Brasileiro que descobriu aglomerados estelares pede investimento em ciência

Astrônomos brasileiros anunciaram recentemente a descoberta de dois aglomerados estelares distantes dos locais habituais de formação de estrelas. Batizados de Camargo 438 e Camargo 439, os aglomerados estão em uma região remota da Via Láctea, onde não se esperava que estrelas pudessem nascer. Essa é a primeira vez que cientistas encontraram estrelas sendo formadas em locais tão afastados na nossa galáxia.

Aglomerados estelares Camargo 438 e 439

Aglomerados estelares Camargo 438 e 439


A Via Láctea tem o formato de um disco espiral achatado. A maioria das estrelas nasce em aglomerados estelares na parte “mais interna do disco”. Os astrônomos sabem da existência de nuvens distantes do disco há algum tempo, mas os indícios sugeriam que elas eram pequenas e apresentavam densidade muito baixa para formar estrelas, explica o astrofísico Denilso Camargo, cientista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que liderou a pesquisa e deu seu nome aos aglomerados.

Qual é o impacto dessa descoberta para a astronomia hoje?

Denilso Camargo – O grupo formado por mim e pelos pesquisadores Eduardo Bica, Charles Bonatto e Gustavo Salerno descobriu dois aglomerados estelares localizados numa região remota da Via Láctea, onde não se esperava que estrelas pudessem nascer. Se antes considerávamos que na Via Láctea estrelas se formavam exclusivamente no disco ou próximo dele, temos agora um novo ingrediente para enriquecer os modelos de formação e evolução das galáxias parecidas com a nossa.

Como foi feita a descoberta?

Eu costumo procurar por novos aglomerados nos mapas do WISE (Wide-field Infrared Survey Explorer – uma espécie de mapa da Via Láctea) em baixas latitudes, ou seja, no disco da Via Láctea ou próximo dele –que é onde se encontra a maior parte das nuvens moleculares que estão formando estrelas. No final de 2014, após ler um artigo sobre nuvens de altas latitudes que são, em geral, pequenas e pouco densas e, por isso, não formam estrelas, eu resolvi olhar para a vertical (para cima e para baixo) buscando formações estelares. Depois de muitos dias buscando, me deparei com dois candidatos e os enviei para Eduardo Bica e Charles Bonatto, para que também dessem um parecer. No dia seguinte (13 de outubro de 2014), o Bica mandou um e-mail bastante entusiasmado dizendo que eu tinha feito uma “descoberta muito importante” e que deveríamos manter sigilo até que o artigo fosse publicado. Convidamos o Gustavo Salerno para fazer uma simulação da trajetória desses aglomerados, enquanto escrevíamos o artigo. Submetemos o artigo à revista “Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (MNRAS)” e ele foi rapidamente aceito, com o árbitro dizendo que o artigo seria possivelmente inovador. A equipe da revista sugeriu que entrássemos em contato com Robert Massey, que é o assessor de imprensa, para divulgar o trabalho.

Como a Nasa ficou sabendo antes da publicação?

Na madrugada do dia 27 de fevereiro, eu estava esperando que o Robert liberasse a notícia, quando recebi um e-mail da assessora de imprensa da Nasa (agência espacial americana). Eles queriam fazer uma imagem mostrando como um habitante de um planeta orbitando uma das estrelas dos aglomerados Camargo 438 e Camargo 439 veria a nossa galáxia. Seguramos a liberação da notícia para incluir a imagem. Em poucos minutos eu estava respondendo perguntas de jornalistas do mundo todo! Enquanto respondia aos jornalistas, eu me lembro de ter mandado um e-mail para os meus colegas dizendo: acho que vamos bombar nesta manhã! No início da manhã, o nosso trabalho estava sendo anunciado no mundo todo. A notícia saiu em várias publicações e idiomas, já encontrei em inglês, espanhol, alemão, italiano, austríaco, lituano, russo, chinês, japonês, turco e árabe. Sabíamos que tínhamos realizado algo importante, mas não esperávamos tamanha repercussão.

Se for confirmada a possibilidade de que os aglomerados estelares Camargo 438 e 439 são mesmo os primeiros a se formar fora da nossa galáxia, que tipo de estudo poderemos ter daqui para frente?

Teremos que considerar e estudar o impacto desses objetos na formação e evolução da nossa galáxia, principalmente a influência na composição química (metalicidade) da Via Láctea.

O fato de que cientistas brasileiros estão envolvidos numa descoberta tão importante abre mais espaço para o país em termos de pesquisas em astronomia?

Sim, com certeza. Quando cientistas brasileiros realizam pesquisas com impacto em nível mundial (e não são poucos os que as fazem), eles chamam a atenção para a qualidade da pesquisa realizada no Brasil. No entanto, para melhor aproveitarmos os nossos talentos, são necessários investimentos financeiros que nos possibilitem igualdade de condições com os pesquisadores de outros países. Por exemplo, a entrada do Brasil no ESO (European Southern Observatory – que dá acesso aos melhores telescópios do mundo) é crucial para o desenvolvimento científico no nosso país.

O senhor acha que desde o ano passado, principalmente com a cobertura intensa sobre o pouso do robô Philae no cometa 67P, a ciência — e principalmente a astronomia– voltou a ser um assunto que faz as pessoas sonharem, como aconteceu no início da corrida espacial?

Com certeza. A imprensa tem um papel importante na garimpagem de novos talentos para as ciências, em especial a astronomia. É preciso que as crianças e adolescentes sonhem em ser cientistas, do mesmo modo que muitos sonharam em ser astronautas no passado. Temos hoje no Brasil excelentes centros de pesquisa, com pesquisadores se destacando em várias áreas do conhecimento e a divulgação de seus resultados pode mostrar aos nossos governantes que vale a pena investir na ciência brasileira.

Em quais outros estudos o senhor está envolvido?

Há algum tempo eu, Charles Bonatto e Eduardo Bica estamos desenvolvendo um projeto na Universidade Federal do Rio Grande do Sul onde procuramos por novos aglomerados estelares, especialmente os jovens, que ainda não tiveram tempo de se afastar muito do local de nascimento. Como a maioria dos aglomerados nasce nos braços espirais, estamos traçando o padrão espiral da Via Láctea. Mas, com a descoberta de Camargo 438 e Camargo 439, a nossa área de pesquisa se ampliou.

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