Category Archives: Lingua Portuguesa

Miséria, prisão e guerras: a fantástica história de Luís de Camões

Miséria, prisão e guerras: a fantástica história de Luís de Camões
Miséria, prisão e guerras: a fantástica história de Luís de Camões

Não é de hoje que cavuco por aí histórias de escritores que dariam um bom livro. Miguel de Cervantes, criador de “Dom Quixote”, por exemplo, foi gravemente ferido numa guerra e, depois, sequestrado por piratas e encarcerado durante anos. A vida de Domingos Caldas Barbosa foi menos violenta, mas, ainda assim, cheia de perrengues: sobreviveu à miséria, enfrentou preconceitos e transformou em arte as hipocrisias da sociedade portuguesa do século 18. Passeando pela simpática edição que a Nova Fronteira há pouco lançou de “Os Lusíadas”, lembrei que Luís de Camões, o nome mais famoso da literatura em língua portuguesa e um dos gigantes de toda a história literária, também é dono de uma trajetória singular.

Já adianto: não é fácil recriar com precisão tudo o que o escritor viveu. Com poucos registros de suas andanças pelo mundo, o que temos é o delinear de uma história muitas vezes pautada mais na especulação e nas probabilidades do que em fatos consumados. O poeta Alexei Bueno não ignora essa questão ao esboçar a biografia do português na introdução da edição já citada. Ainda assim – ou, quem sabe, justamente por conta disso, o que lemos é empolgante.

Luiz Vaz de Camões nasceu, provavelmente, entre 1524 e 1525, em Lisboa, na época em que Portugal avançava sobre os mares em busca de terras para expandir o seu império. É provável que tenha passado a juventude em Coimbra, onde se dedicou aos estudos – talvez na Universidade local, talvez com um tio que teria se encarregado de sua educação. É depois dessa fase que o caos toma conta de sua vida.

Enquanto Portugal tentava conquistar terras no norte da África, foi enviado para combates em algum canto próximo a Ceuta, na ponta do Estreito de Gibraltar. Engalfinhando-se com mouros, tomou um balaço no olho direito, o que, além de deixá-lo caolho, valeu-lhe também o jocoso e exagerado apelido de “cara-sem-olhos” – ainda restava o esquerdo, pô.

Miséria, prisão e guerras: a fantástica história de Luís de Camões
Miséria, prisão e guerras: a fantástica história de Luís de Camões

De volta à terra natal, construiu sua fama de baderneiro, tanto que acabou preso por ter ferido um homem no dia de Corpus Christi – detalhes dão conta de que fez o ataque mascarado, junto com outro colega. “As cartas de Camões do mesmo período, que nos chegaram em apógrafos, no-lo mostram numa convivência boêmia com prostitutas e arruaceiros, descrevem variadas cenas de espancamento e comentam sobre ordens de prisão contra vários membros do grupo”, conta Bueno.

Camões saiu da cadeia após receber um indulto do rei D. João III, que, em contrapartida, enviou escritor para servir em missões que se desdobravam no Oriente. Pelos indícios, esteve em regiões da Índia e da China. No rio Mekong, que corta o sudeste asiático, uma das passagens mais famosas e controversas de sua biografia: teria salvado a própria vida de um naufrágio utilizando apenas uma das mão para nadar, enquanto mantinha a outra para fora da água para resguardar os manuscritos do épico no qual já trabalhava. Há quem não bote fé nesse feito (com alguma razão, convenhamos), mas a passagem está registrada (ou imaginada) em uma das estrofes da famosa epopeia:

“Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço o Canto que molhado
Vem do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baixos escapado,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa”

Ainda passou por Moçambique até que retornasse a Lisboa, onde deu com a cara na porta ao procurar a família de Vasco da Gama, celebrado em “Os Lusíadas”, para tentar se livrar da miséria que o acompanhou ao longo de toda a vida. Conseguiu publicar o seu colosso somente depois disso, em 1572, mesmo ano em que D. Sebastião lhe concedeu a pensão anual de 15 mil réis, uma “quantia de valor medíocre”, aponta Bueno. Ainda longe da fama, foi-se no dia 10 de junho de 1580 sem jamais imaginar o quanto seria exaltado mesmo séculos após a sua morte.

“Ninguém criou o universo”: Stephen Hawking explica por que Deus não existe

Existe vida inteligente fora da Terra? É possível prever o futuro? E fazer uma viagem no tempo? Sobreviveremos no nosso planeta? Deveríamos tentar colonizar outros cantos do universo? A inteligência artificial vai nos superar? Deus existe?

“Ninguém criou o universo”: Stephen Hawking explica por que Deus não existe

“Ninguém criou o universo”: Stephen Hawking explica por que Deus não existe

Respostas para essas perguntas nada fáceis que Stephen Hawking nos oferece em “Breves Respostas Para Grandes Questões”, livro póstumo que acaba de chegar às livrarias pela Intrínseca. Hawking, que morreu no último mês de março aos 76 anos, foi um dos pesquisadores mais respeitados e conhecidos de nossa história recente. Dominando a matemática, a física e a cosmologia, preocupou-se em não deixar seu conhecimento limitado à academia e atingiu o grande público ao lançar obras como “Uma Breve História do Tempo” e “O Universo Numa Casca de Noz”.

“A maioria das pessoas acredita que ciência de verdade é difícil e complicada demais. Não concordo com isso. Pesquisar sobre as leis fundamentais que governam o universo exigiria uma disponibilidade de tempo que a maioria não tem; o mundo acabaria parando se todos tentassem estudar física teórica. Mas a maioria pode compreender e apreciar as ideias básicas, se forem apresentadas de maneira clara e sem equações, algo que acredito ser possível e que sempre gostei de fazer”, escreve o cientista.

Hawking segue essa linha de divulgação científica para leigos em “Breves Respostas Para Grandes Questões”, que reúne um material descoberto em seus arquivos logo após sua morte. Quem tem o livro em mãos só não deve achar, no entanto, que as respostas breves do autor se limitem a poucos parágrafos – estamos diante de temas que rendem pesquisas profundas, que muitas vezes chegam a conclusões ou possibilidades diferentes, vale lembrar.

Para falar a respeito da existência ou não de algum deus, por exemplo, ao longo de 12 páginas o cientista passa por questões de linguagem, pelas leis da natureza, equações científicas básicas e dá uma aula sobre energia negativa que eu não me meterei a reproduzir, tudo para embasar o parecer. Passa ainda pela história, lembrando que a ciência explicou quase todos os fenômenos anteriormente atribuídos a divindades, restando apenas o momento da criação do universo como um cantinho onde algum deus ainda poderia estar escondido.

“Ninguém criou o universo”: Stephen Hawking explica por que Deus não existe

“Ninguém criou o universo”: Stephen Hawking explica por que Deus não existe

“As leis da natureza nos dizem que não só o universo pode ter surgido sem ajuda, como um próton, e não ter exigido nada em termos de energia, como também é possível que nada tenha causado o Big Bang. Nada. […] À medida que viajamos de volta no tempo em direção ao momento do Big Bang, o universo fica cada vez menor e continua diminuindo até finalmente chegar a um ponto em que se torna um espaço tão ínfimo que na verdade se trata de um único buraco negro infinitesimalmente pequeno e denso. E, assim como acontece com os buracos negros que hoje flutuam pelo espaço, as leis da natureza ditam algo verdadeiramente extraordinário. Elas nos dizem que aí também o próprio tempo tem que parar. Não podemos voltar a um tempo anterior ao Big Bang porque não havia tempo antes do Big Bang. Finalmente encontramos algo que não possui uma causa, porque não havia tempo para permitir a existência de uma. Para mim, isso significa que não existe a possibilidade de um criador, porque ainda não existia o tempo para que nele houvesse um criador”, escreve Hawking, que depois deixa sua posição ainda mais clara:

“Quando me perguntam se um deus criou o universo, digo que a pergunta em si não faz sentido. O tempo não existia antes do Big Bang, assim não existe tempo no qual deus produziu o universo. É como perguntar onde fica a borda da Terra. A Terra é uma esfera e não tem borda; procurá-la é um exercício fútil. […] Se eu tenho fé? Cada um é livre para acreditar no que quiser. Na minha opinião, a explicação mais simples é que deus não existe. Ninguém criou o universo e ninguém governa nosso destino. Isso me levou a perceber uma implicação profunda: provavelmente não há céu nem um além-túmulo. Acho que acreditar em vida após a morte não passa de ilusão. Não existe evidência confiável disso e a ideia vai contra tudo que sabemos em ciência. Acho que, quando morremos, voltamos ao pó. Mas, em certo sentido, continuamos a viver: na influência que deixamos, nos genes que passamos adiante para nossos filhos. Temos apenas esta vida para apreciar o grande plano do universo, e sou extremamente grato por isso”.

Dentre os muitos momentos interessantes do livro, também merece destaque a resposta que Hawking dá para a pergunta “Qual é a maior ameaça ao futuro do planeta?”. Para ele, a mudança climática descontrolada deveria ser nossa principal preocupação para que o mundo não vire um forno. “Uma elevação na temperatura do oceano derreteria as calotas polares e causaria a liberação de grandes quantidades de dióxido de carbono. Ambos os efeitos poderiam deixar nosso clima como o de Vênus, mas com uma temperatura de 250ºC”. Fica mais esse alerta para quem acha que aquecimento global é uma mentira – ou que é mera vontade de deus.

Os 110 Anos Da Constelação De Machado De Assis.

Os 110 Anos Da Constelação De Machado De Assis.
Por ocasião dos 110 anos de criação da Academia Brasileira, nada mais justo do que homenagear o fundador desta constelação de quarenta astros de primeira magnitude da cultural nacional, recordando-o como um dos escritores que se ocuparam da astronomia em suas obras. O poeta canta, endeusa, namora esses pregos de diamante do dossel azul que nos cerca o planeta; mas lá vem o astrônomo que diz muito friamente – nada! isto que parece flores debruçadas em mar anilado, ou anjos esquecidos no transparente de uma camada etérea – são simples globos luminosos e parecem-se tanto com flores, como vinho com água. 23875_562852317069531_2126658182_nPor ocasião dos 110 anos de criação da Academia Brasileira, nada mais justo do que homenagear o fundador desta constelação de quarenta astros de primeira magnitude da cultural nacional, recordando-o como um dos escritores que se ocuparam da astronomia em suas obras. O poeta canta, endeusa, namora esses pregos de diamante do dossel azul que nos cerca o planeta; mas lá vem o astrônomo que diz muito friamente – nada! isto que parece flores debruçadas em mar anilado, ou anjos esquecidos no transparente de uma camada etérea – são simples globos luminosos e parecem-se tanto com flores, como vinho com água.
Esta comparação machadiana entre o poeta e o astrônomo, em uma de suas crônicas para O Espelho, em setembro de 1959, mostra que a astronomia, ou pelo menos os astrônomos, não estavam longe de suas preocupações cotidianas. Aliás, não são poucas as referências às estrelas, aos cometas e aos planetas em suas páginas, quer na poesia, no romance, nas crônicas e até mesmo nos seus ofícios como funcionário do Ministério da Agricultura. Sobre os cometas existe uma seqüência que mostra como o atraíam esses astros caudados.
Em 13 de junho, o astrônomo australiano John Tebbutt (1834-1916) anunciou a passagem da Terra pela cauda do cometa. Em crônica no Diário do Rio de Janeiro, de 3 de julho de 1864, Machado de Assis escreveu:
Estávamos tão contentes, tão tranqüilos, tão felizes – iludíamo-nos uns aos outros com tanta graça e tanto talento – abríamos cada vez mais o fosso que separa as idéias e os fatos, os nomes e as coisas fazíamos da Providência a capa das nossas velhacarias – adorávamos o talento sem moralidade e deixávamos morrer de fome a moralidade sem talento – dávamos à vaidade o nome de um justo orgulho -usávamos ao juiz de paz o primeiro que nos injuriasse – dissolvíamos a justiça e o direito para aplicá-los em doses diversas às nossas conveniências – fazíamos tudo isto, mansa e pacificamente, com a mira nos aplausos finais, e eis que se anuncia uma interrupção do espetáculo com a presença de um Átila cabeludo!.
Em crônica de 17 de outubro de 1864, no Diário do Rio de Janeiro, Machado de Assis relata um temporal que durou dez minutos. Se tivesse durado duas horas teria deixado, segundo Assis, a nossa cidade reduzida a um montão de ruínas. Para o autor de Dom Casmurro, os tufões eram os batedores do cometa Newmager. Retoma nesta crônica os seus comentários anteriores sobre o cometa Tebbutt (1861II).
Em Bons Dias!, crônica publicada na Gazeta de Notícias, em 13 de fevereiro de 1889, foi o Barnard (1889I), descoberto em 2 de setembro de 1888 pelo astrônomo norte-americano Edward Emerson Barnard (1857-1923), e observado no Imperial Observatório do Rio de Janeiro, no Morro do Castelo, por Luís Cruls e Henrique Morize (1860-1930). Em fins de janeiro de 1889, esse cometa foi observado a olho nu, como objeto de quinta magnitude. Em sua crônica, Machado de Assis começou expondo o seu inconformismo com os políticos em especial, com os da Câmara dos Deputados, quando recebeu um emissário do céu que lhe perguntou se já havia visto o cometa:
– Há algum cometa?
– Há sim, senhor, vá ver o cometa; aparece às 3 horas da manhã, e de onde se vê melhor é do morro do Neco, à esquerda. Tem um grande rabo luminoso. Vá meu amigo; quem não entende das coisas, não se mete nelas. Vá ver o cometa.
As noites estreladas de março – época dos anos em que vinte e duas das trinta mais brilhantes estrelas estão visíveis – inspirou Machado de Assis, em Dom Casmurro, um céu que recolhe a chuva e acendem as estrelas, não só as já conhecidas, mas ainda as que só serão descobertas daqui a muitos séculos, numa consideração profunda sobre a evolução permanente da ciência.
Às vezes, eu contava a Capitu a história da cidade, outras dava-lhe notícias de astronomia; notícias de amador que ela escutava atenta e curiosa, nem sempre tanto que não cochilasse um pouco. Na noite em que passaram mirando, da janela de Glória, o mar e o céu, Bentinho falava sempre do céu, às vezes de Sírius e do planeta Marte, para a sua Capitu que se perdia pois como reconheceria, mais tarde, suas lições de astronomia têm dessas confusões, entre distâncias e tamanhos. Todavia, reconhecia Bentilho: só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozando no céu os seus desafetos aumentarão as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas.
Lua ejetada do Pacífico?
Em fins do século XIX, as descobertas de asteróides, planetas situados entre as órbitas de Marte e Júpiter provocavam um grande interesse, pois o primeiro e o maior deles – Ceres – havia sido descoberto em 1801 pelo astrônomo italiano Giuseppe Piazzi (1746-1826). Em conseqüência da descoberta de um novo asteróide, Machado de Assis escreveu, em A Semana, a 23 de dezembro de 1894, um breve comentário ficcional, talvez influenciado pela teoria do astrônomo inglês George Howard Darwin (1845-1912), hoje totalmente ultrapassada, que explicava a origem da Lua com uma parte do globo terrestre que teria sido ejetada do Oceano Pacífico:
Andará a Terra com dores de parto, e alguma cousa vai sair dela, que ninguém espera nem sonha? Tudo é possível! Quem sabe se o planeta novo não foi o filho que ela deu à luz por ocasião dos tremores? Assim podemos fazer uma astronomia nova; todos os planetas são filhos do consórcio da terra e do Sol, cuja primogênita é a lua, anêmica e solteirona. Os demais planetas nasceram pequenos, cresceram com os anos, casaram e provocaram o céu com estrelas. Aí está uma astronomia que Júlio Verne podia meter em romances, e Flammarion em décimas.
Constelações, fenômenos e astrônomos
Sobre as constelações, Machado de Assis, em Quincas Borba faz de Rubião um contemplador dos céus: olhou para o céu; lá estava o Cruzeiro … Oh! se ela houvesse consentido em fitar o Cruzeiro! Outra teria sido a vida de ambos. A constelação pareceu confirmar este modo de sentir, fulgurando extraordinariamente; e Rubião quedou-se a mirá-la, a compor mil cenas lindas e namoradas, – a viver do que podia ter sido quando a alma se fartou de amores nunca desabrochados, acudiu à mente do nosso amigo que o Cruzeiro não era só uma constelação, era também uma ordem honorífica. Daqui passou a outra série de pensamentos. Achou genial a idéia de fazer do Cruzeiro uma distinção nacional e privilegiada. Já tinha visto a venera ao peito de alguns servidores públicos. Era bela, mas principalmente rara.
Na realidade, a astronomia está sempre presente não só como astros, fenômenos, como também no nome dos mais expressivos astrônomos de sua época, tais como: o astrônomo e do matemático francês Pierre Simon de Laplace (1749-1827), a quem Machado se refere sem esquecer a sua famosa obra Mecânica Celeste; o astrônomo e escritor francês Bernard Le Bovier de Fontenelle (1657-1757), por sua obra de divulgação da astronomia; Galileu (1564-1642) pelo seu processo em que foi vítima da autoridade pública, e o grande matemático maranhanse Joaquim Gomes de Souza (1829-1864), autor de célebre tese sobre o modo de indagar novos astros sem auxílio de observações diretas, em 1858. Além do escritor e astrônomo francês Camille Flammarion (1842-1925) e o escritor de ficção científica Jules Verne (1828-1905), o escritor de Brás Cubas também conheceu na Livraria Garnier dois grandes astrônomos do Imperial Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, o francês Emmanuel Liais e o belga Louis Cruls, com quem provavelmente discutiu e, sem dúvida, questionou sobre suas curiosidades astronômicas, tão vivas e atuais na obra machadiana.