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Trump está em guerra com o Ocidente?

Apenas um dia depois de seus comentários impressionantes em Helsinque, o presidente Trump tentou recuar. Na capital finlandesa, ao lado do presidente russo, Vladimir Putin, durante uma coletiva de imprensa, ele duvidou das conclusões das agências de inteligência norte-americanas de que a Rússia interferiu na eleição de 2016. De volta à Casa Branca na terça-feira, entretanto, Trump argumentou que ele havia simplesmente tinha se expressado mal; ele leu uma declaração dizendo que, de fato, aceitou que Moscou tentasse influenciar a votação. Pelo menos por um momento.

Os governos Putin e Trump podem estar em desacordo, mas os próprios dois homens, argumentou o jornalista Leonid Ragozin, estão “do mesmo lado da divisão”. Eles representam “a mesma linhagem de uma cultura global em ascensão: a dos tabloides viciosamente xenófobos”, TV de infoentretenimento politicamente tendenciosa, showbiz brega, populismo irresponsável, nativismo raivoso e cleptocracia oligárquica”, escreveu ele para o BuzzFeed News.

Os governos Putin e Trump podem estar em desacordo, mas os próprios dois homens, argumentou o jornalista Leonid Ragozin, estão “do mesmo lado da divisão”. Eles representam “a mesma linhagem de uma cultura global em ascensão: a dos tabloides viciosamente xenófobos”, TV de infoentretenimento politicamente tendenciosa, showbiz brega, populismo irresponsável, nativismo raivoso e cleptocracia oligárquica”, escreveu ele para o BuzzFeed News.

“Poderia ser outras pessoas também”, acrescentou ele na frase seguinte. “Muitas pessoas lá fora.”

Poucos em Washington foram convencidos pela reviravolta de Trump. Desde que assumiu o cargo, Trump repetidamente questionou as investigações de seu próprio governo sobre a interferência do Kremlin e descartou o crescente corpo de evidências que ligam essa invasão à sua vitória eleitoral – incluindo um comentário do próprio Putin na segunda-feira. Desde as observações em Helsinque, além disso, ele havia sido entrevistado pela Fox News e não fez menção a mal-entendidos. Mesmo sua tentativa de esclarecimento na terça-feira aparentemente foi auto-editada em algo mais desafiador.

Trump também não disse nada na segunda-feira sobre a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 ou o seu papel em reforçar os excessos violentos do regime sírio. Essa timidez estava em contraste com sua crítica aos aliados da OTAN em Bruxelas na semana passada. Para muitos críticos de Trump, suas atuações nas duas cidades encerraram um ano e meio de ataques tácitos e evidentes à aliança transatlântica.

O comportamento de Trump foi “de um homem que quer que a aliança fracasse”, escreveu o colunista do New York Times, David Brooks. “Sua aceitação de Putin na segunda-feira foi uma dança da vitória no túmulo euro-americano”.

“O presidente russo recebeu efetivamente um passe livre de um presidente dos EUA para continuar sua guerra híbrida contra o Ocidente”, escreveu Guy Verhofstadt, um ex-primeiro-ministro belga. Ele pediu aos liberais europeus que se unam contra o Trumpismo e seus representantes, apontando para os esforços de um ex-assessor de Trump para impulsionar os populistas de extrema direita no continente. “A batalha agora está em curso para derrotar o sonho doentio de Steve Bannon de uma revolução populista de direita na Europa e um recuo para o nacionalismo assassino do passado da Europa”, escreveu ele.

Vale a pena perguntar, mesmo agora, quem Trump vê como seu inimigo. Sua campanha política foi redigida na retórica nativista contra o “globalismo”, um eufemismo para um mundo de liberais multiculturais e elites empresariais e políticas que ele alegou não ter em mente os interesses dos Estados Unidos. Desde que assumiu o poder, ele concentrou esses ataques em instituições reais – o Partido Democrata e funcionários públicos que ele chama de “o Estado profundo” em casa, e blocos multilaterais como a OTAN e a União Europeia no exterior.

Mais amplamente, ele demonstrou uma apatia consistente pela ordem mundial construída pelos EUA que garantiu a supremacia dos americanos por décadas. “No mundo pós-guerra, a política dos EUA tinha quatro características atraentes: tinha valores centrais atraentes; era leal aos aliados que compartilhavam esses valores; acreditava em mercados abertos e competitivos; e sustentou esses mercados com regras institucionalizadas”, escreveu Martin Wolf, do Financial Times. “Esse sistema sempre foi incompleto e imperfeito. Mas foi uma abordagem altamente original e atraente para o negócio de comandar o mundo”.

Wolf sugere que Trump está inclinado a rejeitar esse sistema, que muitas vezes é o que estamos invocando quando nos referimos agora ao “Ocidente”: “Para aqueles que acreditam que a humanidade deve transcender suas pequenas diferenças, esses princípios foram um começo. No entanto, hoje o presidente dos EUA parece hostil aos valores centrais da democracia, da liberdade e do estado de direito; ele não sente lealdade aos aliados; ele rejeita mercados abertos; e ele despreza as instituições internacionais. E ele acredita que isso pode dar certo.

“Trump pode ter diminuído a liderança dos EUA no mundo”, disse o analista russo Maxim Suchkov ao Today’s WorldView em Moscou na semana passada, “mas ele ainda quer dominação”.

Essa visão de mundo leva muitos analistas a sugerir que Trump tem mais em comum com autocratas como Putin do que com os líderes eleitos das principais democracias da Europa. Para os críticos da hegemonia americana, que há muito argumentam que seus valores declarados têm pouco a ver com suas ações geopolíticas, Trump confirmou suas crenças.

“Isso reduz os EUA de serem o líder do mundo livre a ser apenas mais uma grande potência”, disse Daniel Fried, ex-diplomata e companheiro do Conselho Atlântico, aos meus colegas David Nakamura e Carol Morello. Ele “desfaz 100 anos da grande estratégia da América”, acrescentou, “o que funcionou bem para nós. Ganhou a Guerra Fria porque as pessoas por trás da Cortina de Ferro foram inspiradas por nossas ideias e ideais.”

Em vez disso, Trump defende outra visão. Como já escrevemos antes, a concepção de Trump do Ocidente é cultural, não política. Está ancorada na retórica do sangue e do solo e na raiva contra a imigração. Na semana passada, ele argumentou em Bruxelas que as novas chegadas de migrantes são “muito ruins para a Europa” porque estão “mudando a cultura”.

Trump está em guerra com o Ocidente?

Os governos Putin e Trump podem estar em desacordo, mas os próprios dois homens, argumentou o jornalista Leonid Ragozin, estão “do mesmo lado da divisão”. Eles representam “a mesma linhagem de uma cultura global em ascensão: a dos tabloides viciosamente xenófobos”, TV de infoentretenimento politicamente tendenciosa, showbiz brega, populismo irresponsável, nativismo raivoso e cleptocracia oligárquica”, escreveu ele para o BuzzFeed News.

Uma multidão de políticos europeus tradicionais discordaria, assim como a maioria de suas populações. Uma nova pesquisa do Pew com oito países da Europa Ocidental, publicada este mês, descobriu que 66% dos entrevistados acreditam que os imigrantes fortalecem suas sociedades.

Mas Trump vê essa abertura – e a perspectiva de uma Europa mais integrada e diversificada – como uma fraqueza. Aqui, novamente, ele se torna um espírito afim com Putin, outro estranho de pé, cético, à porta do liberal Ocidente. “Até 2014, a Rússia costumava se ver como o ponto mais oriental do mundo ocidental”, disse Dmitri Trenin, diretor do Centro Carnegie de Moscou, ao Wall Street Journal. “Desde então, houve uma mudança fundamental e a Rússia se voltou para dentro. A elite russa e seu líder, Putin, chegaram à conclusão de que tentar se tornar parte do Ocidente não levará aos resultados desejados.”

Isso envolve uma tentativa de virar para o leste e cultivar laços mais profundos com a Ásia. Mas também viu o Kremlin construir ligações com os mesmos populistas europeus de extrema-direita que Trump celebrou. Matteo Salvini, ministro do Interior da Itália e líder da extrema direita, está pressionando pelo fim da UE e das sanções à Rússia. Putin, enquanto isso, cultivou uma imagem global como líder nacionalista cristão proeminente e é aplaudido pelos supremacistas brancos nos Estados Unidos.

Os governos Putin e Trump podem estar em desacordo, mas os próprios dois homens, argumentou o jornalista Leonid Ragozin, estão “do mesmo lado da divisão”. Eles representam “a mesma linhagem de uma cultura global em ascensão: a dos tabloides viciosamente xenófobos”, TV de infoentretenimento politicamente tendenciosa, showbiz brega, populismo irresponsável, nativismo raivoso e cleptocracia oligárquica”, escreveu ele para o BuzzFeed News.

E seus adversários desorientados, agora liderados por uma Europa oprimida, estão lutando para lidar com a situação.

FONTE: Washington Post

Tiquetaque, tique… o Relógio do Apocalipse está meio minuto mais perto do fim

É um momento histórico, que não acontecia desde 1953, quando ficou a dois minutos do fim de tudo. O “relógio” acertado por um grupo de cientistas de renome está apenas a dois minutos e meio da meia-noite.

Pode dizer-se que o resultado não foi surpreendente: o Relógio do Apocalipse está a dois minutos e meio da meia-noite. Já se esperava que o “relógio”, acertado por especialistas da revista Bulletin of the Atomic Scientists, se adiantasse relativamente a 2015 e 2016, anos em que marcou as 23h57. Quais os motivos para este avanço? Os mais citados na conferência de imprensa desta quinta-feira foram Donald Trump, as alterações climáticas, a cibertecnologia e as armas nucleares.

Donald Trump foi um dos motivos mais citados para o avanço dos ponteiros

Donald Trump foi um dos motivos mais citados para o avanço dos ponteiros

Como uma grande metáfora dos cientistas atómicos, o Relógio do Apocalipse voltou a deslocar os ponteiros em direcção ao fim. O anúncio foi às 15 horas de Lisboa, via streaming da cidade de Washington: pela primeira vez na história do Relógio do Apocalipse são adiantados uns “icónicos” 30 segundos. “Ao longo de 2016, o cenário de segurança global tornou-me mais negro, pois a comunidade internacional falhou as medidas às ameaças, às armas nucleares e às alterações climáticas…”, refere um comunicado do painel de especialistas que decidiu a nova hora deste relógio.

Os ponteiros deste relógio são movimentados por um painel composto por 14 cientistas – especialistas em energia nuclear, desarmamento, armas ou alterações climáticas – e que é liderado por Lynn Eden, Investigadora no Centro para Cooperação e Segurança Internacional, da Universidade de Stanford, EUA. Esta apreciação é feita também por um painel de cientistas que inclui Freeman Dyson, Brian Greene, Stephen Hawking ou Martin Rees. Entre eles, há 15 cientistas laureados com o Prémio Nobel, como Steven Weinberg, Nobel da Física de 1979. Todos calculam se a humanidade estava mais próxima ou mais longe de se autodestruir.

“Para marcar o 70.º aniversário do Relógio do Apocalipse, a deliberação deste ano é muito mais urgente do que o normal”, começou por dizer Rachel Bronson, directora executiva do boletim. E referiu que os perigos das armas nucleares, a eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos e as alterações climáticas foram largamente tidos em conta.

Depois do anúncio, Lawrence Krauss, professor de física na Universidade do Arizona (EUA), salientou a “importância histórica do dia de hoje”, uma vez que desde 1953 que o relógio não se aproximava tanto do “apocalipse”. “Em 2016, os líderes mundiais não só falharam na negociação adequada dos perigos, como o risco de uma guerra nuclear aumentou actualmente.”

“Os Estados Unidos e a Rússia – que possuem mais de 90% das armas nucleares no mundo – estão numa quantidade ímpar de teatros de guerra, como na Síria, na Ucrânia e nas fronteiras da NATO. Ambos continuam a modernizar em grande quantidade as suas armas nucleares e a controlar fortemente o armamento.”

Além destes dois países, também a Coreia do Norte foi referida, devido aos testes nucleares que tem vindo a fazer. As ameaças nucleares apontadas pelos cientistas também se estendem a países como a Índia e o Paquistão.

Trump e Putin “como crianças petulantes”

Lawrence Krauss também salientou a importância da cibertecnologia, a propósito da falta de segurança na Internet e do perigo das notícias falsas. Já David Titley, da Universidade da Pensilvânia (EUA), centrou o seu discurso nas alterações climáticas, a propósito da subida do nível do mar e do aumento da temperatura na Antárctida.

“Garantir no futuro que a temperatura não sobe para níveis catastróficos requer uma redução das emissões dos gases com efeito de estufa além dos acordados em Paris [em 2015], ainda que conferência do clima em Marraquexe tenha havido pequenas cortes”, lê-se no comunicado. Lawrence Krauss deixou ainda uma mensagem: “A Administração de Trump precisa clara e inequivocamente de aceitar as alterações climáticas, causadas pela actividade humana, como uma realidade.”

A chamada de atenção a Donald Trump foi geral: “A situação no mundo tem sido ameaçadora devido ao cenário dos nacionalismos em crescimento em 2016, incluindo a campanha presidencial nos Estados Unidos, e depois com a vitória de Donald Trump, que fez comentários perturbadores sobre o uso e a proliferação das armas nucleares e de afirmações de descrença sobre o impressionante consenso científico relativo às alterações climáticas”, refere ainda o comunicado.

O alerta mais efusivo veio de Lawrence Krauss, que se dirigiu não apenas a Donald Trump, mas também a Putin. “O Presidente Trump e o Presidente Putin podem escolher agir em conjunto como políticos ou como crianças petulantes, e desta forma arriscam o nosso futuro.” Dirigindo-se a todos nós, disse ainda: “Pedimos a todas as pessoas que se manifestem e enviem uma mensagem aos nossos líderes, que estão a ameaçar desnecessariamente o nosso futuro e o futuro das nossas crianças.”

Já se esperava este resultado. Também houve uma votação aberta a todos no site do Bulletin of the Atomic Scientists. Nessa votação, 78% dos votantes apostava que os ponteiros do relógio se deslocariam para menos de três minutos, 11% que se movimentariam para mais de três minutos e 10% que ficariam nos três minutos.

Um “relógio” que funciona desde 1947

Foi em 2015 que o Relógio do Apocalipse se deslocou dos cinco minutos, marcados em 2012, para os três minutos do fim. “Alterações climáticas sem controlo, a modernização global das armas nucleares e arsenais grandes de mais representam ameaças extraordinárias e inegáveis à existência continuada da humanidade, e os líderes mundiais não têm agido com a velocidade ou na escala que se exigia para proteger os cidadãos da catástrofe potencial”, comentou na altura o painel de cientistas.

Em 2015, Rachel Bronson dizia ao PÚBLICO que estava muito satisfeita com a atenção que tiveram nesse ano, pois 400 mil pessoas assistiram via streaming ao acerto dos ponteiros nesse ano.

No ano passado, os três minutos mantiveram-se e os cientistas foram bem claros: “Esta decisão não é uma boa notícia, mas sim um sinal de desalento para com os líderes mundiais, que continuam a falhar o ênfase das suas decisões, assim como na reduzida atenção do mundo para com perigo extremo que representa ser dominado pelas armas nucleares e as mudanças climáticas.”

Em 1953, os ponteiros também marcaram dois minutos para a meia-noite. O clima era o da Guerra Fria e os Estados Unidos e a União Soviética faziam os primeiros testes termonucleares. Nos anos seguintes, os ponteiros foram variando de posição. Em 1991, chegaram a estar a 17 minutos da meia-noite. Nesse ano, o Muro de Berlim desmoronava-se e, com isso, adivinhava-se o fim da Guerra Fria. Além disso, os Estados Unidos e a União Soviética assinavam o Tratado para a Redução de Armas Estratégicas, o primeiro acordo bilateral para redução das armas nucleares.

O Relógio do Apocalipse foi criado em 1947 e foi incluído na capa da revista Bulletin of the Atomic Scientists, para alertar para os perigos nucleares. Estava a sete minutos da meia-noite. Afinal, só tinham passado dois anos desde o lançamento das bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui, no Japão. Desde então, já se acertou 23 vezes. A primeira vez em que isso aconteceu foi em 1949, ficando a três minutos da meia-noite. Naquele o ano, o Presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, anunciou que os soviéticos estavam a fazer os primeiros testes nucleares.

E a revista Bulletin of the Atomic Scientists surgiu em 1945, criada por cientistas do Projecto Manhattan, dirigido por Robert Oppenheimer para fazer as primeiras bombas atómicas, durante a Segunda Guerra Mundial, e que não queria ficar indiferentes às consequências do uso da energia nuclear. No passado, o painel de cientistas do Bulletin of the Atomic Scientists já contou, além de Robert Oppenheimer, com nomes de peso como Albert Einstein, Leo Szilard, Edward Teller, Robert Wilson, Harold Urey ou Arthur C. Clarke.

Envolvido em corrupção, Congresso brasileiro é circo que tem até seu próprio palhaço

Um dos espetáculos há mais tempo em exibição no Brasil conta com um número desconcertante de personagens cuja teatralidade aparece em milhões de televisores quase toda noite.

Envolvido em corrupção, Congresso brasileiro é circo que tem até seu próprio palhaço

Mais da metade dos membros do Congresso enfrenta processos na Justiça, de casos envolvendo auditoria de contratos públicos até crimes sérios como sequestro ou homicídio, segundo o Transparência Brasil, um grupo que monitora a corrupção.

O elenco em constante mudança de 594 integrantes e inclui suspeitos de homicídio e tráfico de drogas, ex-jogadores de futebol, um campeão de judô, um astro sertanejo e uma coleção de homens barbados que adotaram papéis como líderes do movimento das mulheres.

O elenco até mesmo inclui um palhaço cujo nome significa “Zangado”.

Mas eles não são atores. Eles são os homens e mulheres que servem no Congresso nacional.

A democracia pode causar perplexidade e confusão, mas no mundo há pouco que se iguala ao Congresso brasileiro.

Enquanto a nação enfrenta sua pior crise política em uma geração, os legisladores que orquestraram a remoção da presidente Dilma Rousseff (que foi suspensa na quinta-feira e enfrenta um processo de impeachment sob acusação de manipulação do orçamento) estão sob novo escrutínio.

Mais da metade dos membros do Congresso enfrenta processos na Justiça, de casos envolvendo auditoria de contratos públicos até crimes sérios como sequestro ou homicídio, segundo o Transparência Brasil, um grupo que monitora a corrupção.

As figuras sob investigação incluem o presidente do Senado e o novo presidente da Câmara. Neste mês, o presidente anterior da Câmara, um comentarista de rádio evangélica que gosta de postar versos bíblicos no Twitter, foi afastado para ser julgado pela acusação de esconder até US$ 40 milhões em propinas em contas bancárias na Suíça.

Muitos dos problemas do Legislativo derivam das generosas recompensas proporcionadas pelo sistema partidário brasileiro de múltiplas cabeças como de uma hidra, uma coleção desajeitada de dezenas de partidos políticos cujos nomes e agendas com frequência deixam os brasileiros coçando suas cabeças.

Há o Partido da Mulher Brasileira, por exemplo, um grupo cujos membros eleitos no Congresso são todos homens.

“O processo eleitoral permite muitas distorções”, disse Suêd Haidar, a fundadora e presidente do partido. Ela suspirou, reconhecendo que muitos dos homens que ingressam têm pouco interesse em promover os direitos da mulher.

Um dos que se juntaram ao partido, o senador Hélio José da Silva Lima, foi acusado de abusar sexualmente de uma sobrinha menor de idade no ano passado, apesar das acusações terem sido posteriormente retiradas. “O que seria de nós, homens, se não fosse uma mulher ao nosso lado para nos trazer alegria e prazer?” ele foi citado como tendo dito à imprensa brasileira, quando perguntado sobre sua decisão de ingressar no partido das mulheres.

A mesma fúria pública com a corrupção endêmica e má gestão governamental que ajudou a retirar Dilma Rousseff do poder há muito é direcionado à cabala de políticos, a maioria homens brancos, cuja inclinação por acordos escusos e enriquecimento próprio já faz parte do folclore brasileiro.

“A reputação da classe política no Brasil realmente não tem como piorar”, disse Timothy J. Power, um professor de estudos brasileiros da Universidade de Oxford.

“As pessoas comparam o Legislativo à ‘House of Cards'”, ele disse, referindo-se à série política da Netflix, “mas eu discordo. ‘House of Cards’ é, na verdade, muito mais crível”.

Com 28 partidos ocupando cadeiras, o Congresso brasileiro é o mais dividido do mundo, segundo Power. O que fica em segundo lugar, o da Indonésia, tem um terço a menos de partidos.

“O Brasil não é atípico, é uma aberração”, disse Gregory Michener, diretor do programa de transparência pública da Fundação Getúlio Vargas, uma universidade no Rio de Janeiro.

Pesquisas mostram que mais de 70% dos brasileiros não conseguem se recordar a qual partido os candidatos que elegeram pertencem, e que dois terços do eleitorado não têm preferência por qualquer partido.

Mais importante, dizem os especialistas, é que a maioria dos partidos não abraça nenhuma ideologia ou agenda, e são simplesmente veículos para clientelismo e propina. Em um mandato típico de quatro anos, um entre três legisladores federais trocará de partido, alguns mais de uma vez, segundo um levantamento por Marcus André Melo, um cientista político da Universidade Federal de Pernambuco.

Os legisladores brasileiros estão entre aqueles com remuneração mais alta do mundo, dizem estudiosos, com quantias que vão além do salário mensal. Eles também recebem moradia e atendimento de saúde gratuitos, verbas para um grande número de funcionários de gabinete e foro privilegiado em caso de processos. Apenas o sobrecarregado Supremo Tribunal Federal pode julgá-los em processos criminais, algo que pode levar anos.

“A única coisa melhor do que ser um partido político no Brasil é ser uma igreja”, disse Heni Ozi Cukier, um cientista política da Escola Superior de Propaganda e Marketing, em São Paulo. “São oportunistas à procura de algo que lhes dê poder, influência e proteção.”

Formar um partido requer a coleta de 500 mil assinaturas. Cukier disse que 62 partidos estão à procura de reconhecimento oficial, inclusive um que leva o nome de um time de futebol.

Apesar do presidente do Brasil liderar um dos maiores países do mundo, ele ou ela deve formar coalizões com até uma dúzia de partidos para conseguir que legislações sejam aprovadas no Congresso. O preço da lealdade com frequência é uma cadeira de ministro, ou três, dependendo de quantos votos o partido puder oferecer.

Em alguns casos, a cooperação envolve a troca ilícita de dinheiro. Em 2005, um escândalo conhecido como mensalão revelou o quanto esses arranjos eram comuns. Para obter votos no Congresso, o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o mentor de Dilma Rousseff e porta-bandeira do Partido dos Trabalhadores, pagava aos legisladores obedientes um valor mensal equivalente a US$ 12 mil.

O mais recente escândalo de corrupção, conhecido como Operação Lava Jato, provou ser ainda maior, com bilhões de dólares em propinas destinados a partidos políticos pela companhia estatal de petróleo, a Petrobras. Mais de 200 pessoas, de magnatas empresariais a líderes partidários, foram implicados no escândalo, e a expectativa é de que o número deles crescerá.

O furor público com o esquema teve papel chave na remoção de Dilma Rousseff, que foi diretora da Petrobras quando o arranjo de propina foi armado, apesar de ela não ter sido acusada diretamente de qualquer crime. Em seu julgamento de impeachment, ela é acusada de uma manipulação orçamentária, em um esforço para esconder os problemas econômicos do Brasil e vencer a reeleição em 2014, não de roubar para enriquecer a si mesma.

A necessidade de formação de alianças de conveniência no Congresso pode levar ao caos legislativo, especialmente quando partidos descontentes abandonam a coalizão do presidente. Dilma Rousseff, que antes contava com ampla maioria na Câmara, acabou abatida pelo agora deposto presidente da Câmara, Eduardo Cunha, um ex-aliado que enfrenta julgamento por corrupção.

O partido de Cunha, o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), se tornou uma fonte particular de ultraje no Brasil. Os críticos dizem que o partido, fundado há cinco décadas como partido de oposição, mas tolerado pela ditadura militar do Brasil, se tornou um vasto canal de clientelismo para seus membros, que abraçam um amplo espectro de ideologias.

O trunfo do partido é seu tamanho, o que significa que os presidentes precisam entrar em acordo com ele, o que envolve a concessão de cargos ministeriais cobiçados. Dilma Rousseff escolheu Michel Temer do PMDB para ser seu vice-presidente. Neste ano, ele se voltou contra ela e retirou seu partido da coalizão, abrindo caminho para o processo de impeachment de Dilma. Temer, que já foi condenado por violar os limites de financiamento de campanha, agora é o presidente do país.

A reforma política pode ser difícil, já que os legisladores teriam que aprovar o fim do sistema que os protege. Ocorreram algumas mudanças, incluindo uma lei recente que impede que candidatos cassados ou com condenação concorram a qualquer cargo eletivo por até oito anos, e uma lei de financiamento de campanha, que deverá entrar em vigor neste ano, que limita a influência de dinheiro de empresas.

O grande número de partidos no Brasil tende a favorecer celebridades, cujo reconhecimento do nome ajuda a fazer com que se destaquem nas campanhas eleitorais. O exemplo mais curioso é o do palhaço Tiririca.

Em 2010, ele concorreu à Câmara dos Deputados com o slogan “Pior que tá não fica”, e sua literatura de campanha incluía “Você sabe o que faz um deputado federal? Eu também não. Vote em mim que eu te conto”.

Ele acabou obtendo mais de 1,3 milhão de votos, quase o dobro do segundo candidato mais votado.

Em uma entrevista, Tiririca, cujo nome real é Francisco Everardo Oliveira Silva, apesar de deputado Tiririca ser o nome no site da Câmara, disse ficar com frequência decepcionado com a desordem no Congresso.

“No início era uma piada”, ele disse sobre sua candidatura. “Então decidi que, se tantas pessoas acreditam em mim, eu teria que dar meu melhor, e é o que estou fazendo.”

“TODO O PODER EMANA DO POVO”… MAS O POVO ENTREGOU-O A CUNHA

“TODO O PODER EMANA DO POVO”…
MAS O POVO ENTREGOU-O A CUNHA
O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, tem se saído cada vez pior em questão à democracia e à liberdade de expressão. Cunha não tem sido apenas um deputado poderoso; muito pior que isso: um ditador. Seus projetos e atitudes absurdas ficam muito bem escondidas pois o teatro da mídia brasileira cumpre bem o seu papel… (de teatro, como disse.)

"TODO O PODER EMANA DO POVO"...  MAS O POVO ENTREGOU-O A CUNHA

“TODO O PODER EMANA DO POVO”…
MAS O POVO ENTREGOU-O A CUNHA


Cunha desrespeita e invalida não somente a Constituição, mas também a participação do povo brasileiro. Apoiado pela bancada conservadora — e de peso — na Câmara, Eduardo Cunha encontra, no berço da direita, a cumplicidade para suas falcatruas.
A desmoralização dos Direitos Humanos e trabalhistas é praticada com frequência por Cunha e seus aliados. O pior de tudo é que os parlamentares que estão do lado do presidente da Câmara são os mais votados de seus estados e apoiados pelos “cidadãos de bem” e “defensores da família tradicional”, mas o ponto mais absurdo não é somente este. As pessoas que apoiam esses candidatos e as atitudes por eles tomadas, reclamam assiduamente da situação em que o Brasil se encontra, por exemplo: agora são a favor da terceirização, mas quando as consequências pesarem nos ombros, colocam a culpa toda no Executivo e tiram o peso do Legislativo e de si mesmos.
Daqui a pouco, quando o circo — ou o Shopping Câmara — pegar fogo, não vão ser encontradas mais alternativas de fugir. Enquanto o palhaço encontra alguém para rir de suas piadas, ele as continua contando, mas vai chegar uma hora em que não vai fazer mais graça e, ao invés de rir, nós iremos lamentar por deixarmo-nos levar pelos que só querem nos oprimir.
“Todo o Poder emana do povo”, mas o povo só exerce seu poder se unir-se contra os que o tiram a capacidade de exercê-lo. A fixa suja de Eduardo Cunha não basta para que todos percebam o quão errados foram ao botar no Poder os que dizem ser a nosso favor mas, na verdade, só agem contra nós e a favor da neo burguesia falida brasileira.
Os partidos da esquerda como o PT, PCdoB e PSOL têm lutado fortemente contra as barbaridades propostas por Cunha e sua trupe, mas os partidos, sozinhos, não mudam o destino do País. Precisamos unir as nossas forças e fazer acontecer um futuro melhor para este nosso Brasil. Atitudes como o impeachment da presidenta da República são imensuravelmente equivocadas e desnecessárias. Se queremos, de fato, o melhor para o Brasil, devemos lutar contra os que nos querem somente como eleitores e não nos veem como seres humanos e cidadãos de uma Pátria livre, Pátria esta que parlamentares como Cunha tenta oprimir e desmoralizar. Nós devemos nos importar com quem se importa conosco, buscando, assim, um Brasil para o povo brasileiro.
Vinícius Siman
Ipatinga, 28 de maio de 2015

 

Quase 40 países já proíbem doações de empresas a candidatos

O debate sobre a necessidade de mudar o modelo de financiamento de campanhas no Brasil voltou a ganhar fôlego em meio as denúncias de que propinas cobradas em contratos da Petrobras acabavam irrigando partidos políticos e candidatos como doações oficiais de campanha.

A crescente preocupação com o assunto, porém, não é exclusividade do Brasil. Um monitoramento internacional sobre financiamentos de campanha em 180 países, realizado há quinze anos pelo Instituto Internacional pela Democracia e Assistência Eleitoral (Idea, na sigla em inglês), indica uma tendência mundial de aumento – ainda que lento – da restrição a doações empresariais.

Penas mais duras para casos de corrupção foi um dos pedidos mais frequentes

Penas mais duras para casos de corrupção foi um dos pedidos mais frequentes

A proposta de eliminar ou reduzir drasticamente o financiamento de campanhas por empresas não busca apenas atacar o problema da corrupção, observa o diretor da área de Partidos Políticos do Idea, Sam van der Staak. O princípio central que norteia essas medidas é a preocupação com a influência desproporcional que as empresas teriam sobre o Estado por causa dos volumosos recursos destinados a eleger políticos, seja no Executivo ou no Legislativo.

“Em todo o mundo, a política se tornou um negócio caro, em tal magnitude que o dinheiro é hoje uma das maiores ameaças à democracia”, afirma um relatório de janeiro do instituto.

Segundo Staak, o número de países que baniu completamente o financiamento por empresas cresceu levemente nos últimos quinze anos. Já a criação de limites para as doações “tem sido discutida de forma mais ativa em muitos países”, nota ele.

Propostas

No Brasil, o PT e os movimentos sociais estão à frente da proposta de proibir totalmente o financiamento por empresas – dessa forma as campanhas seriam bancadas exclusivamente por recursos públicos e pequenas doações de pessoas físicas.

Os números oficiais mostram que hoje as empresas são as principais financiadoras da disputa eleitoral no Brasil. Nas últimas eleições, partidos e candidatos arrecadaram cerca de R$ 5 bilhões de doações privadas, quase na sua totalidade feitas por empresas. Além disso, receberam no ano passado R$ 308 milhões de recursos públicos por meio do Fundo Partidário, enquanto o tempo “gratuito” de televisão custou R$ 840 milhões aos cofres da União por meio de isenção fiscal para os canais de TV.

No momento, o Supremo Tribunal Federal (STF) julga uma ação movida pela Ordem dos Advogados do Brasil questionando se a doação por empresas é constitucional. Dos onze ministros, seis já votaram pela proibição desse tipo de financiamento, no entanto, o ministro Gilmar Mendes pediu vista do processo em abril do ano passado e até hoje não proferiu seu voto, no que tem sido criticado como uma manobra para impedir a conclusão do julgamento antes que o próprio Congresso analise a questão.

O PMDB, que hoje tem a presidência da Câmara e do Senado, quer uma alteração menos radical desse modelo. Uma proposta apresentada pelo partido na semana passada sugeriu que empresas só possam doar diretamente a um único partido, mas sem indicar limitação de valores.

Outra proposta, encampada pelo Instituto Ethos e alguns cientistas políticos, prevê que as doações por empresas continuem sendo permitidas, mas que haja um teto baixo para essas transferências. O objetivo, com isso, é reduzir o poder de influência de cada financiador – já que haveria mais doadores transferindo valores semelhantes.

 

Governo apresentou nesta pacote anticorrupção; especialistas avaliam eficácia de medidas.

Governo apresentou nesta pacote anticorrupção; especialistas avaliam eficácia de medidas.

O Instituto Ethos foi criado para incentivar práticas socialmente responsáveis no setor privado. Ele tem 585 empresas associadas, entre elas grandes doadoras de campanhas eleitorais como os bancos Bradesco, Itaú e Santander, a construtora WTorre, a rede de frigoríficos Marfrig, e até mesmo empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato, como Camargo Corrêa e Odebrecht.

O instituto defende hoje a adoção de regras que limitem drasticamente as doações por empresas e mesmo a proibição nos casos de companhias que tenham contratos com governos ou sejam sócias de bancos públicos.

Se tal proibição existisse hoje, atingiria diretamente o grupo JBS, maior doador da campanha de 2014. Tendo o BNDES como sócio, o grupo destinou mais de R$ 350 milhões a diferentes políticos na eleição do ano passado e foi também o maior apoiador tanto da campanha da presidente Dilma Rousseff, como da de seu principal adversário, o tucano Aécio Neves.

“A eleição (brasileira) está virando quase que um plano de negócios de mercado”, afirma Jorge Abrahão, presidente do Instituto Ethos, fazendo referência a um instrumento do mundo corporativo usado para definir os objetivos de uma empresa e o que será feito para alcançá-los.

“Os estudos que fazemos indicam que a eleição a cada ano fica mais cara e o número de votos que os partidos recebem é proporcional aos recursos que eles ganham (de empresas). Na medida em que você limita (as doações), você vai diminuir o peso desse poder econômico”, acrescenta Abrahão.

Levantamentos dos jornais Folha de S.Paulo e Estadão com base nas milhares de declarações de candidatos ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) indicam que, em 2014, as doações privadas somaram cerca de R$ 5 bilhões no Brasil – quase o dobro do valor arrecadado em 2006 (R$ 2,6 bilhões, já atualizado pela inflação).

Sam van der Staak, do Idea, nota que as eleições brasileiras são relativamente caras. Segundo levantamento do instituto, o valor gasto em média por voto aqui (US$ 19,90) é cinco vezes maior do que no México (US$ 4,20) e o dobro do que na Costa Rica (US$ 9,60), países onde as doações de empresas são proibidas.

Pelo mundo

O banco de dados do Idea – organização intergovernamental que hoje tem status de observadora na ONU – revela que 39 países proíbem doações de empresas para candidatos, como México, Canadá, Paraguai, Peru, Colômbia, Costa Rica, Portugal, França, Polônia, Ucrânia e Egito. O mais novo integrante do grupo pode ser a Espanha, que atualmente estuda adotar a medida.

Outros 126 países permitem o financiamento de candidatos por empresas, como Brasil, Reino Unido, Itália, Alemanha, Noruega, Argentina, Chile, Venezuela e praticamente toda a África e a Ásia.

A proibição formal, porém, nem sempre impede que o capital corporativo encontre outras formas de influenciar o jogo político, nota Staak. Os Estados Unidos, por exemplo, proíbem doações diretas de empresas, mas como elas são autorizadas a fazer suas próprias campanhas a favor e contra candidatos, na prática os efeitos da restrição são nulos.

Tampouco a corrupção desaparece de uma hora para outra. Um relatório do instituto aponta que o número de infrações detectadas em doações políticas em Portugal cresceu fortemente desde o ano 2000, quando o país proibiu o financiamento empresas.

Em parte, isso é reflexo da fiscalização mais dura que também foi implementada no período, nota o documento. Mas, por outro lado, também observou-se o desenvolvimento de práticas para burlar as restrições às doações privadas, como lista de doadores fantasmas.

“A corrupção tem muito a ver com as atitudes culturais. Muitos países que são menos corruptos (como Noruega e Suécia), até recentemente, não tinha sequer muitas das leis necessárias para conter escândalos de financiamento político. As reformas devem, portanto, ter o objetivo de tornar mais difícil as doações irregulares e ficar sempre um passo à frente dessas práticas”, afirma Staak.

Defensor da proibição do financiamento por empresas no Brasil, o filósofo Marcos Nobre, reconhece que a medida não terminará com a corrupção no país como mágica, mas ainda assim defende sua adoção. “O que (a proibição) vai fazer é tornar a disputa eleitoral menos desigual e isso é bom para a democracia”, nota ele.

“Para evitar o crescimento do caixa 2 (doações ilegais), o fim do financiamento por empresas tem que vir acompanhado do fortalecimento do Ministério Público e da Justiça Eleitoral”, ressaltou.

Limite de doações

Já Cláudio Abramo – ex-diretor da Transparência Brasil, organização especializada em contas eleitorais – critica a proposta por considerar que ela inevitavelmente levaria ao aumento das doações ilegais e também por ver pouco espaço político para sua aprovação no Congresso.

Ele defende que a criação de limites baixos para as doações de empresas seria o melhor caminho para tornar o sistema político mais justo.

“É preciso atacar o problema principal do financiamento hoje, que é a inexistência de limites reais (ao financimento). Então, você tem uma desigualdade imensa entre os doadores de forma que alguns poucos ganham um poder de influência muito maior que outros doadores. A ideia seria limitar muito drasticamente a quantidade de dinheiro que cada grupo empresarial possa dar, reduzindo portanto a influência de cada um deles”, afirma.

O levantamento do Idea mostra que 55 países restringem de alguma forma os financiamentos, seja de empresas ou pessoas físicas.

O Brasil estabelece um teto para as doações, mas a regra adotada não segue o padrão internacional e acaba sendo inócua. Enquanto a maioria dos países que têm limites estabelecem valores absolutos (por exemplo, 7,5 mil euros por pessoa, na França), aqui o teto máximo da doação é um percentual dos recursos do doador – 2% do faturamento no ano anterior, no caso das empresas, e 10% da renda, no caso das pessoas físicas.

Grandes empresas e pessoas ricas, portanto, têm um potencial muito maior de influir no processo eleitoral.

Brasileiros continuam a viver em negação sobre peso do racismo na sociedade

Em uma noite de sexta-feira no mês passado, faltava luz nas ruas da Palmeirinha, uma favela no Rio de Janeiro. Três adolescentes negros estavam brincando em frente de suas casas. Um deles começou a correr e os outros seguiram, rindo. Naquele momento, a polícia saiu atirando. Chauan Jambre Cezário, 19, foi gravemente ferido. Alan de Souza Lima, 15, morreu no local com celular nas mãos – ele registrou tudo em vídeo, incluindo seus próprios últimos momentos agonizantes.

Manifestantes carregam cartazes durante Marcha da Consciência Negra

Manifestantes carregam cartazes durante Marcha da Consciência Negra

Segundo a nota oficial divulgada no dia seguinte, os rapazes foram baleados depois de um confronto com a polícia. Os policiais alegaram ter encontrado duas armas no local e acusaram Cezário de resistir à prisão. O rapaz, que vende chá gelado na praia de Ipanema, foi levado para o pronto-socorro e algemado ao leito do hospital.

Dias depois, o vídeo por celular de nove minutos se tornou público. As imagens mostram claramente que os adolescentes não tinham nenhuma arma e que não houve nenhum confronto ou resistência. Segundos após os disparos, um policial perguntou porque estavam correndo, ao qual um Cezário sangrando respondeu: “A gente tava brincando, senhor”.

As acusações foram retiradas, mas sua experiência, e a morte de seu amigo mais jovem, reflete a história da violência contra os homens negros jovens no Brasil.

Os afro-brasileiros – pessoas que identificam a si mesmas como negros ou morenos – correspondem a 53% de nossa população, um total de cerca de 106 milhões de indivíduos. É a maior população negra fora da África e a segunda maior depois da Nigéria. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), brasileiros negros com idades entre 12 e 18 anos apresentam uma probabilidade três vezes maior de serem mortos do que seus pares brancos, e uma pesquisa pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que os negros brasileiros representam 68% de todas as vítimas de homicídio.

A probabilidade também é maior de serem vítimas de mortes pela polícia. Um estudo pela Universidade de São Carlos mostrou que 58% de todas as pessoas mortas no Estado de São Paulo pela polícia militar eram negras. Elas correspondem a 72% de toda a população carcerária do país.

“Quando você vê uma viatura de polícia, seu coração gela”, me disse Luiz Roberto Lima, um fotógrafo negro do Rio de Janeiro, que morou nas ruas na adolescência. “Eles podem matar você por estar na rua ou por defender seus direitos, e também podem matar você por prazer. Mesmo que não tenha ficha criminal, eles podem inventar algo contra você.” Ele se referia às infames “mortes por resistência”, quando as vítimas são baleadas após supostamente dispararem contra a polícia e não há maior investigação –o que provavelmente teria acontecido em Palmeirinha se não fosse pela evidência em vídeo.

A desigualdade racial tem raízes históricas óbvias. A escravidão no Brasil durou por aproximadamente três séculos, do início do século 16 a meados do século 19, um período durante o qual cinco milhões de escravos foram trazidos da África para cá – cerca de 11 vezes mais do que para a América do Norte. A nação foi a última nas Américas a abolir a escravidão, em 1888.

Mas muitos afro-brasileiros ainda estão confinados às margens da sociedade. Hoje, quase 70% das pessoas que vivem na pobreza extrema são negras. E estão quase totalmente ausentes das posições de poder. Todos os 39 ministros do gabinete da presidente Dilma Rousseff são brancos, com exceção de um: a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

Em uma recente entrevista para jornal, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie disse que “o Brasil está em negação sobre a questão racial”. Ela ficou surpresa ao saber, durante uma visita poucos anos atrás, que não falávamos muito sobre o assunto aqui, como se racismo não fosse uma questão. Ela acrescentou: “Não consegui deixar de notar como raça e classe estão conectadas no Brasil. Eu ia a restaurantes bons e não via uma única pessoa negra”.

Essa observação pode ser confirmada pelo que alguns brasileiros chamam de “teste do pescoço”. Cunhado pelo servidor público Francisco Antero e pela professora de história Luzia Souza, ele consiste de contar o número de pessoas brancas e negras em papéis diferentes em circunstâncias diferentes. Estique o pescoço em uma joalheria, por exemplo, e conte quantos vendedores são negros, e então conte quantos são clientes. Ou espie em uma escola particular cara e conte quantos alunos e professores são negros, e quantos são serventes.

Eu apliquei recentemente o teste do pescoço em uma sorveteria cara em um bairro rico de São Paulo. Cinco dos sete funcionários eram negros, em comparação a um entre 30 clientes – e suspeito que ele era estrangeiro. Então, em um ônibus municipal, dentre duas dúzias de passageiros, eu notei que era uma das apenas três pessoas brancas.

Para melhorar esta situação, o governo brasileiro introduziu nos últimos anos alguns poucos programas afirmativos, como destinar para minorias raciais um certo percentual de empregos no Serviço Público e vagas em universidades públicas. Ele também concedeu direitos parciais de propriedade para nove comunidades formadas por quilombolas (descendentes de grupos de escravos fugitivos). Apesar desses direitos de propriedade serem garantidos pela nossa Constituição, apenas estimados 5,8% das 214 mil famílias que vivem em quilombos as receberam.

O mais antigo programa de ação afirmativa em universidade existe há 10 anos, mas ainda enfrenta fortes críticas. Um dos maiores jornais do Brasil assumiu uma firme posição editorial contra as cotas raciais em universidades, argumentando que um sistema que encoraje a diversidade socioeconômica bastaria. Os críticos às vezes consideram as cotas como discriminação reversa ou temem que possam incitar o ódio racial em nossa imaginada “democracia racial”, onde negros e brancos brincam lado a lado nas ruas sem serem baleados no peito.

É como Adichie disse. O Brasil ainda está em negação.

Jornalismo tendencioso ameaça sobrevivência do sistema Globo

A Globo caminha para a quebra. Se isso acontecer será culpa quase exclusiva de seu Departamento de Jornalismo. É que se alguém quiser se aproveitar da situação para comprar aGlobo encontrará a seu favor o mais arrogante, mais pretensioso, mais insolente grupo de “formadores de opinião” como nunca se viu antes na história deste país, e com poderes ilimitados. Isso porque os donos são ausentes ou incompetentes, e nada trava a libertinagem televisiva e jornalística que se enfia goela baixo do cidadão daqui e do exterior, todos os dias, num exercício jamais observado de manipulação política pela via da emoção.
Há dois patamares no caminho da Globo para o fracasso. O primeiro é o Jornal Nacional, ligeiramente mais discreto na sua cruzada diária pela desinformação. Conduzido por William Bonner, que lembra um propagandista de sabonete, traz sempre uma mistura bem preparada de fatos e emoção direcionada para a busca de telespectadores a qualquer custo, mesmo quando esse custo significa subverter a verdade. A distorção a favor dos ricos é limitada apenas pelo medo de perder audiência no horário nobre, na medida em que grande parte dela é de famílias pobres beneficiárias dos programas sociais do PT.
É no Jornal da Globo, contudo, que os noticiaristas e comentaristas da Globo saem do armário. Aí a manipulação da opinião pública passa a ser um jogo aberto. Começa com a figura burlesca de William Waack anunciando todas as pragas do Egito sobre o Brasil. Ele tem, como o JN, prazer em noticiar tragédias, coisas que comovem. Mas, com muitos graus de emoção sobre o Jornal Nacional, despeja na audiência, formada sobretudo por gente de classe média que não tem compromisso com horário no dia seguinte, o que essa audiência enviesada quer ouvir na sua sanha lacerdista de apelos hipócritas contra a corrupção.

Jornalismo tendencioso ameaça sobrevivência do sistema Globo

Jornalismo tendencioso ameaça sobrevivência do sistema Globo


Mas William Waack é um casca grossa: manipula o noticiário de acordo com suas preferências pessoais, acrescentando ao sabor da notícia deformada esgares de palhaço de circo. Cabe a Sardenberg um papel aparentemente mais sutil, como me observou Jânio de Freitas, o maior jornalista político do Brasil em atividade, já que ele é mais venenoso por divulgar os conceitos da economia política favoráveis aos ricos dentro de uma carcaça insidiosa de neutralidade técnica, como todo bom charlatão. Ele agrada aos poderosos e ao mesmo tempo engana os pouco pobres que resistem a assistir a tevê até de madrugada.
O Jornal da Globo tem, portanto, uma interação intelectual e moral afetiva com ricos e poderosos. Sua eficácia, conforme Marx, está no fato de que a ideologia da sociedade é a ideologia da classe dominante. Quando a classe dominante dispõe inteiramente da mídia, sem concorrência – porque, no campo da ideologia, a quase totalidade dos maiores jornais, revistas e tevês está do lado e de mãos dada com uma direita sórdida e indiferente aos destinos da sociedade -, o campo político fica inteiramente aberto, inclusive para golpes brancos.
Poderia continuar enchendo laudas e laudas de adjetivos conta a dupla do Jornal da Globo e contra outra dupla igualmente perniciosa para a democracia, os comentaristas do jornal Globo Míriam Leitão e Merval Pereira. Este não merece muita tinta, porque é apenas ignorante – na acepção semântica da palavra. Míriam, porém, como Sardenberg, é astuta. Passa a ideia de que sabe economia, quando o que realmente sabe é identificar economistas de direita, como ela, e dar-lhes espaço franco em sua coluna diária e sórdida Globo News.
O noticiário econômico brasileiro, de jornal e de tevê, está dominado por entrevistas e artigos de economistas de banco. Galbraith, com sua fina ironia, dizia que não se sentia à vontade para acreditar em opiniões econômicas de quem tem interesse próprio em jogo. A rede Globo e os jornalões, assim como as revistas semanais (exceto Carta Capital), apoia seu noticiário econômico em economistas de banco com o maior descaramento. Assim, são os economistas de banco que estão fazendo a cabeça de milhões de brasileiros sobre economia.
Trabalhei anos na editoria econômica do Jornal do Brasil, de que fui subeditor, e jamais entrevistei um economista de banco. Trabalhei anos como repórter econômico da Folha de S. Paulo e jamais entrevistei, para publicação, um único economista de banco. Agora são esses economistas que dominam o noticiário econômico com seus próprios interesses. Acaso é esse tipo de liberdade de expressão e de opinião publicada que interessa ao Brasil? Ou é o momento em que se deve pensar em dividir o monopólio do Globo e fomentar um novo jornal no Rio para o Brasil?
P.S. Não é do meu estilo fazer ataques pessoais. Entretanto, o Sistema Globo foi dividido em três capitanias, uma para cada herdeiro, e as capitanias em sesmarias, cada uma sob o comando de um jornalista no caso do Departamento de Jornalismo. Assim, não adianta falar, quando se trata de formação de ideologia, de um sistema global. É preciso identificar pessoalmente os donos das sesmarias jornalísticas, como procurei fazer. Não fosse tão grande o Sistema Globo, amainaria minhas críticas. Como é grande demais, e eu muito pequeno, pode perfeitamente suportar o choque!
*Jornalista e economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre a Economia Política brasileira, dos quais o último é “A Razão de Deus”.

 

J. Carlos de Assis,   é Jornalista e economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre a Economia Política brasileira, dos quais o último é “A Razão de Deus”.

Internautas sugerem medidas anticorrupção

Após o governo federal anunciar um pacote de medidas para combater a corrupção no país, leitores da BBC Brasil disseram, por meio de rede sociais, o que gostariam de ver entre as medidas.

Um dos pedidos mais frequentes foi a inclusão dos casos de corrupção no rol de crimes hediondos, como homicídio e sequestro, ou que fossem punidos com penas mais duras.
“Vinte anos de cadeia sem fiança nem progressão de pena. Ninguém fala nada?”, questiona um leitor.

Internautas do Brasil sugerem medidas anticorrupção

Internautas do Brasil sugerem medidas anticorrupção

Outros leitores sugeriram que crimes de corrupção fossem julgados pelas instâncias usuais da Justiça comum (crimes cometidos por parlamentares são julgados pelo Supremo, depois de autorização do Congresso).
“E o fim da imunidade parlamentar, nada?”, disse um leitor, que recebeu 471 curtidas.
“Fim do foro privilegiado. Aí eles passarão a ter medo de verdade”, justificou outro.
“Imaginem se deputados e vereadores não tivessem seus processos julgados pelo STF? Se tivesse que aguardar presos seu caso ser julgado pela Justiça comum? Não dou seis meses para melhorar”, afirmou um terceiro leitor.

Governo apresentou nesta pacote anticorrupção; especialistas avaliam eficácia de medidas.

Governo apresentou nesta pacote anticorrupção; especialistas avaliam eficácia de medidas.

Um pedido também bastante frequente foi o fim do financiamento privado de campanhas eleitorais.
“Cadê a proibição das doações privadas?”, indaga um leitor.
“Muito partido sem representação popular sobrevive disso”, argumenta outro.
Muitos ainda querem menos ministérios: “E a diminuição do número absurdo de 39 ministérios?”.

Pacote próprio
Um dos comentários mais populares, com mais de 840 curtidas, foi o de um leitor que criou seu próprio pacote de medidas contra corrupção.
Para ele, seria necessário implementar o afastamento imediato de um funcionário público que seja alvo de denúncia feita pelo Ministério Público, a proibição de vaquinhas para que partidos paguem multa de condenados e o fim das aposentadorias vitalícias.
Este leitor ainda sugere multa dobrada para desvios públicos, inelegibilidade e proibição de participação direta ou indireta na administração pública por 30 anos, além da redução de salários, verbas e auxílios para políticos.
Em resposta a este comentário, outro leitor complementou dizendo que o fim da aposentadoria vitalícia deveria valer também para juízes comprovadamente corruptos, “com a perda de cargo, benefícios e cadeia”.

Penas mais duras para casos de corrupção foi um dos pedidos mais frequentes

Penas mais duras para casos de corrupção foi um dos pedidos mais frequentes

  • Um projeto de lei para criminalizar o caixa-dois (arrecadação não declarada de dinheiro em campanhas);
  • Apresentar uma emenda constitucional para confiscar bens adquiridos de forma ilícita;
  • Apresentar projeto de lei para que os mesmos critérios da Lei da Ficha Limpa sejam adotados para a nomeação de cargos de confiança no âmbito federal;
  • Acelerar a tramitação de projeto de lei que criminaliza o patrimônio injustificado e enriquecimento ilícito de agentes públicos;
  • Acelerar a tramitação de um projeto de lei que prevê a alienação antecipada de bens apreendidos após atos de corrupção, para evitar que sejam usados irregularmente por agentes públicos. Estes bens alienados seriam vendidos e o dinheiro ficaria depositado em juízo.

Combate à corrupção

Na quarta-feira, o governo federal apresentou um pacote anticorrupção que será levado ao Congresso, em resposta a protestos populares. As propostas incluem:
Um projeto de lei para criminalizar o caixa-dois (arrecadação não declarada de dinheiro em campanhas);
Apresentar uma emenda constitucional para confiscar bens adquiridos de forma ilícita;
Apresentar projeto de lei para que os mesmos critérios da Lei da Ficha Limpa sejam adotados para a nomeação de cargos de confiança no âmbito federal;
Acelerar a tramitação de projeto de lei que criminaliza o patrimônioinjustificado e enriquecimento ilícito de agentes públicos;
Acelerar a tramitação de um projeto de lei que prevê a alienação antecipada de bens apreendidos após atos de corrupção, para evitar que sejam usados irregularmente por agentes públicos. Estes bens alienados seriam vendidos e o dinheiro ficaria depositado em juízo.

Condenado à morte por estupro coletivo na Índia culpa mulher por crime

Condenado à morte por estupro coletivo na Índia culpa mulher por crime

Em 2012, uma estudante indiana foi estuprada em um ônibus em Nova Déli e morreu devido a ferimentos internos gravíssimos. A produtora Leslee Udwin conversou com um dos estupradores que foi condenado à morte e com os advogados de defesa, para um documentário sobre o caso que será transmitido nesta semana pela BBC na Grã-Bretanha.
Leia, abaixo, o testemunho de Udwin e trechos da entrevista dela com o estuprador:
No dia 16 de dezembro de 2012, uma mulher de 23 anos foi assistir ao filme As Aventuras de Pi com um amigo. Às 20h30, eles entraram em um ônibus que estava fora de operação, e outras seis pessoas estavam no veículo: cinco homens e um jovem.
Os homens espancaram o amigo e cada um estuprou a mulher, agredindo-a em seguida com um instrumento de ferro.
Os detalhes terríveis do estupro me levaram a acreditar que encontraria monstros, loucos, psicopatas. A verdade era ainda mais assustadora: os perpetradores eram homens comuns, aparentemente normais.
Mukesh Singh, o motorista do ônibus, descreveu cada detalhe do que aconteceu durante e depois do estupro. Enquanto os promotores afirmam que todos os homens se revezaram e estupraram a jovem, Singh afirma que não participou e ficou no volante do ônibus o tempo todo.
E ele culpa a vítima.

Mukesh Singh foi um dos entrevistados para documentário sobre o caso de estupro ocorrido em 2012 na Índia

Mukesh Singh foi um dos entrevistados para documentário sobre o caso de estupro ocorrido em 2012 na Índia


“Uma garota decente não estaria perambulando por aí às nove da noite. Uma garota é muito mais responsável por um estupro do que um garoto”, disse.
“Trabalho de casa, serviço doméstico é para garotas, não (é) perambular em clubes e bares à noite fazendo coisas erradas, usando roupas erradas. Cerca de 20% das garotas são boas.”
Para Singh, as pessoas “tinham o direito de ensinar uma lição a ela” e a mulher precisa aguentar isto.
“Quando está sendo estuprada, ela não deve lutar. Ela deve apenas ficar em silêncio e permitir o estupro. Então, eles teriam deixado ela depois (do estupro) e apenas teriam espancado o menino”, afirmou.
“A pena de morte vai tornar as coisas ainda mais perigosas para as garotas. Agora, quando eles estupram, eles não vão deixar a garota como nós fizemos. Eles vão matá-la. Antes, eles estuprariam e diriam: ‘deixa ela, ela não vai contar para ninguém’. Agora, quando eles estuprarem, especialmente os tipos criminosos, eles vão matar a garota. Morte.”
Eu tinha em mãos a longa lista dos ferimentos inflingidos à vítima e li a para Singh, esperando algum tipo de arrependimento. Mas não houve nada.
Sintomas, e não a doença

Seria mais fácil entender esse crime hediondo se os responsáveis fossem monstros, maçãs podres, aberrações da natureza.
Para mim, a verdade não poderia estar mais longe disso, e talvez a pena de morte por enforcamento à qual os acusados foram sentenciados até mascare o problema real, que é: estes homens não são a doença, eles são os sintomas.
Um dos homens que entrevistei, Gaurav, havia estuprado uma menina de cinco anos. Passei três horas gravando a entrevista enquanto ele contava com detalhes explícitos como abafou os gritos da criança cobrindo o rosto dela com a mão.

Durante a entrevista, ele estava sentado e tinha um meio sorriso na boca. Talvez um pouco de nervosismo na presença de uma câmera. Em um momento, pedi para que ele me mostrasse a altura da menina e ele se levantou para indicar que ela era da altura de seus joelhos.
Quando perguntei como ele conseguiu cruzar o limite entre imaginar o que queria fazer e realmente fazer – diante da altura da menina, os olhos, os gritos – ele me olhou como se eu estivesse louca. “Ela era uma mendiga, a vida dela não tinha valor”, respondeu.
Esses crimes contra mulheres e meninas são apenas parte do problema. Tudo começa com o nascimento de uma menina, que não é tão bem-vinda como um menino.
Quando um menino nasce, doces são distribuídos. Isso não acontece com as meninas. Um menino recebe uma nutrição melhor que uma menina. Os movimentos de uma menina pela cidade são restritos e suas liberdades, reduzidas. Ela é enviada como escrava doméstica para o marido.
Se uma menina vale menos que um menino, a consequência é que os homens acreditam que podem fazer o que quiserem com elas.
‘Não há lugar para uma mulher’

Falei com dois advogados que defenderam os assassinos da estudante de 23 anos e o que eles disseram foi revelador.
“Em nossa sociedade nunca permitimos que nossas meninas saiam de casa depois das 19h30, ou 19h30 ou 20h230, durante a noite com qualquer desconhecido”, disse ML Sharma.

“Você está falando sobre homem e mulher como amigos. Desculpe, isso não tem lugar em nossa sociedade. Temos a melhor cultura. Em nossa cultura não há lugar para uma mulher.”
“Se minha filha ou irmã se envolvessem com atividades antes do casamento (…), e se permitir perder o caráter ao fazer tais coisas, com certeza eu levaria esta irmã ou filha para minha fazenda e, em frente de toda minha família, despejaria gasolina nela e acenderia o fogo”, disse outro advogado, AP Singh, em uma entrevista para a televisão local.
Quando o entrevistei, ele confirmou essas declarações.
A desigualdade de gênero é o tumor primário e o estupro, tráfico de mulheres, casamento de crianças, aborto de fetos de meninas, crimes de honra e assim por diante, são as metástases.
E na Índia o problema não é falta de leis – afinal é um país democrático, civilizado e em desenvolvimento. O problema é a implementação das leis.
O artigo 14 da Constituição do país garante direitos iguais para homens e mulheres. Só que, por exemplo, o dote em um casamento é considerado ilegal, mas todas as famílias ainda mantêm esse costume.

5 razões pelas quais impeachment de Dilma é improvável.

A série de problemas enfrentados pela presidente Dilma Rousseff neste início de segundo mandato já foi indicada por alguns como sinal de ameaça ao seu governo.

Na semana passada, um blog publicado no site do jornal britânico Financial Timeslistou 10 motivos para acreditar que Dilma poderia sofrer impeachment, entre eles as investigações de corrupção na Petrobras, a economia em baixa, a crise no abastecimento de água e energia e o menor apoio no Congresso.

Apesar de graves, os atuais problemas não são exclusividade do Brasil; muitos países da América Latina também enfretam escândalos

Apesar de graves, os atuais problemas não são exclusividade do Brasil; muitos países da América Latina também enfretam escândalos

Para analistas, um fator importante é não haver evidências de envolvimento de Dilma no escândalo da Petrobras

Para analistas, um fator importante é não haver evidências de envolvimento de Dilma no escândalo da Petrobras

Falta de interesse da oposição e de provas de envolvimento de Dilma no escândalo da Petrobras são alguns dos motivos apontados pelos especialistas

Falta de interesse da oposição e de provas de envolvimento de Dilma no escândalo da Petrobras são alguns dos motivos apontados pelos especialistas

Leia também: Levy reduz desoneração da folha de pagamentos e critica Mantega
No entanto, para cientistas políticos consultados pela BBC Brasil, esse não é um cenário realista e, apesar dos problemas, no momento não há razão para considerar a possibilidade de que Dilma não termine seu mandato.
Abaixo, cinco motivos pelos quais os brasilianistas consideram improvável um processo de impeachment no Brasil:
1 – Até o momento, não há base para impeachment
Para os analistas entrevistados pela BBC Brasil, apesar dos graves problemas enfrentados pelo governo, não está claro qual seria a base para um processo de impeachment.
“Há tensões dentro do governo, tensão entre Lula (o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) e Dilma, entre o PT e (o novo ministro da Fazenda) Joaquim Levy. A polarização no Brasil está ficando muito forte, entre o PT e a oposição, entre o Congresso e a presidente”, enumera Peter Hakim, presidente emérito do instituto de análise política Inter-American Dialogue, em Washington.
“Mas a pergunta que eu tenho é como o processo de impeachment seria iniciado, qual seria a base para impeachment”, questiona.

Segundo Hakim, até o momento não parece haver nada que possa desencadear um processo de impeachment. Ele ressalta que acusações de “incompetência”, por si só, não são motivo para impeachment.
O cientista político Riordan Roett, diretor do programa de estudos da América Latina da Universidade Johns Hopkins, em Washington, lembra que nos Estados Unidos a ameaça de impeachment também costuma ser mencionada com frequência.
“O impeachment nunca está fora de questão. Os conservadores do Tea Party estão sempre falando em impeachment no Congresso americano, mas obviamente isso não vai acontecer”, compara.
“(No caso do Brasil) penso que é muito cedo para sequer pensar sobre a possibilidade de um processo sério de impeachment.”
2 – Não há evidências de envolvimento de Dilma no escândalo da Petrobras
O escândalo de corrupção na Petrobras, que já provocou o rebaixamento da nota da empresa pela agência de classificação de risco Moody’s, é considerado por Hakim o principal problema enfrentado por Dilma no momento.
Mas ele e outros analistas ressaltam que nada indica que a presidente – que esteve à frente do Conselho de Administração da empresa entre 2003 e 2010 – tenha tido algum tipo de envolvimento ou soubesse dos casos de corrupção.
“Até o momento, não há evidência de que Dilma seja culpada de nada além de má administração (no caso da Petrobras)”, diz o cientista político Matthew Taylor, pesquisador do Brazil Institute, órgão do Woodrow Wilson Center e professor da American University, em Washington.
Taylor observa que, assim como no escândalo do Mensalão muitos dos membros mais céticos da oposição diziam na época que o então presidente Lula deveria saber do que ocorria, no caso da Petrobras é possível que muitos digam o mesmo de Dilma, que seus laços com a empresa eram tão estreitos que ela deveria saber do esquema de corrupção.
“Mas em uma grande organização como essa, é bem plausível que ela simplesmente não tenha investigado mais profundamente o que poderia estar ocorrendo”, afirma.
“Até agora não há qualquer sugestão nos documentos que se conhece de que Dilma seja culpada de qualquer comportamento criminoso”, diz Taylor.
3 – A oposição não tem interesse em um processo de impeachment
Segundo os analistas ouvidos pela BBC Brasil, a oposição não teria condições e nem tem interesse em levar adiante um processo de impeachment.
“Não acho que o PSDB teria muito a ganhar. Além disso, precisaria do apoio do PMDB e de outros partidos na coalizão do governo. E, francamente, nenhum desses partidos gostaria de ver Dilma sofrendo um impeachment”, afirma Taylor.
“Eles têm muito a ganhar com uma Dilma enfraquecida”, observa. “Talvez seja melhor para a oposição simplesmente deixar Dilma mergulhada na crise e deixar que ela tome as difíceis medidas de austeridade e ser responsabilizada por elas.”
4 – Apoio no Congresso
Dilma enfrenta dificuldades em sua relação com o Congresso e com a própria base aliada, em um momento em que o PT e o PMDB, apesar de terem as maiores bancadas, perderam cadeiras nas últimas eleições, que também foram marcadas por uma maior fragmentação do Congresso.
“Uma das questões cruciais para Dilma é lutar contra a oposição que há no Congresso ao plano de ajuste fiscal. Mas ela está em uma posição enfraquecida, porque não é popular, o PT tem menos membros no Congresso, há mais partidos pequenos”, enumera Roett.
Apesar das dificuldades, os analistas ressaltam que a estrutura de apoio de Dilma é muito mais forte do que a do ex-presidente Fernando Collor de Mello, alvo de impeachment em 1992.
“Collor estava implementando políticas que eram de certa maneira radicais, que iam contra a maioria dos eleitores, e estava fazendo isso em um contexto em que seu partido tinha menos de 3% do Congresso”, diz Taylor
5 – Dificuldades em toda a América Latina

A avaliação dos analistas é de que, apesar de graves, os atuais problemas não são exclusividade do Brasil. Muitos países da América Latina também enfrentam um período de escândalos e economia em queda.
“Não é como se o Brasil estivesse sozinho”, observa Hakim.
Ele cita os casos de México, Venezuela, Peru, Chile e Argentina, onde os presidentes também atravessam um momento de fraca popularidade.
“Se no Brasil a inflação chega a 7,3% nos últimos 12 meses, na Argentina está em torno de 40%, e na Venezuela perto de 70%”, diz Hakim.
“A confiança do investidor está em baixa em toda a América Latina.”
Exagero
Para Hakim, há um certo exagero quando se fala na possibilidade de impeachment de Dilma.
“Ninguém falava em impeachment de Fernando Henrique Cardoso por causa da crise do apagão. Ninguém falava em impeachment de Lula por causa do Mensalão”, lembra.
O analista reconhece que Dilma está enfrentando problemas em várias frentes, mas afirma que esses problemas não são incomuns em governos com a economia em baixa.
“Lembra quando todos falavam que o Brasil era um foguete em direção à lua, que ninguém segurava o Brasil? Aquilo foi dramaticamente exagerado. Agora, o suposto desastre enfrentado pelo Brasil também está sendo exagerado. Pode estar prestes a enfrentar um pouco de turbulência, mas não se compara à situação da Argentina ou da Venezuela”, afirma Hakim.
Taylor diz que o escândalo da Petrobras o deixa “cautelosamente otimista”.
“Quando se pensa no Brasil e nas experiências da América Latina, em quantos outros países você prenderia alguns dos mais importantes empresários e consideraria a possibilidade de prender alguns dos mais importantes políticos? E, mesmo eu não achando um cenário realista, a própria contemplação de impeachment de uma maneira válida institucionalmente. Isso tudo aponta para a força da democracia brasileira, não fraqueza.”

https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/03/150227_brasilianistas_dilma_mdb_ac