie de ‘ultrassom’ do planeta

Os sete meses de espera finalmente estão chegado ao fim! No final da tarde hoje a sonda Insight da agência espacial americana NASA vai iniciar seus procedimentos para pousar em Marte e o leitor incauto pode se perguntar: mas de novo?

Pois é, de novo Marte, mas desta vez a ideia é um pouco diferente. Ao invés de observar as coisas acontecendo da superfície marciana para cima, por assim dizer, a InSight vai “olhar” para dentro de Marte!

A NASA tem dito que esta será a primeira missão espacial a fazer um verdadeiro checkup médico de um planeta, registrando pulsação, temperatura e fazendo um ‘ultrassom’ planetário. A missão Insight visa obter dados do interior de Marte para construir um cenário de como teria sido sua evolução desde que o Sistema Solar foi formado. Essa missão em específico não tem o propósito de procurar pistas sobre possíveis formas de vida, seja atualmente, seja no passado.

O carro chefe da missão é um instrumento construído em parceria com a França para medir abalos sísmicos em Marte. Trata-se de um sismógrafo ultrassensível que pretende registrar os abalos provocados até pelo choque de micrometeoritos com a superfície marciana. O objetivo de tomar dados tão sensíveis assim é o de usar a propagação das ondas sísmicas através do interior do planeta para se construir sua estrutura interna. Esse é o ultrassom marciano que eu mencionei.

O procedimento é semelhante ao exame usual que volta e meia precisamos fazer em uma clínica, mas neste caso são utilizadas ondas sonoras em alta frequência. Como o corpo humano tem diversos órgãos com estruturas e densidades diferentes, as ondas sonoras se propagam de maneira diferente ao atravessar ou refletir quando encontra um tecido diferente. Com isso, é possível processar os sinais que são refletidos (ou não) de maneiras diferentes para reconstruir uma imagem da estrutura que provocou as diferenças entre o sinal gerado e o recebido.

Em Marte serão usadas as ondas sísmicas provocadas por movimentações de terreno. Não que se espere martemotos gerados por deslocamentos de placas tectônicas, como ocorrem na Terra, mas por exemplo desabamento de cavernas ou mesmo avalanches em encostas de desfiladeiros, como já foi detectado. Aliás, não se espera tectonismo em Marte, mas se ocorrerem movimentações de placas tectônicas, o SEIS (sigla em inglês para Experimento Sísmico para Estrutura Interior) vai detectá-las. Outro “gerador” de ondas sísmicas é a queda de meteoritos na superfície marciana. O choque do meteorito com o solo gera perturbações que serão captadas à distância. O instrumento é tão sensível que poderá captar até mesmo as perturbações geradas pelos redemoinhos marcianos, os famosos ‘dust devils’.

Aliás, essa alta sensibilidade causou um problema no desenvolvimento da missão. Durante um tempinho os técnicos que construíram os sismógrafos ficavam encafifados que havia sempre um ruído de fundo durante os testes. Eram injetados sinais sutis para se testar sua eficiência, mas ao terminarem os testes, o instrumento continuava a registrar algum sinal. Levou um tempo para que se descobrisse que o sinal vinha da movimentação de sinos de uma torre na universidade, a uma distância de quase 500 metros!

Essa história me foi contata por Ivair Gontijo, engenheiro brasileiro que trabalha no JPL da NASA na integração dos instrumentos do próximo jipe marciano, o Mars 2020. Gontijo foi o responsável por projetar os radares que controlaram o pouso do jipe Curiosity em 2012. Por ser tão sensível é que o sismógrafo vai ser depositado gentilmente por um braço robótico ao lado da sonda. Gontijo me explicou que os sismógrafos embarcados nas sondas Viking na década de 1970, mais precisamente nas pernas da sonda, falharam em registrar sismos porque os ventos marcianos faziam a estrutura toda oscilar e isso mascarava qualquer sinal vindo do subsolo.

Essa é uma foto do módulo de engenharia da InSight que eu tirei na sala limpa do JPL em Pasadena, Califórnia, durante uma visita em julho deste ano. Esse módulo é uma réplica funcional da sonda que deverá pousar daqui a pouco em Marte, apenas sem seus painéis solares. O propósito de se manter uma réplica como essa é testar algum procedimento que seja necessário fazer em Marte. Se a InSight tiver algum problema, uma solução será testada nesse módulo antes de ser enviada a Marte. Logo depois de pousar, a sonda deverá enviar imagens da região à sua volta para que sua cercania seja replicada no ‘Jardim Marciano’, o campo de testes das sondas com destino a Marte, lá mesmo em Pasadena. O terreno e a disposição das pedras serão usados para planejar a melhor maneira de depositar o sismógrafo no solo.

Aliás o pouso da InSight também está sendo chamado de ‘6 minutos de terror’ (com a Curiosity foram 7). A massa destas sondas e suas velocidades de entrada são muito grandes para que apenas um mecanismo de pouso possa ser usado. Assim que a sonda inicia sua entrada, ela é freada pela própria atmosfera com um escudo térmico para proteção. Quando a velocidade cai o suficiente, um paraquedas gigantesco é ejetado. Só que a atmosfera marciana representa algo como 1% da atmosfera terrestre e isso impede que a sonda reduza a velocidade de queda para níveis adequados. Já próximo à superfície, a sonda se livra do paraquedas e dispara retrofoguetes que finalmente vão desacelera-la a níveis seguros para pousar.

Além do sismógrafo, a InSight carrega também um termômetro e um sensor de posição. O termômetro não é um termômetro qualquer, mas na verdade uma barra de aproximadamente 5 metros que será enterrada no solo marciano. Marte já foi escavado em outras expedições, mas nada além de uns poucos centímetros, dessa vez o buraco é mais embaixo, literalmente. O objetivo deste instrumento é ver como é a transmissão e dissipação do calor no subsolo e com isso ter uma ideia de como Marte foi se esfriando ao longo de bilhões de anos de existência.

Já o sensor de posição vai permitir, usar as transmissões dos satélites em órbita de Marte para triangular a posição da sonda com altíssima precisão. O objetivo é medir variações sutis de sua posição em 3 dimensões para registrar o movimento de “bamboleio” que ele executa junto com sua revolução (no meu tempo chamada de translação) e rotação. E o interesse em se ter essa medida com precisão muito alta é determinar a natureza do interior de Marte. Se o interior de Marte tiver um núcleo líquido, os bamboleios serão diferentes, assim como a propagação das ondas sísmicas. E se tiver mesmo, qual a extensão dele? Qual o tamanho desse núcleo em relação ao resto? Você pode ver um infográfico muito legal nesta reportagem aqui.

Se tudo der certo, a Insight deve pousar às 17:54 (horário de Brasília) e seu primeiro sinal de vida deverá ser emitido às 18:01. Vai levar pelo menos 8 minutos para esse sinal chegar à Terra e só aí saberemos se de fato ela está viva. Logo em seguida ao pouso a sonda deverá abrir seus painéis solares, mas essa informação só poderá ser confirmada de fato às 23:35, quando a sonda Mars Odyssey sobrevoar a área do pouso. É possível que a primeira imagem da InSight em solo só chegue amanhã.

(ATUALIZAÇÃO: o pouso foi realizado com sucesso e uma imagem foi enviada após o pouso)

Mas também é possível que algumas imagens da sonda entrando na atmosfera de Marte sejam enviadas quase em tempo real (descontados os 8 minutos de distância). É que a sonda está sendo seguida por dois cubesats do tamanho de uma valise de mão. Os dois cubesats vão fotografar essa etapa da missão e vão enviar as imagens de volta para a Terra.

Apesar do grande sucesso da NASA em conseguir pousar suas sondas nos tempos recentes, é bom lembrar que o índice de sucesso, quando falamos do planeta vermelho, é da ordem de 40%. Por isso, toda torcida é bem-vinda!

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/blog/cassio-barbosa/post/2018/11/26/nova-sonda-em-marte-vai-fazer-uma-especie-de-ultrassom-do-planeta.ghtml

SONDA INSIGHT MARS, DA NASA, FAZ A PRIMEIRA SELFIE EM MARTE

NASA CAPTURA ÁUDIO DO VENTO DE MARTE EM MISSÃO NO PLANETA

Nova sonda em Marte vai fazer uma espécie de ‘ultrassom’ do planeta

 

 

Sonda Insight Mars, da Nasa, faz a primeira selfie em Marte

A imagem revela a condição da espaçonave – sem avarias – e permite que os envolvidos na missão saibam que a sonda está realizando operações e funcionando normalmente.

A imagem revela a condição da espaçonave – sem avarias – e permite que os envolvidos na missão saibam que a sonda está realizando operações e funcionando normalmente.

Sonda Insight Mars, da Nasa, faz a primeira selfie em Marte

A sonda Insight Mars, da Nasa, fez a sua primeira selfie no planeta vermelho após o pouso que ocorreu em 26 de novembro. Para fazer a selfie, a espaçonave usou uma câmera instalada em seu braço robótico.

A sonda Insght Mars é uma nave espacial não tripulada que percorreu 482 milhões de Km até chegar ao planeta vermelho. Sua missão é “olhar para dentro” de Marte: seus instrumentos permitem detectar atividades sísmicas no interior do planeta.

Concepção artística mostra como a InSight deverá estudar o interior de Marte — Foto: NASA

Sonda Insight Mars, da Nasa, faz a primeira selfie em Marte

Selfie em Marte

A foto enviada pela Insgiht é, na verdade, um mosaico com 11 imagens. Nelas é possível ver o painel solar da sonda e todo o seu deck, incluindo os instrumentos científicos.

A imagem revela a condição da espaçonave – sem avarias – e permite que os envolvidos na missão saibam que a sonda está realizando operações e funcionando normalmente.

Os integrantes da equipe responsável pela missão também receberam o primeiro registro completo no “espaço de trabalho” da InSight – uma área de 4 por 2 metros de altura, em frente à espaçonave. Esta imagem é também um mosaico composto por 52 fotos individuais.

Sonda Insight Mars, da Nasa, faz a primeira selfie em Marte

Insight Mars também enviou imagem do seu ‘espaço de trabalho’: registro é um mosaico de 52 fotos sobrepostas — Foto: Nasa/JPL-Caltech

O que está por vir

Nas próximas semanas, cientistas e engenheiros deverão decidir onde, neste espaço de trabalho, os instrumentos da espaçonave devem ser colocados.

Eles então comandarão o braço robótico da InSight para definir cuidadosamente o sismômetro (chamado de Experimento Sísmico para Estrutura Interna, ou SEIS) e a sonda de fluxo de calor (conhecida como Pacote de Fluxo de Calor e Propriedades Físicas, ou HP3) nos locais escolhidos. Ambos funcionam melhor em terreno plano e os engenheiros querem evitar colocá-los em rochas maiores que 1,3 cm.

Sonda Insight Mars, da Nasa, faz a primeira selfie em Marte

A imagem revela a condição da espaçonave – sem avarias – e permite que os envolvidos na missão saibam que a sonda está realizando operações e funcionando normalmente.

“A quase ausência de rochas, colinas e buracos significa que será extremamente seguro para nossos instrumentos”, disse Bruce Banerdt, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em Pasadena, Califórnia.

“Isso pode parecer um pedaço de terra bem simples se não estivesse em Marte, mas ficamos felizes em ver isso.”

Insight Mars registra a primeira 'selfie' no planeta vermelho — Foto: Nasa/JPL-Caltech

Missão da Nasa quer descobrir as características do interior do planeta vermelho — Foto: Roberta Jaworski/G1

A equipe de pouso da InSight escolheu uma região para o pouso da sonda, em Elysium Planitia, que é relativamente livre de rochas. Mesmo assim, o local de aterrissagem é ainda melhor do que eles esperavam.

A espaçonave fica no que parece ser uma “cavidade” quase livre de rochas – uma depressão criada por um impacto de meteoro que se encheu de areia. Isso deve tornar mais fácil para um dos instrumentos da InSight, a sonda de fluxo de calor, atingir sua meta de 5 metros abaixo da superfície.

Declaração dos Direitos Humanos, 70 anos, é muito xingada, mas pouco lida.

A importância dos direitos humanos rivaliza apenas com a ignorância de parte da sociedade sobre eles.

Há um naco considerável de brasileiros que acredita que “direitos humanos” são um grupo de pessoas que ficam, de um lado para o outro, defendendo bandidos.

Roupas de refugiados venezuelanos são queimadas durante conflito com moradores de Pacaraima (RR). Foto: Avener Prado/Folhapress

Declaração dos Direitos Humanos, 70 anos, é muito xingada, mas pouco lida

Essa é a consequência de anos de programas sensacionalistas na TV e no rádio que venderam a ideia de que essas organizações resumem os tais “direitos humanos”. Ideia, diga-se de passagem, distorcida. Porque tais entidades querem que sejam cumpridas todas as leis, como as que dizem que o Estado não pode torturar e matar como fazem alguns bandidos.

Ou que direitos humanos são uma coisa de “comunista”. Ignoram que o texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o principal documento norteador desses princípios, teve forte influência das democracias liberais. E incluiu até o direito à propriedade privada, sob críticas dos países socialistas.

Esse preconceito também existe pela falta de tratamento sobre direitos humanos na sala de aula. Por ser um parâmetro curricular nacional deveria estar presente na educação básica de forma transversal – ou seja, tratado em todas as disciplinas.

Mas raramente está. E não é porque causa do equívoco chamado Escola Sem Partido, mas por conta da Escola Sem Recursos, da Escola Sem Formação Continuada dos Professores, da Escola Sem Salários Decentes, da Escola Sem Alunos Motivados, da Escola Sem Livros, entre outros movimentos que dão muito certo por aqui desde sempre.

O que são direitos humanos, afinal? Grosso modo, é aquele pacote básico de dignidade que você deve ter acesso simplesmente por ter nascido. Independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer condição.

Se esse pacote básico fosse respeitado, não haveria fome, crianças trabalhando, idosos deixados para morrer à própria sorte, pessoas vivendo sem um teto. Não teríamos uma taxa pornográfica de quase de 64 mil homicídios por ano, nem exploração sexual de crianças e adolescentes, muito menos trabalho escravo. Aos migrantes pobres seria garantida a mesma dignidade conferida a migrantes ricos. Todas as crenças seriam respeitadas – e a não-crença também. A liberdade de expressão seria defendida, mas os incitadores de crimes contra a dignidade seriam responsabilizados. Se direitos humanos fossem efetivados, não teríamos mulheres sendo estupradas, negros ganhando menos do que brancos e pessoas morrendo por amar alguém do mesmo sexo. Teríamos a garantia de ar respirável e água potável.

É claro que os direitos humanos não começam com o documento que completa 70 anos, nesta segunda (10). É uma longa caminhada pela história da humanidade, em que fomos pressionando governantes a não tolherem direitos civis e políticos, mas também para que o Estado agisse a fim de garantir direitos sociais, econômicos, culturais, ambientais.

Criança é obrigada a trabalhar na produção de tijolos no Paquistão

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BONDED (SLAVE) CHILD LABOURER POUNDING CLAY INTO A BRICK FORM. THE BRICKS BEHIND HER REPRESENT A DAYS WORK.
© Robin Romano / Stolen Childhoods
THOUSANDS OF BRICK KILNS LINE LINE THE RIVERBANKS IN BENGAL AND THE SURROUNDING STATES OF INDIA. MOST OF THE WORKERS HERE ARE BONDED (SLAVE) LABORERS. THE FAMILIES THAT WORK HERE ARE EXPLOITED 12-16 HOURS A DAY, 7 DAYS A WEEK. THEIR WORLD CONSISTS ONLY OF THESE MUD HOLES, DRYING FIELDS AND KILNS. AT NIGHT THEY SLEEP IN THE OPEN OR IN MAKESHIFT SHANTYS WHERE SANITARY CONDITIONS ARE NONEXISTENT. THERE ARE NO SCHOOLS HERE, AND FOR MANY OF THE CHILDREN THERE AREN’T EVEN FAMILIES. OVER 1/4 OF THE CHILDREN WORKING HERE HAVE BEEN TRAFFICKED FROM OTHER AREAS WHERE THEIR PARENTS HAVE BEEN FORCED TO EITHER SELL THEM INTO DEBT BONDAGE (SLAVERY) OR, IF THEY ARE LUCKY ENOUGH NOT TO BE BONDED, ARE DEPENDENT ON THE MEAGER WAGES THAT THESE CHILDREN CAN PROVIDE.
THE WORK IS EXTREMELY BRUTAL, HAZARDOUS, ABUSIVE AND SOMETIMES LETHAL. WORKING ALL DAY IN THE HOT SUN WHERE TEMPERATURES REGULARLY CLIMB ABOVE 100F (37C), THEY CARRY WELL OVER A TON OF CLAY A DAY AND CROUCH FOR HOURS AS THEY FABRICATE THOUSANDS OF BRICKS IN OLD FASHION MOLDS. THE PAY, IF THERE IS ANY, AND CONDITIONS FALL WELL BELOW MINIMUM LEVELS REQUIRED BY LAW AND ARE ILLEGAL FOR CHILDREN. NONETHELES THE KIDS COME, DRIVEN BY NECESSITY, OFTEN UNAWARE OF WHAT THEY ARE GETTING INTO AND SOMETIMES TRICKED OR VIRTUALLY KIDNAPPED BY UNSCRUPULOUS AGENTS AND MIDDLEMEN. FOR MANY, THEIR DEBT ACTUALLY INCREASES OVER TIME DUE TO DISHONEST ACCOUNTING.
THE POOR PAY AND HARD WORK ARE JUST THE BEGINNING. BRICK KILN CHILDREN TEND TO BE CHRONICALLY TIRED FROM THE LONG HOURS AND IRREGULAR REST, INCREASING THE PROBABILITY OF ACCIDENTS, INJURIES AND DEFORMITY. DISEASE, MALNUTRITION AND PERMANENT SKELETAL INJURY ARE THE COMMON LOT.
UNABLE TO RECEIVE THE EDUCATION TO WHICH THEY ARE ENTITLED BY LAW, THEY ARE POWERLESS TO ACT, AND TRAPPED IN A CONTINUAL CYCLE OF GRINDING POVERTY.
Bonded Labour, slave labour, CHILD LABOUR TRAVAIL DES ENFANTS Trabajo infantil Kinderarbeit
CHILDREN Kids ENFANTS Niños Kinder
SLAVERY ESCLAVAGE Esclavitud Sklaverei

Mas tratemos da Declaração, nosso documento mais relevante. O mundo, ainda em choque com os horrores da Segunda Guerra Mundial, produziu a Declaração Universal dos Direitos Humanos para tentar evitar que esses horrores se repetissem. De certa forma, com o mesmo objetivo, o Brasil, ainda olhando para as feridas de 21 anos de ditadura militar, sentou-se para escrever a Constituição Federal de 1988. Ambos não são documentos perfeitos, longe disso. Mas, com todos seus defeitos, ousam proteger a dignidade e a liberdade de uma forma que, se hoje sentássemos para formulá-los, não conseguiríamos.

É depois de grandes momentos de dor que estamos mais abertos para olhar o futuro e desejar que o sofrimento igual nunca mais se repita. Desde então, não vivemos uma guerra como aquela entre 1939 e 1945, muito menos um período de exceção quanto 1964 e 1985. Acabamos nos acostumando. E esquecendo. E banalizando.

E, por isso, ao completar 70 anos de sua proclamação pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos tem sido vítima de ataques. Tal como a Constituição, que completou 30 anos em outubro. Elegemos líderes ao redor do mundo que chamam os direitos humanos de ultrapassados ou fake news quando, em verdade. E, por conta disso, esses princípios são mais necessários do que nunca.

Minha geração herdou esses textos – um de nossos avós e outro de nossos pais. Agora, precisamos ensinar à geração de nossos filhos sua própria história sob o risco de que o espírito presente em 1948 e 1988 se perca por desconhecimento.

Discursos misóginos, homofóbicos, fundamentalistas e violentos têm atraído rapazes que, acreditando serem revolucionários e contestadores, na verdade agem de forma a manter as coisas como sempre foram. Creem que estão sendo subversivos lutando contra a “ditadura do politicamente correto” – que, na prática, se tornou uma forma pejorativa de se referir aos direitos básicos que temos por termos nascido humanos.

Parte dos jovens também abraça esses discursos como reação às tentativas de inclusão de grupos historicamente excluídos, como mulheres, negros, população LGBTT. Há rapazes que veem na luta por direitos iguais por parte de suas colegas de classe ou de coletivos feministas uma perda de privilégios que hoje nós, os homens, temos. Nesse contexto, influenciadores digitais, formadores de opinião e guias religiosos ajudam a fomentar, com seus discursos violentos e irresponsáveis, uma resposta agressiva dos rapazes à luta das jovens mulheres e outras minorias pelo direito básico a não sofrerem violência.

É exatamente nesses momentos de dificuldade que precisamos nos lembrar da caminhada que nos trouxe até aqui. Para ter a clareza de que, mais importante do que reinventar todas as regras, é tirar do papel, pela primeira vez, a sociedade que um dia imaginamos frente aos horrores da guerra ou da ditadura. O que só se fará com muito diálogo e a promessa de garantia desse quinhão mínimo de dignidade.

Infelizmente, para algumas pessoas politica e economicamente poderosas, os direitos humanos, do alto de seus 70 anos, são vistos como um problema incômodo a ser imolado no altar do crescimento econômico ou em nome de Deus e da chamada “tradição”.

Portanto, devemos encarar todas as conquistas nessa área, desde 10 de dezembro de 1948, como portas que, depois de muito sacrifício, conseguimos abrir no muro da opressão e da injustiça. Portas que, se não forem monitoradas bem de perto, se fecharão novamente na nossa cara.

Corpos de trabalhadores no Hospital de Redenção, no Pará após a Chacina de Pau D'Arco. Foto: Repórter Brasil

Declaração dos Direitos Humanos, 70 anos, é muito xingada, mas pouco lida

E o trabalho começa por explicar a toda pessoa que xinga os direitos humanos que, ao fazer isso, ela chama a si mesma de lixo.

https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/declaracao-dos-direitos-humanos-70-anos-e-muito-xingada-mas-pouco-lida/

NASA CAPTURA ÁUDIO DO VENTO DE MARTE EM MISSÃO NO PLANETA

NASA está há 13 dias em Martepor meio da sonda espacial InSight e foi capaz, pela primeira vez na história, de captar o som do vento diretamente do planeta vermelho. Ouça abaixo:
“A captura desse áudio não foi planejada, mas um dos objetivos da missão é medir a movimentação em Marte e isso inclui o movimento causado pelas ondas sonoras”, revelou Bruce Banerdt, que lidera a missão, em comunicado oficial. “Para mim, os sons realmente não são desse mundo. Eles soam como o vento ou talvez o oceano rugindo ao fundo. Mas também há uma sensação estranha”, descreveu.

O que a nova missão da Nasa deve revelar sobre Marte

O que a nova missão da Nasa deve revelar sobre Marte

Sonda Insight em centro da Nasa — Foto: Cássio Barbosa/

O que a nova missão da Nasa deve revelar sobre Marte

O objetivo da InSight não é encontrar vida extraterrestre, mas sim estudar o interior do planeta a fim de conhecer mais detalhes de sua composição e evolução.

Bolsonaro não precisa crer em mudança climática. Basta acreditar em boicote

O Brasil deve perder o protagonismo no combate global às mudanças climáticas com a chegada da gestão Jair Bolsonaro. Pelo menos é o que tudo indica até aqui. O novo ministro das Relações Exteriores acredita que a questão é um “dogma marxista” e aponta para uma espécie de “alarmismo climático”. Os filhos de Bolsonaro, todos políticos eleitos, são céticos a respeito do tema, atacando-o nas redes sociais. E o novo presidente tem criticado o Acordo de Paris, que trata das políticas a serem adotadas pelos países a fim de evitar um desastre climático global, defendendo o nosso direito de desmatar como fez a Europa no passado. Enquanto isso, espera-se a indicação da próxima pessoa a comandar o Ministério do Meio Ambiente – que pode ficar informalmente subordinado aos interesses da parte mais arcaica da agropecuária nacional.

Bolsonaro não precisa crer em mudança climática. Basta acreditar em boicote

Bolsonaro não precisa crer em mudança climática. Basta acreditar em boicote

No Brasil, dias frios durante o verão causam alvoroço em uma espécie fascinante de mamífero: o negacionista. Ele não acredita que a ação humana pode ser responsável por mudanças no clima e considera isso uma teoria da conspiração para impedir o desenvolvimento econômico por parte de países desenvolvidos.

Donald Trump, que durante sua exitosa campanha à Presidência, disse que o aquecimento global era uma invenção dos chineses para atrapalhar a economia dos Estados Unidos, é um deles. Mas temos muitos por aqui que pipocam nas redes sociais assim que os termômetros caem. É fácil identificá-los. Acham que estão lacrando a internet ao ironizar perguntando onde está o aquecimento global em momentos de frio de bater o queixo. Pois, se ele existe, não poderia estar tão frio, correto?

Errado.

A elevação na temperatura do ar próximo à superfície do planeta e dos oceanos, causada pelo aumento de gases que provocam efeito estufa, não significa transformar o mundo necessariamente em um grande forno. Também desregula o frágil equilíbrio que torna a terceira grande rocha a partir do Sol um lugar agradável para humanos, enlouquecendo o clima. Entre as consequências, está a proliferação no número de eventos extremos – como grandes secas e grandes inundações, nevascas e calor intenso, mais e maiores furacões/tufões e tornados. E se não agirmos agora para alterar nosso modelo de desenvolvimento, a fim de mitigar os já inevitáveis impactos causados pelos gases emitidos, vamos encontrar muita fome, pobreza, dor e morte nas próximas décadas.

Fortes quedas de temperatura pontuais podem ser provocadas por imensas massas de ar polar, por exemplo. E invernos podem ser mais ou menos rigorosos dependendo da interferência de fenômenos como o El Niño (de aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico), que inibe a entrada de frentes frias e massas de ar polar no país. Eventos específicos não são necessariamente consequência direta de mudanças climáticas. Pesquisadores preferem verificar a sua incidência ao longo do tempo e checar o aumento em sua frequência e em sua intensidade. Daí, olhando para uma série histórica, é possível entender a evolução do clima e quais suas manifestações extremas. Por exemplo, o índice pluviométrico (chuvas) no Brasil já sofre os efeitos das mudanças climáticas. O que afetará a geração de energia, a agropecuária e o abastecimento humano.

Falta a muitos que negam as mudanças climáticas a capacidade de enxergar o todo e aceitar que a vida pode ser mais complexa do que seus olhos podem enxergar. Não raro, observam apenas uma amostra visível do mundo e, metonimicamente, constroem a realidade baseado nesse recorte. O alerta sobre mudanças climáticas não são produto de fé, mas entendimento baseado em evidências científicas coletivamente chanceladas. Fé é acreditar que Jesus voltará antes do mundo virar geleia.

Bolsonaro afirmou que pediu para o Brasil retirar sua candidatura para sediar a COP-25, a conferência anual da ONU para discutir a implementação do Acordo de Paris, que trata do que os Estados devem fazer para frear as mudanças climáticas causadas pela ação humana. “Houve participação minha nessa decisão. Ao nosso futuro ministro [das Relações Exteriores], eu recomendei que se evitasse a realização desse evento aqui.” O mundo já contava que hospedássemos o evento.

Deixar o Acordo colocará o Brasil em uma lista de párias isolados do sistema multilateral e ainda vai expor o nosso país a retaliações comerciais, sobretudo de países europeus – que já assinalaram a imposição de “tarifas climáticas” a quem não estiver cumprindo o acordo. A soja, matéria-prima de óleos, rações e presente em boa parte dos alimentos industrializados e que é um dos principais itens de nossa pauta de exportação, deve sentir os efeitos disso. Boa parte de sua produção encontra-se na Amazônia Legal e no Cerrado.

Muitos negacionistas usam discursos de que a economia não pode pagar pelo custo das necessárias mudanças no modelo de desenvolvimento pela qual passa a solução. Mas nossa matriz energética já é vista internacionalmente como mais limpa (no que pese os profundos impactos negativos da construção de hidrelétricas). Por isso, nosso esforço de cumprimento do Acordo de Paris, apesar de significativo, é mais baseado no combate ao desmatamento ilegal. O que é, já em si, positivo e não passa por reformular e fechar bilhões de dólares em usinas de carvão – como é o caso de alguns outros países. Além disso, o acordo valoriza o sequestro de carbono, que é um serviço que o Brasil pode suprir, e com isso ganhar muito, seja via reflorestamento, seja via a produção de biocombustíveis e outras fontes renováveis de energia, em que temos grandes vantagens comparativas. Ou seja, além de queimar florestas, vamos queimar dinheiro. Dólares, euros, yuans.

É possível crescer economicamente, mas com responsabilidade. Respeitando o zoneamento econômico da região, que diz o que pode e o que não pode se produzido em uma área; realizando uma regularização fundiária geral e confiscando terras roubadas do Estado; executando uma reforma agrária com a garantia de que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades – responsáveis por garantir o alimento na mesa dos brasileiros – sejam, pelo menos, da mesma monta que os das grandes; preservando os direitos das populações tradicionais, cujas áreas possuem as mais altas taxas de conservação do país; mantendo o exército na caserna e longe da política fundiária e indígena. Ah, e sem usar trabalho escravo.

Para tanto, precisamos saber se o governo estará disposto a combater as ameaças reais que colocam em risco nossa casa comum ou zombará delas enquanto queima dinheiro de exportações, que ficarão bloqueadas em portos pelo mundo.

Em tempo: Questionado sobre o aquecimento global, Bolsonaro afirmou, no último sábado (1): “eu acredito na ciência e ponto final. Agora o que que a Europa fez para manter as suas florestas, as suas matas ciliares? O que que eles fizeram? Querem dar palpite aqui?”. A declaração remete a outra, proferida pelo então presidente Lula, em março de 2008, quando defendeu a produção sucroalcooleira nacional – que, naquela época, era uma das campeãs em resgates de trabalhadores em situação análoga à de escravo: “Vira e mexe, nós estamos vendo eles [estrangeiros] falarem do trabalho escravo no Brasil, sem lembrar que o desenvolvimento deles, à base do carvão, o trabalho era muito mais penoso do que o trabalho na cana-de-açúcar”.

Em ambos os casos, Bolsonaro e Lula compararam a realidade atual no Brasil com outra, do passado – o que é um absurdo, uma vez que a humanidade avançou nos últimos 200 anos. Claro que, em ambos os casos, há interesses econômicos estrangeiros de quem deseja usar a situação para alavancar o seu próprio protecionismo. Mas a verdade é que o Estado brasileiro permitiu que a exploração do meio ambiente e do ser humano acontecesse. Ao invés de reclamar, deveríamos continuar fazendo nossa lição de casa (e há muito a fazer) e mostrar o resultado mundo. O que é, ao mesmo tempo, a melhor vacina contra barreiras sob justificativas ambientais e trabalhistas e uma forma de ganhar dinheiro.

Estamos preparados para a 4ª Revolução Industrial?

Nosso planeta está em festa. Está completando 4,5 bilhões de primaveras! Se considerarmos que o principal fator externo para a nossa existência é o Sol, ainda teremos ao menos uns 6 bilhões de anos de vida pela frente! Haja festa para comemorar. Dito isso, partimos daqui em diante com a premissa de que a Terra não vai acabar amanhã, ok? Desastres ambientais, superaquecimento, hiperpopulação, guerra nuclear, robôs do mal… não importa o quão grave sejam nossos problemas, eles provavelmente não nos levarão ao fim literal do mundo.

Relógio Geológico. Imagem por Fabricio Lemos – Grupo Seixas

Será que o futuro nos reserva mais ameaças ou oportunidades?

Estamos preparados para a 4ª Revolução Industrial?

Mas isso também não significa que não vamos mudar! O processo de evolução nos acompanha desde sempre, ou melhor, há exatos 4.500.000.000 de anos. Toda essa angústia que sentimos hoje está mais relacionada à velocidade de acesso à informação de que dispomos. Tudo evolui tão rápido que perdemos a noção do todo. Vou dar um exemplo: vamos imaginar que todo esse tempo de vida na Terra fosse representado em 24h, como na imagem abaixo. Nesta escala, a tão famosa Era dos Dinossauros aconteceria em pouco menos de 2 minutos. Incrível, não? E essa velocidade está realmente aumentando muito. Se analisarmos apenas os últimos 100 anos, atingimos progressos antes inimagináveis, como voar ou ir à Lua.

Mas você não viu nada ainda. Sente medo daquelas montanhas russas radicais, como a Kingda Ka, nos Estados unidos, que atinge 205 km/h em 3,5 segundos? Ela é “fichinha” perto do que está por vir. Por isso, quero mostrar 4 cenários futuros que vão certamente fazer você refletir.

O primeiro trata de inclusão digital versus exclusão social. Isso porque, apesar de os n.os sobre a pobreza absoluta mundial estarem melhorando, e o capitalismo ser provavelmente o melhor sistema econômico que inventamos, as distribuições de riqueza ainda são um problema a ser tratado. Menos de 1% da população mundial acumula mais de 80% da riqueza total da economia, e esse desequilíbrio nos leva a uma forte exclusão social. Mais uma vez: isso não é novo! O que está mudando agora — e que na minha opinião pode ser uma notícia muito boa — está relacionado à inclusão digital.

Tive a oportunidade de acompanhar 3 projetos que podem ilustrar essa tendência. Na Tanzânia, as cidades ainda sofrem com a escassez de energia, às vezes com menos de 5h de energia por dia. Vendedores de rua locais começaram a oferecer recarga de bateria de celular como serviço. Não estou falando de crédito, mas sim de bateria. No Brasil não é muito diferente. De modo geral, o acesso à telefonia celular é considerado um fenômeno mundial, mesmo com tantas disparidades observadas na nossa sociedade. Em julho desse ano, o mercado brasileiro contava com quase 235 milhões de linhas telefônicas ativas. Nos Estados Unidos, país mais rico do mundo, a grande maioria dos moradores de rua tem aparelhos celulares e está conectada à rede. Isso demonstra que mesmo as pessoas socialmente marginalizadas estão 100% inclusas digitalmente, o que torna muito mais fácil localizá-las e compreender suas reais necessidades para que possamos ajudá-las – desde que exista interesse por parte da sociedade organizada e vontade política para isso, claro.Estamos preparados para a 4ª Revolução Industrial?

O segundo cenário já começamos a discutir no meu último texto sobre Inteligência Artificial (AI). O mundo inteiro começa a debater em quais aplicações a AI será mais útil. Mas isso terá um custo, e não me refiro apenas ao custo para seu desenvolvimento, mas sim ao custo social. Voltemos ao exemplo do texto – ter um robô como Presidente da República. Após um longo período de calibragem e aprendizagem do algoritmo, nosso governante já estaria apto a achar soluções originais para diversos problemas. Seriam literalmente “ideias” ou decisões suas. Quanto mais tempo em funcionamento, mais “sábio” ele se tornaria. Meu questionamento aqui é: será que depois de todo o seu trabalho e contribuição dados neste processo de “evolução artificial” poderíamos simplesmente “desligá-lo da tomada”? Estamos evoluindo para um futuro no qual a sociedade será composta por homens (Homo sapiens), homens com partes biônicas ou com melhorias genéticas (Homo Cyborgs) e androides funcionando a partir de AI. A essa altura, será que esses androides, que não têm partes humanas mas raciocinam usando algoritmos baseados na realidade humana, não deverão ter os mesmos direitos básicos de decidir quanto à vida e à morte e de serem remunerados por seus trabalhos?

Já o terceiro cenário diz respeito à chamada Internet das Coisas (IOT), que também já discutimos em outros textos. Começo a reflexão por alguns números importantes: em 2008 o número de conexões digitais ultrapassou o número total de habitantes do planeta. Mais impressionante ainda: em 2020, estima-se que teremos mais de 50 bilhões de “coisas” conectadas. Isso inclui eu, vocês, seu vizinho, sua máquina de lavar, carro, relógio, o contador de luz de sua casa…. TUDO! Isso é a Internet of Everything, como já está sendo chamada. Além da abordagem do lixo eletrônico que discutimos no texto sobre IoTrash, já pensou no volume de dados que serão produzidos nas nossas cidades? Se os dados são realmente o novo petróleo, nossas cidades estão ricas!

Agora una esses cenários que vimos até agora a mais dois ou três ingredientes tecnológicos, como internet 5G e misture tudo. Sabe qual será o resultado? Um vibrante e energético cenário chamado de Quarta Revolução Industrial. Se lembra da impressora 3D de comida que discutimos durante minha participação no evento do MIT na França, no início de outubro? Ou dos drones-táxis, hyperloops, e veículos autônomos? Todas essas inovações são somente a ponta do iceberg. Sim, um novo mundo está surgindo e será modelado pela Quarta Revolução, e muitos acreditam que ela será a mais disruptiva de todas, ainda mais importante do que a Primeira Revolução, a Agrícola, que ocorreu há mais de 12 mil anos e foi a responsável por sedimentar o homem à terra. Graças a ela deixamos de ser nômades para começar a construir comunidades e cidades. Capisce?

Se no relógio geológico que observamos os dinossauros estiveram aqui há menos de 2 minutos, quem, ou o quê, está por chegar? Como essas mudanças influenciarão diretamente a sua vida? Como os setores tão tradicionais da indústria, como o automobilístico ou o de seguros, vão se adaptar para sobreviverem às mudanças? Qual o seu palpite? Deixem seus comentários abaixo, será um prazer discutir com vocês mais profundamente. Nos vemos no próximo texto!

Novos estudos da física querem derrubar teorias de Einstein.

p>Albert Einstein já morreu? Sim. O velho gênio deu o suspiro final e murmurou, em alemão, suas últimas palavras indecifráveis no dia 18 de abril de 1955. Porém, atualmente, ele está m

Novos estudos da física querem derrubar teorias de Einstein.

orrendo pela segunda vez; isso se você acreditar na enxurrada de artigos e trabalhos lamentando a situação da física contemporânea.

Esqueça a recente e surpreendente descoberta das ondas gravitacionais, ondulações no espaço-tempo que Einstein já previra há um século e que indicam que o universo está coberto de buracos negros despedaçando e engolindo estrelas. Não, agora outro legado controverso de Einstein, algo muito mais profundo do que a gravidade ou a teoria quântica, está em jogo.

Mais do que qualquer um, foi Einstein quem estabeleceu o propósito da ciência moderna: a busca por uma teoria final do tudo, uma teoria unificada, como ele diria, que explicasse por que não haveria outra opção de constituição do universo a não ser esta em que vivemos. Ou, como ele colocou: “O que me interessa é saber se Deus teve alguma opção na criação do mundo.”

Se Albert lesse o título do artigo publicado no último verão na revista científica on-line “Quanta”, iria revirar no túmulo. Robbert Dijkgraaf, diretor do Instituto de Estudos Avançados, onde Einstein passou seus últimos 22 anos, escreve: “Não existem leis da física.” O que há é um espantoso cenário de possibilidades, quase infinitas, uma rede sutilmente conectada de versões da realidade. Há um universo para cada sonho bom ou ruim que você já teve, cada um com seu próprio conjunto de partículas, forças, leis e dimensões, ele afirma no artigo.

Esse cenário, também conhecido como multiverso, é o que vislumbram os estudiosos da teoria das cordas, que resolveram passar por cima do legado de Einstein na mais recente manifestação de criatividade científica. A teoria das cordas une a gravidade, que curva o cosmo, com a mecânica quântica, que descreve a aleatoriedade, ao estabelecer que as partes constituintes da natureza são como pequenas cordas de energia vibrando em 11 dimensões.

A teoria foi descrita como uma parte da física do século 21 que caiu no século 20 por acidente – e que talvez necessite de matemáticos do século 22 para poder ser compreendida. O resultado é um labirinto matemático com 10^500 soluções, cada uma representando um universo em potencial. A princípio, um desses universos seria o nosso, mas ninguém sabe qual, pois a matemática e a física são terrivelmente complexas. Ou como se lê no artigo de Dijkgraaf: “Se nosso mundo é um entre muitos, como lidar com as alternativas? O ponto de vista atual pode ser entendido como o extremo oposto do sonho de Einstein de um único cosmo.”

Questionado em Princeton, Dijkgraaf disse que o título do artigo, o qual ele não escreveu, talvez tenha sido um exagero e que provavelmente exista um princípio fundamental, mas, o que quer que ele seja, está por trás da teoria das cordas. No entanto, ninguém, nem mesmo os fundadores da teoria das cordas, consegue dizer o que é. Cientistas foram levados a essa ideia após descobrirem, há duas décadas, que uma força misteriosa, a energia escura, está acelerando a expansão do universo, fazendo com que as galáxias se distanciem umas das outras cada vez mais rapidamente através do tempo cósmico.

Essa energia escura carrega todas as características de um fator de correção, chamado constante cosmológica, que Einstein incluiu em suas equações um século atrás para depois rejeitá-lo como uma gafe. Mas a quantidade dessa energia escura é menor do que o valor previsto da constante cosmológica por uma razão de 10^60. Físicos só conseguem explicar a discrepância assumindo que o valor da constante de Einstein é aleatório em todos os universos em potencial; nós vivemos em um onde existe a quantidade correta de energia escura que possibilita a formação de estrelas e galáxias. Resumindo, nós moramos onde dá para morar.

Alguns físicos creem que o cenário é uma extensão lógica da revolução copernicana. Assim como a Terra não é o centro do sistema solar nem o único planeta, nosso universo também não é o único. Outros acreditam que a ideia de outros universos é um absurdo epistemológico, uma especulação sem saída, impossível de ser provada e uma traição do sonho einsteiniano de um único cosmo. Mesmo em nosso universo uno, os seguidores de Einstein estão enfrentando problemas, o caminho até o conhecimento definitivo está bloqueado ou talvez não exista.

A descoberta, após longa busca, em 2012, do bóson de Higgs confirmou a última parte pendente de um sistema matemático complexo conhecido como Modelo Padrão da Física de Partículas, o qual detalha todas as formas de matéria e energia que podem ser medidas em um laboratório. O Modelo Padrão explica, por exemplo, por que o computador liga e por que uma gardênia tem um cheiro tão doce.

Contudo, o modelo funciona bem demais. Físicos que estudam partículas filtraram os restos de trilhões de colisões subatômicas realizadas no Grande Colisor de Hádrons, a imensa máquina em que se descobriu o Bóson de Higgs. Até agora, eles conseguiram confirmar que o Higgs se comporta da maneira prevista pelo Modelo Padrão.

Apesar de ser uma grande conquista intelectual, foi incapaz de revelar alguma discrepância que pudesse levar a uma teoria mais abrangente. Mais especificamente, os pesquisadores não acharam pistas de um fenômeno que eles tanto buscam, a supersimetria, que faria a conexão entre as forças físicas individuais e forneceria toda uma nova gama de partículas elementares, incluindo, talvez, o que forma a matéria escura.

A supersimetria, no entanto, pode ter sido sempre uma ilusão, segundo Sabine Hossenfelder, teórica do Instituto de Estudos Avançados de Frankfurt. Ela se destacou no ano passado como uma das críticas mais contundentes da física moderna com seu novo e provocador livro, “Lost in Math: How Beauty Leads Physics Astray”. Ela argumenta que, ao exaltar a elegância matemática, físicos têm perdido o rumo. “Eles achavam que a Mãe Natureza era elegante, simples e generosa em dar pistas; eles acreditavam poder escutar seus sussurros enquanto conversavam entre si”, escreve ela. Físicos que estudam partículas respondem que eles apenas têm seguido princípios consagrados e de sucesso comprovado. Eles perseguiram o Bóson de Higgs por meio século e quase desistiram até a natureza finalmente cuspi-lo para eles.

Enquanto isso, os cosmólogos, um grupo sabidamente rabugento, chegaram ao próprio Modelo Padrão de Partículas para o nosso universo em particular. De acordo com eles, átomos — aquilo de que você, eu e as estrelas somos feitos– representam apenas 5% do peso do cosmos. A matéria escura, da qual nada conhecemos a não ser que sua gravidade coletiva esculpe e segura as galáxias unidas, representaria 25%. Os 70% restantes seriam de energia escura, que estaria afastando tudo; outro assunto do qual não sabemos nada. Nós só tomamos conhecimento dessa “parte escura” por causa do efeito que a gravidade tem sobre o universo luminoso, o movimento das estrelas e galáxias. Ora, uma teoria que deixa 95% do universo sem identificação dificilmente é uma indicação de que a ciência encerrou seu trabalho.

Alguns astronautas acreditam que, talvez, não tenhamos compreendido a gravidade no fim das contas. “Minha preocupação é que podemos estar endeusando Einstein de forma excessiva”, confessou Stacy McGaugh, astrônomo da Universidade Case Western Reserve, ao Gizmodo em junho.

O melhor presente para os cientistas neste Natal é uma nova teoria física que possa tirá-los desse impasse dos modelos padrões e fornecer novas pistas para nossa existência. Talvez esse avanço venha de finalmente descobrir o que é a matéria escura ou do Grande Colisor de Hádrons, que continuará provocando a colisão de partículas subatômicas pelos próximos 20 anos em busca de novas forças e fenômenos. Cada colisão registrada é mais um passo em direção ao desconhecido.

Por ora, o universo pode ter 11 dimensões ou ser um sonho de alguém. A vida pode ter começado em Marte ou em uma fonte hidrotermal, ou, talvez, sejamos todos bits de uma simulação computadorizada controlada por alguém. Descobrir quem somos e como a natureza se organiza é uma das buscas fundamentais do ser humano, como a arte ou a música. E continuará sendo.

Hossenfelder, apesar de todo o ceticismo, conclui seu livro de forma esperançosa ao profetizar: “A próxima grande descoberta ocorrerá neste século, e será linda”, conclui.

O que a ciência já sabe sobre o surgimento e a evolução da espécie humana

Recentemente, conversei com um cientista que trabalhava em um resumo sobre o que sabemos da evolução humana. Já tendo escrito um artigo semelhante há cinco anos, essa não deveria ser uma tarefa tão árdua, mas, quando retomou o trabalho antigo, percebeu que pouco do que produzira permanecia relevante. “Não consigo aproveitar quase nada”, lamentou.O que a ciência já sabe sobre o surgimento e a evolução da espécie humana

Como jornalista, entendo a aflição. Nos últimos anos, cientistas têm produzido pilhas de teorias de como a humanidade começou e, com certa frequência, a nova evidência não corrobora o que pensávamos ser verdade. Pelo contrário, muitos desses achados exigem que pesquisadores formulem novos questionamentos sobre o passado da humanidade e imaginem uma pré-história ainda mais complexa.

Quando a “Science Times” surgiu, há 40 anos, o conhecimento dos cientistas sobre como nossos antepassados evoluíram a partir de outros símios para uma nova espécie, conhecida como hominídeo, era muito menor. Naquela época, o fóssil de hominídeo mais antigo de que se tinha notícia era o de uma fêmea de estatura baixa e volume cerebral pequeno descoberto na Etiópia e batizado de Lucy. Essa espécie, agora denominada Australopithecus afarensis, existiu entre 3,85 e 2,95 milhões de anos atrás. Lucy e seus pares tinham características similares às dos símios, como braços longos e mãos envergadas, eram capazes de andar no chão, porém de forma ineficaz, e não podiam correr.

O que a ciência já sabe sobre o surgimento e a evolução da espécie humana

Modelo tridmensional de Lucy, uma Australopithecus afarensis.

Aparentemente, o caminho percorrido desde os hominídeos até a evolução dos humanos modernos foi uma trajetória direta a partir de Lucy. Os primeiros membros conhecidos do nosso gênero, Homo, eram mais altos e apresentavam longas pernas para caminhar e correr, além de possuírem cérebros muito maiores. Eventualmente, os primeiros Homo deram lugar à nossa espécie, Homo sapiens.

Hoje em dia é sabido que a espécie de Lucy não foi o ponto de partida para a nossa evolução, mas apenas um ramo que se desenvolveu no meio do caminho do desenvolvimento da nossa árvore genealógica. Pesquisadores encontraram fósseis de hominídeos de mais de 6 milhões de anos, e cada vestígio –um osso de perna aqui, um crânio esmagado ali– abre caminho para mais antepassados símios. Mesmo os hominídeos mais antigos eram semelhantes a nós em um traço importante: ao que tudo indica, eram capazes de andar no chão, pelo menos por curtas distâncias.

Paleoantropólogos descobriram novos fósseis preciosos que cobrem todo o espectro da evolução dos hominídeos. Ficou claro que uns pertenciam a espécies já conhecidas, como a Australopithecus afarensis, mas outros eram tão diferentes que receberam nova designação. Houve ainda casos de fósseis classificados entre um e outro.

Não raro, pareciam mosaicos de outras espécies com uma combinação notável de traços resultante do cruzamento entre elas. Por outro lado, os hominídeos podem ter desenvolvido muitas características de forma autônoma e constante ao longo de linhas de evolução independentes.

Toda essa mistura e essa experimentação produziram trinta tipos diferentes de hominídeos –de que temos conhecimento. Além disso, um tipo não sucedeu ao outro ordenadamente na história: por milhões de anos, diversos tipos de hominídeos coexistiram.

De fato, nossa espécie dividiu este planeta com seus “quase parentes” até há pouco tempo. Em 2017, pesquisadores encontraram, em Marrocos, os fósseis mais antigos da nossa espécie de que já se teve conhecimento: ossos de cerca de 300 mil anos. Nessa época, os neandertais já existiam; eles viveram pela Europa e Ásia até 40 mil anos atrás. Também nessa época, o Homo erectus, um dos membros mais antigos do nosso gênero, residia no que é hoje a Indonésia; a espécie não foi extinta até pelo menos 143 mil anos atrás.

O Homo erectus e o neandertal são velhos conhecidos de paleoantropólogos. Fósseis dos primeiros foram localizados nos anos 1890; já os neandertais tinham sido descobertos em 1851. Contudo, uma pesquisa recente mostrou que mesmo outros hominídeos compartilharam este planeta com nossa própria espécie.

Em 2015, pesquisadores desenterraram fósseis de 250 mil anos em uma caverna na África do Sul. Batizada de Homo naledi, o cérebro dessa nova espécie era do mesmo tamanho do de Lucy, mas apresentava uma estrutura complexa que se assemelhava à nossa. O pulso e outros ossos da mão do Homo naledi eram parecidos com os de um humano, enquanto os dedos longos e encurvados pareciam mais com os de símios.

Crânio de Homo naledi, encontrado em sítio arqueológico localizado próximo a Johannesburgo, na África do Sul .

Crânio de Homo naledi, encontrado em sítio arqueológico localizado próximo a Johannesburgo, na África do Sul .

Enquanto os Homo naledi prosperaram na África, uma espécie misteriosa podia ser encontrada em uma ilha hoje chamada Flores, na Indonésia. Denominada Homo floresiensis, essa espécie de hominídeo media apenas 90 centímetros e seu cérebro era ainda menor do que o do Homo naledi. Acredita-se que tenha chegado a Flores há 700 mil anos e resistido pelo menos até 60 mil anos. Além disso, é possível que tenha produzido ferramentas de pedra para caçar e abater elefantes-pigmeus que habitavam a ilha.

Paleoantropólogos não se limitam mais a apenas examinar o tamanho e a forma dos fósseis. Nos últimos 20 anos, geneticistas aprenderam a extrair DNA de ossos de dezenas de milhares de anos. Em uma extraordinária descoberta feita na Sibéria, pesquisadores que analisavam o osso de um mero dedo mindinho descobriram o genoma de uma nova linha de hominídeos, agora conhecidos como denisovans.

Ao que tudo leva a crer, habitamos o planeta de forma exclusiva há apenas 40 mil anos –uma pequena fração, considerando a longeva existência do Homo sapiens. Talvez tenhamos superado outras espécies. Talvez elas tenham tido azar na loteria da evolução. De qualquer maneira, ainda vivemos juntos. Tanto os neandertais quanto os denisovans cruzaram com nossos antepassados há 60 mil anos e, hoje, bilhões de pessoas carregam seu DNA. Mesmo depois de todo esse tempo, seguimos como mosaicos.