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Miséria, prisão e guerras: a fantástica história de Luís de Camões

Miséria, prisão e guerras: a fantástica história de Luís de Camões
Miséria, prisão e guerras: a fantástica história de Luís de Camões

Não é de hoje que cavuco por aí histórias de escritores que dariam um bom livro. Miguel de Cervantes, criador de “Dom Quixote”, por exemplo, foi gravemente ferido numa guerra e, depois, sequestrado por piratas e encarcerado durante anos. A vida de Domingos Caldas Barbosa foi menos violenta, mas, ainda assim, cheia de perrengues: sobreviveu à miséria, enfrentou preconceitos e transformou em arte as hipocrisias da sociedade portuguesa do século 18. Passeando pela simpática edição que a Nova Fronteira há pouco lançou de “Os Lusíadas”, lembrei que Luís de Camões, o nome mais famoso da literatura em língua portuguesa e um dos gigantes de toda a história literária, também é dono de uma trajetória singular.

Já adianto: não é fácil recriar com precisão tudo o que o escritor viveu. Com poucos registros de suas andanças pelo mundo, o que temos é o delinear de uma história muitas vezes pautada mais na especulação e nas probabilidades do que em fatos consumados. O poeta Alexei Bueno não ignora essa questão ao esboçar a biografia do português na introdução da edição já citada. Ainda assim – ou, quem sabe, justamente por conta disso, o que lemos é empolgante.

Luiz Vaz de Camões nasceu, provavelmente, entre 1524 e 1525, em Lisboa, na época em que Portugal avançava sobre os mares em busca de terras para expandir o seu império. É provável que tenha passado a juventude em Coimbra, onde se dedicou aos estudos – talvez na Universidade local, talvez com um tio que teria se encarregado de sua educação. É depois dessa fase que o caos toma conta de sua vida.

Enquanto Portugal tentava conquistar terras no norte da África, foi enviado para combates em algum canto próximo a Ceuta, na ponta do Estreito de Gibraltar. Engalfinhando-se com mouros, tomou um balaço no olho direito, o que, além de deixá-lo caolho, valeu-lhe também o jocoso e exagerado apelido de “cara-sem-olhos” – ainda restava o esquerdo, pô.

Miséria, prisão e guerras: a fantástica história de Luís de Camões
Miséria, prisão e guerras: a fantástica história de Luís de Camões

De volta à terra natal, construiu sua fama de baderneiro, tanto que acabou preso por ter ferido um homem no dia de Corpus Christi – detalhes dão conta de que fez o ataque mascarado, junto com outro colega. “As cartas de Camões do mesmo período, que nos chegaram em apógrafos, no-lo mostram numa convivência boêmia com prostitutas e arruaceiros, descrevem variadas cenas de espancamento e comentam sobre ordens de prisão contra vários membros do grupo”, conta Bueno.

Camões saiu da cadeia após receber um indulto do rei D. João III, que, em contrapartida, enviou escritor para servir em missões que se desdobravam no Oriente. Pelos indícios, esteve em regiões da Índia e da China. No rio Mekong, que corta o sudeste asiático, uma das passagens mais famosas e controversas de sua biografia: teria salvado a própria vida de um naufrágio utilizando apenas uma das mão para nadar, enquanto mantinha a outra para fora da água para resguardar os manuscritos do épico no qual já trabalhava. Há quem não bote fé nesse feito (com alguma razão, convenhamos), mas a passagem está registrada (ou imaginada) em uma das estrofes da famosa epopeia:

“Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço o Canto que molhado
Vem do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baixos escapado,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa”

Ainda passou por Moçambique até que retornasse a Lisboa, onde deu com a cara na porta ao procurar a família de Vasco da Gama, celebrado em “Os Lusíadas”, para tentar se livrar da miséria que o acompanhou ao longo de toda a vida. Conseguiu publicar o seu colosso somente depois disso, em 1572, mesmo ano em que D. Sebastião lhe concedeu a pensão anual de 15 mil réis, uma “quantia de valor medíocre”, aponta Bueno. Ainda longe da fama, foi-se no dia 10 de junho de 1580 sem jamais imaginar o quanto seria exaltado mesmo séculos após a sua morte.

Declaração dos Direitos Humanos, 70 anos, é muito xingada, mas pouco lida.

A importância dos direitos humanos rivaliza apenas com a ignorância de parte da sociedade sobre eles.

Há um naco considerável de brasileiros que acredita que “direitos humanos” são um grupo de pessoas que ficam, de um lado para o outro, defendendo bandidos.

Roupas de refugiados venezuelanos são queimadas durante conflito com moradores de Pacaraima (RR). Foto: Avener Prado/Folhapress

Declaração dos Direitos Humanos, 70 anos, é muito xingada, mas pouco lida

Essa é a consequência de anos de programas sensacionalistas na TV e no rádio que venderam a ideia de que essas organizações resumem os tais “direitos humanos”. Ideia, diga-se de passagem, distorcida. Porque tais entidades querem que sejam cumpridas todas as leis, como as que dizem que o Estado não pode torturar e matar como fazem alguns bandidos.

Ou que direitos humanos são uma coisa de “comunista”. Ignoram que o texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o principal documento norteador desses princípios, teve forte influência das democracias liberais. E incluiu até o direito à propriedade privada, sob críticas dos países socialistas.

Esse preconceito também existe pela falta de tratamento sobre direitos humanos na sala de aula. Por ser um parâmetro curricular nacional deveria estar presente na educação básica de forma transversal – ou seja, tratado em todas as disciplinas.

Mas raramente está. E não é porque causa do equívoco chamado Escola Sem Partido, mas por conta da Escola Sem Recursos, da Escola Sem Formação Continuada dos Professores, da Escola Sem Salários Decentes, da Escola Sem Alunos Motivados, da Escola Sem Livros, entre outros movimentos que dão muito certo por aqui desde sempre.

O que são direitos humanos, afinal? Grosso modo, é aquele pacote básico de dignidade que você deve ter acesso simplesmente por ter nascido. Independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer condição.

Se esse pacote básico fosse respeitado, não haveria fome, crianças trabalhando, idosos deixados para morrer à própria sorte, pessoas vivendo sem um teto. Não teríamos uma taxa pornográfica de quase de 64 mil homicídios por ano, nem exploração sexual de crianças e adolescentes, muito menos trabalho escravo. Aos migrantes pobres seria garantida a mesma dignidade conferida a migrantes ricos. Todas as crenças seriam respeitadas – e a não-crença também. A liberdade de expressão seria defendida, mas os incitadores de crimes contra a dignidade seriam responsabilizados. Se direitos humanos fossem efetivados, não teríamos mulheres sendo estupradas, negros ganhando menos do que brancos e pessoas morrendo por amar alguém do mesmo sexo. Teríamos a garantia de ar respirável e água potável.

É claro que os direitos humanos não começam com o documento que completa 70 anos, nesta segunda (10). É uma longa caminhada pela história da humanidade, em que fomos pressionando governantes a não tolherem direitos civis e políticos, mas também para que o Estado agisse a fim de garantir direitos sociais, econômicos, culturais, ambientais.

Criança é obrigada a trabalhar na produção de tijolos no Paquistão

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BONDED (SLAVE) CHILD LABOURER POUNDING CLAY INTO A BRICK FORM. THE BRICKS BEHIND HER REPRESENT A DAYS WORK.
© Robin Romano / Stolen Childhoods
THOUSANDS OF BRICK KILNS LINE LINE THE RIVERBANKS IN BENGAL AND THE SURROUNDING STATES OF INDIA. MOST OF THE WORKERS HERE ARE BONDED (SLAVE) LABORERS. THE FAMILIES THAT WORK HERE ARE EXPLOITED 12-16 HOURS A DAY, 7 DAYS A WEEK. THEIR WORLD CONSISTS ONLY OF THESE MUD HOLES, DRYING FIELDS AND KILNS. AT NIGHT THEY SLEEP IN THE OPEN OR IN MAKESHIFT SHANTYS WHERE SANITARY CONDITIONS ARE NONEXISTENT. THERE ARE NO SCHOOLS HERE, AND FOR MANY OF THE CHILDREN THERE AREN’T EVEN FAMILIES. OVER 1/4 OF THE CHILDREN WORKING HERE HAVE BEEN TRAFFICKED FROM OTHER AREAS WHERE THEIR PARENTS HAVE BEEN FORCED TO EITHER SELL THEM INTO DEBT BONDAGE (SLAVERY) OR, IF THEY ARE LUCKY ENOUGH NOT TO BE BONDED, ARE DEPENDENT ON THE MEAGER WAGES THAT THESE CHILDREN CAN PROVIDE.
THE WORK IS EXTREMELY BRUTAL, HAZARDOUS, ABUSIVE AND SOMETIMES LETHAL. WORKING ALL DAY IN THE HOT SUN WHERE TEMPERATURES REGULARLY CLIMB ABOVE 100F (37C), THEY CARRY WELL OVER A TON OF CLAY A DAY AND CROUCH FOR HOURS AS THEY FABRICATE THOUSANDS OF BRICKS IN OLD FASHION MOLDS. THE PAY, IF THERE IS ANY, AND CONDITIONS FALL WELL BELOW MINIMUM LEVELS REQUIRED BY LAW AND ARE ILLEGAL FOR CHILDREN. NONETHELES THE KIDS COME, DRIVEN BY NECESSITY, OFTEN UNAWARE OF WHAT THEY ARE GETTING INTO AND SOMETIMES TRICKED OR VIRTUALLY KIDNAPPED BY UNSCRUPULOUS AGENTS AND MIDDLEMEN. FOR MANY, THEIR DEBT ACTUALLY INCREASES OVER TIME DUE TO DISHONEST ACCOUNTING.
THE POOR PAY AND HARD WORK ARE JUST THE BEGINNING. BRICK KILN CHILDREN TEND TO BE CHRONICALLY TIRED FROM THE LONG HOURS AND IRREGULAR REST, INCREASING THE PROBABILITY OF ACCIDENTS, INJURIES AND DEFORMITY. DISEASE, MALNUTRITION AND PERMANENT SKELETAL INJURY ARE THE COMMON LOT.
UNABLE TO RECEIVE THE EDUCATION TO WHICH THEY ARE ENTITLED BY LAW, THEY ARE POWERLESS TO ACT, AND TRAPPED IN A CONTINUAL CYCLE OF GRINDING POVERTY.
Bonded Labour, slave labour, CHILD LABOUR TRAVAIL DES ENFANTS Trabajo infantil Kinderarbeit
CHILDREN Kids ENFANTS Niños Kinder
SLAVERY ESCLAVAGE Esclavitud Sklaverei

Mas tratemos da Declaração, nosso documento mais relevante. O mundo, ainda em choque com os horrores da Segunda Guerra Mundial, produziu a Declaração Universal dos Direitos Humanos para tentar evitar que esses horrores se repetissem. De certa forma, com o mesmo objetivo, o Brasil, ainda olhando para as feridas de 21 anos de ditadura militar, sentou-se para escrever a Constituição Federal de 1988. Ambos não são documentos perfeitos, longe disso. Mas, com todos seus defeitos, ousam proteger a dignidade e a liberdade de uma forma que, se hoje sentássemos para formulá-los, não conseguiríamos.

É depois de grandes momentos de dor que estamos mais abertos para olhar o futuro e desejar que o sofrimento igual nunca mais se repita. Desde então, não vivemos uma guerra como aquela entre 1939 e 1945, muito menos um período de exceção quanto 1964 e 1985. Acabamos nos acostumando. E esquecendo. E banalizando.

E, por isso, ao completar 70 anos de sua proclamação pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos tem sido vítima de ataques. Tal como a Constituição, que completou 30 anos em outubro. Elegemos líderes ao redor do mundo que chamam os direitos humanos de ultrapassados ou fake news quando, em verdade. E, por conta disso, esses princípios são mais necessários do que nunca.

Minha geração herdou esses textos – um de nossos avós e outro de nossos pais. Agora, precisamos ensinar à geração de nossos filhos sua própria história sob o risco de que o espírito presente em 1948 e 1988 se perca por desconhecimento.

Discursos misóginos, homofóbicos, fundamentalistas e violentos têm atraído rapazes que, acreditando serem revolucionários e contestadores, na verdade agem de forma a manter as coisas como sempre foram. Creem que estão sendo subversivos lutando contra a “ditadura do politicamente correto” – que, na prática, se tornou uma forma pejorativa de se referir aos direitos básicos que temos por termos nascido humanos.

Parte dos jovens também abraça esses discursos como reação às tentativas de inclusão de grupos historicamente excluídos, como mulheres, negros, população LGBTT. Há rapazes que veem na luta por direitos iguais por parte de suas colegas de classe ou de coletivos feministas uma perda de privilégios que hoje nós, os homens, temos. Nesse contexto, influenciadores digitais, formadores de opinião e guias religiosos ajudam a fomentar, com seus discursos violentos e irresponsáveis, uma resposta agressiva dos rapazes à luta das jovens mulheres e outras minorias pelo direito básico a não sofrerem violência.

É exatamente nesses momentos de dificuldade que precisamos nos lembrar da caminhada que nos trouxe até aqui. Para ter a clareza de que, mais importante do que reinventar todas as regras, é tirar do papel, pela primeira vez, a sociedade que um dia imaginamos frente aos horrores da guerra ou da ditadura. O que só se fará com muito diálogo e a promessa de garantia desse quinhão mínimo de dignidade.

Infelizmente, para algumas pessoas politica e economicamente poderosas, os direitos humanos, do alto de seus 70 anos, são vistos como um problema incômodo a ser imolado no altar do crescimento econômico ou em nome de Deus e da chamada “tradição”.

Portanto, devemos encarar todas as conquistas nessa área, desde 10 de dezembro de 1948, como portas que, depois de muito sacrifício, conseguimos abrir no muro da opressão e da injustiça. Portas que, se não forem monitoradas bem de perto, se fecharão novamente na nossa cara.

Corpos de trabalhadores no Hospital de Redenção, no Pará após a Chacina de Pau D'Arco. Foto: Repórter Brasil

Declaração dos Direitos Humanos, 70 anos, é muito xingada, mas pouco lida

E o trabalho começa por explicar a toda pessoa que xinga os direitos humanos que, ao fazer isso, ela chama a si mesma de lixo.

https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/declaracao-dos-direitos-humanos-70-anos-e-muito-xingada-mas-pouco-lida/

O que a ciência já sabe sobre o surgimento e a evolução da espécie humana

Recentemente, conversei com um cientista que trabalhava em um resumo sobre o que sabemos da evolução humana. Já tendo escrito um artigo semelhante há cinco anos, essa não deveria ser uma tarefa tão árdua, mas, quando retomou o trabalho antigo, percebeu que pouco do que produzira permanecia relevante. “Não consigo aproveitar quase nada”, lamentou.O que a ciência já sabe sobre o surgimento e a evolução da espécie humana

Como jornalista, entendo a aflição. Nos últimos anos, cientistas têm produzido pilhas de teorias de como a humanidade começou e, com certa frequência, a nova evidência não corrobora o que pensávamos ser verdade. Pelo contrário, muitos desses achados exigem que pesquisadores formulem novos questionamentos sobre o passado da humanidade e imaginem uma pré-história ainda mais complexa.

Quando a “Science Times” surgiu, há 40 anos, o conhecimento dos cientistas sobre como nossos antepassados evoluíram a partir de outros símios para uma nova espécie, conhecida como hominídeo, era muito menor. Naquela época, o fóssil de hominídeo mais antigo de que se tinha notícia era o de uma fêmea de estatura baixa e volume cerebral pequeno descoberto na Etiópia e batizado de Lucy. Essa espécie, agora denominada Australopithecus afarensis, existiu entre 3,85 e 2,95 milhões de anos atrás. Lucy e seus pares tinham características similares às dos símios, como braços longos e mãos envergadas, eram capazes de andar no chão, porém de forma ineficaz, e não podiam correr.

O que a ciência já sabe sobre o surgimento e a evolução da espécie humana

Modelo tridmensional de Lucy, uma Australopithecus afarensis.

Aparentemente, o caminho percorrido desde os hominídeos até a evolução dos humanos modernos foi uma trajetória direta a partir de Lucy. Os primeiros membros conhecidos do nosso gênero, Homo, eram mais altos e apresentavam longas pernas para caminhar e correr, além de possuírem cérebros muito maiores. Eventualmente, os primeiros Homo deram lugar à nossa espécie, Homo sapiens.

Hoje em dia é sabido que a espécie de Lucy não foi o ponto de partida para a nossa evolução, mas apenas um ramo que se desenvolveu no meio do caminho do desenvolvimento da nossa árvore genealógica. Pesquisadores encontraram fósseis de hominídeos de mais de 6 milhões de anos, e cada vestígio –um osso de perna aqui, um crânio esmagado ali– abre caminho para mais antepassados símios. Mesmo os hominídeos mais antigos eram semelhantes a nós em um traço importante: ao que tudo indica, eram capazes de andar no chão, pelo menos por curtas distâncias.

Paleoantropólogos descobriram novos fósseis preciosos que cobrem todo o espectro da evolução dos hominídeos. Ficou claro que uns pertenciam a espécies já conhecidas, como a Australopithecus afarensis, mas outros eram tão diferentes que receberam nova designação. Houve ainda casos de fósseis classificados entre um e outro.

Não raro, pareciam mosaicos de outras espécies com uma combinação notável de traços resultante do cruzamento entre elas. Por outro lado, os hominídeos podem ter desenvolvido muitas características de forma autônoma e constante ao longo de linhas de evolução independentes.

Toda essa mistura e essa experimentação produziram trinta tipos diferentes de hominídeos –de que temos conhecimento. Além disso, um tipo não sucedeu ao outro ordenadamente na história: por milhões de anos, diversos tipos de hominídeos coexistiram.

De fato, nossa espécie dividiu este planeta com seus “quase parentes” até há pouco tempo. Em 2017, pesquisadores encontraram, em Marrocos, os fósseis mais antigos da nossa espécie de que já se teve conhecimento: ossos de cerca de 300 mil anos. Nessa época, os neandertais já existiam; eles viveram pela Europa e Ásia até 40 mil anos atrás. Também nessa época, o Homo erectus, um dos membros mais antigos do nosso gênero, residia no que é hoje a Indonésia; a espécie não foi extinta até pelo menos 143 mil anos atrás.

O Homo erectus e o neandertal são velhos conhecidos de paleoantropólogos. Fósseis dos primeiros foram localizados nos anos 1890; já os neandertais tinham sido descobertos em 1851. Contudo, uma pesquisa recente mostrou que mesmo outros hominídeos compartilharam este planeta com nossa própria espécie.

Em 2015, pesquisadores desenterraram fósseis de 250 mil anos em uma caverna na África do Sul. Batizada de Homo naledi, o cérebro dessa nova espécie era do mesmo tamanho do de Lucy, mas apresentava uma estrutura complexa que se assemelhava à nossa. O pulso e outros ossos da mão do Homo naledi eram parecidos com os de um humano, enquanto os dedos longos e encurvados pareciam mais com os de símios.

Crânio de Homo naledi, encontrado em sítio arqueológico localizado próximo a Johannesburgo, na África do Sul .

Crânio de Homo naledi, encontrado em sítio arqueológico localizado próximo a Johannesburgo, na África do Sul .

Enquanto os Homo naledi prosperaram na África, uma espécie misteriosa podia ser encontrada em uma ilha hoje chamada Flores, na Indonésia. Denominada Homo floresiensis, essa espécie de hominídeo media apenas 90 centímetros e seu cérebro era ainda menor do que o do Homo naledi. Acredita-se que tenha chegado a Flores há 700 mil anos e resistido pelo menos até 60 mil anos. Além disso, é possível que tenha produzido ferramentas de pedra para caçar e abater elefantes-pigmeus que habitavam a ilha.

Paleoantropólogos não se limitam mais a apenas examinar o tamanho e a forma dos fósseis. Nos últimos 20 anos, geneticistas aprenderam a extrair DNA de ossos de dezenas de milhares de anos. Em uma extraordinária descoberta feita na Sibéria, pesquisadores que analisavam o osso de um mero dedo mindinho descobriram o genoma de uma nova linha de hominídeos, agora conhecidos como denisovans.

Ao que tudo leva a crer, habitamos o planeta de forma exclusiva há apenas 40 mil anos –uma pequena fração, considerando a longeva existência do Homo sapiens. Talvez tenhamos superado outras espécies. Talvez elas tenham tido azar na loteria da evolução. De qualquer maneira, ainda vivemos juntos. Tanto os neandertais quanto os denisovans cruzaram com nossos antepassados há 60 mil anos e, hoje, bilhões de pessoas carregam seu DNA. Mesmo depois de todo esse tempo, seguimos como mosaicos.

Terra daqui a 200 milhões de anos: cientistas mostram ‘supercontinente’ do futuro

Dentro de 200-250 milhões de anos, nosso planeta terá um aspecto totalmente distinto do que vemos hoje, ao juntar todos os continentes atuais em um novo supercontinente, descobriram os investigadores Mattias Green (da Universidade de Bangor, Reino Unido), Hannah Sophia Davies e João C. Duarte (da Universidade de Lisboa, Portugal).

No artigo, publicado no portal The Conversation, os cientistas explicam que as placas tectônicas que formam a crosta terrestre estão em movimento constante, deslocando-se a uma velocidade de poucos centímetros por ano. Em termos geológicos, isso faz com que, de vez em quando, os continentes se juntem em um supercontinente que se mantém unido durante centenas de milhões de anos antes de se dividir novamente.

O último supercontinente Pangeia, que existiu entre 200 a 540 milhões de anos atrás, durante a era Paleozoica, começou a se separar há aproximadamente 180 milhões de anos. Espera-se que o próximo seja formado em cerca de 200 a 250 milhões de anos. A ruptura de Pangeia levou a formação do oceano Atlântico que ainda está se ampliando, enquanto o oceano Pacífico está se estreitando.

Segundo os autores do estudo, há quatro cenários fundamentais para a formação do próximo supercontinente: Novopangea, Pangeia Última, Aurica e Amasia.

Novopangea

Se mantiverem as condições atuais — com o Atlântico a se ampliar e o Pacífico a diminuir — o novo supercontinente se formaria na parte oposta à antiga Pangeia, indicam especialistas. As Américas se colidiriam com a Antártida, que continuaria se movendo ao norte e, em seguida, com a África e Eurásia já unidas, para criar a chamada Novopangea.

Pangeia Última

Se a expansão do Atlântico começar a se interromper, seus dois pequenos arcos de subducção poderiam se estender ao longo da costa oriental das Américas, o que levaria a uma recreação de Pangeia. Os continentes voltariam a se unir em um supercontinente chamado Pangeia Última, que estaria rodeado por um superoceano Pacífico.

Aurica

No caso de aparecerem novas zonas de subducção no Atlântico, ambos os oceanos poderiam se fechar e criar uma bacia oceânica. Neste cenário, a rachadura pan-asiática, que atualmente atravessa a Ásia, iria se abrir para formar um novo oceano. O resultado disso seria a formação do supercontinente Aurica, em cujo centro estaria a Austrália.

Amasia

O quarto cenário supõe um “destino completamente diferente para a Terra futura”, segundo os pesquisadores. É destacado que várias placas tectônicas, inclusive a África e Ásia, estão se movendo atualmente ao norte. É possível que todos os continentes, exceto a Antártida, continuem avançando ao norte até se unir ao redor desse Polo em um supercontinente, nomeado de Amasia.

De acordo com as avaliações dos cientistas, o cenário da Novopangea é o mais provável, sendo uma progressão lógica das tendências atuais, enquanto os outros três precisam da intervenção de processos adicionais.

Pitágoras não é o autor do teorema matemático que carrega seu nome

Embora seja o matemático mais conhecido do público, pouco se sabe sobre a vida e a obra de Pitágoras. Pior, as escassas informações de que dispomos são contraditórias. Foi pioneiro genial que deu os primeiros passos na transformação da matemática em ciência rigorosa? Ou místico obcecado com temas esotéricos, como reencarnação e regras peculiares, como a proibição de comer feijões? Parte da confusão se deve aos seus partidários terem se dividido com sua morte, transmitindo visões antagônicas de suas ideias.

Ao que sabemos, Pitágoras nasceu na ilha grega de Samos, por volta de 560 a.C., e morreu no sul da Itália, cerca de 480 a.C.. Na juventude, viajou por Egito e Babilônia, absorvendo conhecimento matemático. Por volta de 530 a.C., fixou-se na colônia grega de Crotona, onde fundou uma sociedade filosófica e religiosa que exerceu influência política considerável na Magna Grécia, o conjunto das colônias gregas no sul da Itália.

Há pouca informação sobre vida do matemático e seus seguidores espalharam versões distintas de ideias

Pitágoras não é o autor do teorema matemático que carrega seu nome

Pitágoras não é o autor do teorema matemático que carrega seu nome

Pitágoras dividia seus seguidores em “akousmatikoi” (ouvintes), que estavam proibidos de falar e só podiam memorizar as palavras do mestre; e “mathematikoi” (matemáticos, ou aprendizes), os mais avançados, que podiam perguntar e até expressar opiniões. Só transmitia seus princípios com clareza aos últimos. Os “akousmatikoi” recebiam só esboços vagos e misteriosos.

Depois que morreu, os dois grupos teriam evoluído para facções rivais, transmitindo versões distintas dos ensinamentos: mística e esotérica, pelos “akousmatikoi”, racional e científica, para os “mathematikoi”. Mas é possível que a distinção não fosse tão estrita.

O alicerce da filosofia pitagórica era a ideia de que tudo é número. Ela estava baseada na descoberta de que as harmonias musicais podem ser expressas mediante números. Harmonias mais bonitas são dadas por notas cujas frequências estão em relações simples, tais como (2:1) ou (3:2).

Outro fundamento de sua crença estava na astronomia, que Pitágoras aprendera com os babilônios. Acreditava que os movimentos periódicos dos planetas estariam relacionados de alguma forma com os intervalos musicais, sugerindo que o movimento dos corpos celestes produz uma espécie de harmonia nos céus, a “música das estrelas”.

Sua contribuição científica mais conhecida é o teorema de Pitágoras: num triângulo retângulo, a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa.

Mas vestígios arqueológicos comprovam que o teorema já era conhecido dos babilônios na época do rei Hamurabi, cerca de 1800 a.C.. Também parece duvidoso que Pitágoras tenha dado a primeira prova rigorosa, como acreditaram alguns historiadores.

Seu papel parece ter sido o de apresentar o teorema ao mundo grego e, dessa forma, a toda a civilização ocidental.

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloviana/2018/11/pitagoras-nao-e-o-autor-do-teorema-matematico-que-carrega-seu-nome.shtml

Anarquistas de Chicago

Um dia como hoje, de 1887, foram assassinados os anarquistas de Chicago pelas mãos da autoridade americana, pelo facto de ter paralisado a indústria levantando em greve a milhares de trabalhadores no dia 1 de maio de 1886.

Anarquistas de Chicago

Anarquistas de Chicago

O pretexto que o governo americano usou para prender-los e executá-los foi o “incidente de haymarket, Chicago”, que teve lugar no quarto dia da greve quando um operário anónimo atirou uma bomba contra a polícia que abafar os manifestantes. O que motivou este trabalhador desconhecido a atentar contra os agentes foi o massacre que a mesma polícia cometeu dias antes contra a multidão desarmada.

Graças a estes oito anarquistas a cada 1º de maio comemora-se o dia do proletário mundial, devido aos protestos que realizaram se o dia de trabalho de 12 horas a 8, e por eles que na sua qualidade de imigrantes conseguiram Unir os trabalhadores, hoje o povo conhece os frutos da organização sem chefes e procura – a 130 anos de distância – a reivindicação total dos seus direitos.

Palavras de George Engel proferidas no dia do seu assassinato, em 11 de novembro de 1887:

” e por que razão estou aqui? Por que razão me acusam de assassino? Pela mesma razão que tive de abandonar a Alemanha, pela pobreza, pela miséria da classe trabalhadora. Aqui também, nesta ‘livre República’, no país mais rico do mundo, há muitos trabalhadores que não têm lugar no banquete da vida e que como párias sociais arrastam uma vida miserável. Aqui já vi seres humanos à procura de algo com que se alimentar nos montes de lixo das ruas.

Em que consiste o meu crime? Em que trabalhei para o estabelecimento de um sistema social em que seja impossível o facto de que, enquanto uns milhões utilizando as máquinas, outros caem na degradação e na miséria. Assim como a água e o ar são livres para todos, assim a terra e as invenções dos homens de ciência devem ser usadas em benefício de todos. As suas leis estão em oposição às da natureza, e através delas roubam as massas o direito à vida, à liberdade e ao bem-estar… se cada trabalhador levasse uma bomba no bolso, em breve seria derrubado o sistema capitalista prevalecente .

Eu não combato individualmente os capitalistas; combato o sistema que dá o privilégio. O meu mais ardente desejo é que os trabalhadores saibam quem são os seus inimigos e quem são os seus amigos. Tudo o resto eu o desprezo; desprezo o poder de um governo iníquo, seus policiais e seus espiões.

Este é o momento mais feliz da minha vida
Viva a anarquia!”

Ⓐnarquize-se

AS CRIANÇAS DE ESPARTA E O MILITARISMO

A fama de grande cidade-estado guerreira alcançada por Esparta durante a Antiguidade Clássica pode ser percebida como uma consequência do rígido treinamento militar dedicado às crianças e adolescentes espartanos do sexo masculino, que durante o período compreendido entre os sete e vinte anos de idade se dedicavam à agoge, o processo educacional da cidade-estado.

O espartano era um cidadão desde cedo moldado conforme os valores militaristas de sua cidade-Estado

O espartano era um cidadão desde cedo moldado conforme os valores militaristas de sua cidade-Estado

O primeiro critério de seleção ocorria ainda no nascimento da criança, quando o conselho dos anciões da cidade-estado decidia sobre a continuidade ou não da vida do bebê, caso fosse considerado inapto para a vida militar. Nesses casos, as crianças eram mortas (afogamento, jogadas de penhascos etc.), caracterizando uma prática sistemática de infanticídio pelo Estado. O infanticídio era uma medida até certo ponto comum na região grega, mas apenas em Esparta não era uma decisão dos pais e sim do Estado.

O espartano era um cidadão desde cedo moldado conforme os valores militaristas de sua cidade-Estad

O espartano era um cidadão desde cedo moldado conforme os valores militaristas de sua cidade-Estado

Caso sobrevivesse, o cidadão-espartano, o homolói, crescia entre sua família apenas até os sete anos de vida. Depois de completada esta idade era entregue pelos pais aos centros de treinamento, onde eram educados em período integral nos ensinamentos pautados no militarismo, na disciplina e na obediência cega às ordens dadas pelos superiores hierárquicos. Este rígido processo educacional era chamado de agoge, e era dividido em três fases.

A primeira ocorria quando a criança tinha entre sete e onze anos de idade e era centrada no treinamento militar básico, com os primeiros conhecimentos sobre manejo de armas e de desenvolvimento corporal através da prática de exercícios, além das medidas iniciais de subserviência e obediências aos superiores. O conhecimento das letras não era objetivo da educação, sendo as crianças alfabetizadas apenas em casos de necessidade. A supervisão da educação era realizada por um magistrado, mas as punições e flagelos públicos infligidos às crianças eram responsabilidade dos alunos mais velhos, através de castigos físicos e muitas vezes em público.

AS CRIANÇAS DE ESPARTA E O MILITARISMO

O espartano era um cidadão desde cedo moldado conforme os valores militaristas de sua cidade-Estado

Entre os doze e quinze anos os adolescentes iniciavam a segunda fase da agoge, sob a supervisão de um mestre adulto, que os ensinavam a usar as armas com perícia, assim como atividades com cavalos e bigas, além da continuidade das tarefas militares básicas do período anterior. Eram submetidos ainda a uma escassa dieta alimentar, que os obrigava a caçar ou roubar alimentos, sendo punidos apenas quando eram descobertos. Recebiam ainda uma parca vestimenta, obrigando-os a desenvolver condições físicas para suportar situações climáticas muito adversas.

A terceira e última fase se dava entre os 16 e 20 anos, com o treinamento centrado nas ações coletivas, com ações militares em grupo, transformando-os em hoplitas, guerreiros munidos de grandes escudos redondos, que com um forte senso de cooperação coletiva se organizavam em falanges. As falanges eram as principais formações de ataque e defesa dos espartanos, necessitando de uma proteção no campo de batalha entre todos os participantes.

Essa educação militar estava envolta na necessidade de manutenção do poder da elite espartana, bem menor numericamente em relação aos demais grupos sociais, que viviam subjugados pela força. Os cidadãos espartanos dedicavam a vida às causas defendidas pelo Estado, com os interesses coletivos da classe dominante espartana se sobrepondo aos interesses individuais destas crianças separadas de suas famílias desde a infância.

Por Tales Pinto
Graduado em História

https://guerras.brasilescola.uol.com.br/idade-antiga/as-criancas-esparta-militarismo.htm

 

Os matemáticos que ajudaram Einstein e sem os quais a Teoria da Relatividade não funcionaria.

Os matemáticos que ajudaram Einstein e sem os quais a Teoria da Relatividade não funcionaria.

     As ideias de matemáticos do século 19 deram a Einstein o que ele precisava para desenvolver a Teoria da Relatividade

Os matemáticos que ajudaram Einstein e sem os quais a Teoria da Relatividade não funcionaria.

As ideias de matemáticos do século 19 deram a Einstein o que ele precisava para desenvolver a Teoria da Relatividade

Sem as contribuições de János Bolyai, Nikolay Lobachevski e Bernhard Riemann, que descreveram o espaço curvo e as múltiplas dimensões, Albert Einstein teria enfrentado muitos obstáculos

O físico alemão Albert Einstein (1879-1955) é um gênio famoso. Sua imagem nos é familiar. Sua Teoria da Relatividade é célebre. Mas, sem as ideias de três matemáticos do século 19, essa que é a principal teoria de Einstein simplesmente não funcionaria.

A matemática é a chave para entender o universo físico. Como disse o filósofo italiano Galileu Galilei certa vez, sem o farol criado por essa ciência, estaríamos dando voltas em um labirinto escuro.

Matemáticos pioneiros deram a Einstein um mapa para navegar pelo labirinto mais escuro de todos: o tecido do Universo. János Bolyai, Nikolái Lobachevski e Bernhard Riemann criaram novas geometrias que nos levaram a mundos estranhos e flexíveis.

“Einstein era um bom matemático intuitivo e teve um pouco de problema com essas ideias, mas sabia o que queria. Quando viu o que Riemann havia feito, soube que era isso”, disse o físico teórico Roger Penrose à BBC.

Teorias de Euclides em xeque

Os matemáticos que ajudaram Einstein e sem os quais a Teoria da Relatividade não funcionaria.

Os matemáticos que ajudaram Einstein e sem os quais a Teoria da Relatividade não funcionaria.

Durante 2.000 anos, os axiomas consagrados no grande trabalho de geometria “Os elementos”, de Euclides, foram aceitos comoverdades matemáticas absolutas e inquestionáveis.

A geometria de Euclides nos ajudou a navegar pelo mundo, construir cidades e nações, dando ao ser humano o controle sobre seu entorno.

Mas, na Europa, em meados do século 19, surgiu uma crescente inquietação em relação a algumas ideias de Euclides. Os matemáticos começaram a questionar se poderia haver outro tipo de geometria que ele não havia descrito, geometrias nas quais os axiomas de Euclides podiam ser falsos.

É difícil dizer o quão radical era essa sugestão. Tanto que um dos primeiros matemáticos a contemplar essa ideia, o alemão Carl Frederick Gauss, relutava em falar sobre o tema, apesar de ser considerado, neste momento, um Deus no mundo matemático.

Tinha uma reputação impecável.

A geometria de Euclides nos ajudou a navegar pelo mundo, a construir cidades e nações.

Os matemáticos que ajudaram Einstein e sem os quais a Teoria da Relatividade não funcionaria.

Poderia ter dito qualquer coisa que a maioria dos matemáticos teria acreditado, mas se manteve em silêncio: não compartilhou com ninguém sua suspeita de que o espaço pudesse ser disforme.

‘Descobertas radicais’

Enquanto isso, na Hungria, Farkas Bolyai, outro matemático, também contemplava cenários em que a geometria de Euclides poderia ser falsa.

Bolyai havia estudado com Gauss na Universidade de Göttingen, na Alemanha, e voltado para sua casa na Transilvânia, na Romênia, onde havia passado anos lutando sem sucesso com a possibilidade de novas geometrias. Esse esforço o havia quase destruído.

“Viajei para além de todos os recifes desse infernal Mar Morto e sempre voltei com os mastros e velas danificados. Arrisquei sem pensar toda minha vida e felicidade.”

János Bolyai descobriu o que chamou de ‘mundos imaginários’

Os matemáticos que ajudaram Einstein e sem os quais a Teoria da Relatividade não funcionaria.

János Bolyai descobriu o que chamou de ‘mundos imaginários’.

Em 1823, recebeu uma carta do filho, também matemático, que estava com seu batalhão do Exército em Timisoara.

“Meu querido pai, tenho tantas coisas sobre as quais te escrever a respeito de minhas novas descobertas, que não posso fazer outra coisa que escrever essa carta, sem esperar sua resposta à minha carta anterior, e talvez não deveria fazê-lo, mas encontrei coisas lindas, que até a mim me surpreenderam, e seria uma pena perdê-las; meu querido pai verá e saberá, não posso dizer mais, apenas que do nada criei um mundo novo e estranho.”

O filho de Farkas Bolyai, János, havia descoberto o que chamou de “mundos imaginários”; mundos matemáticos que não satisfaziam os axiomas de Euclides, que pareciam ser completamente consistentes e sem contradições.

Bolyai escreveu imediatamente para o amigo Gauss contando as emocionantes descobertas que seu filho havia feito. Na sequência, Gauss enviou uma carta a um colega, elogiando o pensamento brilhante do jovem matemático.

“Recentemente, recebi da Hungria um pequeno artigo sobre a geometria não-euclidiana. O escritor é um jovem oficial austríaco, filho de um dos meus primeiros amigos. Considero o jovem geômetra J. Bolyai um gênio de primeira classe.”

Mas, na carta que escreveu a Bolyai, o tom foi bem diferente:

“Se começasse dizendo que não posso elogiar este trabalho, certamente ficaria surpreso por um momento. Mas não posso dizer o contrário. Elogiá-lo seria elogiar a mim mesmo. De fato, todo o conteúdo da obra, o caminho tomado por seu filho, os resultados aos quais se dirige, coincidem quase completamente com as minhas reflexões, que ocuparam parcialmente a minha mente nos últimos 30 ou 35 anos”.

Os matemáticos que ajudaram Einstein e sem os quais a Teoria da Relatividade não funcionaria.

Uma carta de Gauss sobre as ideias de János Bolyai deixou o jovem geômetra desconsolado.

Uma carta de Gauss sobre as ideias de János Bolyai deixou o jovem geômetra desconsolado

O jovem János ficou completamente inconsolável. Seu pai tentou confortá-lo: “Certas coisas têm sua época, quando se encontram em locais diferentes, como a primavera quando as violetas florescem em todas as partes”.

Apesar do incentivo do pai para publicar, János Bolyai não escreveu suas ideias até alguns anos depois. Foi tarde demais.

Ele descobriu pouco depois que o matemático russo Nikolái Lobachevski havia publicado ideias muito similares, dois anos antes dele.

Além das três dimensões

As geometrias radicais de Bolyai e Lobachevski estavam confinadas a nosso universo tridimensional.

Mas foi um aluno de Gauss, na Universidade de Göttingen, que levou essas novas geometrias para uma direção ainda mais exótica.

Bernhard Riemann era um matemático tímido e brilhante, que sofria de problemas de saúde bastante sérios. Um dos seus contemporâneos, Richard Dedekind, escreveu sobre ele:

“Riemann está muito infeliz. Sua vida solitária e seu sofrimento físico o tornaram extremamente hipocondríaco e desconfiado de outras pessoas e de si mesmo. Ele fez as coisas mais estranhas aqui só porque acredita que ninguém pode aguentá-lo”. Em sua solidão, Riemann estava explorando os contornos dos novos mundos que havia construído.

  Pressionado pela universidade, Riemann foi forçado a apresentar suas ideias radicais.

Os matemáticos que ajudaram Einstein e sem os quais a Teoria da Relatividade não funcionaria.

Pressionado pela universidade, Riemann foi forçado a apresentar suas ideias radicais

No verão de 1854, o introvertido Riemann enfrentou um grande obstáculo para poder se tornar professor na Universidade de Göttingen: teve que dar uma palestra pública na Faculdade de Filosofia. O departamento escolheu o tema: “Sobre as hipóteses que se encontram na base da geometria”.

Assim, ele se viu forçado a apresentar no dia 10 de junho as ideias radicais que havia formulado sobre a natureza da geometria. Na plateia, estava, entre outras pessoas, seu professor, Carl Frederick Gauss, campeão de matemática da época.

Ele mostrou aos matemáticos presentes como ver em quatro, cinco, seis ou mais dimensões, inclusive em N dimensões. Descreveu formas que só podiam ser vistas com as mentes dos matemáticos e as fez tão tangíveis para quem as escutava, como os objetos 3D são para a maioria das pessoas.

Se você não é matemático, há um lugar em que você pode experimentar algo próximo da quarta dimensão: o Grande Arco de La Défense, em Paris, criado pelo arquiteto Johan Otto von Spreckleson.

  O Grande Arco de La Défense, em Paris, criado pelo arquiteto Johan Otto von Spreckleson, representa a ideia da quarta dimensão..

O Grande Arco de La Défense, em Paris, criado pelo arquiteto Johan Otto von Spreckleson, representa a ideia da quarta dimensão..

O Grande Arco de La Défense, em Paris, criado pelo arquiteto Johan Otto von Spreckleson, representa a ideia da quarta dimensão

É um cubo de quatro dimensões no coração de uma Paris tridimensional, uma estrutura absolutamente impressionante pela qual poderiam passar as torres da Catedral de Notre Dame.

Mas mais surpreendente ainda é o poder da ideia que representa. Um supercubo no meio da capital francesa, com 16 esquinas, 32 bordas e 24 faces… extraordinário!

O arquiteto abriu para todos nós uma porta para outro mundo. Mas, para compreender realmente a vida além de três dimensões, se faz necessária a revolucionária matemática de Riemann.

Inspiração para Einstein

Cinco décadas após a célebre conferência de 1854, as ideias de Riemann viraram realidade.

Einstein estava tentando contemplar a estrutura do espaço quando se deparou com as teorias curvas do espaço N-dimensional desenvolvidas por Riemann.

“A princípio, ele não gostou. Pensou: ‘Os matemáticos complicam tanto a vida!'”, destaca o físico Roger Penrose.

 Segundo Einstein, os corpos têm um efeito de curvatura na estrutura do espaço-tempo ao seu redor.

Os matemáticos que ajudaram Einstein e sem os quais a Teoria da Relatividade não funcionaria.

Segundo Einstein, os corpos têm um efeito de curvatura na estrutura do espaço-tempo ao seu redor

“Mas ele logo soube que era o prisma certo, e era absolutamente crucial, porque essa geometria quadridimensional se enquadrava nas outras três dimensões, e Einstein se deu conta que poderia generalizá-lo da mesma maneira com que Reimann havia generalizado a geometria euclidiana ao torná-la curva.”

Usando a matemática de Riemann, Einstein promoveu um avanço extraordinário sobre a natureza do Universo: o tempo, ele descobriu, era a quarta dimensão.
A nova geometria de Riemann permitiu unificar espaço e tempo. E as estranhas geometrias curvas pensadas pela primeira vez por Gauss, descritas por Bolyai e Lobachevsky e generalizadas por Riemann, o ajudaram a resolver a relatividade.

Ao medir a distância entre dois pontos no espaço-tempo usando a geometria de Euclides, surgem diversos paradoxos preocupantes. Mas, quando se utiliza as geometrias não euclidianas de Bolyai e Lobachevsky, os paradoxos se dissolvem.

As geometrias destes matemáticos do século 19 foram a chave para a criação da Teoria da Relatividade. Essas ideias traçaram o mapa para navegar na estrutura do espaço e do tempo.

 

Por que cientistas dizem que a astrologia não funciona?

Virginiano é metódico. Quem nasceu sob aquário é visionário – traços de personalidade como esses, segundo a astrologia, são resultado da influência das constelações que estavam no céu no momento em que nascemos. O embasamento científico disso? Nenhum.

Por que cientistas dizem que a astrologia não funciona?

Por que cientistas dizem que a astrologia não funciona?

Estudos conduzidos por vários ramos da ciência, da astronomia à estatística, concluíram que não há relação de causa e efeito comprovada, até o momento, entre os movimentos dos astros e o comportamento humano. Além disso, as referências zodiacais utilizadas estão desatualizadas, alerta a astronomia.

Segundo os astrônomos, que estudam a movimentação de planetas, estrelas e outros corpos no universo, os signos do horóscopo não correspondem mais à posição atual das constelações.

Isso porque, com o passar do tempo, a direção do eixo da Terra se altera, o que faz com que o movimento aparente do Sol pelas constelações do Zodíaco também mude. Assim, se você nasceu entre 21 de junho e 22 de julho, a astrologia diz que seu signo é Câncer. Mas, segundo os mapas atuais, na data do seu aniversário, na verdade o Sol está passando pela constelação de Gêmeos.

“Uma das premissas da ciência é que as ideias mudam quando asseguradas pela evidência. A astrologia não mudou suas ideias em resposta a evidências contraditórias

Boletim ‘Astrology, is it scientific?’, da Universidade de Berkley, nos Estados Unidos

A astrologia se defende dizendo que o uso do céu é simbólico, e a falta de correspondência não é um problema.

Momento da criação de novas estrelas a partir de uma nuvem de gás

Momento da criação de novas estrelas a partir de uma nuvem de gás.

Momento da criação de novas estrelas a partir de uma nuvem de gás.

Causa e consequência

Levantamentos estatísticos tentaram identificar correlações entre características pessoais e data de nascimento em grandes amostras populacionais. E não conseguiram.

Em 2007, o sociólogo britânico David Voas publicou um estudo avaliando dez milhões de casais – vinte milhões de pessoas – entrevistados pelo Censo da Inglaterra e País de Gales, em 2001. Ele analisava a hipótese de que alguns signos solares são mais compatíveis para relacionamentos amorosos. O resultado contrariou as previsões astrológicas: os casais não se formaram de acordo com compatibilidade do horóscopo.

Na década de 1980, o físico norte-americano Shawn Carlson também havia tentado comprovar, com método científico, o funcionamento da astrologia.

Em um estudo publicado que veio a ser publicado na revista Nature, sua equipe pediu que 28 astrólogos, recrutados de Estados Unidos e Europa, identificassem, entre três questionários de personalidade, qual deles correspondia, por exemplo, ao de uma pessoa de sagitário. E o teste foi repetido para 116 pessoas.

A taxa de acerto foi de 34% – ou seja, um em três possibilidades. Com isso, o estudo concluiu que a astrologia tem a mesma chance de acerto do acaso.

No divã

A psicologia cognitiva tem uma teoria que explica por que tanta gente vê sentido nas previsões astrológicas.

“É um fenômeno chamado de viés de confirmação. É a nossa tendência em afirmar aquilo que já sabemos ou acreditamos. Ele atua sobre diferentes mecanismos cognitivos da mente humana, influenciando aquilo que nos chama atenção, bem como as reconstruções que nossa memória faz de eventos ou situações pelas quais passamos”, diz o psicólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB), Ronaldo PIlati, autor do livro Ciência Pseudociência.

“A crença na astrologia é um bom exemplo. Em geral, as descrições astrológicas são genéricas e feitas de uma forma a não maltratar uma visão positiva que nutrimos por nós mesmos. Essa combinação é um prato cheio para a atuação do viés de confirmação”, diz.

Para minimizar os efeitos do viés da confirmação, sugere Pllati, é preciso “refletir sobre o que julgamos saber e concentrar nossa atenção naquilo que as explicações falham em acertar, ou seja, buscar informações que possam tornar falsa a explicação”.

*Carlos Orsi é autor de O Livro da Astrologia – Um olhar cético sobre a arte milenar

Pedras fundamentais de Stonehenge não foram obra de humanos diz pesquisador

Pedras fundamentais de Stonehenge não foram obra de humanos diz pesquisador
Segundo arqueólogo, a localização do monumento não foi escolhida ao acaso, mas por um fenômeno naquela posição específica

Stonehenge à noite

Segundo arqueólogo, a localização do monumento não foi escolhida ao acaso, mas por um fenômeno naquela posição específica

eito em algum ponto entre 5 mil e 4 mil anos atrás, Stonehenge é desses lugares com uma aura de mistério. Como pedras de até 50 toneladas foram carregadas para lá, de uma pedreira a 30 km de distância, como foram empilhadas e por quê?

Essas perguntas tem respostas hipotéticas (veja ao final). Mas uma outra acaba de ser respondida a contento: por que foi feito onde foi? E não, digamos, convenientemente perto das pedreiras?

O arqueológo independente Mike Pitts, que fez extensas escavações no local no fim dos anos 70, acaba de publicar um estudo que, acredita, responde a isso. Numa longa matéria no Journal of British Archaeology (“Journal de Arqueologia Britâniica), argumenta que as partes mais fundamentais de Stonhenge sempre estiveram lá.

Ao lado das chamadas Pedra do Calcanhar e a Pedra 16, havia indícios de covas naturais. O que, segundo ele, indica o local onde as pedras estavam originalmente, por possivelmente muitos milhões de anos. Elas simplesmente foram escavadas e levantadas numa nova posição.

As duas pedras projetam uma sombra alinhada ao centro do monumento nos solstícios de verão e inverno. Como essas sombras parecem ter sido absolutamente fundamentais no funcionamento do monumento, a ideia é que as pessoas do neolítico notaram isso, as tornaram um ponto de reverência, e o monumento surgiu em volta delas. A Pedra do Calcanhar, inclusive, não foi trabalhada, mas mantida ao natural.

Pedras fundamentais de Stonehenge não foram obra de humanos diz pesquisador

Na ilustração do arqueólogo, a Pedra do Calcanhar (heelstone) aparece no canto superior direito, a Pedra 16 (Stone 16), no inferior esquerdo. Borrões vermelhos indicam as covas Mike Pitts

Pitts afirma que não tem certeza absoluta de que sejam essas duas pedras as que estavam nas covas — testes químicos serão necessários para provar que elas não vieram da mesma pedreira que as outras, ou que não há outras pedras originais. Mas se mantém firme na teoria de que já havia algo no local de Stonehenge antes de Stonehenge.

“Nada disso quer dizer que Stonehenge é uma criação mesolítica, de caçadores-coletores, e não povos agrícolas”, afirma Pitts em seu blog. “Stonehenge em si continua, pelas evidências atuais, sendo algo que começou por volta do ano 3000 a.C. O que estou sugerindo é que, quando isso aconteceu, o local já estava atraindo as pessoas por provavelmente uma variedade de razões.”

Assim como as pirâmides, Stonehenge não é um mistério tão grande assim. Testes práticos confirmaram algumas hipóteses principais, de que era possível, sim, fazê-lo com tecnologia neolítica. O mais aceito é que as pedras foram levadas com trenós ou troncos, empilhadas através de cordas, hastes e rampas, e o local era um templo com significado astronômico ligado ao solstício de inverno — um sentido que, de acordo com uma teoria mais recente, pode ser até sexual.