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Por que cientistas dizem que a astrologia não funciona?

Virginiano é metódico. Quem nasceu sob aquário é visionário – traços de personalidade como esses, segundo a astrologia, são resultado da influência das constelações que estavam no céu no momento em que nascemos. O embasamento científico disso? Nenhum.

Por que cientistas dizem que a astrologia não funciona?

Por que cientistas dizem que a astrologia não funciona?

Estudos conduzidos por vários ramos da ciência, da astronomia à estatística, concluíram que não há relação de causa e efeito comprovada, até o momento, entre os movimentos dos astros e o comportamento humano. Além disso, as referências zodiacais utilizadas estão desatualizadas, alerta a astronomia.

Segundo os astrônomos, que estudam a movimentação de planetas, estrelas e outros corpos no universo, os signos do horóscopo não correspondem mais à posição atual das constelações.

Isso porque, com o passar do tempo, a direção do eixo da Terra se altera, o que faz com que o movimento aparente do Sol pelas constelações do Zodíaco também mude. Assim, se você nasceu entre 21 de junho e 22 de julho, a astrologia diz que seu signo é Câncer. Mas, segundo os mapas atuais, na data do seu aniversário, na verdade o Sol está passando pela constelação de Gêmeos.

“Uma das premissas da ciência é que as ideias mudam quando asseguradas pela evidência. A astrologia não mudou suas ideias em resposta a evidências contraditórias

Boletim ‘Astrology, is it scientific?’, da Universidade de Berkley, nos Estados Unidos

A astrologia se defende dizendo que o uso do céu é simbólico, e a falta de correspondência não é um problema.

Momento da criação de novas estrelas a partir de uma nuvem de gás

Momento da criação de novas estrelas a partir de uma nuvem de gás.

Momento da criação de novas estrelas a partir de uma nuvem de gás.

Causa e consequência

Levantamentos estatísticos tentaram identificar correlações entre características pessoais e data de nascimento em grandes amostras populacionais. E não conseguiram.

Em 2007, o sociólogo britânico David Voas publicou um estudo avaliando dez milhões de casais – vinte milhões de pessoas – entrevistados pelo Censo da Inglaterra e País de Gales, em 2001. Ele analisava a hipótese de que alguns signos solares são mais compatíveis para relacionamentos amorosos. O resultado contrariou as previsões astrológicas: os casais não se formaram de acordo com compatibilidade do horóscopo.

Na década de 1980, o físico norte-americano Shawn Carlson também havia tentado comprovar, com método científico, o funcionamento da astrologia.

Em um estudo publicado que veio a ser publicado na revista Nature, sua equipe pediu que 28 astrólogos, recrutados de Estados Unidos e Europa, identificassem, entre três questionários de personalidade, qual deles correspondia, por exemplo, ao de uma pessoa de sagitário. E o teste foi repetido para 116 pessoas.

A taxa de acerto foi de 34% – ou seja, um em três possibilidades. Com isso, o estudo concluiu que a astrologia tem a mesma chance de acerto do acaso.

No divã

A psicologia cognitiva tem uma teoria que explica por que tanta gente vê sentido nas previsões astrológicas.

“É um fenômeno chamado de viés de confirmação. É a nossa tendência em afirmar aquilo que já sabemos ou acreditamos. Ele atua sobre diferentes mecanismos cognitivos da mente humana, influenciando aquilo que nos chama atenção, bem como as reconstruções que nossa memória faz de eventos ou situações pelas quais passamos”, diz o psicólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB), Ronaldo PIlati, autor do livro Ciência Pseudociência.

“A crença na astrologia é um bom exemplo. Em geral, as descrições astrológicas são genéricas e feitas de uma forma a não maltratar uma visão positiva que nutrimos por nós mesmos. Essa combinação é um prato cheio para a atuação do viés de confirmação”, diz.

Para minimizar os efeitos do viés da confirmação, sugere Pllati, é preciso “refletir sobre o que julgamos saber e concentrar nossa atenção naquilo que as explicações falham em acertar, ou seja, buscar informações que possam tornar falsa a explicação”.

*Carlos Orsi é autor de O Livro da Astrologia – Um olhar cético sobre a arte milenar

Pedras fundamentais de Stonehenge não foram obra de humanos diz pesquisador

Pedras fundamentais de Stonehenge não foram obra de humanos diz pesquisador
Segundo arqueólogo, a localização do monumento não foi escolhida ao acaso, mas por um fenômeno naquela posição específica

Stonehenge à noite

Segundo arqueólogo, a localização do monumento não foi escolhida ao acaso, mas por um fenômeno naquela posição específica

eito em algum ponto entre 5 mil e 4 mil anos atrás, Stonehenge é desses lugares com uma aura de mistério. Como pedras de até 50 toneladas foram carregadas para lá, de uma pedreira a 30 km de distância, como foram empilhadas e por quê?

Essas perguntas tem respostas hipotéticas (veja ao final). Mas uma outra acaba de ser respondida a contento: por que foi feito onde foi? E não, digamos, convenientemente perto das pedreiras?

O arqueológo independente Mike Pitts, que fez extensas escavações no local no fim dos anos 70, acaba de publicar um estudo que, acredita, responde a isso. Numa longa matéria no Journal of British Archaeology (“Journal de Arqueologia Britâniica), argumenta que as partes mais fundamentais de Stonhenge sempre estiveram lá.

Ao lado das chamadas Pedra do Calcanhar e a Pedra 16, havia indícios de covas naturais. O que, segundo ele, indica o local onde as pedras estavam originalmente, por possivelmente muitos milhões de anos. Elas simplesmente foram escavadas e levantadas numa nova posição.

As duas pedras projetam uma sombra alinhada ao centro do monumento nos solstícios de verão e inverno. Como essas sombras parecem ter sido absolutamente fundamentais no funcionamento do monumento, a ideia é que as pessoas do neolítico notaram isso, as tornaram um ponto de reverência, e o monumento surgiu em volta delas. A Pedra do Calcanhar, inclusive, não foi trabalhada, mas mantida ao natural.

Pedras fundamentais de Stonehenge não foram obra de humanos diz pesquisador

Na ilustração do arqueólogo, a Pedra do Calcanhar (heelstone) aparece no canto superior direito, a Pedra 16 (Stone 16), no inferior esquerdo. Borrões vermelhos indicam as covas Mike Pitts

Pitts afirma que não tem certeza absoluta de que sejam essas duas pedras as que estavam nas covas — testes químicos serão necessários para provar que elas não vieram da mesma pedreira que as outras, ou que não há outras pedras originais. Mas se mantém firme na teoria de que já havia algo no local de Stonehenge antes de Stonehenge.

“Nada disso quer dizer que Stonehenge é uma criação mesolítica, de caçadores-coletores, e não povos agrícolas”, afirma Pitts em seu blog. “Stonehenge em si continua, pelas evidências atuais, sendo algo que começou por volta do ano 3000 a.C. O que estou sugerindo é que, quando isso aconteceu, o local já estava atraindo as pessoas por provavelmente uma variedade de razões.”

Assim como as pirâmides, Stonehenge não é um mistério tão grande assim. Testes práticos confirmaram algumas hipóteses principais, de que era possível, sim, fazê-lo com tecnologia neolítica. O mais aceito é que as pedras foram levadas com trenós ou troncos, empilhadas através de cordas, hastes e rampas, e o local era um templo com significado astronômico ligado ao solstício de inverno — um sentido que, de acordo com uma teoria mais recente, pode ser até sexual.

História da Astronomia

A Astronomia é uma área multidisciplinar da Ciência que estuda os fenômenos e corpos celestes para além da atmosfera terrestre.

O céu noturno sempre motivou e fascinou a humanidade

A Astronomia é uma área multidisciplinar da Ciência que estuda os fenômenos e corpos celestes para além da atmosfera terrestre.

A Astronomia é uma ciência natural multidisciplinar que busca observar e compreender os fenômenos que ocorrem fora da atmosfera terrestre, bem como a estrutura dos corpos celestes: planetas, estrelas e outras estruturas cosmológicas, tais como cometas, galáxias, nebulosas e o próprio espaço em si. A palavra astronomia vem do grego Astron, que significa astro, e Nomos, que significa lei.

História da astronomia

Muitas civilizações antigas interpretavam os astros como divindades e observaram o céu e estrelas. Com a identificação de padrões para predizer as estações do ano, bem como as melhores épocas para o plantio e colheita, o estudo dos astros possibilitou grandes avanços para a humanidade. Para entender um pouco melhor como foi o avanço da Astronomia ao longo dos séculos, faremos aqui uma linha do tempo simples, ressaltando apenas os fatos mais marcantes de cada período.

Breve linha do tempo da Astronomia

  • 4000 a.C.: os povos da Mesopotâmia utilizavam os zigurates para realizar observações astronômicas;
  • Em 2500 a.C.: a estrutura de pedras Stonehenge foi construída para marcar o início e o fim dos solstícios;
  • 1300 a.C.: os chineses iniciaram suas observações de eclipses, totalizando mais de 1700 observações ao longo de 2600 anos;
  • Aproximadamente 560 a.C.: o filósofo grego Anaxímenes propôs que as estrelas estão fixas em um envoltório sólido que gira em torno da Terra. Vinte anos antes, seu mestre, Anaximandro, foi o primeiro filósofo a tentar explicar o movimento dos astros sem utilizar os artifícios da mitologia;
  • 550 a.C.Pitágoras e seus estudantes descreveram o movimento dos astros como formas circulares. Além disso, para eles, as estrelas e planetas eram perfeitamente esféricos;
  • 350 a.C.Aristóteles usou a sombra da Terra sobre a Lua, formada durante os eclipses, como argumento para justificar o formato esférico do planeta;
  • 280 a.C.Aristarco calculou as dimensões relativas do Sol, Lua e Terra e também propôs o primeiro modelo heliocêntrico (com o Sol no centro);
  • 134 a.C.: o filósofo grego Hiparco descobriu o movimento de precessão da Terra e elaborou o primeiro catálogo com as posições e brilhos das estrelas visíveis a olho nu;
  • 140 d.CCláudio Ptolomeu desenvolveu seu modelo geocêntrico do Sistema Solar. Nesse modelo, as órbitas planetárias são círculos (chamados de epiciclos), que, por sua vez, movem-se em torno de outros círculos (chamados de deferentes);
  • 1054 d.C.: Astrônomos chineses observaram a “morte” de uma estrela. A supernova foi visível a olho nu durante o dia e deu lugar à Nebulosa do Caranguejo;
  • 1543 d.C.Nicolau Copérnico teve seu livro “Da revolução das esferas celestes” publicado, lançando as bases do modelo heliocêntrico do Sistema Solar;
  • 1580 d.C.: O astrônomo dinamarquês Tycho Brahe realizou as mais precisas observações astronômicas a olho nu já feitas e elaborou o próprio modelo geocêntrico do Sistema Solar;
  • 1600 d.C.Galileu Galilei realizou experimentos de queda dos corpos e chegou muito próximo do conceito moderno de inércia, contrariando as ideias vigentes sobre o movimento dos astros. Na mesma época, Giordano Bruno afirmava existir outros planetas similares à Terra fora do Sistema Solar e orbitando outras estrelas. Foi julgado como herege pelo Tribunal da Inquisição e sentenciado à fogueira;
  • 1609 d.C.Galileu foi o primeiro a utilizar os telescópios para observar o céu, com isso, conseguiu identificar quatro das maiores luas de Júpiter, provando que nem todos os astros orbitavam em volta da Terra. Observou também irregularidades na superfície da Lua;
  • 1610 d.C.Johannes Kepler desenvolveu as três leis dos movimentos planetários (Lei das órbitas, Lei das áreas e Lei dos períodos) utilizando os dados astronômicos obtidos por Tycho Brahe;
  • 1666 d.C.: o físico inglês Robert Hooke mostrou que forças que apontam para o centro de uma curva formam trajetórias fechadas, assim como as órbitas dos planetas;
  • 1667 d.C.Isaac Newton desenvolveu a Gravitação Universal, fornecendo argumentos matemáticos capazes de explicar as órbitas planetárias e prever novos eventos astronômicos;
  • 1718 d.CEdmund Halley descobriu que as estrelas não são fixas, mas que se movem com velocidades muito grandes;
  • 1781 d.C.William Herschel descobriu o planeta Urano e, tempos depois, conseguiu determinar a velocidade do Sol, bem como o formato achatado da Via Láctea;
  • 1842 d.C.Christian Johann Doppler descreveu o efeito Doppler, que mede a variação na frequência da luz. Esse importante fenômeno mais tarde foi usado para calcular as velocidades de aproximação e afastamento de estrelas e galáxias;
  • 1859-1875 d.C.: James Clerk Maxwell descobriu que a distribuição de velocidades das partículas de um gás depende de sua temperatura. Em 1875, Lorde Kelvin e Hermann vonHelmoltz realizaram uma estimativa da idade do Sol;
  • 1894-1900 d.C.Wilhelm Wien e, depois, Max Planck forneceram importantes explicações sobre a absorção e emissão de luz pelo corpo negro ao relacionar o comprimento de onda da luz emitida pelas estrelas com a sua temperatura;
  • 1905-1916 d.C.Albert Einstein descreveu o Efeito fotoelétrico e desenvolveu a teoria da gravitação universal;
  • 1916 d.C.Karl Schwarzschild descreveu os buracos negros como pequenas regiões do espaço deformadas por uma grande massa;
  • 1929 d.C.Edwin Hubble descobriu que o Universo está em constante expansão;
  • 1964 d.C.Arno Penzias e Robert Wilson descobriram, por meio de radiotelescópios, a existência da radiação cósmica de fundo, uma das evidências do surgimento do Universo;
  • 1965 d.C.: Lançamento da sonda espacial Mariner 4, a primeira a conseguir tirar fotos da superfície de outro planeta. Ela conseguiu obter imagens da superfície de Marte;
  • 1969 d.C.Neil Armstrong e Edwin Aldrin foram as primeiras pessoas a pisar na superfície da Lua;
  • 1973 d.C.: As sondas Voyager 1 e 2 chegaram a Júpiter e usaram sua grande aceleração gravitacional como impulso para explorar outros planetas fora do Sistema Solar;
  • 1990 d.C.: Lançamento do telescópio Hubble em órbita da Terra;
  • 1998 d.C.: Astrônomos japoneses descobriram que os neutrinos podem ter massa, sendo considerados fortes candidatos à matéria escura;
  • 2001 d.C.: Com o auxílio de um detector de neutrinos, localizado no Canadá, um grupo de cientistas conseguiu provar que essas pequenas partículas apresentam massa;
  • 2002 d.C.: Primeiras evidências da presença de gelo na superfície de Marte.

De fato, muito progresso científico foi feito ao longo dos séculos desde que o ser humano passou a observar o céu noturno. Profundas mudanças tecnológicas e sociais foram possíveis graças às grandes descobertas da Astronomia.

Grandes áreas da Astronomia

A Astronomia é multidisciplinar e envolve FísicaQuímicaGeologiaMeteorologia e até mesmo a Biologia. Sendo assim, destacamos aqui algumas das maiores divisões da Astronomia:

  • Astrobiologia: estudo da evolução dos sistemas biológicos no universo, busca por evidências que possibilitem a existência de vida fora da Terra; etc.;
  • Astrofísica: estudo das propriedades físicas dos corpos celestes, como densidade, temperatura, intensidade luminosa, etc.;
  • Astronomia planetária: estudo dos sistemas planetários, com ênfase no Sistema Solar, reunindo Física nuclear, Geologia, Meteorologia etc.;

Dia Mundial da Astronomia

Comemora-se no Brasil, no dia 8 de abril, o Dia Mundial da Astronomia, que se difere do DiaInternacional da Astronomia, cuja data depende das fases da Lua. O Dia Mundial da Astronomiatem como principal interesse o estreitamento dos laços entre entusiastas e pesquisadores dessa grande área de pesquisa, bem como aumentar a visibilidade e a divulgação das pesquisas científicas. Em 2009, comemorou-se o Ano Internacional da Astronomia, 400 anos após as primeiras observações telescópicas de Galileu Galilei.

 

O que os historiadores dizem sobre a real aparência de Jesus

Foram séculos e séculos de eurocentrismo – tanto na arte quanto na religião – para que se sedimentasse a imagem mais conhecida de Jesus Cristo: um homem branco, barbudo, de longos cabelos castanhos claros e olhos azuis. Apesar de ser um retrato já conhecido pela maior parte dos cerca de 2 bilhões de cristãos no mundo, trata-se de uma construção que pouco deve ter tido a ver com a realidade.

O que os historiadores dizem sobre a real aparência de Jesus

O Jesus histórico, apontam especialistas, muito provavelmente era moreno, baixinho e mantinha os cabelos aparados, como os outros judeus de sua época.

A dificuldade para se saber como era a aparência de Jesus vem da própria base do cristianismo: a Bíblia, conjunto de livros sagrados cujo Novo Testamento narra a vida de Jesus – e os primeiros desdobramentos de sua doutrina – não faz qualquer menção que indique como era sua aparência.

“Nos evangelhos ele não é descrito fisicamente. Nem se era alto ou baixo, bem-apessoado ou forte. A única coisa que se diz é sua idade aproximada, cerca de 30 anos”, comenta a historiadora neozelandesa Joan E. Taylor, autora do recém-lançado livro What Did Jesus Look Like? e professora do Departamento de Teologia e Estudos Religiosos do King’s College de Londres.

“Essa ausência de dados é muito significativa. Parece indicar que os primeiros seguidores de Jesus não se preocupavam com tal informação. Que para eles era mais importante registrar as ideias e os papos desse cara do que dizer como ele era fisicamente”, afirma o historiador André Leonardo Chevitarese, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro Jesus Histórico – Uma Brevíssima Introdução.

Em 2001, para um documentário produzido pela BBC, o especialista forense em reconstruções faciais britânico Richard Neave utilizou conhecimentos científicos para chegar a uma imagem que pode ser considerada próxima da realidade. A partir de três crânios do século 1, de antigos habitantes da mesma região onde Jesus teria vivido, ele e sua equipe recriaram, utilizando modelagem 3D, como seria um rosto típico que pode muito bem ter sido o de Jesus.

O que os historiadores dizem sobre a real aparência de Jesus

Ilustração feita por especialista Richard Neave para documentário da BBC em 2001

Esqueletos de judeus dessa época mostram que a altura média era de 1,60 m e que a grande maioria deles pesava pouco mais de 50 quilos. A cor da pele é uma estimativa.

Taylor chegou a conclusões semelhantes sobre a fisionomia de Jesus. “Os judeus da época eram biologicamente semelhantes aos judeus iraquianos de hoje em dia. Assim, acredito que ele tinha cabelos de castanho-escuros a pretos, olhos castanhos, pele morena. Um homem típico do Oriente Médio”, afirma.

“Certamente ele era moreno, considerando a tez de pessoas daquela região e, principalmente, analisando a fisionomia de homens do deserto, gente que vive sob o sol intenso”, comenta o designer gráfico brasileiro Cícero Moraes, especialista em reconstituição facial forense com trabalhos realizados para universidades estrangeiras. Ele já fez reconstituição facial de 11 santos católicos – e criou uma imagem científica de Jesus Cristo a pedido da reportagem.

“O melhor caminho para imaginar a face de Jesus seria olhar para algum beduíno daquelas terras desérticas, andarilho nômade daquelas terras castigadas pelo sol inclemente”, diz o teólogo Pedro Lima Vasconcellos, professor da Universidade Federal de Alagoas e autor do livro O Código da Vinci e o Cristianismo dos Primeiros Séculos.

Outra questão interessante é a cabeleira. Na Epístola aos Coríntios, Paulo escreve que “é uma desonra para o homem ter cabelo comprido”. O que indica que o próprio Jesus não tivesse tido madeixas longas, como costuma ser retratado.

“Para o mundo romano, a aparência aceitável para um homem eram barbas feitas e cabelos curtos. Um filósofo da antiguidade provavelmente tinha cabelo curto e, talvez, deixasse a barba por fazer”, afirma a historiadora Joan E. Taylor.

O que os historiadores dizem sobre a real aparência de Jesus

O ator Jim Caviezel interpretou Jesus no filme ‘A Paixão de Cristo’, de 2004, dirigido por Mel Gibson

Chevitarese diz que as primeiras iconografias conhecidas de Jesus, que datam do século 3, traziam-no como um jovem imberbe e de cabelos curtos. “Era muito mais a representação de um jovem filósofo, um professor, do que um deus barbudo”, pontua ele.

“No centro da iconografia paleocristã, Cristo aparece sob diversas angulações: com o rosto barbado, como um filósofo ou mestre; ou imberbe, com o rosto apolíneo; com o pálio ou a túnica; com o semblante do deus Sol ou de humilde pastor”, contextualiza a pesquisadora Wilma Steagall De Tommaso, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do Museu de Arte Sacra de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião.

Imagens

Joan acredita que as imagens que se consolidaram ao longo dos séculos sempre procuraram retratar o Cristo, ou seja, a figura divina, de filho de Deus – e não o Jesus humano. “E esse é um assunto que sempre me fascinou. Eu queria ver Jesus claramente”, diz.

A representação de Jesus barbudo e cabeludo surgiu na Idade Média, durante o auge do Império Bizantino. Como lembra o professor Chevitarese, eles começaram a retratar a figura de Cristo como um ser invencível, semelhante fisicamente aos reis e imperadores da época.

“Ao longo da história, as representações artísticas de Jesus e de sua face raras vezes se preocuparam em apresentar o ser humano concreto que habitou a Palestina no início da era cristã”, diz o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

“Nas Igrejas Católicas do Oriente, o ícone de Cristo deve seguir uma série de regras para que a imagem transmita essa outra percepção da realidade de Cristo. Por exemplo, a testa é alta, com rugas que normalmente se agrupam entre os olhos, sugerindo a sabedoria e a capacidade de ver além do mundo material, nas cenas com várias pessoas ele é sempre representado maior, indicando sua ascendência sobre o ser humano normal, e na cruz é representado vivo e na glória, indicando, desde aí, a sua ressurreição.”

Joaquin Phoenix interpretou Jesus no filme 'Maria Madalena', de 2018

Joaquin Phoenix interpretou Jesus no filme ‘Maria Madalena’, de 2018

Como a Igreja ocidental não criou tais normas, os artistas que representaram Cristo ao longo dos séculos criaram-no a seu modo. “Pode ser uma figura doce ou até fofa em muitas imagens barrocas ou um Cristo sofrido e martirizado como nas obras de Caravaggio ou Goya”, pontua Ribeiro Neto.

“O problema da representação fiel ao personagem histórico é uma questão do nosso tempo, quando a reflexão crítica mostrou as formas de dominação cultural associadas às representações artísticas”, prossegue o sociólogo. “Nesse sentido, o problema não é termos um Cristo loiro de olhos azuis. É termos fiéis negros ou mulatos, com feições caboclas, imaginando que a divindade deve se apresentar com feições europeias porque essas representam aqueles que estão ‘por cima’ na escala social.”

Essa distância entre o Jesus “europeu” e os novos fiéis de países distantes foi reduzida na busca por uma representação bem mais aproximada, um “Jesus étnico”, segundo o historiador Chevitarese. “Retratos de Jesus em Macau, antiga colônia portuguesa na China, mostram-no de olhos puxados, com a forma de se vestir própria de um chinês. Na Etiópia, há registros de um Jesus com feições negras.”

No Brasil, o Jesus “europeu” convive hoje com imagens de um Cristo mais próximo dos fiéis, como nas obras de Cláudio Pastro (1948-2016), considerado o artista sacro mais importante do país desde Aleijadinho. Responsável por painéis, vitrais e pinturas do interior do Santuário Nacional de Aparecida, Pastro sempre pintou Cristo com rostos populares brasileiros.

Para quem acredita nas mensagens de Jesus, entretanto, suas feições reais pouco importam. “Nunca me ocupei diretamente da aparência física de Jesus. Na verdade, a fisionomia física de Jesus não tem tanta importância quanto o ar que transfigurava de seu olhar e gestos, irradiando a misericórdia de Deus, face humana do Espírito que o habitava em plenitude. Fisionomia bem conhecida do coração dos que nele creem”, diz o teólogo Francisco Catão, autor do livro Catecismo e Catequese, entre outros.

Como seria o mundo se a Terra fosse realmente plana, segundo a ciência… – Veja mais

A Terra é redonda ou plana?

A Terra é redonda ou plana?

Conceito de uma Terra plana com o Polo Norte no centro e a Antártida nas periferias é defendido por alguns.

Essa pergunta pode parecer ridícula para muitas pessoas, e sua resposta, óbvia. Ou talvez não?

A teoria de que a Terra é plana ganhou adeptos nos últimos anos, com a primeira conferência de “terraplanistas” realizada no fim do ano passado nos Estados Unidos. Há inclusive celebridades de Hollywood que a defendem. E, apesar de haver muitas provas (gráficas e físicas) de que o nosso planeta é redondo, o debate ressurge com frequência.

Por isso, a fim de acabar com as especulações, o geofísico James Davis, da Universidade de Columbia, em Nova York, membro do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, idealizou um cenário de como seria a Terra se ela fosse de fato plana, tendo como base pressupostos dos terraplanistas.

1. A gravidade

Quem acredita que a Terra tem a forma de um disco parte do pressuposto de que a gravidade exerceria sua força diretamente para baixo, mas não é assim que funciona esse fenômeno. Davis esclarece que, segundo o que sabemos sobre a força gravitacional, ela puxa tudo para o centro.

Então, quanto mais longe do centro do disco, mais a gravidade puxaria as coisas horizontalmente. Isso teria efeitos estranhos, como sugar toda a água do mundo para o centro do disco, e fazer com que árvores e outras plantas crescessem diagonalmente, já que elas se desenvolvem na direção oposta à da gravidade.

Caminhar também seria uma tarefa complicada, com uma força que nos empurraria rumo ao centro quando tentássemos chegar à borda do disco. Seria como subir uma encosta muito inclinada.

2. O Sistema Solar

O modelo de Sistema Solar que prevalece hoje situa o Sol no centro deste conjunto, onde a Terra circula ao redor da estrela – graças a uma órbita que nos aproxima e nos distancia desse astro de acordo com a época do ano.

Os terraplanistas colocam a Terra no centro do Universo, onde o Sol opera como uma lâmpada que irradia luz e calor de lado a outro do planeta, mas não falam de uma órbita.

Davis acredita que, sem essa órbita ou a força gravitacional do Sol, nada impediria que o planeta fosse expelido para fora do Sistema Solar.

Uma Terra plana teria outra incongruência. Se o Sol e a Lua circulam sobre o planeta, seria possível haver dias e noites, mas não as estações, eclipses e outros fenômenos astronômicos que dependem do formato esférico da Terra.

Além disso, o Sol teria que ser menor do que a Terra, caso contrário poderia nos queimar ou cair sobre nós. Davis destaca, no entanto, haver medições suficientes que mostram que o Sol tem 100 vezes o diâmetro da Terra.

3. Campo magnético

As leis da física que conhecemos hoje em dia estabelecem que o núcleo da Terra gera seu campo magnético.

Em um planeta plano, segundo os defensores desse modelo, esse campo não existe. Sendo assim, diz o especialista, não haveria uma atmosfera, o que faria com que o ar e os mares fossem parar no espaço. É o que ocorreu em Marte quando o planeta perdeu seu campo magnético.

4. Atividade tectônica

O movimento das placas tectônicas e os movimentos sísmicos são explicados apenas com uma Terra redonda. “Só em uma esfera as placas se encaixam de uma forma sensata”, diz Davis.

Os movimentos das placas de um lado da Terra afetam os movimentos no outro lado. As áreas da Terra que criam formações para cima da crosta terrestre, como a Cordilheira dos Andes, são contrabalanceadas por outras que formam depressões, como os vales.

Nada disso seria explicado adequadamente com uma Terra plana. Não seria possível entender por que existem montanhas ou terremotos.

Também teria de haver uma explicação para o que acontece com as placas na borda do mundo. Poderíamos imaginar que elas cairiam, mas os terraplanistas defendem que existe um “muro de gelo” na borda, criado pela Antártida, algo muito difícil de acreditar, opina Davis.

Para concluir, diz o especialista, se vivêssemos em uma Terra plana, não teríamos nenhuma dúvida disso, porque tudo seria muito diferente de como conhecemos hoje.

DNA de esqueleto indica existência de britânicos negros e de olhos azuis há 10 mil anos

O Homem de Cheddar nada tem a ver com o queijo de sabor forte e, por vezes, cor amarelada. É, na verdade, um dos mais antigos britânicos de que se tem registro. E agora, também objeto de uma nova descoberta.

DNA de esqueleto indica existência de britânicos negros e de olhos azuis há 10 mil anos

Com base nos dados, cientistas reconstruíram o que acreditam ter sido o rosto do Homem de Cheddar

Uma análise recente do fóssil encontrado em 1903 em uma gruta de Cheddar, desfiladeiro repleto de cavernas localizado em Somerset, no Reino Unido, indicou que ele tinha olhos azuis, cabelo crespo e pele escura.

A análise contraria a imagem anterior projetada a partir do fóssil. Inicialmente, acreditava-se que ele tinha olhos escuros, pele clara e cabelos lisos.

Uma equipe de cientistas não só identificou o novo fenótipo atribuído ao britânico de 10 mil anos atrás como também fez uma reconstrução detalhada de seu rosto.

Avaliações anteriores já indicavam que ele era mais baixo que a média e que provavelmente morreu por volta dos 20 anos.

DNA de esqueleto indica existência de britânicos negros e de olhos azuis há 10 mil anos

DNA de esqueleto indica existência de britânicos negros e de olhos azuis há 10 mil anos

Fraturas na superfície do crânio sugerem que ele pode ter morrido de maneira violenta. Não se sabe como o corpo chegou à caverna, mas é possível que tenha sido colocado lá por indivíduos da tribo.

Extração do DNA

Os pesquisadores do Museu de História Natural de Londres extraíram o DNA de uma parte do crânio, próxima ao ouvido, conhecida como osso petroso.

Inicialmente, Ian Barnes e Selina Brace, que fazem parte da instituição e integram o projeto, não tinham certeza se conseguiriam algum DNA do fóssil.

Mas eles tiveram sorte: não só o DNA foi preservado, como também produziu a maior cobertura (uma medida da precisão de sequenciamento) para um genoma na Europa desse período de Pré-história – conhecido como Mesolítico ou Idade da Pedra Média.

Análise do DNA foi feita a partir do crânio, mais precisamento do osso petroso

DNA de esqueleto indica existência de britânicos negros e de olhos azuis há 10 mil anos

Os pesquisadores do museu se juntaram a cientistas da universidade londrina UCL (University College London) para analisar os resultados, incluindo variantes genéticas associadas com cabelo, olhos e cor da pele.

A descoberta indica ainda que os genes da pele mais clara se difundiu na Europa mais tarde do que se pensava, e que a cor da pele não é necessariamente referência de origem geográfica, como normalmente é vista hoje em dia.

Como a pele mudou

A pele clara provavelmente chegou à Grã-Bretanha há cerca de 6 mil anos, com uma migração de pessoas do Oriente Médio.

Essa população tinha pele clara e olhos castanhos. Acredita-se que tenha acabado absorvendo características de grupos como o do Homem de Cheddar.

Não se sabe ao certo, contudo, por que a pele clara acabou se sobressaindo entre os habitantes da região. Mas acredita-se que a dieta à base de cereais provavelmente era deficiente em vitamina D – isso exigiria que agricultores processassem esse nutriente por meio da exposição à luz solar, que é mais escassa onde fica o Reino Unido.

“Podem haver outros fatores causando menor pigmentação da pele ao longo do tempo nos últimos 10 mil anos. Mas essa é a grande explicação à qual a maioria dos cientistas se fia”, disse Mark Thomas, geneticista da UCL.

Fóssil foi encontrado em 1903 numa caverna em Cheddar, no condado de Somerset

DNA de esqueleto indica existência de britânicos negros e de olhos azuis há 10 mil anos

Para Tom Booth, arqueólogo do Museu de História Natural em Londres e integrante do projeto que desvendou as características do Homem de Cheddar, a análise mostra como as categorias raciais são construções modernas ou muito recentes. “Elas realmente não se aplicam ao passado”, disse ao jornal britânico The Guardian.

Yoan Diekmann, biólogo especializado em estudos da computação na universidade londrina UCL e também parte da equipe, concorda com o colega. Afirma que a conexão comumente estabelecida entre “britanidade” e brancura “não é uma verdade imutável”. “Sempre mudou e sempre mudará”, declarou à mesma publicação.

A análise genética também sugere que o Homem Cheddar não bebia leite na idade adulta – algo que só se espalharia entre os humanos muito mais tarde, na Idade do Bronze, iniciada em alguns lugares há cerca de 5 mil anos.

Chegadas e partidas

As análises também indicam que os europeus dos tempos atuais mantiveram, em média, apenas 10% das características de ancestrais como o britânico de Cheddar.

Acredita-se que os humanos chegaram no que hoje é o Reino Unido há 40 mil anos, mas um período de frio extremo conhecido como o Último Máximo Glacial teria os forçado a migrar dali 10 mil anos depois.

Também já foram coletadas evidências em cavernas de que humanos caçadores-coletores voltaram quando as condições climáticas melhoraram. Mas acabaram sendo surpreendidos pelo frio – marcas nos ossos sugerem que esse grupo canibalizou seus mortos.

O território hoje conhecido como Grã-Bretanha foi ocupado novamente há 11 mil anos e, desde então, permanece habitado, segundo os pesquisadores.

O Homem de Cheddar é parte dessa onda migratória que teria caminhado pela chamada Doggerland – que, naquele período, ligava a ilha ao continente, mas posteriormente acabou coberta pelo aumento do nível do mar.

Nos anos 1990, outra análise do DNA já havia identificado possíveis 'parentes do Homem de Cheddar'

Nos anos 1990, outra análise do DNA já havia identificado possíveis ‘parentes do Homem de Cheddar’

Essa não é a primeira tentativa de análise genética do Homem de Cheddar. No final dos anos 1990, o geneticista Brian Sykes já havia sequenciado o DNA mitocondrial de um dos molares do fóssil.

A sequência, transmitida exclusivamente da mãe para os filhos, foi comparada com 20 residentes vivos do povoado em Cheddar.

Duas dessas pessoas tinham mostras similares – uma delas era o professor de história Adrian Targett.

A atual descoberta feita por pesquisadores do Museu de História Natural e da UCL vai ser detalhada em um documentário para a televisão britânica com o título The First Brit: Secrets of the 10,000 Year Old Man (“O primeiro britânico: segredos do homem de 10 mil anos de idade”), feito pela Plimsoll Productions e a ser exibido pelo Channel 4. Também vai virar, é claro, artigo acadêmico.

DNA de esqueleto indica existência de britânicos negros e de olhos azuis há 10 mil anos

DNA de esqueleto indica existência de britânicos negros e de olhos azuis há 10 mil anos

O professor Chris Stringer, que lidera os estudos sobre origens humanas no museu, se dedica a estudar o esqueleto do Homem de Cheddar há 40 anos.

Ele se impressionou ao ver a reconstrução que pode ter revelado o rosto de seu objeto de estudo.

“Ficar cara a cara com a imagem de como esse homem pode ter parecido – a combinação impressionante de cabelo, rosto, cor dos olhos e pele escura – é algo que não poderíamos imaginar alguns anos atrás. Mas é que os dados científicos mostram.”

http://www.bbc.com/portuguese/geral-42973059

Homo sapiens existiram 100 mil anos antes do que pensávamos

Uma equipe de pesquisa internacional liderada por Jean-Jacques Hublin, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, e Abdelouahed Ben-Ncer, do Instituto Nacional de Arqueologia e Patrimônio (INSAP), do Marrocos, descobriu ossos fósseis de Homo sapiens juntamente com ferramentas de pedra e ossos de animais em Jebel Irhoud, no Marrocos. Os achados datam de cerca de 300 mil anos atrás e representam a evidência fóssil mais antiga e segura de nossa própria espécie. Esta data é 100 mil anos anterior aos fósseis mais antigos de homo sapiens encontrados anteriormente. As descobertas revelam uma história evolutiva complexa da humanidade que provavelmente envolveu todo o continente africano.

Homo sapiens existiram 100 mil anos antes do que pensávamos

Evolução humana: 10 ancestrais essenciais

Tanto os dados genéticos dos seres humanos atuais quanto os registros fósseis apontam para uma origem africana de nossa própria espécie, o Homo sapiens. Anteriormente, os fósseis de Homo sapiens mais antigos conhecidos eram os do sítio arqueológico de Omo Kibish, na Etiópia, datados de 195 mil anos atrás. Em Herto, também na Etiópia, outro fóssil de Homo sapiens é datado de 160 mil anos atrás. Até agora, a maioria dos pesquisadores acreditava que todos os seres humanos que vivem hoje descendiam de uma população que vivia na África Oriental há cerca de 200 mil anos. “Nós costumávamos pensar que havia um berço da humanidade há 200 mil anos atrás no leste da África, mas nossos novos dados revelam que o Homo sapiens se espalhou por todo o continente africano há cerca de 300 mil anos. Muito antes da dispersão para fora da África do Homo sapiens, houve dispersão na África”, diz o paleoantrotropólogo Jean-Jacques Hublin.

O sítio marroquino de Jebel Irhoud tem sido bem conhecido desde a década de 1960 por seus fósseis humanos e por seus artefatos da Idade da Pedra. No entanto, a interpretação dos hominídios de Irhoud tem sido complicada por incertezas persistentes em torno de sua idade geológica. O novo projeto de escavação, que começou em 2004, resultou na descoberta de novos fósseis de Homo sapiens, aumentando seu número de seis para 22. Esses achados confirmam a importância de Jebel Irhoud como o mais antigo e mais rico local da Idade da Pedra Africana para a documentação de um estágio inicial de nossa espécie.

Origem mais antiga

Os restos fósseis de Jebel Irhoud compreendem crânios, dentes e ossos longos de pelo menos cinco indivíduos. Para fornecer uma cronologia precisa para essas descobertas, os pesquisadores usaram o método de datação de termoluminescência em pedras aquecidas encontradas nos mesmos depósitos. Esses testes mostraram uma idade de cerca de 300 mil anos atrás e, portanto, colocam as origens de nossa espécie 100 mil anos antes do que acreditávamos anteriormente.

“Os locais bem datados desta época são excepcionalmente raros na África, mas tivemos a sorte de que tantos artefatos de pedra de Jebel Irhoud tenham sido aquecidos no passado”, diz o especialista em geocronologia Daniel Richter, do Instituto Max Planck. Richter explica: “Isso nos permitiu aplicar métodos de datação de termoluminescência nos artefatos e estabelecer uma cronologia consistente para os novos fósseis”. Além disso, a equipe foi capaz de recalcular a idade direta de três mandíbulas encontradas em Jebel Irhoud na década de 1960.

Estas mandíbulas tinham sido anteriormente datadas de 160 mil anos atrás por um método especial de datação de ressonância elétrica de giro. Usando novas medidas da radioatividade dos sedimentos de Jebel Irhoud e como resultado de melhorias metodológicas, a idade recém calculada deste fóssil está de acordo com as idades de termoluminescência, muito mais antigas do que as encontradas anteriormente. “Nós empregamos métodos de datação de última geração e adotamos as abordagens mais conservadoras para determinar com precisão a idade”, acrescenta Richter.

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Os 10 maiores mistérios da evolução humana

O crânio dos seres humanos modernos possui uma combinação de características que nos distingue de nossos parentes e antepassados ​​fósseis: um rosto pequeno e fino e uma cicatriz globular. Os fósseis de Jebel Irhoud exibem um rosto e dentes de aparência moderna, e uma crânio grande, mas mais arcaico. Hublin e sua equipe usaram varreduras computacionais micro-técnicas de última geração e análise de formas estatísticas baseadas em centenas de medidas 3D para mostrar que a forma facial dos fósseis de Jebel Irhoud é quase indistinguível daquela dos seres humanos modernos.

Em contraste com a sua moderna morfologia facial, no entanto, os crânios de Jebel Irhoud retém uma forma arcaica bastante alongada. “A forma interna do crânio reflete a forma do cérebro”, explica o paleontrofilósofo Philipp Gunz, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva. “Nossas descobertas sugerem que a moderna morfologia facial humana foi estabelecida no início da história de nossa espécie, e que a forma do cérebro e, possivelmente, a função cerebral, evoluíram dentro da linhagem Homo sapiens”, acredita.

Recentemente, as comparações de DNA antigo extraído de Neanderthais e do Hominídeo de Denisova com o DNA dos humanos do presente revelaram diferenças nos genes que afetam o cérebro e o sistema nervoso. As mudanças de forma evolutiva do crânio são, portanto, provavelmente relacionadas a uma série de mudanças genéticas que afetam a conectividade cerebral, organização e desenvolvimento que distinguem o Homo sapiens de nossos antepassados ​​e parentes extintos.

Evolução em todo o continente

A morfologia e a idade dos fósseis de Jebel Irhoud também corroboram a interpretação de um crânio parcial enigmático de Florisbad, África do Sul, como representante inicial dos Homo sapiens. Os primeiros fósseis de Homo sapiens foram encontrados em todo o continente africano: Jebel Irhoud, Marrocos (300 mil anos), Florisbad, África do Sul (260 mil anos) e Omo Kibish, Etiópia (195 mil anos). Isso indica uma história evolutiva complexa de nossa espécie, possivelmente envolvendo todo o continente africano.

10 comparações entre humanos e nossos parentes vivos mais próximos

“A África do Norte tem sido negligenciada nos debates em torno da origem de nossa espécie. As descobertas espetaculares de Jebel Irhoud demonstram as estreitas conexões do Magrebe (região noroeste da África) com o resto do continente africano no momento do surgimento do Homo sapiens”, diz Abdelouahed Ben -Ncer.

Os fósseis foram encontrados em depósitos contendo ossos de animais, que foram caçados caçados, sendo a espécie mais frequente a gazela. As ferramentas de pedra associadas a estes fósseis pertencem à Idade Média da Pedra. Os artefatos de Jebel Irhoud mostram o uso de técnica Levallois, e as formas pontudas são as mais comuns. A maioria das ferramentas de pedra foram feitas de pederneira de alta qualidade levadas para o local. Bifaces, ferramentas comumente encontrada em sítios mais antigos, não estão presentes no Jebel Irhoud. As montagens de artefatos da Idade Média da Pedra, como as recuperadas em Jebel Irhoud, são encontradas em toda a África neste momento e provavelmente mostram uma adaptação que permitiu que o Homo sapiens se dispersasse por todo o continente.

“Os artefatos de pedra de Jebel Irhoud parecem muito semelhantes aos de depósitos de idade similar no leste da África e no sul da África”, diz a arqueóloga do Instituto Max Planck Shannon McPherron. “É provável que as inovações tecnológicas da Idade Média da Padra na África estejam ligadas ao surgimento do Homo sapiens”. As novas descobertas de Jebel Irhoud elucidam a evolução do Homo sapiens e mostram que nossa espécie evoluiu muito antes do que se pensava anteriormente. A dispersão do Homo sapiens em toda a África em torno de 300 mil anos é o resultado de mudanças biológicas e comportamentais.

 

 

Esta é a face de um brasileiro de 10 mil anos

Reconstrução recente joga mais lenha no debate da imigração para a América

Parece um parente de Luzia, a paleolíndia brasileira que, ao ser reconstruída em 1999, pelo especialista forense britânico Richard Neave, causou um rebuliço na imprensa e na comunidade internacional.

A face de uma grande polêmica arqueólogica | Crédito: Cicero Moraes

A reconstrução não se parecia em nada com os índios atuais, mas com uma pessoa de características negroides, como os africanos subsaarianos ou os melanésios e aborígenes australianos. Achada em 1975, em Lagoa Santa, Minas Gerais, ela foi datada de 11500 anos atrás, então o mais antigo fóssil humano conhecido nas Américas. Ela continua polêmica, como veremos, mas perdeu esse trono: fósseis mais antigos foram encontrados.

O imponente busto de Apiúna / Cícero Moraes

O imponente busto de Apiúna / Cícero Moraes

Nosso amigo acima não é nenhuma celebridade (ao menos até agora). Apelidado de Apiúna, ele viveu há “meros” 10 mil anos – separado de Luzia por mais ou menos a mesma distância temporal que nós temos com o fim do Império Romano. Foi encontrado pelo arqueólogo húngaro-brasileiro Mihaly Banyai, no Parque Estadual do Sumidouro, em Lagoa Santa, e está no Museu Arqueológico da Lapinha, dirigido por sua filha, Erika.

A pedido dela, o designer 3D Cícero Moraes deu a ela o mesmo tratamento que Richard Neave deu a Luzia há quase 20 anos. No mesmo trabalho, ele reconstruiu outro esqueleto, batizado de Diarum (veja abaixo). Mais jovem, ele veio de outro sítio de Lagoa Santa. A pedido da diretora do museu, o designer resolveu experimentar uma outra variação de cabelo possível.

Segundo Erika, Banyai Diarum quer dizer "onça poderosa" / Cícero Moraes

Segundo Erika, Banyai Diarum quer dizer “onça poderosa” / Cícero Moraes

Em 1999, Neave decidiu que Luzia era negra através da análise do formato de seu crânio. Cícero decidiu por um teste cego. “Os crânios digitalizados foram enviados ao Dr. Marcos Paulo Salles Machado, Perito Legista do IML do Rio de Janeiro, que não tinha informação alguma acerca da origem do material”, afirma, em entervista à AH. “Ele examinou e nos forneceu os dados: homem, africano, 40-50 anos.” Cícero continuou a partir daí.

Tirando termos um paleoíndio com um visual completamente diferente dos índios, qual é a polêmica, então? Isso muda tudo o que é (ou tem sido) consenso sobre a colonização das Américas. Vestígios fósseis e testes de DNA (com uma exceção, veja abaixo) indicam que os índios do continente inteiro são descendentes de levas de migrantes vindos da Sibéria, através do Estreito de Bering, há cerca de 14 mil anos. E isso aparece em seu fenótipo, com características similares às dos leste-asiáticos. Se Luzia e Apiúna são mesmo africanos ou austronésios, a história da ocupação humana da América precisa ser reescrita. O continente foi colonizado mais de uma vez.

As etapas da reconstrução / Cícero Moraes

As etapas da reconstrução / Cícero Moraes

E, sim, existe um “se” aqui. A cor, a textura dos cabelos, o formato exato do nariz, nada disso pode ser tirado diretamente de um fóssil. O que Neave a agora Marcus Paulo Machado fizeram foi pegar um crânio e agir como um especialista forense moderno confrontado diante de um caso policial. Pelo formato, eles dizem “negro”, “branco”, “asiático”. Esse método sofreu várias críticas de antropólogos, que afirmam que a técnica forense se baseia em velhas ideias racialistas e os crânios em Lagoa Santa são compatíveis com o fenótipo dos paleoíndios que vieram da Sibéria.

Apiúna e Diarum no museu / Erika Banyai

Estariam então a reconstruções equivocadas? Fiquemos com isso para terminar: em 2015, um teste genético revelou que algumas tribos da Amazônia – e só elas – tem marcadores de DNA típicos de aborígenes e melanésios – e também siberianos. Terá o povo de Luzia e Apiúna tido o mesmo fim que os neandertais, absorvidos e extintos?

O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver

Não são poucas as pessoas, inclusive gente muito jovem, que sustentam a ideia de que existiu um tempo no passado onde todos viviam felizes, em uma espécie de mundo bucólico e simples sem as preocupações, pressões e condicionamentos do presente. Alguns poucos seguem achando que todo tempo passado foi melhor, enquanto outros consideram que em algum ponto de nossa história existiu uma época dourada, um paraíso terrenal estragado por nós mesmos, por nossa cobiça, nossa maldade inerente.

O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Alguns aproveitam para puxar a sardinha para a sua brasa, tratando de assimilar esse período arcádico a algum momento do passado em que suas ideias eram dominantes; a maioria limita-se a referir-se a ele como um modelo ideal para onde deveríamos caminhar, mas não o fazemos por ambição, cegueira e orgulho.

Ainda que também goste de sentir a nostalgia das coisas antigas como melhores que as atuais, sou obrigado a dissentir profundamente de todos eles. Para além de idealismos silogísticos, o passado era um lugar onde nem você nem eu quereríamos permanecer mais de uma semana, como turista com as contas pagas, mas nem “fodendo”. O passado era um lugar horrível para viver, um tempo de gente sebenta, piolhos, dor de dente, tirania, superstição, ignorância, pragas, crianças mortas e mães crianças mortas por seus filhos. O passado era uma grande e fedida merda.

Vidas breves.

Até a chegada da medicina moderna, a taxa de mortalidade infantil em todo mundo oscilava entre 20% e 30%, chegando aos 40% em épocas de fome, guerra ou pragas. Estes números mantiveram-se assim até a entrada no século XX em lugares de ordem social tradicional onde a ciência médica demorou a chegar. As causas mais frequentes eram as infecções otorrinolaringológicas, a difteria, o sarampo, a varíola e a rubéola, com ajuda da anemia. Reflita um instante sobre esta cifra: uma de cada cinco crianças nascidas vivas não chegava à adolescência (no melhor dos casos), e normalmente uma de cada três (no pior).

Este é um número pior que o pior inferno de uma nação subsaariana presente, aonde ao menos chegam a penicilina e algumas vacinas de vez em quando.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Vamos expressar graficamente para dramatizar a coisa toda: pegue uma folha de papel em branco e escreva uma lista com nomes de dez crianças que conheça. Agora risque dois, ou três, ou até quatro, em um ano. Esse era o risco de natimortos até aproximadamente a segunda metade do século XIX no mundo mais desenvolvido, e meados do XX. A tendência a ter muitos filhos, presente em todas as culturas, é que ao menos uma percentagem deles sobreviveria para cuidar dos pais quando fossem velhos, antes que existissem as aposentadorias dos sistemas de previdência social.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Se alguém conseguisse sobreviver a estas taxas de mortalidade infantil, causadas pela pouca diversidade alimentícia, falta de higiene e assepsia e ausência de antibióticos e vacinas, então era possível que chegasse a viver até os 60 ou 70 anos; inclusive, em alguns casos, até idades mais avançadas. Mas se fosse uma garota, estava redondamente “fodida”: as probabilidades de morrer no parto oscilavam entre 1% e 40%, normalmente de hemorragia, obstrução ou febre puerperal, quando não de aborto caseiro. Isto é, a partir de 12 ou 13 anos, assim que chegava a puberdade, porque isso de começar a se reproduzir com 18 ou mais anos é outra modernice, uma exceção na história humana que teria feito nossos antepassados se mijarem de tanto rir. “Muito passadas”, diriam.

Falando de garotas, o passado foi um péssimo momento para nascer mulher.
As idílicas sociedades matriarcais sob a tutela da deusa Gaia que pretendem algumas (e alguns) jamais existiram. Nas menos patriarcais e machistas de todas, talvez a mocinha pudesse aspirar ter a mesma educação que seus irmãos varões, mas ademais, parindo filhos. O mais normal é que fosse alguma classe de propriedade dos homens da família, em diferentes graus de submissão. Não há nenhum indício de que as amazonas tenham sido mais do que uma fantasia erótica dos escritores gregos, inspirada em mulheres guerreiras, jamais existiu uma sociedade amazônica.

No entanto se ela sobrevivesse à infância e não morresse na guerra ou da peste ou de uma febre puerperal ou qualquer outro mal, é possível que vivesse um bom punhado de anos. Como viveria é que são elas.

Piolhos, malária, tosse sangrenta e dor de dente.

Ouvimos com frequência que a cárie é uma doença da civilização, vinculada às dietas que assumimos quando inventamos a agricultura e nos sedentarizamos. É verdade que a agricultura e a sedentarização, ainda que tenham dado lugar às civilizações, foram uma ideia muito ruim à época: a expectativa de vida média de 33 anos que tínhamos quando éramos nômades, no Paleolítico Superior, caiu para menos de 30 (25 ou 28 e às vezes 18, como na Idade do Bronze). É inclusive provável que as populações nômades foram submetidas e sedentarizadas a força, como servos ou escravos agrícolas, às mãos dos aspirantes a se converter em donos da plantação, reis e imperadores. Outros acham que o processo foi mais voluntário, trocando uma maior segurança no fornecimento alimentício por um empobrecimento de sua variedade e uma menor expectativa de vida. Seja lá o que for que tenha acontecido, sentar prumo nesses terrenos insanos que chamamos terras férteis piorou a mortalidade e a qualidade de vida de quase todo mundo, até aproximadamente no século XX.

Pese a isso, a cárie não é estritamente uma doença da civilização relacionada com esta menor variedade alimentícia das comunidades sedentarizadas, como a história médica conta muitas vezes. E não o é porque está presente em numerosos crânios recuperados de períodos anteriores, como o Paleolítico; inclusive encontraram dentes do Neandertal cariados. No entanto, sua incidência era muito menor. A cárie, certamente, multiplicou-se e agravou enormemente durante o Neolítico, com a agricultura e a sedentarização.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
E o pior é que ninguém sabia como combatê-la, porque para compreender a necessidade da higiene bucal -em realidade, de qualquer classe de higiene- há que compreender primeiro a teoria dos germes. A única possibilidade era arrancar o dente, mas ficar banguela naqueles tempos também não era uma ideia muito boa, de modo que muitas vezes o sujeito aguentava a dor até que deixasse de doer, o que conduzia a infecções maxilares bem mais severas. A história da humanidade é uma história de gente desdentada, com constantes dores de dente e graves abscessos faciais, gente que tinha um hálito vomitável cheirando pior do que um esgoto. Sem analgésicos, nem antibióticos, nem nada parecido à cirurgia dental e buco-maxilo-facial contemporânea.

Nômades ou sedentários, os piolhos acompanham a espécie humana desde que surgimos, e despiolhar-se mutuamente foi uma das atividades familiares e sociais mais correntes até o surgimento dos atuais tratamentos químicos. A família que se despiolhava unida permanecia unida, ou algo assim. O caso é que passamos um bom tempo como refeição de piolhos, ao menos nos lugares com pelos abundantes. Para piorar ainda mais, a invenção da roupa permitiu a evolução e especialização de uma terceira classe destes parasitas, o piolho corporal, que nos come do pescoço aos pés. A diferença dos dois primeiros, incapazes de transmitir alguma doença em particular a mais do que as moléstias cutâneas associadas a sua presença (coceira, irritação, com consequência da insônia e debilidade), este último é um vetor conhecido do tifo, a febre das trincheiras e a borreliose. As peles e roupas resultaram ser um grande avanço para as… epidemias.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Outra consequência perversa da sedentarização foi o surgimento da tuberculose, neste caso graças a um bacilo frequente no gado. Provavelmente trate-se da primeira doença de que tivemos consciência como um estado específico: no Egito já existiam hospitais especializados em seu tratamento lá por 1.500 a.C. Com duvidoso sucesso, pois parece que tanto o faraó Akenatón como sua esposa Nefertiti morreram por causa da tuberculose. Agora dá uma garibada na situação: se imperadores considerados como deuses morriam assim, imagine então o que acontecia com o povão.

Na Índia, os brâmanes proibiram terminantemente o casamento com mulheres cuja família tivesse um histórico de tuberculose, o que também não resultava muito eficaz. Na Europa, o tratamento mais avançado consistia em uma imposição das mãos do rei, uma REIkianagem com um resultado que todos podemos supor. Paracelso, em outra de suas pirações -o mérito de Paracelso não está no que criou, senão no que destruiu: as fraudes ainda maiores de seu antepassado Galeno, o das sangrias-, achava que a tuberculose era devida a algum órgão incapaz de cumprir adequadamente suas funções alquímicas, nem mais nem menos. Durante o século XIX, a chamada Peste Branca comia as jovenzinhas e não poucos jovenzinhos e nem tão jovenzinhos aos milhões, dando lugar a um dos temas mais característicos do Romantismo. Aleluia que chegou Robert Koch para dizer que se tratava de um micróbio, e unicamente então fomos capazes de combatê-la.

A malária é outra velha amiga -eu sei que isto já está cansando, mas é a verdade-, só recentemente erradicada nos países desenvolvidos, vinculada também às águas paradas e seus mosquitos, os campos de cultivo e a sedentarização. Na Roma clássica, a malária, a tuberculose, o tifo e a gastrenterite ventilavam a cada ano uns 30.000 cidadãos nos meses de julho a outubro. Por não mencionar a impingem (foto abaixo) ou outros males comuns e incuráveis em seu tempo, incluindo, por suposto, as doenças venéreas da antiguidade, que já dá para imaginar como eram igualmente horrorosas.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
As alternativas para nossos antepassados eram simples: ou permaneciam como nômades caçadores-coletores, presos no primitivismo Paleolítico e cada vez mais recusados e expulsos pelas comunidades fixas, ou se somavam à sedentarização total ou parcialmente, se convertendo em súditos, quando não servos e escravos, das civilizações agrícolas e pecuárias em ascensão.

Insegurança alimentícia.

Por outra parte, nem nômades nem sedentarizados tinham garantia alguma sobre a segurança de sua comida e sua água. As comunidades nômades eram pequenas e dispersas porque dependiam do que a terra quisesse dar, impossibilitadas para evoluir e se desenvolver. As comunidades sedentárias não só produziam comida abundante, mas pouco variada e de péssima qualidade, durante longo tempo, senão que estavam submetidas a toda classe de pragas e putrefações. Não havia esgoto, cagavam e mijavam perto de suas casas, essa merda toda ia para o lençol freático e nem precisa falar o resto.

Essas estupendas espigas de milho, esse trigo perfeitamente seguro ou essa carne com garantias veterinárias são o resultado de geração sobre geração de hibridações, cultivo seletivo e progresso nas ciências agropecuária e médica. No passado tinham que se virar com coisas mais parecidas ao farro, ao joio e a cevada, que são basicamente um asco como alimentos recusados até mesmo por porcos, e com carnes e pescados obtidos e conservados de maneiras realmente criativas. Na imagem abaixo dá para ver como era o trigo antigo (direita) em comparação com o moderno (centro e esquerda).
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Hoje em dia nos queixamos um monte de que a comida e a água têm corpos estranhos, de que estão cheios de agrotóxicos e venenos e de que é tudo artificial. Lamentavelmente, as alternativas seriam o cólera, a gastrenterite, a pústula maligna, a triquinose, a salmonela, a listeriose, o botulismo, a polirradiculoneurite aguda, a gangrena gasosa, a hepatite, a diarreia infantil e outras “diliças” do estilo que no passado constituíam uma permanente roleta russa para a espécie humana.

As epidemias dos cultivos e do gado não só os matavam, provocando constantes fomes, senão que inclusive quando não matavam podiam contaminá-los de maneira invisível para um mundo sem microscópios. São especialmente curiosos os casos de ergotismo, um fungo dos cereais com efeitos muito parecidos ao LSD, que ademais passa aos bebês mediante o leite materno.

A potabilidade da água merece parágrafo a parte. Antes que aprendêssemos a separar as águas fecais e jogar cloro e outros produtos químicos, beber água era tão perigoso quanto puxar o pino de uma granada e manter a pressão para que não explodisse. De fato, as pessoas, se podiam evitar, não bebiam água. Nem também muito leite, exceto o materno, pois antes que aprendêssemos a pasteurizá-lo (pasteurizar vem de Luis Pasteur, o pai da microbiologia moderna) provocava tuberculose bovina em massa, também polineuropatia desmielinizante inflamatória, enterite, pústula maligna (de novo) e mais um monte de porcarias. Por conseguinte, até as crianças bebiam vinho, cerveja ou cachaça se podiam se permitir a esse luxo, não muito, mas um pouquinho sim, pela presença do álcool, que é um conhecido antisséptico.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Por verdade, para comer minimamente bem havia que ser rico, mas rico mesmo, não é rico pouca merda não! A comida era muito cara de produzir, conservar, transportar e comercializar, e estava sujeita a numerosos imprevistos. O preço do pão foi uma questão de estado durante milênios, sabendo que um aumento excessivo devido à escassez ou a especulação podia ocasionar revoltas e subversão, dado que as pessoas não tinham outra coisa para comer: só tinha pão e de péssima qualidade. Por isso o pãozinho, apesar de horrível continua tendo tanta importância na sociedade atual.

Livros revolucionários clássicos como “A Conquista do Pão”, do anarquista Pyotr Kropotkin, nos transmitem uma ideia do quão complicado era alimentar as pessoas e a miséria geral em que viviam. Com frequência, uma família não podia pagar as calorias necessárias para alimentar todos seus membros; fazê-lo de forma saudável ou ao menos variada era uma fantasia de aristocratas, arcebispos, reis e papas. Ficar gordo era coisa de rico, era moda e a referência estética de beleza e sucesso social, porque só o pessoal que tinha dinheiro para queimar e os muito poderosos podiam permitir-se; as pessoas normais eram sempre famélicas e exibiam os ossos dos corpos como estas cadavéricas modelos da atualidade, eram desnutridas com o excesso de trabalho físico. Enfim… ser magro era coisa de pobre. Agora os pobres estão gordos (ou seria inchados?), ao menos no mundo desenvolvido, devido à má nutrição pese ao excesso de calorias; e os mais acomodados e endinheirados podem se permitir alimentos cuidados, orgânicos (uma falácia?) e tratamentos que permitem estar em forma de palitos.

Sujeira, ignorância, superstição, tirania.

O passado era um lugar sujo e fedorento, com ratos e parasitas por todas as partes. Onde tinha rede de esgoto, costumava ser aberto; só os ricos podiam pagar saunas, banhos e coisas do estilo. Na maior parte das casas, a higiene era um conceito desconhecido e desnecessário, porque ninguém sabia nada de micróbios.

Que demônios. Éramos ignorantes como pedras: uma multidão vil e analfabeta presa por tiranos, demagogos, clérigos, santarrões e toda classe de superstições. A alfabetização era um segredo gremial de escribas, monges e sábios; a maior parte das pessoas não sabia ler ou escrever nem seu próprio nome. As crianças não começaram a ter o costume de frequentar a escola sistematicamente até meados do século XIX. Até os nobres, e às vezes os reis, eram mais brutos que seus cavalos. O príncipe dos contos era um asno tosco e brutal. E o venerável sábio local de barbas brancas dos filmes antigos, era em realidade um analfabeto desdentado e fedorento, supersticioso e machista que adorava mandar bruxinhas virgens à fogueira.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
As bruxas e em geral qualquer mulher, por sua vez, tinham exatamente os mesmos direitos que um pedaço de carvão em uma casa às escuras. Quanto as crianças, não eram mais que uma boca a alimentar, uma carga tratada a pau que ocupava o último lugar da casa, frequentemente abaixo do gado na ordem social. Isso de protegermos as criancinhas é outra modernice; no passado ninguém colocaria as necessidades e direitos de uma criança acima de um adulto capaz de ganhar seu próprio pão. Quanto às garotas, só não eram violadas quando pequeninas por respeito à honra de seu pai, supondo que o pai fosse um homem livre e já tivéssemos chegado a esse grau de civilidade. Se nascesse escrava ou em uma sociedade que ainda não tivesse atingido esse ponto, melhor nem falar o que acontecia.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Em um mundo assim, toda classe de fraudes, medos, religiões e tiranias falavam sempre mais alto em amplas massas sociais, desprovidas das mais tênues bases intelectuais para desafiá-los. A forma comum de governo era à base da bordoada. Não entendeu o que deve ser feito, toma pancada! Não existia nada parecido à justiça; a ideia de que deveriam julgar com um juiz imparcial e um advogado defensor sob o império da lei só se estende ao povo a partir dos processos revolucionários do século XVIII. A vendeta, ordálio e Talião eram formas de justiça comum, bem como castigar até os delitos mais leves com tormentos infames.

Para os partidários que acham que devemos voltar ao endurecimento das penas, basta saber que existiu um tempo em que até o ladrão de galinhas ia para a roda de desmembramento, sobretudo se o dono da galinha pertencesse às castas superiores, e o absurdo é que mesmo assim nunca deixou de ter ladrões, violadores ou assassinos. De fato, existiam muitos mais do que agora: a miséria, a fome, a opressão e a incultura impeliam constantemente grupos da população para a delinquência, desde o pequeno roubo até o bandoleirismo e a pirataria. Em realidade, não tinha justiça nenhuma, no sentido atual do termo: só a vontade dos poderosos.

Há quem, por absurda idealização, ache que estes mundos do passado podiam ser melhores que o mundo presente. Não foram, nunca foram, jamais o foram: para a imensa maioria dos que viveram ali, constituíam um inferno só aceitável porque, ignorantes, não conheciam nada melhor e porque criam cegamente em paraísos religiosos. Mas se tivessem dito para qualquer pai ou mãe de 100.000 a.C., de 100 a.C., de 100 d.C., e até de 1.900 d.C., que chegaria um tempo em que poderia levar seu filho doente a um hospital com médicos e enfermeiros de roupas branquinhas, antibióticos, analgésicos, e tudo o mais, e que depois poderia levá-lo curado para casa para banhá-lo com água quentinha que sai diretamente de uma torneira por um preço ridículo -sim, ridículo: a lenha e o carvão custavam o salário de um mês-, colocá-lo em uma cama sem piolhos, carrapatos ou pulgas, cobri-lo com uma manta com cheiro de flores e dar-lhe de comer toda classe de alimentos e água filtrada tratada com flúor, ao certo teria problema para compreender, mas se tivesse a possibilidade de vislumbrar, ao certo teria pensado que este só poderia ser o paraíso dos deuses benevolentes em suas profecias. E então assinaria qualquer coisa para nunca mais sair daqui de 2013. Ainda que seja quase certo que não poderia. Não sabia assinar, coitado!
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Apesar do fatalismo dos pessimistas, a humanidade demonstrou constantemente sua capacidade de melhorar, de evoluir, de progredir para um futuro melhor. Para isso tivemos que nos desfazer de um montão de obstáculos do passado, de desfazer-nos dos dogmas religiosos, estudar profundamente e transformar a realidade de formas radicais, às vezes pacíficas e às vezes violentas. E teremos que seguir fazendo se quisermos melhorar mais ainda. Em todo caso, nostalgia é bom, valeu a pena e segue valendo, mas que permaneça de forma incólume somente como uma lembrança boa. Prefiro morrer com morfina no mais vagabundo dos hospitais de nosso tempo que sem morfina em qualquer palácio suntuoso daquela Arcádia infeliz.

A absurda falta de higiene da Idade Média

Nos filmes com temática medieval de Hollywood vemos nobres abastados e belas damas maquiadas, penteadas e cheias de jóias, vestindo túnicas pulcras e branquinhas.

Grandes Banhistas de Pierre-Auguste Renoir

Grandes Banhistas de Pierre-Auguste Renoir

Tudo fachada, pois como já lemos no artigo “O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver”, em um período entre a queda do Império Romano até a descoberta da América a higiene pessoal não era considerada uma prioridade.

Os médicos achavam que a água, sobretudo quente, debilitava os órgãos, deixando o corpo exposto a insalubridades e que, se penetrasse através dos poros, podia transmitir todo tipo de doenças. Inclusive começou a estender a ideia de que uma camada de sujeira protegia contra as doenças e que, portanto, o asseio pessoal devia ser realizado “a seco”, só com uma toalha limpa para esfregar as partes expostas do corpo.

Os médicos recomendavam que as crianças limpassem o rosto e os olhos com um trapo branco para limpar o sebo, mas não muito para não retirar a cor “natural” (encardida) da tez. Na verdade, os galenos consideravam que a água era prejudicial à vista, que podia provocar dor de dentes e catarros, empalidecia o rosto e deixava o corpo mais sensível ao frio no inverno e a pele ressecada no verão.

Ademais, a Igreja condenava o banho por considerá-lo um luxo desnecessário e pecaminoso.
A absurda falta de higiene da Idade Média
Acteão surpreende Diana em seu banho, de Ticiano
A falta de higiene não era um costume de pobres, a rejeição pela água chegava aos estratos mais altos da sociedade. As damas mais entusiastas do asseio tomavam banho, quando muito, duas vezes ao ano, e o próprio rei só o fazia por prescrição médica e com as devidas precauções.

Os banhos, quando aconteciam, eram tomados em uma tina enorme cheia de água quente. O pai da família era o primeiro em tomá-lo, logo os outros homens da casa por ordem de idade e depois as mulheres, também por ordem de idade. Enfim chegava a vez das crianças e bebês que podiam se perder dentro daquela água suja.

Não é à toa que as crianças tinham grande desgosto em tomar banho.
A absurda falta de higiene da Idade Média
Diana saindo do banho, de François Boucher
Tudo era reciclado.

Diana saindo do banho, de François Boucher

Tinha gente dedicada a recolher os excrementos das fossas para vendê-los como esterco. Os tintureiros guardavam urina em grandes tinas, que depois usavam para lavar peles e branquear telas. Os ossos eram triturados para fazer adubo. O que não se reciclava ficava jogado na rua, porque os serviços públicos de limpeza urbana e saneamento não existiam ou eram insuficientes. As pessoas jogavam seu lixo e dejetos em baldes pelas portas de suas casas ou dos castelos. Imagine a cena: o sujeito acordava pela manhã, pegava o pinico e jogava ali na sua própria janela.

O mau cheiro que as pessoas exalavam por debaixo das roupas era dissipado pelo leque. Mas só os nobres tinham lacaios que faziam este trabalho. Além de dissipar o ar também servia para espantar insetos que se acumulavam ao seu redor. O príncipe dos contos de fadas fedia mais do que seu cavalo.

Na Idade Média a maioria dos casamentos era celebrado no mês de junho, bem no começo do verão boreal. A razão era simples: o primeiro banho do ano era tomado em maio; assim, em junho, o cheiro das pessoas ainda era tolerável. De qualquer forma, como algumas pessoas fediam mais do que as outras ou se recusavam a tomar banho, as noivas levavam ramos de flores, ao lado de seu corpo nas carruagens para disfarçar o mau cheiro. Tornou-se, então, costume celebrar os casamentos em maio, depois do primeiro banho. Não é ao acaso que hoje maio é considerado o mês das noivas e dali nasceu a tradição do buquê de flores das noivas.

Nos palácios e casas de família a existência dos banheiros era praticamente nula, nem “casinha” existia. Quando a necessidade imperava, o fundo do quintal ou uma moita eram escolhidos segundo a preferência de cada um. Não era incomum também ver alguém cagando nas ruas. Os sistemas de esgoto ainda não existiam; portanto as cidades medievais eram verdadeiros depósitos de lixo e excremento. Grandes metrópoles como Londres ou Paris podiam ser consideradas naquele tempo como alguns dos lugares mais sujos do mundo.

Diana saindo do banho, de François Boucher

A absurda falta de higiene da Idade Média
Os banhistas, de Albert Gleizes
Os mais ricos tinham pratos de estanho. Certos alimentos oxidavam o material levando muita gente a morrer envenenada, sem saber o porquê. Alguns alimentos muito ácidos, que provocavam este efeito, passaram a ser considerados tóxicos durante muito tempo. Com os copos ocorria a mesma coisa: o contato com uísque ou cerveja fazia com que as pessoas entrassem em um estado de narcolepsia produzido tanto pela bebida quanto pelo estanho. Alguém que passasse pela rua e visse alguém neste estado podia pensar que estava morto e logo preparavam o enterro. O corpo era colocado sobre a mesa da cozinha durante alguns dias, enquanto a família comia e bebia esperando que o “morto” voltasse à vida ou não. Foi daí que surgiu o costume de beber o morto e mais tarde o velório feito hoje junto ao cadáver.

O Rei Henrique VIII, famoso por romper com a Igreja Romana e por ter se casado seis vezes, tinha mais de 200 empregados que lhe serviam como cozinheiros, carregadores, abanadores, etc. Mas os serventes com a pior das sortes eram aqueles que deviam cuidar das “necessidades” do rei: tinham que despiolhá-lo uma vez ao dia, limpar sua bunda depois que fizesse suas necessidades e lavar suas partes íntimas enquanto o rei permanecia sentado e inclusive, quando a rainha estava grávida e o monarca sentia certas carências, um dos serviçais -homem ou mulher- devia satisfazer suas necessidades.
A absurda falta de higiene da Idade Média.

Os banhistas, de Albert Gleizes

No entanto, mesmo diante desta porquice toda, quando um nobre viajante ou qualquer membro da nobreza se apresentava ante o rei ou a rainha, devia inclinar em sinal de veneração, e se por acaso esta pessoa nesse exato momento tivesse a má sorte de deixar escapar um “peidinho” em frente do monarca, a pena era o desterro. Ele era enviado para longe e sem poder regressar por 7 anos, isso se o rei decidisse que podia voltar. Isto muito provavelmente originou a vergonha e desaprovação de peidar na frente dos outros, pese que seja um ato natural comum a todos os mamíferos.