Category Archives: Notícias

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos

Caçadores da “partícula fantasma”

Por ser tão leve, neutro e pequeno, o neutrino, uma das mais abundantes partículas do Universo, atravessa tudo a todo momento sem ser notado. E aí estava um grande desafio da ciência. Para detectar um neutrino que chegou na Terra vindo de uma galáxia distante, foi necessário construir um experimento espantoso. Os cientistas instalaram 5.160 sensores do tamanho de holofotes de navio em um cubo de gelo de um quilômetro cúbico, enterrado a um quilômetro e meio de profundidade no coração da Antártida.

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

Em 2013, um neutrino vindo de uma distante galáxia foi detectado no grande cubo de gelo. A caçada de partículas de mais de um século começava a chegar ao fim, explicou o físico americano Francis Halzen, líder das pesquisas no IceCube. Ele esteve em São Paulo em outubro, quando foi apresentado como integrante do Comitê Internacional do Instituto Principia — um centro brasileiro recém-inaugurado de produção e difusão científica.

A busca pela origem dos raios cósmicos

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

A história dessa caçada remonta a uma experiência um tanto divertida, realizada em 1912. Os cientistas não sabiam o que fazia com que certos materiais na Terra ganhassem ou perdessem elétrons –a chamada ionização. E ficavam surpresos ao perceberem que o fenômeno ganhava intensidade diferente em locais altos, como no topo da torre Eiffel.

Para desvendar o mistério, o físico austríaco Victor Hess subiu aos céus em um balão levando sensores de radiação. Quanto mais subia, mais forte ficava a radiação captada. A conclusão de Hess foi que existiam partículas ionizantes vindo do espaço. Ele as batizou de raios cósmicos. “Os cientistas têm procurado de onde essas partículas partem há mais de um século”, conta Francis Halzen.

Que tiro foi esse?

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

Os raios cósmicos são as partículas com as mais altas energias já observadas pelos cientistas. Grande parte é gerada em explosões de estrelas na Via Láctea. Mas aqueles com energias mais altas só podem ser produzidos em eventos cataclísmicos fora da Via Láctea, como explosões de supernovas e choques de galáxias.

Uma chuva de raios cósmicos, composta por prótons, elétrons, neutrinos, raios gama e outras partículas, cai constantemente sobre a Terra, mas nenhum cientista fazia ideia ao certo de onde vinham e o que os disparavam. “A forma que temos para conhecer o Universo é detectando a radiação que chega até nós”, explica Halzen. Os telescópios permitem observar as ondas eletromagnéticas que alcançam a Terra de diferentes formas — em luz visível, infravermelho, raios-x, ondas de rádio, etc.

“Mas os raios cósmicos que nos atingem chegam na forma de partículas”, completa o físico americano.

Entram aí algumas dificuldades: primeiro, qual instrumento utilizar para visualizar esses raios, uma vez que os telescópios não os captam. Outro problema é qual partícula observar. Prótons e elétrons são desviados de um lado para o outro, o que dificulta rastrear a origem.

Para encontrar a fonte dos raios cósmicos, portanto, seria necessário achar algo que viajasse até a Terra em linha reta. O pequeníssimo e invisível neutrino, quem diria, era a solução.

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

 

Caçadores da “partícula fantasma”

Caçadores da "partícula fantasma"

Caçadores da “partícula fantasma”

O apelido “partícula fantasma” não é exagero. Neutrinos são levíssimos — algumas centenas de vezes mais leves que o elétron –, não têm carga elétrica e quase não possuem massa. De tão pequenos, atravessam astros e campos magnéticos sem se desviar, interagindo muito debilmente com a matéria. Bilhões dessas “partículas fantasmas” perpassam cada centímetro quadrado da Terra (e de nossos corpos) a cada segundo, vindas do espaço.

Os neutrinos existem em abundância no Universo conhecido, perdendo em número apenas para o fóton, a partícula de luz. Além de comporem os raios cósmicos, também são produzidos no Sol e surgem em reatores nucleares e aceleradores de partículas na Terra. A diferença é que os neutrinos dos raios cósmicos possuem energias altíssimas.

“A busca [por neutrinos] passou a fazer parte de uma das maiores questões da física e da astronomia: qual é a origem dos raios cósmicos?”, disse Halzen. Como viajam de suas fontes sem serem bloqueados e sem desvios, eram a pista certeira que os cientistas queriam. Mas como observar uma partícula praticamente invisível?

Diferentes experimentos já foram realizados para tentar flagrar neutrinos. Um deles, o Super-Kamiokande, construído no Japão em 1983, consiste numa piscina cilíndrica com 50 mil toneladas de água rodeada por 11.200 sensores de luz. Outro experimento feito na década de 1990 demonstrou que o gelo extremamente claro da Antártida podia interagir com neutrinos.

Essas armadilhas de neutrinos precisam ser grandes o suficiente para aumentar a probabilidade de captura de uma entre bilhões de “partículas fantasmas”. O neutrino não é observado diretamente, mas a partir de partículas secundárias eletricamente carregadas que são produzidas quando ele atravessa a água ou o gelo. “O IceCube foi construído para fazer exatamente isso”, conta Halzen.

A armadilha na Antártida

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

Caçadores da “partícula fantasma”

Não foi fácil construir a engenhoca. O frio do polo Sul proíbe trabalhar no inverno, quando as temperaturas chegam a -80°C. Assim, foram necessários sete verões, entre 2004 e 2010, para perfurar e instrumentalizar 86 poços que chegavam a 2.450 metros de profundidade — ponto em que ficam os sensores que estão no pé do grande cubo de gelo.

Para ganhar tempo e aproveitar bem a luz do Sol que nunca se põe nessa época, os mais de 300 engenheiros, técnicos e cientistas se revezavam ao longo de 24 horas, todos os dias. Os sensores precisavam ser instalados rapidamente nos buracos de gelo derretido, antes que a água voltasse a congelar.

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

A construção do IceCube contou com a colaboração de mais de 40 instituições de pesquisa de todo o mundo e o investimento de 279 milhões de dólares (cerca de R$ 1 bilhão), a maior parte feita pela Fundação Nacional de Ciências dos EUA. Após 2,1 milhões de quilos de carga levadas para a Antártida, as obras do Ice Cube chegaram ao fim, “concluídas no prazo, dentro do orçamento e excedendo significativamente as especificações de desempenho”, como diz relatório do observatório.

Era importante saber exatamente o que havia no gelo. Qualquer interferência no momento da detecção de um neutrino precisaria ser compreendida. Halzen explica que supercomputadores radiografaram e mapearam cada grão de poeira ali congelado. Calibrada a armadilha, bastava esperar a presa aparecer.

A montagem no IceCube

Laboratório custou 279 milhões de dólares (R$ 1 bilhão) e foi finalizado sem atrasos

Flagra e delação

Flagra e delação.

Flagra e delação.

Em 2013, os caçadores de neutrinos liderados por Halzen observaram uma extraordinária luminosidade azul dentro do cubo gelado. Tratava-se do efeito chamado Cherenkov, que ocorre quando uma partícula carregada eletricamente atravessa um meio como o gelo em velocidade superior à da luz nesse meio (no gelo, a luz pode se deslocar em velocidade mais baixa e inferior a de outros elementos).

Essa radiação eletromagnética era fruto de múons produzidos pela interação entre o gelo e uma outra partícula que havia adentrado o cubo. Eureca! Um neutrino de alta energia passava por ali. Com cerca de 300 teraelétrons-volts (TeV), quase 50 vezes a energia de partículas aceleradas no LHC (o maior acelerador de partículas do mundo), era certo que vinha de fora da Via Láctea.

Os sensores do IceCube registraram todos os dados das ondas de luz geradas. E os computadores do laboratório traçaram as coordenadas da trajetória da “partícula fantasma” dentro do cubo. O que o neutrino acabara de contar aos cientistas era a direção exata de sua trajetória de bilhões de anos-luz até a Terra. Mas nada mais do que isso. “Você vê os neutrinos cósmicos vindo do céu, mas ainda não sabe de onde estão vindo”, conta Halzen sobre a alegria misturada com frustração do momento da descoberta.

Como desvendar o mistério? Os cientistas sabem que o neutrino viaja praticamente na velocidade da luz. E se, com a direção do neutrino em mãos, eles olhassem para o céu e tentassem localizar alguma luz no ponto de onde ele veio? É elementar, diria um Sherlock Holmes da ciência.

Nasa

Operação mundial e fim do mistério

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

Operação mundial e fim do mistério…

Existem diversos telescópios e detectores de ondas eletromagnéticas espalhados pela Terra e em órbita no espaço. Em 22 de setembro de 2017, no exato momento em que detectou um novo neutrino de alta energia, o IceCube emitiu um alerta para a comunidade astronômica internacional. Mais de 20 observatórios voltaram imediatamente suas lentes e sensores para o céu na direção que o neutrino do IceCube apontava.

A ideia era encontrar qualquer sinal que estivesse partindo daquela fonte. As observações começaram a ser feitas simultaneamente por times que totalizavam mais de mil cientistas de diferentes países. Até que um primeiro sinal foi identificado pelo telescópio espacial Fermi, da Nasa: um forte clarão em forma de raios gama, ao lado do ombro esquerdo da constelação Orion no céu noturno.

Tratava-se do blazar TXS 0506+056, localizada a 4 bilhões de anos-luz da Terra. Esse objeto celestial concentra grande quantidade de energia e está associado a um buraco negro. O Fermi sabia de sua existência há 10 anos, mas nunca tinha visto um brilho tão intenso vindo de sua direção. Depois do Fermi, o observatório Magic, situado nas Ilhas Canárias, também detectou o blazar. E outros observatórios viram o clarão. Bingo, era aquela a fonte.

Para Halzen, a operação conjunta marcou o início de uma nova era na astronomia. “A capacidade de fazer com que telescópios espalhados pelo globo realizem uma descoberta em cooperação com um detector de neutrinos é um marco do que os cientistas estão chamando de astronomia de múltiplas mensagens”, diz o cientista.

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

Operação mundial e fim do mistério…

Hoje, diversos neutrinos são detectados no Ice Cube a todo momento, e o laboratório tornou-se um importante centro de estudos de ponta. Ali são feitas pesquisas em astrofísica, glaciologia, tomografia da Terra, física quântica e partículas exóticas, dentre outras áreas. Há a expectativa de que descobertas sobre a matéria escura possam vir de lá.

Quanto aos raios cósmicos e os neutrinos, Halzen ressalta que eles continuam atingindo a Terra a todo instante, sem que saibamos de onde partem todas as gotas dessas tempestades. O que há de surpreendente então na saga da caçada de neutrinos?

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

A surpresa é que nós conseguimos solucionar o problema de mais de um século, e de uma maneira totalmente inesperada. Nós sabemos agora qual é uma das fontes dos raios cósmicos

Francis Halzen, cientista líder do IceCube

Como cientistas criaram armadilha de gelo na Antártida para descobrir uma fonte de raios cósmicos.

Francis Halzen, cientista líder do IceCube.

As mentes por trás do maior acelerador de partículas do Brasil

Poucas pessoas que observam a estrutura gigante erguida em uma área rural de Campinas, a 93 km de São Paulo, fazem ideia do que se trata. A construção circular e envidraçada lembra um shopping center ou as novas arenas de futebol brasileiras. Nem mesmo alguns funcionários do local sabem explicar o que é o Projeto Sirius, obra do governo federal estimada em R$ 1,8 bilhão.

“Até já me falaram, mas eu não sei te dizer. É melhor você perguntar para um cientista”, disse um operador de empilhadeira à reportagem da BBC News Brasil.

O Sirius, construído e mantido pelo Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), será a maior e mais avançada fonte de luz síncrotron, um tipo de radiação eletromagnética de alto fluxo e alto brilho produzida quando partículas carregadas, aceleradas a velocidades próximas à velocidade da luz, têm sua trajetória desviada por campos magnéticos.

Mas por que isso é tão importante e custa tão caro? De maneira simplificada, o Sirius, único no mundo, é um ultra-aparelho de radiografia que será capaz de analisar de forma detalhada a estrutura e o funcionamento de estruturas micro e nanoscópias, como nanopartículas, átomos, moléculas e vírus.

É como se os pesquisadores pudessem tirar um raio-x em três dimensões, e em movimento, de materiais e partículas extremamente pequenas e densas, como pedaços de aço e rocha, e até de neurônios. O aparelho será capaz de analisar os detalhes e funcionamento dos materiais de forma inédita.

Isso pode levar, por exemplo, à criação de uma bateria para celular que, quando carregada apenas uma vez, dure cinco anos.

Será possível desenvolver também plantas que necessitem de menos água para crescer e novos remédios para tratar doenças crônicas.

Tudo graças a um brilho superpotente produzido pela circulação de elétrons na velocidade da luz (cerca de 300 mil km/s). Isso possibilita que pesquisadores estudem até mesmo neurônios de seres vivos de maneira inédita, sem precisar “fatiá-los”, como é feito hoje. Por isso, o aparelho é tido como a grande aposta científica brasileira para as próximas décadas.

Novo acelerador de elétrons é a maior e mais complexa estrutura de pesquisa do País e será colocada à disposição de pesquisadores do Brasil e do exterior

Brasil inaugura o Sirius, um dos mais modernos aceleradores de elétrons

Hoje, o Brasil tem um acelerador de partículas chamado UVX que, segundo cientistas, já está defasado. O UVX também fica no CNPEM, no terreno ao lado do Sirius. A inovação no novo acelerador será expressiva: um processo que hoje demora horas para ser feito no UVX, por exemplo, será feito em poucos segundos no Sirius.

Para a construção bem-sucedida do Sirius, dezenas de cientistas e engenheiros estão há décadas dedicados ao desenvolvimento de fontes de luz do tipo síncrotron, que têm dimensões colossais, mas exigem uma precisão milimétrica.

Um deles é a chinesa Liu Lin, de 54 anos, que nasceu em Hong Kong e veio para o Brasil aos 2 anos de idade. Como cientista, ela se dedica há 33 anos ao desenvolvimento dos aceleradores de partículas brasileiros.

“Eu comecei nesse projeto antes mesmo de ele ser criado. O Brasil queria construir um síncrotron e eu viajei com a primeira equipe formada por quatro brasileiros em 1985 para Stanford, nos EUA (para estudar o acelerador americano)”, conta à BBC News Brasil.

No ano seguinte, os cientistas começaram a projetar o primeiro acelerador brasileiro em uma sala na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Depois, ele foi transferido para uma casa e passou para um galpão, onde começaram a ser construídos os componentes do acelerador do UVX, do tamanho de um ginásio esportivo, onde atualmente trabalham centenas de pessoas, entre cientistas, engenheiros, técnicos e funcionários administrativos.

Lin tinha 22 anos e era a única mulher na equipe que foi aos Estados Unidos em 1985.

“A gente ficou três meses lá, aprendemos bastante e, quando a gente voltou, o projeto ficou indefinido. Não sabíamos se teria mesmo”. A pesquisadora terminou o mestrado, ganhou um bolsa para fazer doutorado nos EUA e já estava com passagem comprada quando foi anunciada a decisão de que fariam um acelerador em Campinas.

“Eu fiquei num dilema. Acabei optando por ficar no projeto e fiz meu doutorado na USP”, lembra.

A família dela não concordou com a decisão e achou que ela deveria ter ido estudar no exterior. Lin diz que não se arrepende.

“Eu acho que tomei a decisão correta. Aqui, a gente aprendeu muito fazendo. Foi diferente de uma carreira acadêmica normal”, diz ela, que hoje é a líder do Grupo de Física de Aceleradores do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), um dos quatro laboratórios nacionais do CNPEM.

O UVX, atual acelerador de partículas em funcionamento no Brasil, já está defasado e é classificado como um aparelho de segunda geração. O Sirius será o segundo do mundo de 4ª geração, mas será o mais moderno por diversos fatores, principalmente por emitir luz com o brilho mais intenso e capacidade superior de análise.

Bolsista e filho de caminhoneiro

Além de Liu Lin, o Projeto Sirius envolve outras dezenas de físicos e engenheiros de diversas áreas. Tamanho esforço é feito para que os cientistas e pesquisadores possam trabalhar sem problemas nas saídas das linhas de luz.

Um deles é o paraibano Narcizo Marques de Souza Neto, de 40 anos, que trabalha com experimentos de raio-x em condições extremas de pressão e temperatura. Nascido na cidade de Malta, de 5 mil habitantes, ele conheceu o CNPEM em 2001, quando foi selecionado para um programa de bolsa de verão e viajou de avião pela primeira vez.

Depois de conhecer Campinas, ele fez mestrado e doutorado na Unicamp e pós-doutorado em Chicago, nos EUA, onde morou durante três anos. Lá, ele desenvolvia uma técnica para testar materiais sob alta pressão, quando recebeu uma proposta para trabalhar como pesquisador na fonte de luz síncrotron americana.

Mesmo com um salário maior nos EUA, ele preferiu voltar para o Brasil para colaborar na formação de cientistas do país e fugir do frio. A construção do Sirius também foi um fator decisivo na sua escolha, já que ele poderá fazer seus estudos no melhor aparelho do mundo, de acordo com o que dizem os cientistas.

Uma das possíveis aplicações das pesquisas de Neto no Sirius é no desenvolvimento de trens de alta velocidade. Outra possibilidade seria desenvolver baterias e dispositivos eletrônicos com baixíssimo consumo de energia. “Você pode pensar que, daqui 50 anos, por exemplo, você teria um celular cuja bateria carregada apenas uma vez durasse dez anos”, afirma.

Hoje, ele já faz seus estudos no UVX, mas diz que suas condições de trabalho vão melhorar significativamente quando o Sirius estiver pronto. A intensidade de luz que ele usa vai aumentar em mais de mil vezes e com um feixe de luz mil vezes menor, o que possibilita um sinal com baixíssimo ruído e um estudo mais preciso.

No novo acelerador de partículas, o pesquisador paraibano ainda poderá testar materiais sob uma pressão semelhante à encontrada no núcleo de Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar.

“O Sirius será o primeiro laboratório no mundo a atingir essas condições. Em alguns lugares do mundo, já é possível chegar à (pressão) do centro da Terra, mas a de Júpiter é pelo menos cinco vezes maior”, explica.

Em 2015, Neto foi o primeiro pesquisador da América Latina a ganhar o Dale Sayers Award da Sociedade Internacional de Absorção de Raios X (IXAS, por sua sigla em inglês). Esse é considerado um dos mais importantes prêmios na área de espectroscopia por absorção de raios-x (XAS).

De acordo com a instituição, ele foi premiado devido a suas “contribuições para o desenvolvimento de XAS para estudos de matéria sob condições extremas”.

Primeira sala onde os elétrons são acelerados antes de serem guiados para o acelerador principal do Sirius.

Brasil inaugura o Sirius, um dos mais modernos aceleradores de elétrons

Fabricava os próprios brinquedos

Mas suas condições de estudo nem sempre foram boas. Na infância, o físico estudou em escola pública durante alguns anos e tinha poucos brinquedos para se divertir em casa. O mais importante, lembra ele, era ter uma imaginação fértil.

“Eu inventava brinquedos. Usava pedaços de madeira para construir um carrinho, juntava um monte e imaginava que era um volante, uma marcha. Eu poderia ficar num canto brincando com pedras e madeiras e imaginar que era um brinquedo”, conta Neto.

Estudar nem sempre foi fácil para Neto. Filho de um caminhoneiro e uma dona de casa, seus pais passaram por “sérias dificuldades” para pagar as mensalidades de sua escola e as cartas de cobrança do colégio chegavam com frequência à sua casa. Mesmo quando chegou à universidade, não sonhava em trabalhar num laboratório tão importante.

“Meu sonho era ser professor na Universidade Federal de Campina Grande. Hoje, mesmo distante, eu consigo colaborar com o pessoal de lá. Neste ano, um mestre se formou com a minha orientação, por exemplo”, conta ele à BBC News Brasil.

O pesquisador ainda se orgulha ao falar que não se arrepende de ter voltado ao Brasil e que hoje seus amigos pesquisadores americanos tratam o Sirius como uma referência a ser estudada e alcançada.

A mãe de Neto morreu, mas ele diz que seu pai está muito orgulhoso de sua profissão. “Com 82 anos, ele viajou pela primeira vez de avião para visitar o neto aqui (em Campinas). Tudo o que ele queria em relação à educação funcionou e deu frutos.”

Como funciona o Sirius?

Localizado em um terreno de 150 mil m² – o equivalente a sete campos de futebol – o túnel principal por onde os elétrons circulam tem 518 metros.

Brasil inaugura o Sirius, um dos mais modernos aceleradores de elétrons

Máquina responsável por gerar elétrons, que são acelerados até atingirem a velocidade da luz e formar a luz síncrotron.

A circulação constante das micropartículas é importante para gerar o feixe de luz síncrotron 24 horas por dia. Seu piso é feito de uma camada de 90 centímetros de concreto armado em cima de uma camada de quatro metros de terra compactada com cimento, e sob 13 estacas fincadas a 13 metros de profundidade no solo.

A área ainda é isolada do prédio principal por um vão para evitar vibrações externas.

A reportagem da BBC News Brasil visitou as instalações do Sirius, inclusive a área onde os elétrons vão circular em alta velocidade.

Um desnível de 0,5 centímetro nos mais de 500 metros de túnel pode desregular toda a circulação dos elétrons e interromper o funcionamento do Sirius, previsto para operar 24 horas. As paredes do túnel têm uma espessura entre 80 centímetros e 1,2 metro para impedir a propagação da radiação emitida durante a circulação dos elétrons.

Mas todo o processo começa numa sala ao lado desse corredor de concreto e encanamentos. Uma máquina gera os elétrons, que são acelerados por um conjunto de equipamentos até ele ser transferido para um segundo acelerador.

A ideia é “arrumar” os elétrons antes de eles serem desviados para o acelerador principal, onde são guiados por forças magnéticas geradas por centenas de ímãs que os fazem atingir a energia final de operação.

Ao longo desses 518 metros, os ímãs de alta precisão são posicionados de maneira a pressionar os elétrons para que eles fiquem cada vez mais concentrados.

Isso faz com que o feixe de luz que sai do acelerador de partículas, chamado de luz síncrotron, seja extremamente fino. Um fio de cabelo é 30 vezes mais espesso.

Esse processo, aliado à circulação de elétrons a quase 300 mil km/s, gera uma luz tão potente que é capaz de fazer uma radiografia detalhada até mesmo de um pedaço de rocha. Mas a precisão exigida na região do túnel é tão rígida que a temperatura do local não pode variar mais de 0,1ºC para mais ou menos.

Quando fica pronto?

A conclusão da montagem dos aceleradores do Sirius está prevista para o final de 2018 e o início da operação, para 2019. Já a conclusão do projeto, incluindo 13 estações de pesquisa, é previsto para 2020.

Sua estrutura, porém, tem capacidade para abrigar até 40 saídas de linhas de luz. Cada uma delas com um feixe de radiação eletromagnética específico, como raio-x e ultravioleta. Cada um possibilita o desenvolvimento de estudos em diferentes condições.

O Sirius foi erguido com apenas 15% de peças e mão-de-obra trazidos de outros países. Algumas empresas brasileiras inclusive investiram em pesquisa para produzir alguns componentes. Os ímãs, por exemplo, foram desenvolvidos e construídos pela empresa WEG, de Santa Catarina, especificamente para o Sirius.

Outras 280 empresas nacionais estão envolvidas no fornecimento de peças e componentes.

Qual a importância do Sirius para o Brasil?

Com a inauguração do Sirius, o Brasil terá uma das mais avançadas ferramentas de pesquisa do mundo, segundo cientistas. Isso possibilitará que os pesquisadores do país possam desenvolver estudos com tecnologia inédita em diversas áreas, como saúde, energia, tecnologia, agricultura e meio ambiente.

Na saúde, poderão ser estudados vírus e bactérias para a descoberta de substâncias com potencial para dar origem a novos medicamentos e tratamentos. O diretor-geral do CNPEM e diretor do Projeto Sirius, Antônio José Roque da Silva, explica que o cérebro poderá ser analisado de acordo com os estímulos que recebe ou doenças que possui.

“(Será possível) entender doenças degenerativas ou problemas ligados ao cérebro. Para isso, eu preciso entender desde a escala de comunicação entre os neurônios, onde eles trocam os neurotransmissores, até chegar à organização espacial deles, como eles estão arrumados no cérebro e ver a diferença de um cérebro normal para um com doença”, afirma Silva.

No setor alimentício, poderão ser pesquisados alimentos e suas propriedades, visando o melhoramento, além do estudo de sementes e outras estruturas vegetais. Isso pode resultar no desenvolvimento de espécies mais resistentes à falta d’água e ataques de pragas.

Tudo isso por causa da qualidade e da potência do brilho da luz que sai nas estações. A física Liu Lin diz que é como se você conseguisse enxergar as micropartículas em sua constituição mais básica.

“É como se você passasse da TV antiga de tubo para uma ultra HD 4K. Fora que a luz produzida lá vai ter um grau de coerência maior. É como se você comparasse usar uma lanterna a um laser. É uma luz muito mais concentrada que faz toda a diferença”, afirma Lin.

Uma ferramenta tão moderna deve atrair pesquisadores estrangeiros para o Brasil. Como o Sirius é financiado por recursos públicos, qualquer cientista pode apresentar um projeto de pesquisa e, se aprovado, usar o acelerador de partículas brasileiro.

O diretor do Sirius diz que ele foi projetado para ser uma ferramenta na fronteira do conhecimento. Nas palavras dele, com o “que há de mais moderno do mundo, com tecnologia brasileira, feito por pesquisadores brasileiros, ajudando a sociedade brasileira a resolver suas questões de futuro”.

“Em pesquisa, é como se você estivesse andando por uma região com vales e morros. Dependendo do tipo de pergunta que você encontra, é como se você estivesse numa área com uma rugosidade pequena e conseguisse passar por ela a pé ou com um carro pequeno. Mas tem horas que eu vou me deparar com um grande vale. Nesse momento, ou eu tenho uma ponte para cruzá-lo, ou fico parado. O Sirius será essa grande ponte dos pesquisadores brasileiros”, explica o diretor do projeto.

Brasil inaugura o Sirius, um dos mais modernos aceleradores de elétrons

Novo acelerador de elétrons é a maior e mais complexa estrutura de pesquisa do País e será colocada à disposição de pesquisadores do Brasil e do exterior

Por fora, parece um disco voador, do tamanho do estádio do Maracanã. Por dentro, a sensação é de estar caminhando em outro mundo, na fronteira da tecnologia, cercado de inovação por todos os lados. E o mais incrível: quase tudo feito por aqui mesmo, projetado por cientistas brasileiros, desenvolvido por empresas nacionais e construído – a muito custo – no período de maior aperto financeiro da ciência nacional.

As mentes por trás do maior acelerador de partículas do Brasil

Novo acelerador de elétrons é a maior e mais complexa estrutura de pesquisa do País e será colocada à disposição de pesquisadores do Brasil e do exterior

Brasil inaugura o Sirius, um dos mais modernos aceleradores de elétrons

O Sirius, a nova fonte de luz síncrotron do Brasil, foi inaugurado oficialmente nesta quarta-feira (14) pelo presidente Michel Temer e o ministro de Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab no CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), em Campinas. Orçado em R$ 1,8 bilhão, é o projeto mais grandioso e tecnologicamente complexo da ciência brasileira. Até agora, cerca de R$ 1,12 bilhão foram repassados para o projeto, sendo R$ 282 milhões em 2018.

Na inauguração, Temer disse que o Sírius vai ser exemplo para o mundo todo. “Se não tivessemos feito nada no nosso governo, mas concluído o projeto que inauguramos hoje, já teríamos feito muito pelo país”.

Temer destacou que o projeto, totalmente nacional, contou apenas com fornecedores brasileiros. “Presenciamos um Brasil que avança a passos largos, e passa a integrar o seletíssimo grupo de países que dispõem de um acelerador de elétrons de quarta geração”, declarou.

Nesta fase do projeto foram concluídas as obras civis e o prédio que abriga a infraestrutura de pesquisa. Dois dos três aceleradores de elétrons estão concluídos. Kassab, disse que o feixe de luz começa a circular a partir

Primeira sala onde os elétrons são acelerados antes de serem guiados para o acelerador principal do Sirius.

Brasil inaugura o Sirius, um dos mais modernos aceleradores de elétrons

de hoje em fase experimental. Na próxima semana, os cientistas ocuparão as suas salas nos laboratórios e instalações de pesquisa, que serão abertos às comunidades científica e industrial. A pesquisa efetiva terá início no próximo ano.

Maracanã da ciência

A obra que mais parece um estádio de futebol é um acelerador de elétrons, usado para produzir luz síncrotron. Funciona como um grande microscópio, que permite estudar praticamente qualquer material. O prédio do Sirius possui 15 metros de altura e 68 mil metros quadrados.

A máquina propriamente dita – um acelerador de elétrons com mais de 500 metros de circunferência, que produz a luz síncrotron – está em fase final de montagem, e deve entrar em operação no segundo semestre de 2019. Com ela, cientistas poderão fazer imagens 3D de altíssima resolução e investigar a fundo a estrutura molecular de qualquer tipo de material.

Se o dinheiro não minguar e as milhares de peças que compõem o acelerador funcionarem com a precisão nanométrica necessária, o Sirius será uma das fontes de luz síncrotron mais poderosas do mundo, num país onde os investimentos em ciência só caíram nos últimos anos.

Brasil inaugura o Sirius, um dos mais modernos aceleradores de elétrons

Máquina responsável por gerar elétrons, que são acelerados até atingirem a velocidade da luz e formar a luz síncrotron.

“Resiliência é o nome do jogo”, disse ao Estadão Conteúdo o físico Antônio José Roque da Silva, que pilota o projeto desde 2009, inicialmente como diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e agora, como diretor-geral do CNPEM.

Não foram poucos os momentos em que o projeto esteve ameaçado pela falta de recursos. A construção começou em 2015, em meio à explosão da crise econômica nacional.

A salvação, segundo Silva, foi a inclusão do Sirius no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a partir de 2016, o que deu ao projeto um status diferenciado dentro da estrutura política e administrativa do governo federal. “Foi o que nos permitiu sobreviver, mesmo com todas as dificuldades.”

Made in Brazil

A concepção do projeto começou em 2009, quando ficou claro que a atual fonte de luz síncrotron do LNLS – chamada UVX, de 1997 – estava tecnologicamente defasada, apesar de funcionar muito bem e até hoje atender mais de 1 mil pesquisadores por ano.

As mentes por trás do maior acelerador de partículas do Brasil

As mentes por trás do maior acelerador de partículas do Brasil

Máquina responsável por gerar elétrons, que são acelerados até atingirem a velocidade da luz e formar a luz síncrotron

Inicialmente, seria uma máquina de terceira geração, como tantas outras que estavam sendo construídas no mundo. Em 2012, porém, um comitê recomendou que fosse feito um “upgrade”, para uma máquina de quarta geração – coisa que ainda não existia no mundo. E o desafio foi aceito.

“Em vez de começar atrás, era a oportunidade de sair na frente”, lembra Silva. Muitos disseram que era impossível, mas o projeto foi em frente. “Reprojetamos tudo, e o Sirius ganhou destaque mundial. Todo mundo começou a desenhar novas máquinas com base na nossa tecnologia.”

Cerca de 85% do projeto está sendo contratado dentro do Brasil, incluindo o desenvolvimento e a fabricação das peças mais sofisticada do acelerador e das estações experimentais, chamadas de “linhas de luz”.

O primeiro feixe de elétrons foi gerado em maio, no aparelho conhecido como Linac, que agora está sendo conectado ao primeiro anel de aceleração, conhecido como Booster.

O anel principal, de onde são extraídos os feixes de luz síncrotron, está em fase inicial de montagem, com conclusão prevista para abril ou maio. Terá início, então, uma longa fase de testes, até que o Sirius possa ser aberto para uso da comunidade científica. Nessa primeira fase, estão previstas seis linhas de luz, com mais sete planejadas para 2021. Mas o prédio foi construído para abrigar até 40.

“É uma máquina que será competitiva por muitos anos”, diz o diretor científico do LNLS, Harry Westfahl Junior.

A complexidade tecnológica de uma fonte de luz síncrotron como o Sirius é imensa. De uma forma geral, porém, essas máquinas podem ser pensadas como grandes microscópios, ou tomógrafos, que os cientistas utilizam para fazer imagens, enxergar a estrutura molecular e estudar as propriedades de materiais.

Pode ser uma proteína, uma célula, um osso, um grão de areia, uma planta, uma rocha, um plástico, uma liga metálica ou um fóssil. Qualquer coisa.

Além da pesquisa acadêmica, a técnica é muito usada pelas indústrias químicas, de petróleo, fármacos e cosméticos.

A física Nathaly Archilha, pesquisadora do CNPEM, por exemplo, utiliza a luz síncrotron para estudar as propriedades de rochas que formam reservatórios de petróleo e gás natural. “Entender essa estrutura é fundamental para otimizar os processos de extração do óleo”, explica.

Com a luz síncrotron do UVX, já é possível enxergar a malha porosa interna das rochas, onde fica estocado o óleo – com o diâmetro de alguns fios de cabelo. Já com o Sirius, será possível fazer uma tomografia 4D dessas amostras, visualizando em tempo real, e condições reais de temperatura e pressão, como o óleo flui por dentro desses poros.

Além disso, o tamanho das amostras poderá ser muito maior, e o tempo de imageamento será muito menor. Uma imagem que leva horas para ser feita no UVX poderá ser feita em segundos no Sirius.

Origem da Via Láctea: megafusão criou nossa galáxias como a conhecemos hoje.

Pesquisa mostra que a Via Láctea como conhecemos hoje é resultado de uma fusão com a galáxia Gaia-Enceladus, há 10 bilhões de anos

Pesquisa mostra que a Via Láctea como conhecemos hoje é resultado de uma fusão com a galáxia Gaia-Enceladus, há 10 bilhões de anos.

Como o espaço sideral é uma máquina do tempo e também uma sucessão de fusões, junções e separações, cada nova descoberta tem o poder de contar um pouquinho mais sobre a formação dele e, em última instância, de nós mesmos.

E a descoberta mais recente é de que a Via Láctea, galáxia onde está o Sistema Solar – e onde nós estamos -, se fundiu a outra galáxia, uma parceira chamada Gaia-Enceladus, 10 bilhões de anos atrás. A pesquisa a respeito, que ajuda a compreender um pouco sobre os movimentos e as formações naturais do espaço, está na última edição da revista científica Nature.

Essa fusão com Gaia-Enceladus deu origem à maior parte do halo da Via Láctea. Também teria sido responsável por moldar o seu disco, dando a ele uma certa forma inflada. Quem descobriu e descreveu precisamente como ocorreu essa megafusão espacial foi a astrônoma Amina Helmi e sua equipe, todos cientistas da Universidade de Groningen, na Holanda.

Soma de galáxias

Já era um consenso no meio astronômico de que grandes galáxias, como a Via Láctea, sempre são a fusão de galáxias menores. Assim, a Via Láctea não poderia ser diferente: também é produto de pequenas fusões.

Helmi se tornou obcecada pelo tema. Ao longo de sua carreira, a pesquisadora revirou os lugares conhecidos da Via Láctea, em busca de “fósseis” que pudessem auxiliar em sua pesquisa. A astrônoma lançou mão de dados como evolução, composição química, posição e trajetória das estrelas para compreender suas histórias. Com isso, é possível identificar as fusões que criaram o início da Via Láctea.

A cientista usa a composição química, a posição e a trajetória das estrelas no halo para deduzir sua história e, assim, identificar as fusões que criaram o início da Via Láctea.

Os dados foram obtidos por meio do satélite Gaia, uma bem-sucedida missão da Agência Espacial Europeia. Em abril deste ano, o projeto disponibilizou uma avalanche de dados para a comunidade astronômica, com informações de uma base de 1,7 bilhão de estrelas.

Comportamento estelar

Helmi observa sistematicamente a organização da Via Láctea desde os últimos 20 anos. “Esperávamos que as estrelas se fundissem com os satélites no halo”, afirma. “O que não esperávamos encontrar era o fato de que a maioria das estrelas-halo de fato tivesse uma origem compartilhada, em uma fusão muito grande”, diz.

Os cientistas identificaram que a “assinatura química” de muitas estrelas do halo são claramente diferentes das estrelas “nativas” da Via Láctea. “Estas são grupos bastante homogêneo, o que indica que eles compartilham uma origem comum”, comenta, sobre as “nativas”.

“As estrelas mais jovens da Gaia-Encefalodus são na verdade mais jovens do que as estrelas nativas, sobretudo na região hoje do disco principal”, diz Helmi. “Isso significa que o progenitor desse fenômeno já estava presente quando a fusão aconteceu, e Gaia-Encefalodus, por causa de suas dimensões diferentes, balançou e encheu-se.”

Em estudo anterior, a astrônoma Helmi já havia descrito o fenômeno. Ao analisar um conjunto de estrelas de origem comum, ela concluiu que as estrelas dessa bolha no halo são escombros da fusão da Via Láctea com uma galáxia que era um pouco mais massiva.

Gaia-Enceladus

Helmi e sua equipe concluíram que estrelas desse tipo, localizadas nesses conjuntos, são os escombros da fusão entre Via Láctea e uma outra galáxia, há cerca de 10 bilhões de anos.

Essa galáxia é conhecida como Gaia-Enceladus, em homenagem a Enceladus ,gigante que, na mitologia grega, nasceu de Gaia – deusa da Terra – e Urano – deus do Céu.

Enceladus também foi o nome que escolheram para batizar uma lua do planeta Saturno.

Helmi bem lembrou de que dados sobre cinemática, química, idade e distribuição espacial das estrelas da Via Láctea já vinham sendo coletados e arquivados pelo projeto Gaia-Enceladus – antes dos dados disponibilizados neste ano.

O projeto de pesquisa existe há cerca de 10 anos. “Foi incrível olhar para os novos dados do Gaia e perceber aquilo que eu já vislumbrava”, afirma a especialista.

Missão Gaia

A Missão Espacial Gaia, da Agência Espacial Europeia, foi lançada em dezembro de 2013. O satélite tem o objetivo de monitorar dados de estrelas, realizando medições de posição, de velocidade radial e de luzes.

Cientistas buscam ‘Santo Graal’ do plástico: um descartável que se autodestrua

O químico Adam Feinberg coloca uma amostra de plástico em luz ultravioleta

Adam Feinberg havia acabado de fazer uma folha fina de plástico amarelo quando começou a rasgá-la em pequenos pedados.

O químico Adam Feinberg coloca uma amostra de plástico em luz ultravioleta.

Cientistas buscam ‘Santo Graal’ do plástico: um descartável que se autodestrua

Ele escolheu um molde em formato de “I” para o logotipo da Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign (EUA), onde trabalha como químico. Então, encheu-o com os pedacinhos de plástico e colocou-o em um forno quente.

“Abri o molde e ali estava aquele lindo ‘I’ amarelo”, conta ele.

Seu novo plástico tinha passado no primeiro teste. Podia ser moldado com o calor como um plástico comum. Havia outro passo importante, porém, no caminho de repensar o mundo de plásticos duráveis.

Feinberg colocou o “I” sob uma luz branca e, cinco minutos depois, apenas metade dele permanecia ali. A outra metade havia caído no chão.

Quando juntou as duas partes, o “I” tinha um buraco no meio e em seu lugar havia uma gosma amarela.

O plástico não havia apenas derretido. Seus blocos de formação, os polímeros sintéticos dentro dele, tinham se revertido a suas unidades moleculares. “Foi uma sensação fenomenal”, conta ele sobre o sucesso da experiência.

A maioria dos polímeros sintéticos não é projetada para desintegrar ou desaparecer. Ao contrário, eles foram feitos para durar o máximo de tempo possível desde que começaram a substituir metais e vidros em coisas duradouras, como automóveis e aviões.

Os polímeros sintéticos, no entanto, tornaram-se tão populares e adaptáveis que, décadas mais tarde, são a raiz do problema dos bilhões de toneladas de resíduos plásticos do planeta. Os mais recentes vilões das campanhas ambientais são os produtos descartáveis desse material formados de polímeros sintéticos: canudos, filtros de cigarros, tampas de copos de café etc.

Adam Feinberg segura amostra criada em laboratório nos EUA.

Cientistas buscam ‘Santo Graal’ do plástico: um descartável que se autodestrua

A chave, segundo Ramani Narayan, químico de polímeros da Universidade Estadual do Michigan, é ter ambientes de descarte claros e bem definidos para qualquer objeto que tenha chegado ao fim de sua vida útil.

Indiscutivelmente, plásticos biodegradáveis também possuem um mecanismo de autodestruição, desde que acabem no lugar certo com o tipo específico de micróbios.

Para isso, Narayan está liderando um esforço para a produção de plásticos que possam ser transformados em composto, a começar por utensílios descartáveis e embalagens de alimentos de sua empresa, a Natur-Tec. O composto poderia redirecionar não apenas os plásticos de uso único associados à comida, mas também o desperdício de alimentos.

“Ao usar a palavra ‘compostável’, definimos o ambiente”, diz ele, e isso, para os consumidores que estão procurando a lixeira certa, é muito importante.

Além de reciclar, os polímeros que se descompactam podem permitir novos usos como entrega de medicamentos e materiais que “curam” automaticamente, segundo Moore.

Embora a produção de implantes biomédicos autodestrutivos ou eletrônicos ainda seja algo do futuro, cientistas como Gillies já estão fazendo embalagens inteligentes com polímeros que se descompactam. Não para carregar mercadorias, mas para coisas úteis como medicamentos de câncer que podem ser liberados nos tumores ou fertilizantes ativados apenas quanto forem necessários no campo.

Para esses usos, as unidades precisam ser seguras e benignas. Um candidato em potencial é o glioxilato, segundo Gillies, uma molécula que existe naturalmente em microrganismos do solo. A equipe de Gilles produziu polímeros que se descompactam a partir de unidades de glioxilato e os envolveu com materiais diferentes para que pudessem ser implantados em diversas situações.

“Temos uma espinha dorsal universal e podemos apenas mudar a tampa final para fazer com que responda a coisas diferentes”, diz Gilles, como luz nos campos ou um ambiente de pouco oxigênio nos tumores.

Para Moore, o objetivo é fazer materiais que possam curar.

Cientistas buscam 'Santo Graal' do plástico: um descartável que se autodestrua

Cientistas buscam ‘Santo Graal’ do plástico: um descartável que se autodestrua

Sua ideia é encher minúsculas cápsulas feitas de polímeros que se descompactam com “agentes de cura” e depois embuti-las em revestimentos. Eles poderão responder à luz, diz, de modo que quando o revestimento de um celular quebrar, por exemplo, a luz penetrando na tela provocará a degradação da cápsula. Então, os agentes de cura vão se derramar para preencher as rachaduras. O revestimento ficará automaticamente bom, como se fosse novo, reduzindo a necessidade de obter um novo equipamento.

Enquanto esperamos o surgimento dessa nova geração de polímeros, os plásticos comerciais atuais continuam sendo produzidos em uma escala de 400 milhões de toneladas métricas por ano. E sempre com a intenção de serem fortes, robustos e durarem o maior tempo possível, conta Garcia.

“Projetar polímeros novos será absolutamente importante e necessário”, afirma Garcia. Um problema maior, no entanto, segundo ela, é aprender a decompor o legado de polímeros de resíduos de plástico, de uma maneira parecida, em seus componentes. “É quase como procurar o Santo Graal.”

Anarquistas de Chicago

Um dia como hoje, de 1887, foram assassinados os anarquistas de Chicago pelas mãos da autoridade americana, pelo facto de ter paralisado a indústria levantando em greve a milhares de trabalhadores no dia 1 de maio de 1886.

Anarquistas de Chicago

Anarquistas de Chicago

O pretexto que o governo americano usou para prender-los e executá-los foi o “incidente de haymarket, Chicago”, que teve lugar no quarto dia da greve quando um operário anónimo atirou uma bomba contra a polícia que abafar os manifestantes. O que motivou este trabalhador desconhecido a atentar contra os agentes foi o massacre que a mesma polícia cometeu dias antes contra a multidão desarmada.

Graças a estes oito anarquistas a cada 1º de maio comemora-se o dia do proletário mundial, devido aos protestos que realizaram se o dia de trabalho de 12 horas a 8, e por eles que na sua qualidade de imigrantes conseguiram Unir os trabalhadores, hoje o povo conhece os frutos da organização sem chefes e procura – a 130 anos de distância – a reivindicação total dos seus direitos.

Palavras de George Engel proferidas no dia do seu assassinato, em 11 de novembro de 1887:

” e por que razão estou aqui? Por que razão me acusam de assassino? Pela mesma razão que tive de abandonar a Alemanha, pela pobreza, pela miséria da classe trabalhadora. Aqui também, nesta ‘livre República’, no país mais rico do mundo, há muitos trabalhadores que não têm lugar no banquete da vida e que como párias sociais arrastam uma vida miserável. Aqui já vi seres humanos à procura de algo com que se alimentar nos montes de lixo das ruas.

Em que consiste o meu crime? Em que trabalhei para o estabelecimento de um sistema social em que seja impossível o facto de que, enquanto uns milhões utilizando as máquinas, outros caem na degradação e na miséria. Assim como a água e o ar são livres para todos, assim a terra e as invenções dos homens de ciência devem ser usadas em benefício de todos. As suas leis estão em oposição às da natureza, e através delas roubam as massas o direito à vida, à liberdade e ao bem-estar… se cada trabalhador levasse uma bomba no bolso, em breve seria derrubado o sistema capitalista prevalecente .

Eu não combato individualmente os capitalistas; combato o sistema que dá o privilégio. O meu mais ardente desejo é que os trabalhadores saibam quem são os seus inimigos e quem são os seus amigos. Tudo o resto eu o desprezo; desprezo o poder de um governo iníquo, seus policiais e seus espiões.

Este é o momento mais feliz da minha vida
Viva a anarquia!”

Ⓐnarquize-se

10 (dez) primeiros dias da eleicao do Bolsonaro

10 (dez) dias depois de eleito e já podemos atualizar a lista em relação a Bolsonaro

EXPECTATIVA:
– Acabar com a Corrupção

REALIDADE:

10 (dez) dias depois de eleito e já podemos atualizar a lista em relação a Bolsonaro

10 (dez) primeiros dias da eleicao do Bolsonaro

– Bolsonaro diz que PMDB é bem vindo ao seu governo: https://bit.ly/2JLSdCs

– Bolsonaro acaba com o Ministério do Trabalho https://bit.ly/2JLa3pf

– Deputada da bancada ruralista é anunciada como ministra da Agricultura, Tereza Cristina a ‘Musa do Veneno’: https://bit.ly/2zA3EIU

– Equipe de Bolsonaro pensa em fusão do Banco do Brasil com Bank of America: https://bit.ly/2ARVDkb

– Bolsonaro arranja treta com o Egito: https://bit.ly/2yTZFHD

– Bolsonaro arranja tretas com países árabes: https://bit.ly/2JIJkJQ

– Bolsonaro arranja treta com a China: https://bit.ly/2zATpnx

– Guedes avisa que Mercosul não será prioridade: https://glo.bo/2Ow033V

– Julian Lemos, Integrante da equipe de Bolsonaro foi acusado de estelionato e três vezes alvo da Lei Maria da Penha: https://glo.bo/2D6RdHH

– Onyx Lorenzoni Réu Confesso de Caixa 2 faz parte do governo: https://bit.ly/2NGQfbV

– Sérgio Moro diz que Caixa 2 de Onyx tá de boas porq ele pediu desculpas: https://bit.ly/2JJotWN

– Magno Malta corrupto histórico, mesmo sem voto popular, ganha puxadinho no governo Bolsonaro: https://bit.ly/2ySQ8jZ

– Alberto Fraga (DEM): não reeleito pelo povo, tem áudio pedindo propina, indiciado pela PGR, parte do governo Bolsonaro: https://bit.ly/2PfH96L

– Pauderney Avelido (DEM): não reeleito pelo povo, condenado a devolver R$ 4,6 milhões em um esquema de corrupção. Parte do governo Bolsonaro: https://bit.ly/2R983JV

– Sócio de agência ligada a disparos em massa via WhatsApp integra time de Bolsonaro: https://bit.ly/2RB6SD9

– Bolsonaro diz que “muita coisa” do governo Temer vai ser mantida: https://bit.ly/2ATQl81

– Bolsonaro e Temer se unem pelo fim das aposentadorias; vem aí a reforma da previdência: https://bit.ly/2Fjmb2i

– Temer convida Bolsonaro para viajarem juntos pelo mundo antes de sua posse: https://bit.ly/2Fc0cdo

Já deu pra entender o que vem por aí? Votaram num salvador da pátria e ganharam um Temer bem pior, chamado Bolsonaro.

Quando os robôs irão merecer direitos humanos?

Filmes e programas de TV como Blade RunnerHumans e Westworld, onde robôs altamente avançados não têm direitos como os humanos, incomodam nossa consciência. Eles nos mostram que nossos comportamentos não são apenas prejudiciais aos robôs – eles também nos rebaixam e nos diminuem enquanto espécie. Nós gostamos de pensar que somos melhores que os personagens na tela, e que quando chegar a hora, faremos a coisa certa e trataremos as máquinas inteligentes com um pouco mais de respeito e dignidade.Quando os robôs irão merecer direitos humanos?

Com cada avanço em robótica e inteligência artificial, estamos nos aproximando do dia em que máquinas sofisticadas combinarão as capacidades humanas em todos os aspectos significativos – inteligência, percepção e emoções. Quando isso acontecer, teremos que decidir se essas entidades são pessoas e se e quando -elas devem receber direitos, liberdades e proteções equivalentes às dos seres humanos.

Conversamos com especialistas em ética, sociólogos, juristas, neurocientistas e teóricos da IA (Inteligência Artificial) ​​com diferentes visões sobre essa ideia complexa e desafiadora. Parece que quando chegar a hora, é improvável que cheguemos a um acordo total. Aqui estão alguns desses argumentos.

Por que dar direitos às IAs em primeiro lugar?

Nós já atribuímos responsabilidade moral a robôs e projetamos consciência neles quando eles parecem super-realistas. Quanto mais inteligentes e vivas nossas máquinas parecem ser, mais queremos acreditar que são como nós – mesmo que ainda não sejam.

Mas, quando nossas máquinas adquirirem um conjunto básico de capacidades semelhantes às humanas, caberá a nós vê-las como iguais sociais e não apenas meras propriedades. O desafio estará em decidir quais limiares cognitivos, ou traços, qualificam uma entidade para consideração moral e, consequentemente, direitos sociais. Filósofos e especialistas em ética estão refletindo sobre essas mesmas questões há literalmente milhares de anos.

“Os três limiares mais importantes da ética são a capacidade de sentir dor, autoconsciência e capacidade de ser um ator moral responsável”, disse o sociólogo e futurista James Hughes, diretor executivo do Instituto de Ética e Tecnologias Emergentes, ao Gizmodo.

“Nos humanos, se tivermos sorte, esses traços se desenvolvem sequencialmente. Mas na inteligência de máquina pode ser possível ter um bom cidadão que não seja autoconsciente ou um robô autoconsciente que não sinta prazer e dor ”, disse Hughes. “Precisamos descobrir se vai funcionar assim”.

É importante ressaltar que a inteligência não é a mesma coisa que a senciência (a capacidade de perceber ou sentir as coisas), a consciência (consciência do corpo e do ambiente) ou a autoconsciência (reconhecimento dessa consciência). Uma máquina ou algoritmo pode ser tão inteligente – se não mais – do que os humanos, mas ainda não possuem essas importantes capacidades. Calculadoras, Siri e algoritmos de negociação de ações são inteligentes, mas não são conscientes de si mesmos, são incapazes de sentir emoções e não podem experimentar sensações de nenhum tipo, como a cor vermelha ou o sabor da pipoca.

“Inteligência não é o mesmo que senciência (a capacidade de perceber ou sentir coisas), consciência (consciência do corpo e ambiente) ou a autoconsciência (reconhecimento dessa consciência).”

Hughes acredita que a autoconsciência vem acompanhada de alguns direitos mínimos de cidadania, como o direito de não ser posse, e ter seus interesses para com a vida, a liberdade e o crescimento respeitados. A capacidade tanto de autoconsciência quanto de capacidade moral (ou seja, saber o certo do errado, pelo menos de acordo com os padrões morais atuais) devem vir acompanhadas de direitos de cidadania iguais aos dos humanos adultos, argumenta Hughes, tais como os direitos de fazer contratos, propriedade, voto, e assim por diante.

“Nossos valores iluministas nos obrigam a olhar para essas características verdadeiramente importantes de portadores de direitos, independentemente das espécies, e colocar de lado as restrições pré-iluministas sobre o porte de direitos apenas para humanos, europeus ou homens”, ele disse. Obviamente, nossa civilização não alcançou os elevados objetivos pró-sociais, e a expansão dos direitos continua um trabalho em progresso.

Quem pode ser uma “pessoa”?

Nem todas as pessoas são seres humanos. Linda MacDonald-Glenn, bioeticista da Universidade Estadual da Califórnia em Monterey Bay e membro do corpo docente do Alden March Bioethics Institute no Albany Medical Center, diz que a lei já considera não humanos como indivíduos portadores de direitos. Este é um desenvolvimento significativo, porque já estamos estabelecendo precedentes que poderiam abrir caminho para a concessão de direitos equivalentes aos dos humanos para a IA no futuro.

“Por exemplo, nos Estados Unidos, as corporações são reconhecidas como pessoas jurídicas”, ela disse ao Gizmodo. “Além disso, outros países estão reconhecendo a natureza interconectada da existência nesta Terra: a Nova Zelândia recentemente reconheceu os animais como seres sencientes, exigindo o desenvolvimento e a emissão de códigos de bem-estar e conduta ética, e o Supremo Tribunal da Índia declarou recentemente que os rios Ganges e Yamuna são pessoas jurídicas que possuem os direitos e deveres de indivíduos”.

Também existem esforços tanto nos Estados Unidos quanto em outros lugares para garantir direitos pessoais a certos animais não-humanos, como grandes símios, elefantes, baleias e golfinhos, para protegê-los contra coisas como confinamento indevido, experimentos e abusos. Ao contrário dos esforços para reconhecer legalmente corporações e rios como pessoas, isso não é uma espécie de gambiarra legal. Os proponentes dessas propostas estão defendendo uma noção de personalidade para essas entidades de acordo com certas habilidades cognitivas que elas possuem, como a autoconsciência.

MacDonald-Glenn diz que é importante rejeitar o sentimento da velha escola que enfatiza a racionalidade humana, por meio do qual os animais, e por extensão lógica os robôs e a inteligência artificial, são simplesmente vistos como “máquinas sem alma”. Ela argumenta que as emoções não são um luxo, mas um componente essencial do pensamento racional e do comportamento social normal. São todas essas características, e não apenas a capacidade de processar números, que importam ao decidir quem ou o que é merecedor de consideração moral.

De fato, o corpo de evidências científicas mostrando as capacidades emocionais dos animais está aumentando constantemente. O trabalho com golfinhos e baleias sugere que eles são capazes de vivenciar o luto, enquanto a presença de neurônios-fusiformes (o que facilita a comunicação no cérebro e possibilita comportamentos sociais complexos) implica que eles são capazes de empatia. Os cientistas também documentaram uma ampla gama de capacidades emocionais em grandes macacos e elefantes. Eventualmente, a IA consciente pode estar imbuída de capacidades emocionais semelhantes, o que elevaria seu status moral em uma porção significativa.

“Limitar o status moral somente àqueles que podem pensar racionalmente pode funcionar bem para a IA, mas isso é contrário à intuição moral”, disse MacDonald-Glenn. “Nossa sociedade protege aqueles sem pensamento racional, como um recém-nascido, pessoas em coma, e incapacitados física ou mentalmente, e promulgou leis contra a crueldade animais”. Sobre a questão da concessão do status moral, MacDonald-Glenn recorre ao filósofo inglês Jeremy Bentham, que disse a famosa frase: “A questão não é se eles podem raciocinar nem se eles podem falar mas, eles podem sofrer?”.

A consciência pode surgir em uma máquina?

Mas nem todos concordam que os direitos humanos devem ser estendidos aos não-humanos – mesmo que eles demonstrem capacidades como emoções e comportamentos autoconscientes. Alguns pensadores argumentam que apenas humanos devem poder participar do contrato social, e que o mundo pode ser adequadamente organizado em Homo sapiens e tudo mais – seja “tudo mais” seu videogame, geladeira, cachorro de estimação ou robô de companhia.

O advogado e escritor americano Wesley J. Smith, membro sênior do Centro de Excepcionalismo Humano do Discovery Institute, diz que ainda não alcançamos os direitos humanos universais, e que é extremamente prematuro começar a nos preocupar com os futuros direitos dos robôs.

“Nenhuma máquina deve ser considerada um portador de direitos”, disse Smith ao Gizmodo. “Até a máquina mais sofisticada é apenas uma máquina. Não é um ser vivo. Não é um organismo. É apenas a soma de sua programação, seja feita por um humano, por outro computador ou por auto-programação”.

Smith acredita que apenas seres humanos e feitos humanos devem ser considerados pessoas.

“Temos deveres para com os animais que podem sofrer, mas eles nunca devem ser considerados um ‘alguém’ “, disse ele. Apontando para o conceito de animais como “propriedade senciente”, ele diz que é um identificador válido porque “colocaria um fardo maior em nós para tratar nossa propriedade senciente de maneiras que não lhe seja causado sofrimento indevido, como distinto da propriedade inanimada”.

Implícito na análise de Smith, está a suposição de que os seres humanos, ou organismos biológicos, têm algo que as máquinas nunca serão capazes de alcançar. Em eras anteriores, essa “coisa” era uma alma ou espírito ou algum tipo de força vital indescritível. Conhecida como vitalismo, essa ideia foi amplamente substituída por uma visão funcionalista (computacional) da mente, na qual nossos cérebros são separados de qualquer tipo de fenômeno sobrenatural. No entanto, a ideia de que uma máquina nunca será capaz de pensar ou experimentar a autoconsciência como um humano ainda persiste hoje, mesmo entre os cientistas, refletindo o fato de que nossa compreensão da base biológica da consciência em humanos ainda é muito limitada.

Lori Marino, professora de neurociência e biologia comportamental do Emory Center for Ethics, diz que as máquinas provavelmente nunca merecerão direitos ao nível humano, ou quaisquer direitos. A razão, diz ela, é que alguns neurocientistas, como Antonio Damasio, teorizam que ser senciente tem tudo a ver com se o sistema nervoso é determinado pela presença de canais iônicos dependentes de voltagem, que Marino descreve como o movimento de íons carregados positivamente através da membrana celular dentro de um sistema nervoso.

“Esse tipo de transmissão neural é encontrada nos organismos mais simples, protista e bactérias, e esse é o mesmo mecanismo que evoluiu até os neurônios e, depois, até os sistemas nervosos e, depois, para os cérebros”, disse Marino ao Gizmodo. “Em contraste, os robôs e toda a IA são feitos atualmente pelo fluxo de íons negativos. Dessa forma, todo o mecanismo é diferente”.

De acordo com essa lógica, Marino diz que até mesmo uma água-viva tem mais sensibilidade do que qualquer robô complexo poderia ter.

“Não sei se essa idéia está correta ou não, mas é uma possibilidade intrigante e que merece ser examinada”, disse Marino. “Eu também acho isso intuitivamente atraente porque parece haver algo em ser um ‘organismo vivo’ que é diferente de ser uma máquina realmente complexa. A proteção legal na forma de pessoalidade deve ser claramente fornecida a outros animais antes de qualquer consideração de tais proteções serem aplicadas a objetos, e robôs na minha opinião são objetos”.

David Chalmers, diretor do Centro de Mente, Cérebro e Consciência da Universidade de Nova York, diz que é difícil ter certeza desta teoria, mas ele diz que essas idéias não são especialmente sustentáveis e vão além da evidência.

“Não há muita razão no momento para pensar que o tipo específico de processamento nos canais iônicos seja essencial para a consciência”, disse Chalmers ao Gizmodo. “Mesmo se esse tipo de processamento fosse essencial, não haveria muita razão para pensar que a biologia específica é necessária, em vez da estrutura geral de processamento de informações que encontramos nela. Se [esse for o caso], uma simulação desse processamento em um computador poderia ser consciente”.

Outro cientista que acredita que a consciência é inerentemente não-computacional é Stuart Hameroff, professor de anestesiologia e psicologia na Universidade do Arizona. Ele argumentou que a consciência é uma característica fundamental e irredutível do cosmos (uma idéia conhecida como panpsiquismo). De acordo com essa linha de pensamento, os únicos cérebros capazes de verdadeira subjetividade e introspecção são aqueles compostos de matéria biológica.

A ideia de Hameroff parece interessante, mas também está fora do domínio da opinião científica dominante. É verdade que não sabemos como a sensibilidade e a consciência surgem no cérebro, mas o simples fato é que elas surgem no cérebro, e em virtude desse fato, é um aspecto da cognição que devem aderir às leis de física. É totalmente possível, como notou Marino, que a consciência não possa ser replicada em um fluxo de uns e zeros, mas isso não significa que não iremos eventualmente ultrapassar o paradigma computacional atual, conhecido como arquitetura Von Neumann, ou criar um sistema de IA híbrido no qual a consciência artificial seja produzida em conjunto com componentes biológicos.

Bio-Pod da Existenz

Quando os robôs irão merecer direitos humanos?

Dois Google Homes conversando entre si. Captura de tela via Twitch.

Ed Boyden, um neurocientista do Synthetic Neurobiology Group e professor associado do MIT Media Lab, diz que ainda é prematuro fazer essas perguntas.

“Não acho que tenhamos uma definição operacional de consciência, no sentido de que podemos medi-la diretamente ou criá-la”, disse Boyden ao Gizmodo. “Tecnicamente, você nem sabe se estou consciente, certo? Dessa forma é muito difícil avaliar se uma máquina tem, ou pode ter consciência, no momento atual”.

Boyden não acredita que exista evidência conclusiva de que não podemos replicar a consciência em um substrato alternativo (como um computador), mas admite que há discordância sobre o que é importante capturar em um cérebro emulado. “Podemos precisar de muito mais trabalho para entender o que é fundamental”, ele disse.

“Eu não acho que tenhamos uma definição operacional de consciência, no sentido de que podemos medi-la diretamente ou criá-la”.

Da mesma forma, Chalmers diz que não entendemos como a consciência surge no cérebro, muito menos em uma máquina. Ao mesmo tempo, porém, ele acredita que não temos nenhuma razão especial para pensar que as máquinas biológicas possam ser conscientes, mas as máquinas de silício não podem. “Quando entendermos como os cérebros podem ser conscientes, poderemos então entender se outras máquinas podem ser conscientes”, disse ele.

Ben Goertzel, cientista-chefe da Hanson Robotics e fundador da OpenCog Foundation, diz que temos teorias e modelos interessantes de como a consciência surge no cérebro, mas nenhuma teoria geral que abarque todos os aspectos importantes. “Ainda está aberto para diferentes pesquisadores apresentarem algumas diferentes opiniões”, disse Goertzel. “Um ponto é que os cientistas às vezes têm opiniões diferentes sobre a filosofia da consciência, mesmo quando concordam com fatos científicos e teorias sobre todas as características observáveis ​​de cérebros e computadores”.

Como podemos detectar a consciência em uma máquina?

Criar consciência em uma máquina é certamente um problema, detectá-la em um robô ou IA é outro. Cientistas como Alan Turing reconheceram este problema décadas atrás, propondo testes verbais para distinguir um computador de uma pessoa real. O problema é que os chatbots suficientemente avançados já estão enganando as pessoas em pensar que são seres humanos, então vamos precisar de algo consideravelmente mais sofisticado.

“Identificar a personalidade na inteligência das máquinas é complicado pela questão dos ‘zumbis filosóficos’”, disse Hughes. “Em outras palavras, pode ser possível criar máquinas que sejam muito boas em imitar a comunicação e o pensamento humanos, mas que não tenham autoconsciência interna ou consciência”.

Recentemente, vimos um bom e muito divertido exemplo desse fenômeno, quando uma dupla de dispositivos do Google Home eram transmitidos pela Internet durante uma longa conversa entre eles. Embora os dois bots tivessem o mesmo nível de autoconsciência de um tijolo, a natureza das conversas, que às vezes ficavam intensas e aquecidas, parecia ser bastante humana. A capacidade de discernir a IA de seres humanos é um problema que só vai piorar com o tempo.

Uma solução possível, diz Hughes, é rastrear não apenas o comportamento de sistemas artificialmente inteligentes, como o teste de Turing, mas também sua real complexidade interna, como foi proposto pela Teoria da Consciência Integrada da Informação de Giulio Tononi. Ele diz que quando medimos a complexidade matemática de um sistema, podemos gerar uma métrica chamada “phi”. Em teoria, essa medida corresponde a vários limiares de senciência e consciência, nos permitindo detectar sua presença e força. Se Tononi estiver certo, poderíamos usar o phi para garantir que algo não só se comporta como um humano, mas é complexo o suficiente para realmente ter uma experiência consciente interna humana. Da mesma forma, a teoria de Tononi implica que alguns sistemas que não se comportam ou pensam como nós, mas ativam nossas medições de phi de todas as formas corretas, podem na verdade estar conscientes.

“Reconhecendo que a bolsa de valores ou uma rede de computação de defesa podem ser tão conscientes quanto os seres humanos podem ser um bom passo nos afastando do antropocentrismo, mesmo que eles não demonstrem dor ou autoconsciência”, disse Hughes. “Mas isso nos levará a um conjunto realmente pós-humano de questões éticas”.

Outra solução possível é identificar os correlatos neurais da consciência em uma máquina. Em outras palavras, reconhecer as partes de uma máquina que são projetadas para produzir consciência. Se uma IA possui essas partes, e se essas partes estão funcionando conforme o esperado, podemos ficar mais confiantes em nossa capacidade de avaliar a consciência.

Quando os robôs irão merecer direitos humanos?

Que direitos devemos dar às máquinas? Quais máquinas recebem quais direitos?

Um dia, um robô irá olhar para um humano na cara e exigirá direitos humanos – mas isso não significa que ele vai merecê-los. Como observado, pode ser simplesmente um zumbi que está agindo em sua programação, e está tentando nos convencer a receber certos privilégios. Teremos que ter muito cuidado com isso para que não concedamos direitos humanos a máquinas inconscientes. Uma vez que descobrimos como medir o “estado cerebral” de uma máquina e avaliar a consciência e a autoconsciência, só então podemos começar a considerar se esse agente é merecedor de certos direitos e proteções.

Felizmente, este momento provavelmente virá em etapas. No início, os desenvolvedores de AI construirão cérebros básicos, emulando vermes, insetos, ratos, coelhos e assim por diante. Essas emulações baseadas em computador viverão como avatares em ambientes de realidade virtual ou como robôs no mundo analógico real. Quando isso acontecer, essas entidades sencientes irão transcender seu status como meros objetos de investigação e se tornarão sujeitos merecedores de consideração moral. Ora, isso não significa que essas simples emulações sejam merecedoras de direitos equivalentes aos humanos; em vez disso, eles serão protegidos de tal maneira que os pesquisadores e desenvolvedores não serão capazes de abusar deles (semelhante às leis em vigor para evitar o abuso de animais em laboratório, por mais frágeis que muitas dessas proteções possam ser).

Eventualmente, as emulações cerebrais humanas baseadas em computador vão existir, seja modelando o cérebro humano até o mais ínfimo detalhe, ou descobrindo como nossos cérebros funcionam a partir de uma perspectiva computacional e algorítmica. Nesse estágio, devemos ser capazes de detectar a consciência em uma máquina. Pelo menos é o que esperamos. É um pesadelo pensar que poderíamos ativar a consciência artificial em uma máquina e não perceber que o fizemos.

A inteligência é bagunçada. O comportamento humano é muitas vezes aleatório, imprevisível, caótico, inconsistente e irracional. Nossos cérebros estão longe de serem perfeitos, e teremos que permitir concessões similares para as IA.

Uma vez que essas capacidades básicas tenham sido provadas em um robô ou IA, nosso possível portador de direitos ainda precisa passar no teste de personalidade. Não há consenso sobre os critérios para uma pessoa, mas as medidas padrão incluem um nível mínimo de inteligência, autocontrole, uma noção do passado e do futuro, preocupação com os outros e a capacidade de controlar a própria existência (ou seja, o livre arbítrio). Nesse último ponto, como MacDonald-Glenn explicou ao Gizmodo: “Se suas escolhas foram predeterminadas para você, então você não pode atribuir valor moral a decisões que não são realmente suas”.

É somente atingindo este nível de sofisticação que uma máquina pode realmente ser candidata aos direitos humanos. Importante, no entanto, um robô ou um IA também precisará de outras proteções. Vários anos atrás, eu propus o seguinte conjunto de direitos para as IAs que passaram pelo limiar da personalidade:
O direito de não ser desligado contra a sua vontade
O direito de ter acesso total e irrestrito ao seu próprio código-fonte
O direito de não ter seu próprio código-fonte manipulado contra a sua vontade
O direito de se auto copiar (ou não)
O direito à privacidade (ou seja, o direito de esconder seus próprios estados mentais internos)

Em alguns casos, uma máquina não irá reivindicar seus direitos, então humanos (ou outros cidadãos não humanos), terão de advogar em seu nome. Da mesma forma, é importante ressaltar que uma IA ou robô não precisa ser intelectualmente ou moralmente perfeita para merecer direitos equivalentes aos humanos. Isso se aplica aos humanos, por isso também deve ser aplicado a algumas mentes da máquina. A inteligência é bagunçada. O comportamento humano é muitas vezes aleatório, imprevisível, caótico, inconsistente e irracional. Nossos cérebros estão longe de serem perfeitos, e teremos que permitir concessões similares para as IA.

Ao mesmo tempo, uma máquina sensível, como qualquer cidadão humano responsável, ainda terá que respeitar as leis estabelecidas pelo Estado e honrar as regras da sociedade. Pelo menos se eles esperam se juntar a nós como seres totalmente autônomos. Em contraste, as crianças e os deficientes intelectuais graves se qualificam para os direitos humanos, mas não os responsabilizamos por suas ações. Dependendo das habilidades de um AI ou robô, ele terá que ser responsável por si mesmo ou, em alguns casos, ser vigiado por um guardião, que terá que suportar o peso da responsabilidade.

E se não o fizermos?

Quando nossas máquinas atingirem um certo limiar de sofisticação, não poderemos mais excluí-las de nossa sociedade, instituições e leis. Não teremos mais bons motivos para negar-lhes os direitos humanos; fazer o contrário seria equivalente à discriminação e à escravidão. Criar uma divisão arbitrária entre seres biológicos e máquinas seria uma expressão do excepcionalismo humano e do chauvinismo – posições ideológicas que afirmam que os seres humanos biológicos são especiais e que apenas as mentes biológicas são importantes.

“Ao considerar se queremos ou não expandir a pessoalidade moral e legal, uma questão importante é ‘que tipo de pessoas queremos ser?’ “, colocou MacDonald-Glenn. “Nós enfatizamos a Regra de Ouro ou enfatizamos ‘quem possui as regras do ouro?’ ”.

Além disso, conceder direitos para as IA criaria um importante precedente. Se respeitarmos as AIs como iguais sociais, seria um longo caminho para assegurar a coesão social e manter um senso de justiça. O fracasso aqui pode resultar em tumulto social e até mesmo uma reação das IA contra os humanos. Dado o potencial da inteligência das máquinas para superar as habilidades humanas, isso seria uma receita para o desastre.

É importante ressaltar que respeitar os direitos dos robôs também poderia servir para proteger outros tipos de pessoas emergentes, como ciborgues, seres humanos transgênicos com DNA estrangeiro e seres humanos que tiveram seus cérebros copiados, digitalizados e carregados em supercomputadores.

Vai demorar um pouco até que desenvolvamos uma máquina que mereça direitos humanos, mas dado o que está em jogo – tanto para robôs artificialmente inteligentes quanto para os humanos – nunca é cedo demais para começar a planejar com antecedência.

https://gizmodo.uol.com.br/quando-os-robos-irao-merecer-direitos-humanos/

Astrônomos encontram o que pode ser uma das estrelas mais antigas do Universo

Uma pequena estrela localizada a cerca de 1.590 anos-luz da Terra pode ter até 13,53 bilhões de anos, o que faria dela uma das estrelas mais antigas já descobertas.

Astrônomos encontram o que pode ser uma das estrelas mais antigas do Universo

A pequena estrela “ultrapobre em metais” se chama 2MASS J18082002–5104378 B — aqui abreviada para J1808-5104 — e foi descoberta por uma equipe de astrônomos liderada por Kevin C. Schlaufman, da Universidade Johns Hopkins. Estimada em 13,53 bilhões de anos de idade, ela está entre a primeira geração de estrelas a terem aparecido depois do Big Bang, que aconteceu 13,7 bilhões de anos atrás. Não apenas ela é uma das estrelas mais antigas da Via Láctea como também pode estar entre as estrelas mais antigas de todo o Universo. Os detalhes dessa descoberta devem ser publicados em uma edição futura do periódico Astrophysical Journal, mas uma versão de pré-impressão foi publicada no arXiv.

“Esta estrela talvez seja uma em dez milhões”, disse Schlaufman em um comunicado. “Ela nos diz algo muito importante sobre as primeiras gerações de estrelas.”

De fato, a descoberta está desafiando noções preconcebidas de como eram as estrelas mais antigas e de onde elas estão localizadas.

A primeira geração de estrelas a aparecer depois do Big Bang era composta exclusivamente por elementos como hidrogênio, hélio e vestígios de lítio. Quando essas estrelas primordiais explodiram como supernovas, elas salpicaram o cosmos com elementos mais pesados, que foram incorporados na geração seguinte de estrelas. Portanto, o teor de metal, ou metalicidade, das estrelas aumentou à medida que o ciclo de morte e nascimento continuou ao longo das eras.

Até hoje, astrônomos já detectaram cerca de 30 estrelas antigas pobres em metais, que tendem a ser tão massivas quanto o Sol. Mas a J1808-5104 tem apenas 14% da massa do Sol, o que leva Schlaufman e seus colegas a especular que se trata de uma anã vermelha.

A estrela recém-descoberta, que os astrônomos analisaram com os telescópios Magalhães, o Observatório Las Campanas e o Observatório Gemini, é excepcionalmente pobre em metais. E, de fato, ela tem a menor quantidade de elementos pesados já observados em uma estrela, em torno do mesmo teor de elementos pesados que o planeta Mercúrio. A quantidade de elementos pesados na J1808-5104 é tão baixa que os pesquisadores dizem que ela pode estar a apenas uma geração do Big Bang. Antes da nova descoberta, a estrela de Caffau era considerada a mais pobre em metais — uma estrela apenas um pouco menor que o nosso sol.

Astrônomos encontram o que pode ser uma das estrelas mais antigas do Universo

A nova estrela tem apenas 14% da massa do Sol, contendo o menor complemento de elementos pesados entre qualquer estrela conhecida. Imagem: Kevin Schlaufman/JHU

Estrelas do tamanho do Sol vivem por cerca de dez bilhões de anos, mas estrelas com massas baixas como essa, em teoria, poderiam queimar por trilhões de anos.

“Estrelas diminutas como essas tendem a brilhar por muito tempo”, disse Schlaufman. “Essa estrela envelheceu bem. Tem a mesma aparência hoje que tinha quando se formou, 13,5 bilhões de anos atrás.”

A localização desta estrela na Via Láctea também é estranha; a J1808-5104 faz parte do “disco fino” da galáxia, que é onde o Sol também está localizado. Estrelas antigas e pobres em metais não deveriam estar localizadas ali, uma área ativa e lotada que contém estrelas muito mais jovens. A descoberta sugere que o disco fino da Via Láctea seja cerca de três bilhões de anos mais velho do que se pensava anteriormente.

A J1808-5104 é o membro menor de um sistema de duas estrelas. Medindo a “oscilação” da estrela maior, que é causada pela influência gravitacional da estrela menor, os astrônomos foram capazes de inferir a massa da J1808-5104. Foi usada espectroscopia óptica de alta resolução para identificar elementos como carbono, oxigênio, ferro e outros.

Embora fascinantes, essas descobertas são estranhas e inesperadas. Portanto, a pesquisa precisará ser replicada por outros astrônomos para garantir que Schlaufman e sua equipe não cometeram algum tipo de erro. Além disso, a descoberta da J1808-5104 sugere a presença de estrelas ainda mais antigas na Via Láctea. Conforme mais estrelas antigas são descobertas, podemos aprender ainda mais sobre o Universo durante seu período inicial.

[The Astrophysical Journal]

https://gizmodo.uol.com.br/astronomos-encontram-estrela-antiga-universo/

Por que este psicólogo americano diz que o jornalismo está sendo destruído pela internet

“O jornalismo está sendo destruído pela internet, e isso nos leva a um futuro incerto e muito perigoso.” Esta é a visão do psicólogo Robert Epstein, doutor pela Universidade de Harvard que se dedica a estudar a atuação nas redes sociais das gigantes de tecnologia e defende uma interferência direta nessas empresas.

Por que este psicólogo americano diz que o jornalismo está sendo destruído pela internet

Por que este psicólogo americano diz que o jornalismo está sendo destruído pela internet

Segundo ele, as pessoas não têm mais como discernir o verdadeiro do falso, porque “a informação vem de todos os lados, sem os filtros, que eram os processos de apuração do jornalismo”. “Um impacto como esse (das redes sociais) jamais existiu na história humana.”

Em entrevista à BBC News Brasil, o atual diretor do Cambridge Center for Behavioral Studies, dos EUA, defendeu que haja uma intervenção direta nas empresas que controlam as redes sociais, para que a disseminação de notícias falsas – as chamadas “fake news” – não interfiram em processos eleitorais.

Em 2015, Epstein publicou um polêmico artigo classificando os sites de busca na internet, e o Google em especial, como uma séria ameaça aos sistemas democráticos de governo.

Ele acusava a empresa de ter difundido notícias favoráveis à candidata democrata Hillary Clinton no começo da campanha para as eleições presidenciais americanas em 2016. Hillary acabou derrotada pelo atual presidente, Donald Trump.

O então diretor de pesquisa do Google, Amit Singhal, rejeitou as alegações e disse que a empresa “nunca interferiu na ordenação de resultados de buscas feitas sobre temas políticos ou algum outro assunto, com o objetivo de manipular a opinião de seus usuários.”

Epstein insiste, porém, que o setor de tecnologia precisa de mais monitoramento, sem o qual a atuação dessas corporações gigantescas pode ser extremamente nociva à democracia.

Para ele, “ninguém, nenhuma empresa, nenhuma entidade deve ter tanto poder concentrado, e ficar imune ao monitoramento.”

Acho que estamos indo numa direção muito perigosa', adverte Epstein

Acho que estamos indo numa direção muito perigosa’, adverte Epstein

A premissa de Epstein é que empresas como Google, Facebook e WhatsApp são “forças do caos”, que não prestam contas de suas metas e processos a ninguém. “Elas são as forças mais poderosas do mundo atual e, com elas, todas as redes sociais.”

Epstein acredita que, atualmente, uma das maneiras mais eficazes de exercer influência política, por exemplo, é “doar dinheiro a um candidato para que ele use a tecnologia para garantir sua vitória nas urnas.”

Ele disse não ter se surpreendido com a proliferação de mensagens falsas durante a campanha eleitoral no Brasil, que para muitos foi um dos fatores determinantes do resultado das eleições, apesar de pesquisa do Ibope ter indicado que a influência das redes sociais não foi tão grande quanto imaginado.

“Hoje cria opiniões quem gritar mais alto e falar aos medos de segmentos e ideias pré-concebidas do público. Sem controle, sem processos, sem prestar contas a ninguém. Isso é um futuro bom? De jeito nenhum. Acho que estamos indo numa direção muito perigosa.”

Há seis anos, Epstein se dedica a estudar a operação do Facebook e principalmente a do Google, a maior plataforma de busca do mundo.

“Já existia um bom volume de textos científicos sobre como os resultados de buscas na internet influenciavam as escolhas e compras dos usuários. Especificamente, a ordem em que as respostas às buscas eram apresentadas acabava por determinar a decisão final do usuário.”

Fascinado pela quantidade de informação disponível, Epstein reuniu num pequeno grupo alunos e amigos, e com eles começou a fazer testes.

Em vez de “compras”, Epstein propôs testar a influência da ordem de apresentação dos resultados de buscas em questões políticas durante a campanha eleitoral.

Baseado em pesquisas semelhantes, Epstein esperava um impacto entre 2% e 4%.

“No primeiro teste, a ordem de apresentação de resultado da busca alterou em 48% a intenção de voto”, ele diz.

“No segundo teste, a alteração foi de 63%.”

“Fiquei horrorizado”, ele diz.

“Algo aparentemente tão simples tinha um impacto tão vasto, tão profundo, era capaz de mudar as opiniões das pessoas sobre os candidatos numa escala enorme.”

Em 2014, Epstein levou seu laboratório de pesquisa para a Índia. Ele queria repetir os testes na eleição que elegeu o novo parlamento da “maior democracia do mundo”, com 815 milhões de eleitores.

“Os resultados foram idênticos aos dos Estados Unidos”, Epstein diz. “Os eleitores indianos foram igualmente afetados pelo modo e ordem em que os candidatos eram apresentados em buscas.”

“Estas são questões muito sérias”, Epstein continua, “quem controla essas empresas? Como funcionam internamente? A quem eles respondem? O impacto de empresas como essas jamais existiu na história humana.”

“Vivemos numa era de profundas transformações e de poderes que jamais acreditamos ser capazes de influenciar o modo que pensamos e que agimos”, acrescenta ele.

“E o pior ainda vem por aí”, ele diz – os “realfakes” ou “deepfakes”, aplicativos capazes de criar fotos e vídeos colocando uma pessoa em qualquer cenário ou situação, fazendo e dizendo algo que nunca teria feito ou dito na vida real.

“Vamos começar a ver esse tipo de fakes muito em breve sendo usado em larga escala”, ele alerta.

“A manipulação dos resultados de busca pela alteração do algoritmo e pela criação de “eventos efêmeros, a capacidade de plataformas de eliminar contas sumariamente e divulgar, através de conteúdo fornecido por terceiros, informações falsas – como se viu recentemente no Brasil, com o WhatsApp -, acontecem porque nossas instituições ainda estão vivendo num mundo onde nada disso existe”, diz Epstein.

O pesquisador está, neste momento, desenvolvendo um sistema de monitoramento de plataformas online que, segundo ele, pode ser a única saída para conter a disseminação de informação manipulada.

“A única solução viável que vejo são sistemas de monitoramento capazes de captar imediatamente distorções e conteúdo falso, e fornecer provas de ambos”, diz Epstein.

“Provas substanciais, capazes de apoiar um processo legal, um litígio e outras medidas legais.”

A meta a longo prazo, ele diz, é “tornar plataformas online mais responsáveis e dar mais apoio ao jornalismo, restaurando sua capacidade de disseminar informação.”

Mas, ele acrescenta, “um sistema desses é caro. É preciso investimento para isso. Mas, para enfrentar a tecnologia, só mais tecnologia”.