Filhotes de lobo são fofos, mas por que não podem ser criados como cães?

Estou sentado em uma área cercada, ao ar livre, com quatro filhotes mordendo meus dedos, meu chapéu e meu cabelo, urinando em mim por causa da excitação.

Com dois meses de idade, têm 60 cm do nariz à cauda e devem pesar sete ou oito quilos. Eles rosnam disputando a posse de um pedaço mastigado de pele de veado. Lambem meu rosto como se eu fosse um amigo querido, ou um brinquedo novo. Eles são como cachorrinhos, mas não muito. São lobos.

Quando chegarem a pesar uns 45 kg, suas mandíbulas serão fortes o suficiente para quebrar os ossos de um alce, mas, porque viveram com seres humanos desde o nascimento, quando ainda não conseguiam enxergar, ouvir ou ficar em pé, vão permitir pessoas à sua volta, exames veterinários, carinho atrás da orelha – se tudo correr bem.

Mesmo assim, os humanos que os criaram devem tomar precauções. Se uma pessoa que os alimentou e que cuidou deles praticamente desde o nascimento estiver ferida ou adoentada, ela não vai entrar na área cercada, pois precisa evitar uma reação predatória. Ninguém sairá correndo para fazer um desses lobos persegui-lo por diversão. Ninguém vai fingir correr atrás de um lobo. Todo cuidador experiente fica alerta. Porque se há uma coisa com a qual todos os especialistas em lobos e cães com quem conversei ao longo dos anos concordam, é que:

Não importa a maneira em que criou um lobo, você não pode transformá-lo em cachorro.”

Lobos x cachorros

Andrew Spear/The New York Times

Independentemente da proximidade dessas duas espécies — e alguns cientistas as classificam como a mesma – existem diferenças. Fisicamente, a mandíbula do lobo é mais poderosa. Eles se reproduzem apenas uma vez por ano, não duas, como os cães. E, segundo seus cuidadores, em termos comportamentais, seus instintos predatórios são facilmente atiçados, se comparados com os dos cães.

São mais independentes e possessivos em relação à comida ou outros itens. Muitas pesquisas sugerem que tomam mais cuidado com os filhotes. E nunca chegam perto do nível da cordialidade “eu-amo-os-humanos” de um Labrador. Não importa o quanto um treinador ou um fabricante de ração promovam o lobo interior em nossos cães, eles não são a mesma coisa.

O consenso científico é que os cães evoluíram a partir de algum tipo de lobo extinto há 15 mil anos ou mais. A maioria dos pesquisadores agora não concorda com a ideia de que um filhote era abduzido da ninhada, mas sim a de que alguns lobos começaram a passar mais tempo com as pessoas para se alimentarem de restos de comida dos caçadores.

Alguns lobos foram gradualmente perdendo o medo dos humanos, conseguindo se aproximar e comer mais, além de ter mais filhotes que carregaram o DNA que, possivelmente, deixou os lobos menos temerosos. Isso se repetiu de geração em geração, até que evoluíram para ser, em termos científicos, mais amigáveis. Esses foram os primeiros cães.

As pessoas devem passar 24 horas por dia, sete dias por semana, durante semanas a fio com filhotes de lobo para que estes tenham certeza de que os seres humanos são toleráveis. Filhotes de cachorro vão se apegar rapidamente a qualquer pessoa que esteja próxima. Mesmo cachorros da rua que tiveram algum contato humano na hora certa podem ser amigáveis.

Diferenças nos genes

Andrew Spear/The New York Times

Apesar de todas as semelhanças, há algo profundamente diferente nos genes do cão, ou em como e quando esses genes se tornam ativos, e os cientistas estão tentando determinar exatamente o quê.

Há pistas.

Algumas pesquisas recentes sugerem que a afabilidade do cão pode ser o resultado de algo semelhante à síndrome de Williams, uma desordem genética em seres humanos que os torna hipersociáveis, além de garantir outras características. Pessoas com esse transtorno parecem ser muito amigáveis com todos, sem os limites habituais.

Outra ideia sendo estudada é a de que um atraso no desenvolvimento, durante um período crítico de socialização no início da vida de um cão, pode fazer a diferença. Isso pode ser descoberto no DNA, mais provavelmente nas seções que controlam quando e como os genes mais fortes se tornam ativos.

Essa é uma pesquisa inicial, um tiro no escuro em alguns aspectos, mas este ano, duas cientistas viajaram para Quebec para monitorar o desenvolvimento de seis filhotes de lobo, fazer testes de comportamento e pegar amostras genéticas. Fui com elas.

Visitei também outros lobos em cativeiro, jovens e adultos, para conseguir vislumbrar como começa um projeto de pesquisa – e, confesso, para ter a chance de brincar com os pequenos.

Eu queria ter alguma experiência em primeira mão com os animais sobre os quais escrevo, olhar um lobo nos olhos, pode-se dizer – mas apenas metaforicamente. Como me disseram enfaticamente em uma sessão de treinamento antes de entrar em um recinto com lobos adultos, a única coisa que você definitivamente não deve fazer é olhar em seus olhos.

Dormindo com lobos

Andrew Spear/The New York Times

A Zoo Académie é uma combinação de zoológico e centro de treinamento aqui na margem sul do Rio São Lourenço, a cerca de duas horas de Montreal. Jacinthe Bouchard, a proprietária, treinou animais domésticos e selvagens, incluindo lobos, em todo o mundo.

Em junho, ela conseguiu duas ninhadas de lobinhos de duas fêmeas e um macho que tinha no zoológico. As mães deram à luz na mesma sala ao mesmo tempo, no início do mês. Então, as enchentes excepcionalmente fortes do São Lourenço ameaçaram a área, e Bouchard precisou removê-los quando tinham cerca de sete dias de idade, em vez das habituais duas semanas.

Depois, começou o árduo processo de sociabilização. Bouchard e sua assistente ficaram dia e noite com os animais nas primeiras semanas, gradualmente diminuindo o tempo passado com eles depois disso.

Em 30 de junho, Kathryn Lord e Elinor Karlsson apareceram com vários colegas, incluindo Diane Genereux, pesquisadora do laboratório de Karlsson, que faria a maior parte do trabalho de genética.

Lord faz parte da equipe de Karlsson, que divide o tempo entre a faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts, em Worcester, e o Instituto Broad, em Cambridge. Seu trabalho combina estudos comportamentais e genéticos de filhotes de lobos e cães.

Lord, bióloga evolucionista, é uma veterana nos cuidados com lobos. Criou cinco ninhadas.

Andrew Spear/The New York Times

“Você tem que estar com eles o tempo todo, sem intervalos. Isso significa dormir com eles, alimentando-os a cada quatro horas com mamadeira”, disse.

“Além disso, não tomo banho nos primeiros dias, para que os filhotes tenham um senso claro de quem estão cheirando”, observou Bouchard.

Isso é muito importante, porque filhotes de lobos e cães atravessam um período crítico quando exploram o mundo e aprendem quem são seus amigos e sua família.

Com os lobos, acredita-se que essa fase comece com cerca de duas semanas, quando ainda não conseguem ver ou ouvir. O cheiro é tudo.

Nos cães, começa por volta de quatro semanas, quando conseguem enxergar, cheirar e escutar. Lord acha que essa mudança no desenvolvimento, que permite que os cães usem todos seus sentidos, pode ser a chave para sua maior capacidade de se conectar a seres humanos.

Talvez com mais sentidos ativos, eles sejam mais capazes de generalizar, passando da tolerância a seres humanos individuais com um cheiro específico à tolerância aos humanos em geral, com cheiro, imagem e sons.

Quando termina o período crítico, os lobos e, em menor extensão os cães, experimentam algo como o surgimento de uma estranha ansiedade nos bebês humanos, quando as pessoas que não pertencem à família de repente se tornam assustadoras.

As chances de definição genética da mudança nessa etapa crucial ainda estão distantes, mas Lord e Karlsson acham que vale a pena perseguir essa ideia, o mesmo acontecendo com o Instituto Broad. Ele oferece um pequeno subsídio de um programa destinado a apoiar os cientistas que se aventuram pelo desconhecido – o que podemos chamar de pesquisa “e se”.

Há duas perguntas que as cientistas querem explorar. Uma, segundo Karlsson, é:

Como o lobo que vivia na floresta se tornou o cão que vive em nossas casas?

A outra é se o medo e a sociabilidade nos cães estão relacionados às mesmas emoções e comportamentos em seres humanos. Em caso positivo, aprender com os cachorros poderia fornecer uma possível compreensão para algumas condições humanas, nas quais a interação social é afetada, como a esquizofrenia, o autismo ou a síndrome de Williams.

Os filhotes no Zoo Académie tinham apenas três semanas de idade quando o grupo de pesquisadores chegou. Eu apareci na manhã seguinte, e entrei em uma sala repleta de colchões, pesquisadores e filhotes.

Os humanos ainda estavam tontos após uma noite mal dormida. Os filhotes nessa idade acordam a cada poucas horas para fuçar e perturbar qualquer corpo quente ao seu alcance.

As mamães lobo estimulam seus filhotes a urinar e defecar lambendo seus abdomens. Os manipuladores humanos massageavam os pequenos pela mesma razão, mas muitas vezes a micção era imprevisível, então o assunto principal da conversa quando cheguei foi xixi de lobinhos. Quanto, em quem, de qual filhote.

Andrew Spear/The New York Times

Assim que entrei, me entregaram um deles para que eu o ninasse e amamentasse. O filhote parecia uma larva peluda, persistente, obstinada, cheio de vontades e determinação.

Mesmo com pelo, dentes e garras, ainda estavam famintos e desamparados, e não pude deixar de me lembrar de quando segurava meus filhos para lhes dar mamadeira. Desconfio que filhotes de tigres e de glutões sejam igualmente irresistíveis. É uma coisa de mamífero.

A primeira parte do teste de Lord era confirmar suas observações de que o período crítico para os lobos começa e termina mais cedo do que para os cães.

Ela criou um procedimento para testar os filhotes, expondo-os a algo que certamente nunca viram antes: uma engenhoca com hastes que zumbida e se contorcia, um tripé e um móbile de bebê.

A cada semana, testou um filhote, para que nenhum deles se acostumasse com essas coisas. Ela pôs o lobinho em uma pequena arena protegida por cercas baixas, e ligou o móbile. Escondeu-se para evitar distrair o pequeno. Câmeras registraram a ação, mostrando como os filhotes toparam e caminharam ao redor do objeto estranho, ou como se esquivaram dele, ou então como o cheiraram.

Com três semanas de idade, os lobinhos mal conseguiam se mover e dormiam a maior parte do tempo em que não estavam mamando. Com oito semanas, quando voltei e eles começaram a interagir comigo, já estavam completamente brincalhões e plenamente capazes de explorar.

As pesquisadoras não vão divulgar os resultados até que observadores que nunca viram os filhotes assistam aos vídeos e os analisem, mas Lord disse que especialistas em lobos consideravam que um filhote de oito semanas já havia superado o período crítico. Eles ficavam tão bem comigo e com os outros porque haviam sido socializados com êxito.

Antes e depois do teste, ela coletou urina para medir os níveis de um hormônio chamado cortisol, cuja concentração aumenta durante momentos de estresse. Se o filhote do vídeo não se aproximasse da engenhoca contorcionista e seu nível de cortisol estivesse alto, isso indicaria que o pequeno experimentou um nível de medo das coisas novas que poderia parar sua exploração. Isso confirmaria a ocorrência do período crítico.

Ela, Karlsson e outros do laboratório também coletaram saliva para teste de DNA. Planejaram usar uma nova técnica chamada ATAC-seq, que utiliza uma enzima para marcar os genes ativos. Assim, quando o DNA do lobo é introduzido em uma das avançadas máquinas de mapeamento de genomas, apenas os genes ativos aparecem.

Genereux, que isolava e analisava o DNA, disse achar que a probabilidade de encontrar o que queriam seria “um tiro no escuro”. Ela e os outros pesquisadores pretendem aprimorar suas técnicas para fazer as perguntas certas.

Quando eles crescem

Andrew Spear/The New York Times

E como são os lobos socializados quando crescem, quando o misterioso equipamento genético do cão e do lobo os direciona para seus próprios caminhos?

Também visitei o Parque dos Lobos, em Battle Ground, Indiana, um zoológico de 65 hectares e instalações de pesquisa onde Dana Drenzek, a gerente, e Pat Goodmann, a curadora, me levaram a um passeio e me apresentaram não só aos filhotes que estavam socializando, mas também a alguns lobos adultos.

Na década de 1970, Goodmann trabalhou com Erich Klinghammer, fundador do Parque dos Lobos, para desenvolver o modelo contínuo de socialização dos filhotes, expondo-os aos seres humanos e também a outros lobos, para que pudessem se relacionar com sua própria espécie, mas ainda aceitando a presença e a atenção dos seres humanos, mesmo a dos intrusivos, como os veterinários.

A área dos filhotes estava cheia de macas e redes para os voluntários, pois os lobos tinham agora entre nove e 11 semanas e viviam ao ar livre o tempo todo. Havia esconderijos de plástico e madeira para os lobinhos, e muitos brinquedos. Parecia um playground, exceto pelos restos das refeições – o osso da clavícula ou da canela de um veado, umas costelas, ossos das pernas e do ombro, às vezes com a pele e a carne ainda presas a eles.

Os filhotes eram extremamente amigáveis com os voluntários que conheciam e levemente amigáveis comigo. Os lobos adultos que conheci também eram gentis, mas distantes. Dois machos mais velhos, Wotan e Wolfgang, cada um me lambeu uma vez e foi embora. Timber, a mãe de alguns dos filhotes, e bem pequenina com seus 13 kg, também me investigou e se afastou, instalando-se em uma plataforma nas proximidades.

Apenas Renki, um lobo mais velho que sofria de câncer nos ossos e agora se movimenta com três pernas, me deixou coçar sua cabeça por um tempo. Nenhum deles se incomodou com minha presença. Nenhum ficou mais do que ligeiramente interessado. Pareciam não perceber nem se importar com meu próprio desejo intenso de vê-los, de estar perto deles, de aprender sobre eles, de tocá-los.

Descobri o quanto uma visita aos lobos tem o poder de afetar o modo com que vemos os animais. Eu queria voltar e ajudar a criar os filhotes e continuar a visitá-los para poder dizer que um lobo adulto me conhece de alguma forma.

Mas também me perguntei se era certo manter lobos neste ambiente. Na natureza, eles caminham grandes distâncias e matam seu alimento. Estes lobos foram todos criados em cativeiro e essa nunca foi uma possibilidade para eles.

Mas, será que eu estava simplesmente satisfazendo a fantasia de estar próximo da natureza? Isso se encaixa na mesma categoria de querer fazer uma selfie com um tigre em cativeiro? O que era melhor para os próprios lobos?

Fiz essas perguntas a Goodmann. Ela disse que o parque se baseia na ideia de que conhecer esses lobos faria os visitantes se importarem mais com os selvagens, com a conservação, com a preservação da vida de carnívoros da qual nunca poderiam fazer parte.

E observou que o Parque dos Lobos funciona como uma combinação de estação de pesquisa e zoológico. Estudantes e outras pessoas do mundo inteiro disputam vagas para estágios e ajudam em tudo, desde criar os filhotes até esvaziar as armadilhas de moscas.

Essa é a razão de todos os jardins zoológicos, o que é um bom argumento. Então ela o reforçou. Contou que um dos estagiários, Doug Smith, trabalhou com a reintrodução de lobos selvagens no Parque Nacional de Yellowstone.

Smith teve um papel importante no Projeto de Restauração dos Lobos desde o início em 1995, e é o líder do projeto desde 1997. Uma manhã, eu o contatei em seu escritório na sede do parque e lhe perguntei sobre seu tempo como estagiário no Parque dos Lobos.

Criei sozinho quatro filhotes, dormi com eles em um colchão durante um mês e meio. Teve um efeito profundo em mim. Foi meu primeiro trabalho com lobos. E se transformou em minha carreira.”

A partir daí, passou a estudar lobos selvagens em Isle Royale, Michigan, e depois a trabalhar com L. David Mech, biólogo pioneiro no estudo de lobos e cientista da Pesquisa Geológica dos EUA, além de professor adjunto da Universidade de Minnesota. Por fim, foi para Yellowstone para trabalhar na restauração dos lobos no parque.

Ele disse que as questões éticas sobre a manutenção dos animais silvestres em cativeiro são difíceis, mesmo quando todos os esforços enriquecem suas vidas, mas afirmou que lugares como o Parque dos Lobos têm um grande valor, caso levem as pessoas “a pensar sobre a situação dos lobos em todo o mundo e a fazer algo sobre a questão”.

Hoje em dia, “com a conservação e a natureza mutáveis, você precisa deles”, acrescentou.

Então, disse o que todos os especialistas em lobos dizem: que, apesar de os filhotes de lobo se parecerem com os cães, não o são, e que manter um lobo ou um híbrido lobo/cão como um animal de estimação é uma péssima ideia.

Se você quer um lobo, arrume um cachorro.”

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