Saiba o que é o aquecimento global

Desde quando começamos a registrar e comparar as temperaturas pelo mundo, todos os anos mais quentes que vimos aconteceram na última década. Em 2022, tanto o Polo Sul quanto o Polo Norte registraram temperaturas anormais, com mais de 30 graus Celsius acima da média. Esses provavelmente serão os anos mais frios daqui para frente. Nosso planeta está ficando mais quente diante dos nossos olhos, e cada vez mais rápido. A gente até esperava anomalias de temperaturas mais quentes nos polos, mas em um futuro distante. Nós somos os responsáveis por acelerar esse aquecimento, por mais que haja quem questione e quem tenha que negar esses fatos. Está cada vez mais difícil tapar o sol com a peneira, ainda mais porque estamos aumentando a capacidade do planeta de absorver o calor desse sol.

Nessa série sobre meio ambiente e sustentabilidade, está na hora de falarmos do grande desafio que a nossa geração e as próximas gerações precisarão resolver: o aquecimento global. Na maior parte do tempo, a capacidade da Terra de absorver o calor do sol nos trouxe muitos benefícios. Nosso planeta está muito longe do Sol, e se dependesse só da luz que recebemos dele, a água da Terra poderia estar congelada. Mas ela é encontrada quase que no planeta todo, de forma líquida, e a vida como nós conhecemos por aqui depende disso.

O que mantém a água nessa temperatura ambiente, ou essa temperatura ambiente alta o suficiente para a água ficar líquida, é a capacidade do nosso planeta de absorver e armazenar parte do calor que recebe, ao invés de devolver tudo para o universo. Esse é o efeito estufa que viabiliza a vida. O que não quer dizer que esse fenômeno só traz benefícios.

O Sol influencia o clima da Terra, e radiando energia, parte dessa energia solar que chega e atinge o topo da atmosfera da Terra é refletida diretamente de volta para o espaço, mas o restante é absorvido pela superfície, em menor grau pela atmosfera, equilibrando a energia absorvida. A Terra devolve a mesma quantidade de energia de volta para o espaço, mas grande parte dessa radiação térmica que é devolvida pela Terra e pelos oceanos é absorvida pela atmosfera.

Você já percebeu que noites nubladas geralmente são mais quentes do que as noites com céu aberto? Isso acontece porque, nas noites nubladas, tem mais vapor de água na atmosfera, o que absorve mais calor do que a terra recebeu durante o dia e mantém ele por aqui. Isso porque o vapor da água é um gás de efeito estufa, o nome que ele recebe porque ajuda a manter o calor do sol por aqui. Se você pensar em gases do efeito estufa, tenho quase certeza que o que vem na sua cabeça é o gás carbônico ou dióxido de carbono. Mas o CO2 não é o único gás capaz de reter calor; ele é apenas um dos vários gases de efeito estufa, como metano, óxido nitroso, ozônio e o vapor de água.

Cada gás de efeito estufa tem um potencial de aquecimento global específico, medido de acordo com dois fatores principais: a eficácia do gás em reter na atmosfera e quanto tempo ele permanece na nossa atmosfera até se decompor. Por exemplo, o vapor de água é o gás mais comum, mas dura na atmosfera só alguns dias. O dióxido de nitrogênio, encontrado principalmente nos fertilizantes, é 265 vezes mais potente em reter calor do que o CO2, mas não é tão comum. Já o gás carbônico não é o mais poderoso na absorção de calor, mas pode levar milhares de anos para sair da atmosfera.

Vários componentes do sistema climático, como os oceanos e os seres vivos, afetam as concentrações atmosféricas desses gases de efeito estufa. As plantas, por exemplo, podem retirar o CO2 da atmosfera com a fotossíntese e incorporar esse carbono na forma de moléculas orgânicas, crescendo um sistema climático que convivia em equilíbrio até o começo da era Industrial.

Essa virada de chave, que é a era Industrial, aconteceu porque foi aí que nossas atividades passaram diretamente da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento de florestas. A gente já podia causar grandes efeitos no planeta até então, mas com a Revolução Industrial, passamos a fazer isso numa escala muito maior. Luiz Carlos Industrial. E aí, passamos a depender economicamente dessa capacidade de emitir carbono. Nossa produção de energia está principalmente vinculada a quanto gás carbônico produzimos.

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Isso identifica o efeito estufa natural e causou e causa o que conhecemos hoje como aquecimento global. Aliás, conhecemos hoje não porque já sabemos desse efeito do gás carbônico há bastante tempo. Em 1896, o cientista sueco Svante Arrhenius publicou essa ideia. Ele disse que, à medida que a humanidade queimasse combustíveis fósseis como o carvão, que adiciona mais gás carbônico na atmosfera da Terra, nós aumentaríamos a temperatura média do planeta. Essa ideia podia até parecer estranha para a comunidade científica naquela época, mas conforme as pesquisas do clima avançaram, ficou cada vez mais claro que essa ideia está certa.

A grande questão é que é bem complicado convencer as pessoas de que a ação delas pode ter um efeito grave na natureza quando mudar isso implica em mudar o modelo econômico que seguimos. Tanto que vemos o movimento crescente de negacionismo do clima pelas últimas décadas. Só que, com o aumento da temperatura global e com os fenômenos como os que citamos no começo do vídeo, está ficando cada vez mais difícil fugir dessa verdade. Nossa ação no aquecimento do planeta é clara, mas sempre foi contestada. A gente precisou de um coletivo de cientistas, que é o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC),

Para se reunir, analisar e compilar os dados de toda a comunidade científica, para poder afirmar de maneira categórica, em 2007, os cientistas estavam mais confiantes do que nunca que nós, humanos, estamos mudando o clima. E hoje, de acordo com o último relatório do IPCC de 2021, os aumentos que nós vemos nas concentrações de gases de efeito estufa são inequivocadamente causados por atividades humanas, e essa relação é tão clara que a gente pode inclusive estimar o impacto das nossas emissões em diferentes cenários, seguindo diferentes modelos de produção de energia que envolvem mais ou menos emissão de gases de efeito estufa.

O que é o papel mais importante do IPCC atualmente, que é entender o quanto a gente pode afetar o clima do planeta em cada situação e o impacto cada uma delas pode ter com base nesses modelos de emissão de gases. O IPCC projeta várias trajetórias globais que a gente pode seguir durante esse século e como o planeta vai ser afetado em cada caminho desses, onde a gente reduz ou aumenta a nossa emissão de gás carbônico atual.

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O painel estima, por exemplo, que se a gente mantiver o ritmo atual de emissão de gases de efeito estufa, a temperatura média do planeta subirá de quatro a sete graus Celsius até o final do século. O que é insano porque até agora o aquecimento induzido por nós já atingiu cerca de 1°C acima dos níveis pré-industriais e se o planeta continuar aquecendo nesse ritmo, a gente chega a um grau e meio por volta de 2040.

E aí, talvez um grau e meio pareça pouco para você, que afinal no nosso dia a dia a gente encontra variações de temperatura muito maiores do que isso, como as diferenças entre um dia e uma noite, uma cidade ou campo, verão ou inverno, dentro ou fora das residências. E por aí vai. Só que a grande questão é: não é só um grau e meio. Um aumento de 1,5 graus Celsius na temperatura média global da superfície quer dizer um aquecimento muito maior do que um grau e meio em muitas regiões terrestres e inferior a um grau e meio na maioria das regiões oceânicas.

E como a gente viu ao longo dessa série de Meio Ambiente e Sustentabilidade, a mudança do clima tem efeitos diretos e indiretos para a sociedade e os ecossistemas que vivem no planeta. Junto desse aquecimento, a gente tem mais derretimento de gelo, um maior aumento do nível dos mares, mais eventos climáticos extremos e milhões e milhões de mais refugiados do clima, saindo de onde a vida como a gente conhece se tornou impraticável.

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Por isso, muitos se referem a essa mudança que nós estamos vivendo como uma catástrofe climática. A diferença entre uma trajetória onde a gente passa a emitir menos gases estufa até zerar nossa emissão de gás carbônico e reduzir muito a emissão de metano até 2100 e uma trajetória onde a gente continua emitindo cada vez mais gases estufa, como nós fizemos pelos últimos anos, pode significar chegar em 2100 com um planeta um grau Celsius mais quente do que a média do começo dos anos 2000 ou cinco graus mais quente.

E essa diferença implica no aumento do nível do mar com degelo dos polos, de menos de meio metro até 2100 no cenário de redução ou mais de um metro se a gente continuar na tendência atual, com a probabilidade do nível do mar subir mais de 5 metros até o ano 2300 com o degelo da Groenlândia. Ou da gente chegar no ano 2500 com a Amazônia impactada, mas que superou esse pequeno aumento de temperatura no melhor cenário, ou uma Amazônia que foi desertificada por causa da queda da chuvas com o aumento maior de temperatura.

Ou a diferença entre algumas regiões excepcionais, ou meio mundo passando meses acima de 38 graus Celsius e uma unidade que torna a vida humana impossível sem ar condicionado. Por causa dessas questões e dessas diferenças todas entre os cenários, a gente precisa estabelecer medidas e metas para o mundo todo. Na vigésima primeira conferência entre as partes sobre o clima da ONU de 2015, 195 países assinaram o Acordo de Paris e o acordo aí foi tentar manter o aumento da temperatura média global abaixo de dois graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais.

Tentando limitar isso até um grau e meio, apesar do Brasil ter assinado a esse acordo de Paris, nós estamos entre os cinco maiores poluidores do mundo, junto com China, Estados Unidos, Rússia e Índia. Só em 2021, nós emitimos 2,42 bilhões de toneladas de gás carbônico. O que é o maior aumento das nossas emissões dos últimos 19 anos. E esse aumento foi generalizado; quase todos os setores da economia tiveram um aumento forte. Por exemplo, o setor de energia emitiu equivalente a 435 milhões de toneladas de gás carbônico em 2021, o que dá um aumento de 12,2% em relação a 2020. O que é a maior alta desde o milagre econômico de 73 durante a ditadura militar.

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Sobre o que a gente vai falar no próximo e último vídeo dessa série aqui. E se o Agro brasileiro fosse um país, ele seria o décimo sexto maior emissor do planeta. Na frente da África do Sul. Só no ano passado, a agropecuária emitiu equivalente a 601 milhões de toneladas de gás carbônico. O metano produzido pelo gado é a principal emissão, quase 80% delas, como a gente já explicou no vídeo de insegurança alimentar dessa série aqui.

Mas o grande responsável pelo aumento de emissão de gases de efeito estufa no Brasil foi o desmatamento, sobre qual a gente já falou também em outro vídeo por aqui. Quase metade de todas as emissões do nosso país foram causadas por mudanças de uso da Terra em 2021. O desmatamento da Amazônia foi responsável por 77% das emissões por conta de mudança de uso de terra. Só a destruição dos biomas brasileiros sozinha emitiu equivalente a 1,19 bilhões de toneladas de gás carbônico. O que é mais do que o Japão inteiro no mesmo período.

E no mesmo ano em que nós tivemos esse aumento nas emissões de gases de efeito estufa, sai uma pesquisa sobre a percepção dos brasileiros em relação a mudanças climáticas. De acordo com esse relatório, a grande maioria dos brasileiros se importa com a questão do aquecimento global, o que já é um bom primeiro passo para a gente poder começar a pensar em que mudanças podemos adotar por aqui. Isso porque, quando a gente compara as visões entre brasileiros e norte-americanos, por exemplo, sobre o que a gente pensa de mudanças climáticas, é possível perceber que há maior consenso sobre isso aqui no Brasil.

A parcela dos brasileiros que acredita que o aquecimento global está acontecendo, que ele existe e que ele é causado principalmente por causa da ação humana já é maior do que a dos norte-americanos. E enquanto por aqui 76% das pessoas consideram que o aquecimento global é um consenso entre cientistas, nos Estados Unidos só 59% das pessoas pensam isso. Mesmo essa desconfiança toda com o aquecimento global por conta de uma parte da população acontece porque a questão climática é muito politizada.

Tanto que, em 1991, a Western Fuels Association, que é uma empresa de fornecedores de carvão dos Estados Unidos, pagou mais de meio milhão de dólares em uma campanha com o objetivo principal de reposicionar o aquecimento global de fato para uma teoria. Parecido com os casos que nós contamos no vídeo aqui sobre eventos extremos, a construção desse discurso negacionista de mudanças climáticas é de grande interesse para quem comanda e para quem lucra em vários setores econômicos.

Isso é porque se o aquecimento global fosse causado só por fatores naturais, como ciclos naturais, atividades do sol ou vulcões, entre outros fatores, a gente ainda precisaria de uma adaptação, mas nada que tivesse que mudar a nossa lógica produtiva, nem a nossa economia. Mas como o aquecimento global está sendo causado pelo ser humano, por nosso trabalho econômico, é preciso pensar em uma economia global que emita menos carbono. E isso desafia todo o modo de produção moderno que a gente tem, os modelos de negócios e as características relacionadas a isso, além de tornar fontes de gás carbônico e petróleo muito menos lucrativas e mexer no bolso de alguns.

E como mudanças no sistema econômico e no sistema produtivo enfrentam muita resistência política, algumas abordagens alternativas acabam sendo propostas para tentar combater o aquecimento global. Por exemplo, em janeiro de 2020, o Fórum Econômico Mundial lançou a One Trillion Trees, que é um movimento global para poder cultivar, restaurar e conservar árvores do planeta todo. Um trilhão de árvores, que também é o alvo de outras organizações que coordenam projetos globais de reflorestamento, o que pode ser uma boa fonte de sequestro de carbono.

Mas nem sempre é assim que essa ideia funciona. As florestas da Terra absorvem em média 16 bilhões de toneladas de gás carbônico todo ano. Então faz sentido que o reflorestamento seja apontado como solução chave para crise climática. Mas, na verdade, o plantio de árvores sem planejamento e mal executado pode acabar aumentando as emissões de gás carbônico, além de ter impactos negativos sobre a diversidade e os meios de subsistência no longo prazo. Como foi o caso do Chile, que desde 1974 incentiva proprietários de terras privadas a plantar árvores com subsídios.

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Só que esse incentivo permite que os proprietários de terras troquem as florestas nativas por outras plantações mais lucrativas. E o que observaram lá foi que as novas plantações do Chile não só não aumentaram o armazenamento de carbono como também aceleraram a perda de biodiversidade. Além disso, a gente ouve muito se falar sobre as árvores e pouco sobre outros ecossistemas que armazenam carbono. As savanas e as pastagens naturais podem ter poucas árvores, mas são regiões que armazenam o carbono no solo.

E aí, quando a gente leva em conta o carbono do solo, esse benefício de absorção de carbono do plantio de árvores pode cair para cerca de um quinto da estimativa original. Ou seja, quando é feita com responsabilidade, a restauração de árvores pode até ser uma ferramenta bastante eficaz para mitigar as mudanças climáticas. Mas o corte de emissões continua sendo a prioridade no combate ao aquecimento global, assim como o investimento em tecnologias limpas e energias renováveis.

E para tentar mostrar uma mudança de atitude do governo em relação à questão climática, o Brasil assumiu um novo compromisso na COP 26: reduzir pela metade as suas emissões de gases de efeito estufa até 2030. O que parece ótimo, mas na verdade é um compromisso que a gente já tinha assumido lá em 2015. Ele só aparece melhor agora porque no último compromisso assumido em 2020, o Brasil literalmente reduziu a distribuição no combate às mudanças climáticas. Ou seja, a gente piora para depois dizer que melhora, para voltar para o mesmo.

O Brasil chegou no final da COP 26 com o mesmo nível de ambição que se comprometeu em Paris 6 anos antes. E essa meta ainda não é suficiente para alcançar o objetivo que a gente falou no começo do vídeo de conter o aumento da temperatura do planeta em até um grau e meio em relação aos níveis pré-industriais.

Dentre os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável da ONU, o objetivo 13 foca na ação contra a mudança do clima. Mas se a gente olhar para as metas desse objetivo, o Brasil só tem retrocessos. Segundo dados do sistema integrado do orçamento do governo federal, que é o CIOP, a gestão atual cortou 93% dos gastos para estudos e projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas nos três primeiros anos de mandato. Foram 31 milhões investidos entre 2016 e 2018, contra 2,00 investidos entre 2019 e 2021.

A gente pode e deve fazer mais do que isso, reduzir a nossa emissão de carbono é cuidar do futuro, fomentando iniciativas que já podem dar lucro e resultados agora. E eu termino esse vídeo aqui com uma frase do Tasso Azevedo, coordenador do sistema de estimativas de emissões de gases de efeito estufa do Observatório do Clima: o Brasil tem as ferramentas de política pública, a tecnologia e os recursos para mudar sua trajetória, mas é preciso que o governo e a sociedade entendam que isso é fundamental para dar segurança para a população em tempos de eventos extremos acelerados, e também para poder alavancar nossa economia.

fonte = https://www.youtube.com/watch?v=sgBF3XrJhvY&

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