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Com poluição luminosa, luzes de LED aumentam riscos de câncer e diabetes.

Acreditava-se que provocariam uma revolução energética, mas a popularidade das luzes de LED está gerando um aumento da poluição luminosa no mundo, com consequências nefastas para a saúde dos humanos e dos animais, disseram pesquisadores nesta quarta-feira.

Com poluição luminosa, luzes de LED aumentam riscos de câncer e diabetes.

Com poluição luminosa, luzes de LED aumentam riscos de câncer e diabetes.

O estudo, publicado na revista “Science Advances”, se baseia em dados de satélite que mostram que a noite na Terra está se tornando mais brilhante, e as áreas exteriores iluminadas artificialmente aumentaram a um ritmo anual de 2,2% entre 2012 e 2016.

Os especialistas dizem que isso é um problema porque as luzes noturnas interrompem nossos relógios biológicos e aumentam os riscos de câncer, diabetes e depressão.

Para os animais, podem ser fatais, seja atraindo insetos ou desorientando as aves migratórias e as tartarugas marinhas.

A questão não é apenas as luzes de LED, que são mais eficientes porque necessitam menos eletricidade para proporcionar a mesma quantidade de luz, explicou o autor principal Christopher Kyba, físico do centro alemão de pesquisa para geociências GFZ. O problema é que as pessoas continuam instalando cada vez mais luzes.

“Iluminamos coisas que não iluminávamos antes, como uma ciclovia em um parque ou uma estrada que leva aos arredores da cidade”, ilustrou. “Todos esses novos usos da luz compensam, até certo ponto, as economias que tivemos”.

O estudo se baseou no primeiro radiômetro projetado especialmente para luzes noturnas: o Visible/Infrared Imager Radiometer Suite (VIIRS), montado em um satélite da Administração Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos que orbita a Terra desde outubro de 2011.

“Com poucas exceções, o aumento na iluminação ocorreu na América do Sul, África e Ásia”, apontou o estudo.

As raras reduções foram observadas em lugares afetados por conflitos, como a Síria e o Iêmen.

Algumas das zonas mais brilhantes do mundo, como Itália, Holanda, Espanha e Estados Unidos, eram relativamente estáveis.

Os pesquisadores também advertiram que os dados do satélite provavelmente subestimaram a iluminação geral, porque não foi possível captar os comprimentos de onda azuis que são proeminentes em muitas luzes de LED.

O excesso de luz noturna danifica os habitats naturais e torna impossível a observação de estrelas. Além disso, custa quase sete bilhões de dólares por ano em “impactos negativos na vida silvestre, na saúde, na astronomia e na energia desperdiçada”, segundo um estudo de 2010 publicado na revista Ecological Economics.

Você só usa 10% do cérebro? Pode aprender idiomas dormindo? Conheça 6 mitos sobre a mente

Complexidade do órgão acabou estimulando o surgimento de diversas crenças populares; a BBC esclarece o que a ciência de fato diz sobre isso.

Complexidade do órgão acabou estimulando o surgimento de diversas crenças populares; a BBC esclarece o que a ciência de fato diz sobre isso.

Estudos mostraram que usamos mais de 10% do cérebro mesmo em tarefas mais simples (Foto: BBC)

cérebro humano é estudado há séculos, mas ainda se sabe muito pouco a respeito deste “supercomputador”.

A complexidade do órgão acabou estimulando o surgimento de diversas crenças populares sobre a mente.

Selecionamos a seguir uma lista de seis mitos que costumam ser propagados:

1 – Você usa apenas 10% do cérebro

Uma simples ressonância magnética pode acabar com essa teoria. Cientistas já provaram que nós usamos mais de 10% do cérebro ao executar simples tarefas – como falar.

A origem do mito pode estar relacionada ao estudo clássico de William James, The Energies of Men (1908), no qual o psicólogo afirma que utilizamos apenas uma pequena parte da capacidade mental. No entanto, ele não especifica a porcentagem.

Outra explicação pode ser a falta de compreensão em relação ao complexo campo da neurociência. Os neurônios da massa cinzenta são responsáveis pelo poder de processamento do cérebro e correspondem a uma em cada dez células cerebrais.

As outras células, conhecidas como células gliais (massa branca), oferecem apoio e nutrição aos neurônios, mas não ajudam no poder de processamento. A teoria de que seria possível aproveitar as células gliais e capacitá-las para desempenhar o papel do neurônio é pura fantasia. Então se alguém disser para você “usar todo o seu cérebro”, responda que você já está fazendo isso.

2 – Você pode aprender línguas dormindo

Outra crença comum é sobre a capacidade de aprender uma língua durante o sono. Ao deitar, bastaria colocar um CD com aulas de francês, por exemplo, e, pronto! Absorveríamos todo o conteúdo enquanto dormimos.

A eficácia da técnica tem sido contestada, no entanto, desde o experimento de Charles Simon e William Emmons (1956), que não encontrou qualquer evidência de que seria possível aprender algo durante o sono.

Já o estudo de Thomas Schreiner e Björn Rasch (2014) mostrou que ensinar palavras em holandês durante um movimento ocular mais lento ou ao acordar melhora a capacidade de memorizar o vocabulário. Ainda assim, a margem de melhoria foi pequena. Ou seja, os métodos tradicionais ainda são os mais recomendados para o aprendizado de idiomas.

3 – Ouvir Mozart torna a criança mais inteligente

O termo “efeito Mozart” surgiu a partir de um artigo publicado pela Universidade da Califórnia em 1991, que detalhava um estudo feito com 36 estudantes. Os que ouviram Mozart por 10 minutos antes de uma atividade mental – que tinha como objetivo testar uma habilidade visual espacial específica – se saíram melhor do que aqueles que haviam aguardado em silêncio.

Apesar da limitação óbvia da pesquisa, que contou com um número pequeno de participantes – e do fato de que nenhum deles era criança –, o resultado inspirou o surgimento de diversos produtos destinados aos pais e que foram colocados à venda com a promessa de potencializar a inteligência de seus filhos.

Em 2010, uma análise de vários estudos constatou que ouvir música ou outro tipo de conteúdo teria um impacto num curto prazo na capacidade de manipular formas mentalmente, mas não encontrou evidências para sustentar um possível impacto no quociente de inteligência (QI) das pessoas.

4 – Você pensa com o lado direito ou esquerdo do cérebro?

Se você acredita que tem um cérebro “intuitivo”, porque usa mais o lado direito, ou “analítico”, por acionar mais o hemisfério esquerdo, está enganado. A teoria de que um dos lados do cérebro tem influência significativa na personalidade da pessoa é um mito.

É verdade que algumas funções cerebrais encontram um suporte maior em determinado hemisfério do cérebro. Um exemplo é o idioma, controlado predominantemente pelo lado esquerdo. No entanto, aspectos da comunicação, como a modulação de voz, são guiados por regiões do lado direito. Ou seja, um simples bate-papo provoca reações complexas em ambos os lados.

A tecnologia moderna oferece uma visão mais precisa que contradiz crenças históricas. Um estudo da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, divulgado na publicação científica Plos One, examinou cada par de 7.266 regiões do cérebro em mais de mil indivíduos, enquanto eles executavam pequenas tarefas.

O estudo não encontrou, no entanto, evidências claras para sugerir que os participantes estavam usando fortemente o lado esquerdo ou direito.

Como seres humanos, temos tendência a agrupar objetos ou pessoas em conjuntos ou categorias que nos ajudem a organizar e entender o desconhecido. É essa tendência humana que pode ter influenciado a propagação deste mito tão popular.

5 – Álcool mata células do cérebro

Acordar com a cabeça latejando após uma noite de bebedeira pode dar a impressão de que o álcool destruiu milhares de células do seu cérebro, mas a boa notícia é que isso provavelmente não aconteceu.

Grethe Jensen (1993) comparou amostras de neurônios de pessoas que bebiam álcool e que não bebiam. Os resultados não apresentaram diferenças perceptíveis no número ou na densidade de células do cérebro.

Pesquisas sugerem, no entanto, que apesar de o álcool não matar as células, ele pode ter um impacto negativo significativo no comportamento delas, alterando as ligações entre os neurônios no cérebro, o que afeta a forma como as células se comunicam entre si.

Um estudo publicado na revista Neuroscience também descobriu que quantidades moderadas de álcool alteram a produção de novos neurônios no hipocampo de um adulto, um processo chamado neurogênese – o que pode ter efeito na aprendizagem e na memória.

6 – Dano cerebral é sempre permanente

A gente costuma ouvir que qualquer dano cerebral é permanente. Mas um dos feitos notáveis deste órgão é que, em certas circunstâncias, é possível que ele consiga recuperar uma lesão, dependendo da localização e da gravidade.

Uma concussão pode ser uma interrupção temporária das funções do cérebro, mas, desde que não haja traumatismo posterior na cabeça, o cérebro pode se recuperar completamente.

O cérebro também pode se adaptar a lesões ainda mais graves em um processo chamado neuroplasticidade, que se refere à capacidade do cérebro de redirecionar suas funções desativadas por condições mais sérias, como um acidente vascular cerebral.

Ratos, peixes, moscas: para que serve o pequeno zoológico do espaço?

No espaço, os animais como ratos, peixes e moscas são usados para fazer com que a pesquisa médica avança, explica à AFP a bióloga Julie Robinson, cientista-chefe da Nasa para a Estação Espacial Internacional (ISS).

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P: Em nossa época, é concebível enviar cães, gatos ou macacos ao espaço como nas primeiras décadas da conquista espacial?

R: Não temos previsto fazer isso por uma série de motivos. Um deles é que não temos os mesmos objetivos de quando enviávamos animais ao espaço.

No início, usamos estas espécies porque temíamos que os mamíferos em geral não fossem capazes de sobreviver na ausência de gravidade. Acreditávamos que os humanos corriam o risco, por exemplo, de se asfixiar. Não tínhamos sequer ideia do que ia acontecer.

Agora sabemos que os humanos sobrevivem no espaço. Por isso, não precisamos recorrer a este tipo de animais.

Hoje em dia enviamos ao espaço animais pequenos, em grande quantidade, para a pesquisa biomédica.

Usamos roedores, moscas drosófilas, peixes, vermes. Queremos dispor de amplas amostras. Tentamos ter entre 20 e 40 animais para realizar estudos estatisticamente válidos.

Cada um desse estudos está destinado a resolver um tema médico em particular, geralmente com o objetivo de avançar no âmbito da saúde dos seres humanos.

P: Estes animais pequenos são treinados antes de partir e como se adaptam no espaço?

R: Para cada experimento realizado no espaço, os astronautas devem treinar e a mesma coisa acontece com os animais. Devem aprender como atuar em seu habitat e como devem realizar as atividades previstas.

Os roedores vivem em jaulas especiais, onde têm água e comida.

Os peixes nadam em aquários que têm a parte alta fechada para que a água não saia devido à falta de gravidade. Eles se adaptam muit rápido à vida no espaço.

Os ratos experimentam algo parecido com a tripulação. Quando chegam à ISS e começam a flutuar, se surpreendem, mas aprendem logo a utilizar seu habitat, a beber, comer, dormir de uma forma bastante normal.

O lançamento é uma experiência estressante para eles, como é para os astronautas. Mas, uma vez no espaço, vivem uma experiência relativamente tranquila. Eles se adaptam muito bem.

No futuro temos previsto enviar ratos à estação.

P: Por que continuam estudando esses animais? São tomadas precauções para seu bem-estar?

R: As pesquisas realizadas com ratos na ISS são parecidas com as feitas na Terra com esses animais.

Abarcam os âmbitos os quais tentamos melhorar a saúde dos humanos, em particular a osteoporose e a perda muscular.

Na estação espacial, onde se encontram em condição de microgravidade, esses pequenos animais flutuam como os humanos e se não fazem exercício, perdem a densidade óssea. Seus músculos se debilitam.

Nos ratos, esses processos se desencadeiam rapidamente e seu estudo pode permitir o desenvolvimento de tratamentos para atuar contra a perda da densidade óssea nos seres humanos.

Nossas pesquisas geralmente perseguem um duplo objetivo. Queremos reduzir os riscos para os astronautas que participarão nas futuras explorações espaciais além da órbita terrestre.

Mas também queremos que nosso trabalho tenha um impacto na Terra. Porque estes processos de perda óssea e muscular acontecem com o envelhecimento.

Todos estes experimentos são extremamente importantes.

Cuidamos muitos para que sejam cumpridos os critérios estipulados pela lei sobre o uso de animais. Um comitê independente se assegura de que tudo seja feito com ética e que as pesquisas sejam úteis.

Filhotes de lobo são fofos, mas por que não podem ser criados como cães?

Estou sentado em uma área cercada, ao ar livre, com quatro filhotes mordendo meus dedos, meu chapéu e meu cabelo, urinando em mim por causa da excitação.

Com dois meses de idade, têm 60 cm do nariz à cauda e devem pesar sete ou oito quilos. Eles rosnam disputando a posse de um pedaço mastigado de pele de veado. Lambem meu rosto como se eu fosse um amigo querido, ou um brinquedo novo. Eles são como cachorrinhos, mas não muito. São lobos.

Quando chegarem a pesar uns 45 kg, suas mandíbulas serão fortes o suficiente para quebrar os ossos de um alce, mas, porque viveram com seres humanos desde o nascimento, quando ainda não conseguiam enxergar, ouvir ou ficar em pé, vão permitir pessoas à sua volta, exames veterinários, carinho atrás da orelha – se tudo correr bem.

Mesmo assim, os humanos que os criaram devem tomar precauções. Se uma pessoa que os alimentou e que cuidou deles praticamente desde o nascimento estiver ferida ou adoentada, ela não vai entrar na área cercada, pois precisa evitar uma reação predatória. Ninguém sairá correndo para fazer um desses lobos persegui-lo por diversão. Ninguém vai fingir correr atrás de um lobo. Todo cuidador experiente fica alerta. Porque se há uma coisa com a qual todos os especialistas em lobos e cães com quem conversei ao longo dos anos concordam, é que:

Não importa a maneira em que criou um lobo, você não pode transformá-lo em cachorro.”

Lobos x cachorros

Andrew Spear/The New York Times

Independentemente da proximidade dessas duas espécies — e alguns cientistas as classificam como a mesma – existem diferenças. Fisicamente, a mandíbula do lobo é mais poderosa. Eles se reproduzem apenas uma vez por ano, não duas, como os cães. E, segundo seus cuidadores, em termos comportamentais, seus instintos predatórios são facilmente atiçados, se comparados com os dos cães.

São mais independentes e possessivos em relação à comida ou outros itens. Muitas pesquisas sugerem que tomam mais cuidado com os filhotes. E nunca chegam perto do nível da cordialidade “eu-amo-os-humanos” de um Labrador. Não importa o quanto um treinador ou um fabricante de ração promovam o lobo interior em nossos cães, eles não são a mesma coisa.

O consenso científico é que os cães evoluíram a partir de algum tipo de lobo extinto há 15 mil anos ou mais. A maioria dos pesquisadores agora não concorda com a ideia de que um filhote era abduzido da ninhada, mas sim a de que alguns lobos começaram a passar mais tempo com as pessoas para se alimentarem de restos de comida dos caçadores.

Alguns lobos foram gradualmente perdendo o medo dos humanos, conseguindo se aproximar e comer mais, além de ter mais filhotes que carregaram o DNA que, possivelmente, deixou os lobos menos temerosos. Isso se repetiu de geração em geração, até que evoluíram para ser, em termos científicos, mais amigáveis. Esses foram os primeiros cães.

As pessoas devem passar 24 horas por dia, sete dias por semana, durante semanas a fio com filhotes de lobo para que estes tenham certeza de que os seres humanos são toleráveis. Filhotes de cachorro vão se apegar rapidamente a qualquer pessoa que esteja próxima. Mesmo cachorros da rua que tiveram algum contato humano na hora certa podem ser amigáveis.

Diferenças nos genes

Andrew Spear/The New York Times

Apesar de todas as semelhanças, há algo profundamente diferente nos genes do cão, ou em como e quando esses genes se tornam ativos, e os cientistas estão tentando determinar exatamente o quê.

Há pistas.

Algumas pesquisas recentes sugerem que a afabilidade do cão pode ser o resultado de algo semelhante à síndrome de Williams, uma desordem genética em seres humanos que os torna hipersociáveis, além de garantir outras características. Pessoas com esse transtorno parecem ser muito amigáveis com todos, sem os limites habituais.

Outra ideia sendo estudada é a de que um atraso no desenvolvimento, durante um período crítico de socialização no início da vida de um cão, pode fazer a diferença. Isso pode ser descoberto no DNA, mais provavelmente nas seções que controlam quando e como os genes mais fortes se tornam ativos.

Essa é uma pesquisa inicial, um tiro no escuro em alguns aspectos, mas este ano, duas cientistas viajaram para Quebec para monitorar o desenvolvimento de seis filhotes de lobo, fazer testes de comportamento e pegar amostras genéticas. Fui com elas.

Visitei também outros lobos em cativeiro, jovens e adultos, para conseguir vislumbrar como começa um projeto de pesquisa – e, confesso, para ter a chance de brincar com os pequenos.

Eu queria ter alguma experiência em primeira mão com os animais sobre os quais escrevo, olhar um lobo nos olhos, pode-se dizer – mas apenas metaforicamente. Como me disseram enfaticamente em uma sessão de treinamento antes de entrar em um recinto com lobos adultos, a única coisa que você definitivamente não deve fazer é olhar em seus olhos.

Dormindo com lobos

Andrew Spear/The New York Times

A Zoo Académie é uma combinação de zoológico e centro de treinamento aqui na margem sul do Rio São Lourenço, a cerca de duas horas de Montreal. Jacinthe Bouchard, a proprietária, treinou animais domésticos e selvagens, incluindo lobos, em todo o mundo.

Em junho, ela conseguiu duas ninhadas de lobinhos de duas fêmeas e um macho que tinha no zoológico. As mães deram à luz na mesma sala ao mesmo tempo, no início do mês. Então, as enchentes excepcionalmente fortes do São Lourenço ameaçaram a área, e Bouchard precisou removê-los quando tinham cerca de sete dias de idade, em vez das habituais duas semanas.

Depois, começou o árduo processo de sociabilização. Bouchard e sua assistente ficaram dia e noite com os animais nas primeiras semanas, gradualmente diminuindo o tempo passado com eles depois disso.

Em 30 de junho, Kathryn Lord e Elinor Karlsson apareceram com vários colegas, incluindo Diane Genereux, pesquisadora do laboratório de Karlsson, que faria a maior parte do trabalho de genética.

Lord faz parte da equipe de Karlsson, que divide o tempo entre a faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts, em Worcester, e o Instituto Broad, em Cambridge. Seu trabalho combina estudos comportamentais e genéticos de filhotes de lobos e cães.

Lord, bióloga evolucionista, é uma veterana nos cuidados com lobos. Criou cinco ninhadas.

Andrew Spear/The New York Times

“Você tem que estar com eles o tempo todo, sem intervalos. Isso significa dormir com eles, alimentando-os a cada quatro horas com mamadeira”, disse.

“Além disso, não tomo banho nos primeiros dias, para que os filhotes tenham um senso claro de quem estão cheirando”, observou Bouchard.

Isso é muito importante, porque filhotes de lobos e cães atravessam um período crítico quando exploram o mundo e aprendem quem são seus amigos e sua família.

Com os lobos, acredita-se que essa fase comece com cerca de duas semanas, quando ainda não conseguem ver ou ouvir. O cheiro é tudo.

Nos cães, começa por volta de quatro semanas, quando conseguem enxergar, cheirar e escutar. Lord acha que essa mudança no desenvolvimento, que permite que os cães usem todos seus sentidos, pode ser a chave para sua maior capacidade de se conectar a seres humanos.

Talvez com mais sentidos ativos, eles sejam mais capazes de generalizar, passando da tolerância a seres humanos individuais com um cheiro específico à tolerância aos humanos em geral, com cheiro, imagem e sons.

Quando termina o período crítico, os lobos e, em menor extensão os cães, experimentam algo como o surgimento de uma estranha ansiedade nos bebês humanos, quando as pessoas que não pertencem à família de repente se tornam assustadoras.

As chances de definição genética da mudança nessa etapa crucial ainda estão distantes, mas Lord e Karlsson acham que vale a pena perseguir essa ideia, o mesmo acontecendo com o Instituto Broad. Ele oferece um pequeno subsídio de um programa destinado a apoiar os cientistas que se aventuram pelo desconhecido – o que podemos chamar de pesquisa “e se”.

Há duas perguntas que as cientistas querem explorar. Uma, segundo Karlsson, é:

Como o lobo que vivia na floresta se tornou o cão que vive em nossas casas?

A outra é se o medo e a sociabilidade nos cães estão relacionados às mesmas emoções e comportamentos em seres humanos. Em caso positivo, aprender com os cachorros poderia fornecer uma possível compreensão para algumas condições humanas, nas quais a interação social é afetada, como a esquizofrenia, o autismo ou a síndrome de Williams.

Os filhotes no Zoo Académie tinham apenas três semanas de idade quando o grupo de pesquisadores chegou. Eu apareci na manhã seguinte, e entrei em uma sala repleta de colchões, pesquisadores e filhotes.

Os humanos ainda estavam tontos após uma noite mal dormida. Os filhotes nessa idade acordam a cada poucas horas para fuçar e perturbar qualquer corpo quente ao seu alcance.

As mamães lobo estimulam seus filhotes a urinar e defecar lambendo seus abdomens. Os manipuladores humanos massageavam os pequenos pela mesma razão, mas muitas vezes a micção era imprevisível, então o assunto principal da conversa quando cheguei foi xixi de lobinhos. Quanto, em quem, de qual filhote.

Andrew Spear/The New York Times

Assim que entrei, me entregaram um deles para que eu o ninasse e amamentasse. O filhote parecia uma larva peluda, persistente, obstinada, cheio de vontades e determinação.

Mesmo com pelo, dentes e garras, ainda estavam famintos e desamparados, e não pude deixar de me lembrar de quando segurava meus filhos para lhes dar mamadeira. Desconfio que filhotes de tigres e de glutões sejam igualmente irresistíveis. É uma coisa de mamífero.

A primeira parte do teste de Lord era confirmar suas observações de que o período crítico para os lobos começa e termina mais cedo do que para os cães.

Ela criou um procedimento para testar os filhotes, expondo-os a algo que certamente nunca viram antes: uma engenhoca com hastes que zumbida e se contorcia, um tripé e um móbile de bebê.

A cada semana, testou um filhote, para que nenhum deles se acostumasse com essas coisas. Ela pôs o lobinho em uma pequena arena protegida por cercas baixas, e ligou o móbile. Escondeu-se para evitar distrair o pequeno. Câmeras registraram a ação, mostrando como os filhotes toparam e caminharam ao redor do objeto estranho, ou como se esquivaram dele, ou então como o cheiraram.

Com três semanas de idade, os lobinhos mal conseguiam se mover e dormiam a maior parte do tempo em que não estavam mamando. Com oito semanas, quando voltei e eles começaram a interagir comigo, já estavam completamente brincalhões e plenamente capazes de explorar.

As pesquisadoras não vão divulgar os resultados até que observadores que nunca viram os filhotes assistam aos vídeos e os analisem, mas Lord disse que especialistas em lobos consideravam que um filhote de oito semanas já havia superado o período crítico. Eles ficavam tão bem comigo e com os outros porque haviam sido socializados com êxito.

Antes e depois do teste, ela coletou urina para medir os níveis de um hormônio chamado cortisol, cuja concentração aumenta durante momentos de estresse. Se o filhote do vídeo não se aproximasse da engenhoca contorcionista e seu nível de cortisol estivesse alto, isso indicaria que o pequeno experimentou um nível de medo das coisas novas que poderia parar sua exploração. Isso confirmaria a ocorrência do período crítico.

Ela, Karlsson e outros do laboratório também coletaram saliva para teste de DNA. Planejaram usar uma nova técnica chamada ATAC-seq, que utiliza uma enzima para marcar os genes ativos. Assim, quando o DNA do lobo é introduzido em uma das avançadas máquinas de mapeamento de genomas, apenas os genes ativos aparecem.

Genereux, que isolava e analisava o DNA, disse achar que a probabilidade de encontrar o que queriam seria “um tiro no escuro”. Ela e os outros pesquisadores pretendem aprimorar suas técnicas para fazer as perguntas certas.

Quando eles crescem

Andrew Spear/The New York Times

E como são os lobos socializados quando crescem, quando o misterioso equipamento genético do cão e do lobo os direciona para seus próprios caminhos?

Também visitei o Parque dos Lobos, em Battle Ground, Indiana, um zoológico de 65 hectares e instalações de pesquisa onde Dana Drenzek, a gerente, e Pat Goodmann, a curadora, me levaram a um passeio e me apresentaram não só aos filhotes que estavam socializando, mas também a alguns lobos adultos.

Na década de 1970, Goodmann trabalhou com Erich Klinghammer, fundador do Parque dos Lobos, para desenvolver o modelo contínuo de socialização dos filhotes, expondo-os aos seres humanos e também a outros lobos, para que pudessem se relacionar com sua própria espécie, mas ainda aceitando a presença e a atenção dos seres humanos, mesmo a dos intrusivos, como os veterinários.

A área dos filhotes estava cheia de macas e redes para os voluntários, pois os lobos tinham agora entre nove e 11 semanas e viviam ao ar livre o tempo todo. Havia esconderijos de plástico e madeira para os lobinhos, e muitos brinquedos. Parecia um playground, exceto pelos restos das refeições – o osso da clavícula ou da canela de um veado, umas costelas, ossos das pernas e do ombro, às vezes com a pele e a carne ainda presas a eles.

Os filhotes eram extremamente amigáveis com os voluntários que conheciam e levemente amigáveis comigo. Os lobos adultos que conheci também eram gentis, mas distantes. Dois machos mais velhos, Wotan e Wolfgang, cada um me lambeu uma vez e foi embora. Timber, a mãe de alguns dos filhotes, e bem pequenina com seus 13 kg, também me investigou e se afastou, instalando-se em uma plataforma nas proximidades.

Apenas Renki, um lobo mais velho que sofria de câncer nos ossos e agora se movimenta com três pernas, me deixou coçar sua cabeça por um tempo. Nenhum deles se incomodou com minha presença. Nenhum ficou mais do que ligeiramente interessado. Pareciam não perceber nem se importar com meu próprio desejo intenso de vê-los, de estar perto deles, de aprender sobre eles, de tocá-los.

Descobri o quanto uma visita aos lobos tem o poder de afetar o modo com que vemos os animais. Eu queria voltar e ajudar a criar os filhotes e continuar a visitá-los para poder dizer que um lobo adulto me conhece de alguma forma.

Mas também me perguntei se era certo manter lobos neste ambiente. Na natureza, eles caminham grandes distâncias e matam seu alimento. Estes lobos foram todos criados em cativeiro e essa nunca foi uma possibilidade para eles.

Mas, será que eu estava simplesmente satisfazendo a fantasia de estar próximo da natureza? Isso se encaixa na mesma categoria de querer fazer uma selfie com um tigre em cativeiro? O que era melhor para os próprios lobos?

Fiz essas perguntas a Goodmann. Ela disse que o parque se baseia na ideia de que conhecer esses lobos faria os visitantes se importarem mais com os selvagens, com a conservação, com a preservação da vida de carnívoros da qual nunca poderiam fazer parte.

E observou que o Parque dos Lobos funciona como uma combinação de estação de pesquisa e zoológico. Estudantes e outras pessoas do mundo inteiro disputam vagas para estágios e ajudam em tudo, desde criar os filhotes até esvaziar as armadilhas de moscas.

Essa é a razão de todos os jardins zoológicos, o que é um bom argumento. Então ela o reforçou. Contou que um dos estagiários, Doug Smith, trabalhou com a reintrodução de lobos selvagens no Parque Nacional de Yellowstone.

Smith teve um papel importante no Projeto de Restauração dos Lobos desde o início em 1995, e é o líder do projeto desde 1997. Uma manhã, eu o contatei em seu escritório na sede do parque e lhe perguntei sobre seu tempo como estagiário no Parque dos Lobos.

Criei sozinho quatro filhotes, dormi com eles em um colchão durante um mês e meio. Teve um efeito profundo em mim. Foi meu primeiro trabalho com lobos. E se transformou em minha carreira.”

A partir daí, passou a estudar lobos selvagens em Isle Royale, Michigan, e depois a trabalhar com L. David Mech, biólogo pioneiro no estudo de lobos e cientista da Pesquisa Geológica dos EUA, além de professor adjunto da Universidade de Minnesota. Por fim, foi para Yellowstone para trabalhar na restauração dos lobos no parque.

Ele disse que as questões éticas sobre a manutenção dos animais silvestres em cativeiro são difíceis, mesmo quando todos os esforços enriquecem suas vidas, mas afirmou que lugares como o Parque dos Lobos têm um grande valor, caso levem as pessoas “a pensar sobre a situação dos lobos em todo o mundo e a fazer algo sobre a questão”.

Hoje em dia, “com a conservação e a natureza mutáveis, você precisa deles”, acrescentou.

Então, disse o que todos os especialistas em lobos dizem: que, apesar de os filhotes de lobo se parecerem com os cães, não o são, e que manter um lobo ou um híbrido lobo/cão como um animal de estimação é uma péssima ideia.

Se você quer um lobo, arrume um cachorro.”

Cinco equívocos que se afirma sobre a teoria da evolução

Quando o tema são buracos negros, os estranhos hábitos sexuais dos insetos ou se o que tem na sua geladeira causa/cura câncer, não tem polêmica: quase todo mundo solta um “uau, a ciência é fantástica, não, minha gente?”. Mas é falar em teoria da evolução, de Charles Darwin, e metade do público parece entrar em pânico, no modo “não é bem assim, minha gente”.

 Cinco equívocos que se afirma sobre a teoria da evolução


Cinco equívocos que se afirma sobre a teoria da evolução

O fato é que Hollywood, os quadrinhos e os videogames também fazem um baita trabalho em deseducar as pessoas sobre a teoria mais importante da biologia. A seguir, algumas das bobagens que pipocam em qualquer conversa sobre evolução – e já passaram da hora de serem enterradas.

 

 

1) É só uma teoria

Sim, a evolução é “só” uma teoria. Assim como a relatividade, a ideia de que a Terra gira em torno do Sol (heliocentrismo) e a teoria dos germes, que diz que doenças podem ser causadas por bactérias e vírus.

Teoria, em ciência, não é o mesmo que a “teoria” do dono do boteco de que jogadores de futebol de canelas grossas são piores que os de canelas finas. Uma teoria científica é uma explicação abrangente e amplamente aceita para fatos sólidos e bem conhecidos. No caso da moderna teoria da seleção natural, esse fato é a evolução.

Pois é, fato. Já se sabia da evolução muito antes de Darwin – a primeira teoria da evolução, o lamarckismo, surgiu no ano de seu nascimento, em 1809. O que torna a evolução um fato observável é que os animais de hoje não são iguais aos do passado, o que sabemos pelo registro fóssil, e que não existiam animais como os de hoje no passado. Isso quer dizer que os animais se modificaram. Evoluíram. Darwin só explicou como.

Outra variação desse argumento é dizer que não é “lei”, como a da gravidade. Leis, na verdade, são menores que teorias. Elas descrevem o que se esperar de uma situação muito específica – por exemplo, um objeto caindo. Teorias explicam o porquê, e contém as leis.

2) Evolução é contra a religião

A evolução pode não bater com o literalismo bíblico, acreditar que as coisas foram palavra por palavra como no Livro do Gênesis e o resto da Bíblia. Mas até aí, também não batem com isso a geologia, a genética, a astronomia, a arqueologia, a paleontologia, a história… enfim, com todo o respeito à fé de cada um, a realidade.

A maioria dos cristãos – inclusive a maioria dos brasileiros – não é assim. Eles não enxergam problema nenhum em acreditar em Deus e Darwin ao mesmo tempo, lendo a Bíblia mais como uma metáfora. De fato, essa é a posição oficial da Igreja Católica desde o papa Pio XII, e foi bastante reforçada por João Paulo II e seus sucessores. Para o fiel, a evolução pode ser entendida como o plano de Deus. Sem crise.

3) A evolução é a lei do mais forte

A seleção natural – cujo resultado é a evolução, não vamos confundir as duas coisas – favorece o mais apto. E mais apto significa quem se reproduz melhor e deixa mais descendentes, nada além disso. Quando a comida é escassa, por exemplo, ser menor (e gastar menos energia) pode ser uma vantagem. De nada adianta ser grandalhão e malvado e morrer de fome – isso não gera descendentes.

Não que a seleção natural não seja implacável de outra maneira. Pela amplamente aceita teoria do gene egoísta, ela trata pura e exclusivamente da reprodução num nível genético, não de espécie e nem de indivíduo. O indivíduo que se lixe. É por isso que existem coisas como genes letais, que fazem com que vários animais morram após se reproduzirem. Passou o gene, venceu.

4) Organismos ficam “mais avançados” com a evolução

Assim como a seleção natural pode fazer mal aos indivíduos, se isso ajudar os genes, ela não necessariamente leva a seres que acharíamos mais complexos, interessantes, bonitos, inteligentes – enfim, mais como a gente. Não existe plano na evolução. Animais que um dia foram capazes de voar – o que tem algo de poético para nós – deixam de ser quando não existe mais pressão seletiva para que isso aconteça.

Um caso interessantíssimo é o dos tunicados, seres marinhos às vezes bem bonitos, lembrando vasos de flores. Eles basicamente não tem cérebro ou órgãos dos sentidos e vivem como esponjas, os seres multicelulares mais simples que existem, fixos ao solo marinho e filtrando plâncton. Só que eles têm um segredo – são parentes distantes de nós. Em seu passado evolutivo, eles se pareciam com peixes e tinham cérebro, nadando livremente. De fato, eles ainda são assim em sua fase larval, o que faz com que sejam chamados de “animal que come o próprio cérebro”. No caso deles, a evolução decidiu que o cérebro era dispensável.

Pesquisa de Darwin não concluiu que evolução é a lei do mais forte

Pesquisa de Darwin não
concluiu que evolução
é a lei do mais forte

O ser humano que se cuide, aliás: desde a Idade da Pedra, nosso cérebro vem diminuindo.

5) Alguns animais – e gente – pararam de evoluir

Não corremos mais do leão nem precisamos matar uma mamute com a força dos próprios braços. Podemos passar o dia inteiro em frente à TV e ainda assim levar adiante os nossos genes. Sem essa pressão, será que a evolução parou?

Enquanto algumas pessoas tiverem mais filhos que as outras, não. Cientistas discutem em qual direção estamos evoluindo agora, com alguns apontando coisas como uma menopausa mais tardia. O que é certeza é que não estamos criando um cabeção alienígena supergênio. Só seria assim se gente como Stephen Hawking e Neil DeGrasse Tyson fossem os maiores ricardões do planeta.

Outra coisa interessante: os ditos “fósseis vivos”, bichos que praticamente não mudaram por milhões de anos. O fascinante neles é que não mudam porque a evolução não parou. Mutações acontecem o tempo todo – se um bicho mantém a mesma forma, é porque a evolução está filtrando essas mutações fora. Evitando que mude. Por isso que não existe bicho mais ou menos evoluído. Em time que está ganhando, não se mexe.

Cientistas transformam bactérias em ‘pilhas’

Técnica introduz molécula nos micro-organismos que faz com que gerem eletricidade

RIO – O mundo das bactérias está cheio de micro-organismos com talentos incomuns, inclusive a capacidade de produzir eletricidade. Na natureza, as bactérias ditas “eletrogênicas” geram correntes como parte de seu metabolismo, mas agora pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB), EUA, encontraram uma maneira de conferir esta capacidade a bactérias não-eletrogênicas, numa técnica que pode ter impactos na geração sustentável de energia e no tratamento de água e esgotos.


Imagem de microscópio mostra bactérias eletrogênicas colonizando um eletrodo onde a corrente gerada por elas é coletada

– O conceito aqui é que se simplesmente fecharmos a tampa do tanque de tratamento de esgoto e dermos à bactéria um eletrodo, ela pode produzir eletricidade enquanto limpa a água – resume Zach Rengert, estudante de química da universidade americana e primeiro autor de artigo sobre a técnica, publicado nesta quinta-feira no periódico científico “Chem”. – E embora a quantidade de energia nunca vá ser suficiente para alimentar qualquer coisa grande, ela pode contrabalançar os custos de limpar a água.

A bactéria que inspirou o estudo, Shewanella oneidensis MR-1, vive em ambientes sem oxigênio e pode “respirar” minerais metálicos e eletrodos no lugar de ar via proteínas que produzem correntes na sua membrana celular. A maioria das bactérias, no entanto, não produz estas proteínas, e assim não podem gerar correntes elétricas naturalmente. Mas foi estudando estas proteínas condutoras que os cientistas imaginaram que tipo de aditivo biológico poderiam criar para que micro-organismos que não evoluíram para realizar estas reações passassem a fazê-las.

Assim, sob a liderança de Guillermo Bazan, professor da UCSB e autor sênior do estudo, os pesquisadores construíram uma molécula chamada DFSO+, que contém um átomo de ferro no seu núcleo. Para adicioná-la às bactérias, os cientistas diluíram uma pequena quantidade do pó com cor de ferrugem em água e mergulharam os micro-organismos na solução. Em poucos minutos, a molécula sintética encontrou uma caminho para a membrana das bactérias e começou a conduzir eletricidade por meio de seu núcleo de ferro, dando a elas uma nova maneira de trocar elétrons de dentro para fora da célula.

Como o formato da molécula DFSO+ reflete a estrutura das membranas celulares, ela pode rapidamente se incorporar a elas e lá permanecerem durante semanas. A abordagem, no entanto, necessitará de mais desenvolvimentos se for ser aplicada para a geração de energia a longo prazo, embora os pesquisadores acreditem que os resultados iniciais do experimento foram animadores. Segundo eles, esta estratégia para conferir novas capacidades às bactérias provavelmente será mais barata que alterar geneticamente os micro-organismos para fazerem isso.

– É uma estratégia totalmente diferente para geração de energia elétrica microbial – diz Nate Kirchhofer, coautor do estudo.

Os pesquisadores chamam a molécula DFSO+ de “prótese proteica” por ela ser um composto não proteico que faz o trabalho de uma proteína.

– É como um análogo de um membro prostético, em que você usa um membro plástico que não é na verdade feito do corpo de outra pessoa – compara Rengert.

Ainda de acordo com os pesquisadores, entender como as bactérias eletrogênicas consomem combustíveis orgânicos e usam seus processos metabólicos para gerar correntes elétricas pode levar ao desenvolvimento de tecnologias biológicas de geração mais eficientes.

– É útil ter uma molécula bem definida e bem compreendida que possamos investigar – diz Kirchhofer. – Sabemos como ela interage com as bactérias, então isso nos dá um controle eletroquímico muito preciso das bactérias. E embora esta molécula talvez não seja a melhor que vá existir, ela é a primeira geração de seu tipo de composto.

Cientistas obtêm visão inédita de início da vida em embriões

Cientistas obtêm visão inédita de início da vida em embriões

Estudo conseguiu cultivar embriões em laboratório até estágio nunca antes observado – o momento crucial de autorreorganização de células para a configuração de ser humano.

Cientistas obtêm visão inédita de início da vida em embriões

Cientistas obtêm visão inédita de início da vida em embriões

Cientistas anunciaram um avanço no desenvolvimento de embriões humanos em laboratório que pode melhorar tratamentos de infertilidade e revolucionar nosso conhecimento sobre os primeiros estágios da vida.

Pela primeira vez, embriões atingiram uma etapa além do ponto em que normalmente são implantados no útero.

A pesquisa realizada no Reino Unido e nos Estados Unidos foi interrompida logo antes dos embriões atingirem o limite legal de 14 dias de vida para o desenvolvimento de embriões em experimentos científicos.

Mas alguns cientistas já pedem que este limite seja alterado, uma demanda que levanta diversas questões éticas.

Mistério
Os primeiros estágios da vida humana ainda permanecem um mistério, mas, no estudo publicado pelas revistasNature e Nature Cell Biology , os pesquisadores conseguiram estudar embriões por um tempo maior do que já havia sido feito antes.

O prazo de uma semana costumava ser o limite, com cientistas sendo capazes de cultivar um óvulo fertilizado até o momento em que normalmente são implantados no útero.

Mas os autores do estudo encontraram uma nova forma de imitar quimicamente o ambiente de um útero para que um embrião continuasse a se desenvolver até atingir a segunda semana.

Isso requer uma combinação de um meio rico em nutrientes e uma estrutura na qual o embrião pode se “implantar”.

Os experimentos foram encerrados propositalmente no 13º dia, pouco antes de ser atingido o limite legal, mas bem além do que havia sido conseguido anteriormente.

Momento crucial
A pesquisa já está permitindo vislumbrar como um embrião dá início ao processo de autorreorganização para se tornar um ser humano.

Trata-se de um momento crucial, no qual muitos embriões apresentam defeitos em seu desenvolvimento ou não conseguem se implantar no útero.

O estudo permitiu, por exemplo, que pesquisadores observassem em embriões com dez dias a formação do epiblasto, uma aglomeração bem pequena e crucial de células que formam um ser humano, enquanto as células ao seu redor se encarregam da criação da placenta e do saco vitelínico.

Magdalena Zernicka Goetz, da Universidade de Cambridge, disse que “nunca esteve tão feliz” como quando cultivar de forma bem-sucedida estes embriões.

“Isso nos permite entender os primeiros estágios de nosso desenvolvimento e o momento em que o embrião se reroganiza pela primeira vez para formar o que no futuro será um corpo”, disse ela à BBC.

“Não conhecíamos estes estágios antes, então, isso terá um impacto enorme nas tecnologias de reprodução.”

Dilema ético
Um acordo internacional determina que embriões não devem ser desenvolvidos além de 14 dias em pesquisas científicas. O novo estudo chega perto deste limite, e alguns cientistas já argumentam que ele deve ser revisto.

“Em minha opinião, já havia motivos para permitir a cultura de embriões além de 14 dias antes desta pesquisa aparecer”, diz o geneticista Azim Surani, do instituto de pesquisa Gurdon, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

O prazo máximo foi estabelecido há décadas. Acredita-se que, neste ponto, o embrião torna-se um “indivíduo” já que não é mais possível que ele forme um gêmeo.

Daniel Brison, professor de embriologia e células tronco da Universidade de Manchester, no Reino Unido, também argumenta que talvez seja necessário reconsiderá-lo.

“Dado os possíveis benefícios para novas pesquisas sobre infertilidade, a melhoria de métodos de reprodução assistida e para evitar abortos precoces e outros problemas na gravidez, pode haver motivos para rever este limite no futuro”, afirma.

Adão e Eva: o planeta poderia ser povoado a partir de apenas um casal?

Se sobrasse apenas um casal na Terra, ele seria capaz de povoá-la? Se você já se fez essa pergunta, não é o único. Cientistas de diversas épocas já questionaram o assunto, que permanece controverso, pois, obviamente, não será possível fazer a experiência na prática.

Adão e Eva: o planeta poderia ser povoado a partir de apenas um casal?

Adão e Eva: o planeta poderia ser povoado a partir de apenas um casal?

O pesquisador de genética de populações da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Waldir Stefano, acredita que é possível, mas lembra que a primeira condição para que isso ocorra é que o casal seja fértil. “É possível, mas não é fácil”, ressalta.

Isso porque o casal teria pouca variabilidade genética, o que está relacionado com diversos problemas. Um estudo feito com crianças nascidas na Tchecoslováquia entre 1933 e 1970 mostrou que quase 40% daquelas cujos pais eram parentes de primeiro-grau tinham graves deficiências –14% morreram por conta de alguma delas.

Segundo Stefano, com o passar do tempo, essa variabilidade aumentaria, mas tudo depende de para que lado iria o processo de seleção natural. Ele explica que ao longo dos anos, mutações ocorrem no DNA dos descendentes e, caso as mutações vantajosas para a sobrevivência prevaleçam, a chance de povoar o planeta novamente é grande.

Existem exemplos de colonização com pequenas populações iniciais, como a do Havaí, em que havia muita consanguinidade e foi bem-sucedida

Waldir Stefano, professor de genética

E quando há problemas?
No entanto, as mutações que aparecem podem trazer desvantagens para os indivíduos. Há casos, como algumas famílias reais europeias, em que as mutações desvantajosas chegaram a causar esterilidade nos descendentes.

Stefano cita o livro “As Sete Filhas de Eva”, escrito por Bryan Sykes, professor de genética da Universidade de Oxford. “A obra mostra o estudo do DNA mitocondrial, que é herdado da mãe. Os pesquisadores chegam a sete grandes matrizes de ascendentes na Rússia”, diz. “Antes dessas sete, provavelmente havia menos ainda”.

Ele explica que, como o gameta feminino (óvulo) é muito maior que o gameta masculino (espermatozoide), quando o zigoto é formado, as mitocôndrias (responsável por “fabricar” a energia das células) são iguais às da mãe. O professor lembra que há doenças transmitidas geneticamente pelas mitocôndrias, como a doença de Leber, que provoca cegueira entre os 40 e 50 anos.

Quanto tempo seria necessário
Na grande parte das vezes, as variações do material genético não trazem grande efeito no fenótipo (características visíveis, como cor dos cabelos e dos olhos) e não são percebidas de imediato. Se trouxerem vantagens maiores para a sobrevivência dos descendentes, serão passadas adiante. “A grande questão é em que período de tempo isso poderia acontecer”, disse referindo-se a quantos anos seriam necessários para que os descendentes de um casal gerassem uma população de 7 bilhões de pessoas.

Em 2002, o antropólogo John Moore publicou um estudo pela Nasa em que estima que seriam necessárias 160 pessoas para dar início a uma população estável para um novo planeta. O estudo partiu do modelo de pequenos grupos migratórios antigos da humanidade.

Ele recomendava começar com casais jovens sem filhos e sem genes recessivos perigosos. No caso, o número usado no cálculo vale para uma viagem no espaço permite 200 anos de isolamento antes da volta à Terra, quando as pessoas teriam novamente contato com maior variabilidade genética.

Stefano lembra ainda que o próprio Charles Darwin, no livro ‘A Origem das Espécies’, brincou com uma conta parecida à de Adão e Eva. Se nada causasse a morte de um casal de elefantes enquanto eles vivessem, quantos descendentes eles teriam em 700 milhões de anos? Além disso, os descendentes também não poderiam morrer logo, ou seja, trata-se de uma conta bem hipotética. A gestação de um elefante dura dois anos e a expectativa de vida desses animais é de cem anos. Assim, Darwin calculou 19 mil descendentes daquele casal no período de tempo avaliado.

Apesar da seleção natural, você carrega sinais da evolução em seu corpo

Você já deve ter notado, ao flexionar a mão para dentro, que “salta” do punho um tendão minúsculo, um feixe cartilaginoso com pouco mais de três centímetros entre o punho o antebraço.

Essa é a parte visível do músculo palmar longo, que já foi muito útil para que nossos ancestrais subissem ou se pendurassem em árvores mas que hoje não tem utilidade funcional – a ponto de 1 bilhão de pessoas no mundo simplesmente não ostentarem o músculo na sua estrutura óssea, sem qualquer prejuízo à sua vida. (Lembrando que somos mais de 7 bilhões no mundo).

Esse músculo salta no seu braço?

Esse músculo salta no seu braço?

Assim como o palmar longo, outros “vestígios” da evolução podem ser facilmente encontrados em qualquer corpo humano: o músculo eretor dos pelos que nos provoca arrepios, os dentes de siso (conhecidos como terceiros molares), o apêndice, o tubérculo de Darwin, o músculo plantar. Todos aparentemente sem utilidade, mas que um dia foram importantes para ancestrais do homem.

Mas, se não têm mais utilidade, por que os órgãos vestigiais, como a Ciência denomina essas estruturas, não desapareceram do corpo humano

O professor Nélson Rosa Fagundes, do departamento de Genética da UFRGS, prefere atribuir a esses elementos uma característica “neutra” – e não desvantajosa. O pesquisador explica que a evolução se preocupa mais com o sucesso reprodutivo do que com a qualidade de vida dos indivíduos, ou seja, a seleção natural favorece a produção de uma prole fértil em detrimento de uma vida feliz.

“No jargão da biologia evolutiva, adaptação e reprodução são virtualmente sinônimos. Então, o fato de que não se use ou, ao contrário, se use mais determinadas estruturas não faz com que elas se modifiquem, a menos que seja via seleção natural”, explica. Elas mudam quando as variações morfológicas, cientificamente tratadas como fenotípicas, apresentam uma vantagem adaptativa para os indivíduos.

Tubérculo de Darwin é essa parte da sua orelha, que algumas pessoas conseguem até mexer

Tubérculo de Darwin é essa parte da sua orelha, que algumas pessoas conseguem até mexer

Nesse caso, é evidente que o fenótipo vantajoso será transmitido naturalmente para as gerações futuras, desde que haja uma base genética capaz dessa transmissão. Mas, no segundo caso, a seleção natural não tem muito o que fazer com o futuro da população. Aí entram alguns órgãos vestigiais: como não apresentam vantagem competitiva, são menos afetados pelo processo de seleção natural. Por serem neutras, não são afetadas.

 

“O principal fator capaz de mudar o perfil fenotípico, quando não há vantagem aparente, é o acaso. Ter ou não ter pelos no corpo, ou siso, não afeta a adaptação do indivíduo ao meio e, portanto, não afeta a maneira como se reproduz. Aqui é importante observar: evolução não é apenas seleção natural ou adaptação. Essas características “inócuas” estão sendo afetadas por processos evolutivos, como a deriva genética, que são fruto do acaso”, sustenta.

A coluna vertebral é um bom exemplo de como a seleção natural se processa. Nosso bipedalismo é anterior à espécie humana e foi uma pré-adaptação à transformação das florestas africanas em savanas – com as mãos livres e sem necessidade de subir em árvores, sobreviveu quem se adaptou a esse ambiente.

Em quase cinco milhões de anos, a anatomia tratou de adaptar a estrutura óssea da coluna humana para suportar a pressão de andar sobre as patas traseiras – o formato em S e a ossatura pélvica reforçada, por exemplo.

Apêndice

Apêndice

Mas problemas modernos decorrentes dessa condição, como a hérnia de disco, não foram tratados pela evolução. “O fato de estarmos totalmente bípedes há ‘apenas’ alguns milhões de anos certamente tem algum impacto sobre a coluna, mas para que a evolução atue teríamos que pensar que existem pessoas mais ou menos resistentes às dores, que isso pode ser herdável e, mais importante, que as pessoas com menos dores, que seriam as mais adaptadas, sejam aquelas que têm mais filhos”, argumenta o professor.

Como essas condições não estão presentes, continuamos sentindo a genérica “dor nas costas”. Da mesma forma, não existe nenhum bom motivo pra garantir que cada vez menos gente tenha o siso. “Existe quem não tem nenhum, quem tem os quatro e todas as variantes possíveis. Por quê? Porque dificilmente isso irá afetar a sobrevivência e a reprodução. O siso só vai desaparecer se esperarmos tempo suficiente e se a deriva genética causar essa modificação. Isso é tão provável quanto, por acaso, todos voltarmos a ter os quatro sisos”, completa.

Outro vestígio evolutivo são os milhões de músculos eretores dos pelos humanos. O pesquisador em biomedicina e especialista em evolução da Universidade Tiradentes, José Carneiro Ribeiro Neto, explica que o Homo ergaster – ancestral do homem que viveu até cerca de 250 mil anos trás – foi um dos primeiros hominídeos a perder a pelagem para se adaptar aos ambientes quentes e úmidos da África. Isso há cerca de 1,5 milhão de anos.

“Mesmo em temperaturas altíssimas, o ergaster percorria grandes distâncias a uma boa velocidade porque desenvolveu o melhor sistema de arrefecimento até então, composto por um nariz longo que umedecia o ar e um corpo com poucos pelos que deixava o calor escapar facilmente. Enquanto outros hominídeos se sentavam à sombra para suportar o clima, nosso ancestral pelado podia andar em busca de alimento”, explica.

Mas os músculos eritores, mesmo com a drástica diminuição dos pelos, continuam presentes no corpo humano. Funcionam, a ponto de nos arrepiar em situações de medo ou nos dias de muito frio. Só que, para solucionar esse problema, a cultura inventou o agasalho.20

Alguns vestígios da evolução

  • Músculo palmar longo – se estende do ombro até metade da mão e, em ancestrais humanos, servia para escalar árvores e se locomover entre galhos. Hoje, 12% das pessoas já nascem sem ele, sem prejuízo algum à qualidade de vida
  • Músculo eretor dos pelos – cada pelo do nosso corpo está ligado a um músculo, que servia, entre ancestrais humanos mais peludos que nós, para eriçá-los em busca de isolamento térmico ou para intimidar predadores e outros inimigos
  • Dentes de siso (ou terceiro molar) – serviam para mastigar e triturar estruturas alimentares mais rígidas, como raízes, e reduzir o impacto do alimento na digestão. Atualmente, apenas cerca de 5% da população nasce com os quatro sisos
  • Apêndice – preso ao intestino, é um pequeno tubo que atualmente fabrica uma pequena quantidade de células brancas para o organismo. No passado ancestral, era o local da digestão da celulose – ingerida em abundância por espécies precursoras do homem
  • Músculos extrínsecos do pavilhão auricular – Normalmente encontrado em cães e coelhos, é um vestígio importante de como a audição era um sentido importante entre ancestrais. Permite mover as orelhas, melhorando a capacidade auditiva. Menos de 5% da população consegue hoje ter controle sobre essa musculatura
  • Músculo plantar – vai do joelho até o pé e ajudava nossos descendentes antigos a manipular objetos com os pés. Sem utilidade, atualmente é muito usado para reconstrução de tecido muscular. Cerca de 9% da população nasce sem ele

 

 

Por que civilizações antigas não reconheciam a cor azul?

Nenhum dos textos sagrados gregos, hindus, islandeses, judaicos ou islâmicos menciona o azul, apesar da descrição do céu ser um dos seus temas favoritos.
Em sua investigação sobre como a linguagem afeta a maneira como vemos o mundo, o linguista Guy Deutscher dedicou-se a um tema específico: a ausência de referências à cor azul nos textos de diversas civilizações antigas.

Nenhum dos textos sagrados gregos, hindus, islandeses, judaicos ou islâmicos menciona o azul, apesar da descrição do céu ser um dos seus temas favoritos.

Nenhum dos textos sagrados gregos, hindus, islandeses, judaicos ou islâmicos menciona o azul, apesar da descrição do céu ser um dos seus temas favoritos.

O primeiro intelectual a notar essa curiosidade foi o britânico William Ewart Gladstone (1809-1898), que não apenas foi quatro vezes primeiro-ministro como também um apaixonado pela obra do poeta Homero.

Apesar das maravilhosas descrições feitas por ele nos relatos A Ilíada e A Odisseia, que incluíam frases como “a aurora com seus dedos rosados”, em nenhum momento o autor pintava algo de celeste, índigo ou anil.

Gladstone repassou todo os dois textos, prestando atenção às cores mencionadas. Descobriu que, enquanto o branco era mencionado cem vezes e o preto, quase 200, as outras cores não tinham tanto destaque. O vermelho era citado menos de 15 vezes e o verde e o amarelo, menos de dez.

Ele leu, então, outros escritos gregos e confirmou que o azul nunca aparecia. Concluiu que a civilização grega não tinha à época um senso de cor desenvolvido e vivia em um mundo preto e branco, com algumas pinceladas de vermelho e de brilhos metálicos.

“Eles entendiam o azul com a mente, mas não com a alma”, afirma o pesquisador.

Em parte alguma
Como descrever esta cena sem usar a palavra ‘azul’?

A pesquisa de Gladstone inspirou o filósofo e linguista alemão Lazarus Geiger, que se perguntou se o fenômeno se repetia em outras culturas.

Ele descobriu que sim: no Alcorão, em antigas histórias chinesas, em versões antigas da Bíblia em hebraico, nas sagas islandesas e até nas escrituras hindus, as Vedas.

“Esses hinos de mais de dez mil linhas estão cheios de descrições do céu. Quase nenhum tema é tratado com tanta frequência. O sol e o início da madrugada, o dia e a noite, as nuvens e os relâmpagos, o ar e o éter, tudo isso é contado”, afirma Geiger.

“Mas uma coisa que ninguém poderia sabia por meio dessas canções é que o céu é azul.”

Geiger também notou que houve uma sequência comum para o surgimento da descrição de cores nas línguas antigas. Primeiro, aparecem as palavras para preto e branco ou escuro e claro – do dia e da noite -; logo, vem o vermelho – do sangue -; depois, é a vez do amarelo e do verde e, só ao final, surge o azul.

Mas por que o azul não apareceu antes?

“E por que deveria?”, questiona o psicólogo Jules Davidoff, diretor do Centro para Cognição, Computação e Cultura da Universidade de Londres. “Por que precisariam do azul para descrever algo? Quem disse que o mar e o céu são azuis? Por acaso, eles têm a mesma cor?”

Cognição
Além de não ser um objeto, o mar não é sempre azul, apesar de ser tradicionalmente representado assim

Davidoff dedica-se à neuropsicologia cognitiva e a investigar a forma como reconhecemos objetos, cores e nomes. Ele fez experimentos com uma tribo da Namíbia, na África, cuja linguagem não tem uma palavra para o azul, mas possui várias para diferentes tipos de verde.

Quando mostrou a integrantes da tribo 11 quadrados verdes e um azul, não puderam achar qual era diferente, mas, se em vez de azul, o quadrado fosse de um tom de verde levemente diferente e dificilmente notado pela maioria das pessoas, era destacado imediatamente.

Na verdade, poucas coisas na natureza são azuis: uma ou outra flor de orquídea, as asas de algumas borboleta, as plumas de certas aves, a safira e a pedra luz.

No entanto, Homero estava na Grécia, um lugar que para muitos é mercado pelo azul do céu e do mar. Como podiam ignorar essa cor?

Em seus estudos, Deutscher recorreu à filha, Alma, que estava aprendendo a falar na época. Como qualquer outro pai, ele brincava com ela e a ensinava o nome de diferentes cores.

Teve, então, uma ideia para verificar o quão natural é o azul na linguagem e entender como as civilizações antigas, especialmente as que viviam no Mar Mediterrâneo, não deram um nome para a cor do céu.

Ele ensinou a Alma todas as cores, inclusive azul, mas fez com que ninguém lhe dissesse de que cor era o céu. “Quando tive certeza de que sabia usar a palavra ‘azul’ para os objetos, sai com elas em dias de céu azul e perguntei qual era sua cor.”

Por muito tempo, Alma não respondeu. “Ela respondia imediatamente a tudo mais, mas, com o céu, olhava e parecia não entender do que eu estava falando”, conta Deutscher.

“Certa vez, quando já estava muito segura e confortável com todas as cores, ela me respondeu, dizendo primeiro ‘branco’. Foi só depois de muito tempo e após ver cartões-postais em que o céu aparecia azul que usou essa cor para descrevê-lo.”

Necessidade
Foi assim que sua filha ensinou a ele que nada é tão óbvio quanto pensamos. “Entendi com meu coração, observando uma pessoa, não lendo livros ou pensando em povos de um passado remoto”, afirma o pesquisador.

“E Alma nem sequer estava na mesma situação dos povos antigos: ela conhecia a palavra azul e, no entanto, não a usou para o céu. Compreendi que não é uma necessidade de primeira ordem dar um nome para a cor do céu. Não se trata de um objeto.”

O mesmo ocorre com o mar: assim como o céu, não tem sempre a mesma cor e, acima de tudo, não é um objeto, por isso não há motivo para “pintá-lo” com uma palavra.

“Nada mudou em nossa visão. Há séculos, somos capazes de ver diferentes tons, mas não temos as mesmas necessidades”, afirma o especialista. “Era perfeitamente normal dizer que o mar era preto, porque, quando está azul escuro, parece preto, e isso é suficiente nesta época. Uma sociedade funciona bem com o preto, o branco e um pouco de vermelho.”

Então, por que começamos a dizer que determinadas coisas são azuis?

“Conforme as sociedades avançam tecnologicamente, mais se desenvolve a gama de nomes para cores. Com uma maior capacidade de manipulá-las e com a disponibilidade de novos pigmentos, surge a necessidade de uma terminologia mais refinada”, afirma Deutscher.

“A cor azul é a última, porque, além de não ser encontrada tão comumente na natureza, levou muito tempo para fazer este pigmento.”

Os egípcios antigos tinham o pigmento azul e uma palavra para nomeá-lo, por exemplo, pois se tratava de uma “sociedade sofisticada”.

“O que importa não é tanto a época em que viveram, mas seu nível de progresso tecnológico. É aí que está a correlação com o volume do vocabulário para cores.”

Mas não há no hebraico bíblico a palavra “kajol”, que significa azul?

“Sim, mas essa palavra significava ‘preto’. Tem a mesma raiz da palavra álcool, e o ‘kohol’ era um cosmético em pó feito com antimônio que as mulheres usavam para pintar os olhos e era preto.”

Pouco a pouco, o termo foi mudando até assumir o significado que tem hoje no hebraico moderno. E este não é único caso, segundo o especialista.

“O mesmo aconteceu com a palavra ‘kuanos’ em grego. Homero a usa, mas significa preto ou escuro. Foi só depois que passou a significar ‘azul’.”