O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver

Não são poucas as pessoas, inclusive gente muito jovem, que sustentam a ideia de que existiu um tempo no passado onde todos viviam felizes, em uma espécie de mundo bucólico e simples sem as preocupações, pressões e condicionamentos do presente. Alguns poucos seguem achando que todo tempo passado foi melhor, enquanto outros consideram que em algum ponto de nossa história existiu uma época dourada, um paraíso terrenal estragado por nós mesmos, por nossa cobiça, nossa maldade inerente.

O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Alguns aproveitam para puxar a sardinha para a sua brasa, tratando de assimilar esse período arcádico a algum momento do passado em que suas ideias eram dominantes; a maioria limita-se a referir-se a ele como um modelo ideal para onde deveríamos caminhar, mas não o fazemos por ambição, cegueira e orgulho.

Ainda que também goste de sentir a nostalgia das coisas antigas como melhores que as atuais, sou obrigado a dissentir profundamente de todos eles. Para além de idealismos silogísticos, o passado era um lugar onde nem você nem eu quereríamos permanecer mais de uma semana, como turista com as contas pagas, mas nem “fodendo”. O passado era um lugar horrível para viver, um tempo de gente sebenta, piolhos, dor de dente, tirania, superstição, ignorância, pragas, crianças mortas e mães crianças mortas por seus filhos. O passado era uma grande e fedida merda.

Vidas breves.

Até a chegada da medicina moderna, a taxa de mortalidade infantil em todo mundo oscilava entre 20% e 30%, chegando aos 40% em épocas de fome, guerra ou pragas. Estes números mantiveram-se assim até a entrada no século XX em lugares de ordem social tradicional onde a ciência médica demorou a chegar. As causas mais frequentes eram as infecções otorrinolaringológicas, a difteria, o sarampo, a varíola e a rubéola, com ajuda da anemia. Reflita um instante sobre esta cifra: uma de cada cinco crianças nascidas vivas não chegava à adolescência (no melhor dos casos), e normalmente uma de cada três (no pior).

Este é um número pior que o pior inferno de uma nação subsaariana presente, aonde ao menos chegam a penicilina e algumas vacinas de vez em quando.
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Vamos expressar graficamente para dramatizar a coisa toda: pegue uma folha de papel em branco e escreva uma lista com nomes de dez crianças que conheça. Agora risque dois, ou três, ou até quatro, em um ano. Esse era o risco de natimortos até aproximadamente a segunda metade do século XIX no mundo mais desenvolvido, e meados do XX. A tendência a ter muitos filhos, presente em todas as culturas, é que ao menos uma percentagem deles sobreviveria para cuidar dos pais quando fossem velhos, antes que existissem as aposentadorias dos sistemas de previdência social.
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Se alguém conseguisse sobreviver a estas taxas de mortalidade infantil, causadas pela pouca diversidade alimentícia, falta de higiene e assepsia e ausência de antibióticos e vacinas, então era possível que chegasse a viver até os 60 ou 70 anos; inclusive, em alguns casos, até idades mais avançadas. Mas se fosse uma garota, estava redondamente “fodida”: as probabilidades de morrer no parto oscilavam entre 1% e 40%, normalmente de hemorragia, obstrução ou febre puerperal, quando não de aborto caseiro. Isto é, a partir de 12 ou 13 anos, assim que chegava a puberdade, porque isso de começar a se reproduzir com 18 ou mais anos é outra modernice, uma exceção na história humana que teria feito nossos antepassados se mijarem de tanto rir. “Muito passadas”, diriam.

Falando de garotas, o passado foi um péssimo momento para nascer mulher.
As idílicas sociedades matriarcais sob a tutela da deusa Gaia que pretendem algumas (e alguns) jamais existiram. Nas menos patriarcais e machistas de todas, talvez a mocinha pudesse aspirar ter a mesma educação que seus irmãos varões, mas ademais, parindo filhos. O mais normal é que fosse alguma classe de propriedade dos homens da família, em diferentes graus de submissão. Não há nenhum indício de que as amazonas tenham sido mais do que uma fantasia erótica dos escritores gregos, inspirada em mulheres guerreiras, jamais existiu uma sociedade amazônica.

No entanto se ela sobrevivesse à infância e não morresse na guerra ou da peste ou de uma febre puerperal ou qualquer outro mal, é possível que vivesse um bom punhado de anos. Como viveria é que são elas.

Piolhos, malária, tosse sangrenta e dor de dente.

Ouvimos com frequência que a cárie é uma doença da civilização, vinculada às dietas que assumimos quando inventamos a agricultura e nos sedentarizamos. É verdade que a agricultura e a sedentarização, ainda que tenham dado lugar às civilizações, foram uma ideia muito ruim à época: a expectativa de vida média de 33 anos que tínhamos quando éramos nômades, no Paleolítico Superior, caiu para menos de 30 (25 ou 28 e às vezes 18, como na Idade do Bronze). É inclusive provável que as populações nômades foram submetidas e sedentarizadas a força, como servos ou escravos agrícolas, às mãos dos aspirantes a se converter em donos da plantação, reis e imperadores. Outros acham que o processo foi mais voluntário, trocando uma maior segurança no fornecimento alimentício por um empobrecimento de sua variedade e uma menor expectativa de vida. Seja lá o que for que tenha acontecido, sentar prumo nesses terrenos insanos que chamamos terras férteis piorou a mortalidade e a qualidade de vida de quase todo mundo, até aproximadamente no século XX.

Pese a isso, a cárie não é estritamente uma doença da civilização relacionada com esta menor variedade alimentícia das comunidades sedentarizadas, como a história médica conta muitas vezes. E não o é porque está presente em numerosos crânios recuperados de períodos anteriores, como o Paleolítico; inclusive encontraram dentes do Neandertal cariados. No entanto, sua incidência era muito menor. A cárie, certamente, multiplicou-se e agravou enormemente durante o Neolítico, com a agricultura e a sedentarização.
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E o pior é que ninguém sabia como combatê-la, porque para compreender a necessidade da higiene bucal -em realidade, de qualquer classe de higiene- há que compreender primeiro a teoria dos germes. A única possibilidade era arrancar o dente, mas ficar banguela naqueles tempos também não era uma ideia muito boa, de modo que muitas vezes o sujeito aguentava a dor até que deixasse de doer, o que conduzia a infecções maxilares bem mais severas. A história da humanidade é uma história de gente desdentada, com constantes dores de dente e graves abscessos faciais, gente que tinha um hálito vomitável cheirando pior do que um esgoto. Sem analgésicos, nem antibióticos, nem nada parecido à cirurgia dental e buco-maxilo-facial contemporânea.

Nômades ou sedentários, os piolhos acompanham a espécie humana desde que surgimos, e despiolhar-se mutuamente foi uma das atividades familiares e sociais mais correntes até o surgimento dos atuais tratamentos químicos. A família que se despiolhava unida permanecia unida, ou algo assim. O caso é que passamos um bom tempo como refeição de piolhos, ao menos nos lugares com pelos abundantes. Para piorar ainda mais, a invenção da roupa permitiu a evolução e especialização de uma terceira classe destes parasitas, o piolho corporal, que nos come do pescoço aos pés. A diferença dos dois primeiros, incapazes de transmitir alguma doença em particular a mais do que as moléstias cutâneas associadas a sua presença (coceira, irritação, com consequência da insônia e debilidade), este último é um vetor conhecido do tifo, a febre das trincheiras e a borreliose. As peles e roupas resultaram ser um grande avanço para as… epidemias.
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Outra consequência perversa da sedentarização foi o surgimento da tuberculose, neste caso graças a um bacilo frequente no gado. Provavelmente trate-se da primeira doença de que tivemos consciência como um estado específico: no Egito já existiam hospitais especializados em seu tratamento lá por 1.500 a.C. Com duvidoso sucesso, pois parece que tanto o faraó Akenatón como sua esposa Nefertiti morreram por causa da tuberculose. Agora dá uma garibada na situação: se imperadores considerados como deuses morriam assim, imagine então o que acontecia com o povão.

Na Índia, os brâmanes proibiram terminantemente o casamento com mulheres cuja família tivesse um histórico de tuberculose, o que também não resultava muito eficaz. Na Europa, o tratamento mais avançado consistia em uma imposição das mãos do rei, uma REIkianagem com um resultado que todos podemos supor. Paracelso, em outra de suas pirações -o mérito de Paracelso não está no que criou, senão no que destruiu: as fraudes ainda maiores de seu antepassado Galeno, o das sangrias-, achava que a tuberculose era devida a algum órgão incapaz de cumprir adequadamente suas funções alquímicas, nem mais nem menos. Durante o século XIX, a chamada Peste Branca comia as jovenzinhas e não poucos jovenzinhos e nem tão jovenzinhos aos milhões, dando lugar a um dos temas mais característicos do Romantismo. Aleluia que chegou Robert Koch para dizer que se tratava de um micróbio, e unicamente então fomos capazes de combatê-la.

A malária é outra velha amiga -eu sei que isto já está cansando, mas é a verdade-, só recentemente erradicada nos países desenvolvidos, vinculada também às águas paradas e seus mosquitos, os campos de cultivo e a sedentarização. Na Roma clássica, a malária, a tuberculose, o tifo e a gastrenterite ventilavam a cada ano uns 30.000 cidadãos nos meses de julho a outubro. Por não mencionar a impingem (foto abaixo) ou outros males comuns e incuráveis em seu tempo, incluindo, por suposto, as doenças venéreas da antiguidade, que já dá para imaginar como eram igualmente horrorosas.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
As alternativas para nossos antepassados eram simples: ou permaneciam como nômades caçadores-coletores, presos no primitivismo Paleolítico e cada vez mais recusados e expulsos pelas comunidades fixas, ou se somavam à sedentarização total ou parcialmente, se convertendo em súditos, quando não servos e escravos, das civilizações agrícolas e pecuárias em ascensão.

Insegurança alimentícia.

Por outra parte, nem nômades nem sedentarizados tinham garantia alguma sobre a segurança de sua comida e sua água. As comunidades nômades eram pequenas e dispersas porque dependiam do que a terra quisesse dar, impossibilitadas para evoluir e se desenvolver. As comunidades sedentárias não só produziam comida abundante, mas pouco variada e de péssima qualidade, durante longo tempo, senão que estavam submetidas a toda classe de pragas e putrefações. Não havia esgoto, cagavam e mijavam perto de suas casas, essa merda toda ia para o lençol freático e nem precisa falar o resto.

Essas estupendas espigas de milho, esse trigo perfeitamente seguro ou essa carne com garantias veterinárias são o resultado de geração sobre geração de hibridações, cultivo seletivo e progresso nas ciências agropecuária e médica. No passado tinham que se virar com coisas mais parecidas ao farro, ao joio e a cevada, que são basicamente um asco como alimentos recusados até mesmo por porcos, e com carnes e pescados obtidos e conservados de maneiras realmente criativas. Na imagem abaixo dá para ver como era o trigo antigo (direita) em comparação com o moderno (centro e esquerda).
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Hoje em dia nos queixamos um monte de que a comida e a água têm corpos estranhos, de que estão cheios de agrotóxicos e venenos e de que é tudo artificial. Lamentavelmente, as alternativas seriam o cólera, a gastrenterite, a pústula maligna, a triquinose, a salmonela, a listeriose, o botulismo, a polirradiculoneurite aguda, a gangrena gasosa, a hepatite, a diarreia infantil e outras “diliças” do estilo que no passado constituíam uma permanente roleta russa para a espécie humana.

As epidemias dos cultivos e do gado não só os matavam, provocando constantes fomes, senão que inclusive quando não matavam podiam contaminá-los de maneira invisível para um mundo sem microscópios. São especialmente curiosos os casos de ergotismo, um fungo dos cereais com efeitos muito parecidos ao LSD, que ademais passa aos bebês mediante o leite materno.

A potabilidade da água merece parágrafo a parte. Antes que aprendêssemos a separar as águas fecais e jogar cloro e outros produtos químicos, beber água era tão perigoso quanto puxar o pino de uma granada e manter a pressão para que não explodisse. De fato, as pessoas, se podiam evitar, não bebiam água. Nem também muito leite, exceto o materno, pois antes que aprendêssemos a pasteurizá-lo (pasteurizar vem de Luis Pasteur, o pai da microbiologia moderna) provocava tuberculose bovina em massa, também polineuropatia desmielinizante inflamatória, enterite, pústula maligna (de novo) e mais um monte de porcarias. Por conseguinte, até as crianças bebiam vinho, cerveja ou cachaça se podiam se permitir a esse luxo, não muito, mas um pouquinho sim, pela presença do álcool, que é um conhecido antisséptico.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Por verdade, para comer minimamente bem havia que ser rico, mas rico mesmo, não é rico pouca merda não! A comida era muito cara de produzir, conservar, transportar e comercializar, e estava sujeita a numerosos imprevistos. O preço do pão foi uma questão de estado durante milênios, sabendo que um aumento excessivo devido à escassez ou a especulação podia ocasionar revoltas e subversão, dado que as pessoas não tinham outra coisa para comer: só tinha pão e de péssima qualidade. Por isso o pãozinho, apesar de horrível continua tendo tanta importância na sociedade atual.

Livros revolucionários clássicos como “A Conquista do Pão”, do anarquista Pyotr Kropotkin, nos transmitem uma ideia do quão complicado era alimentar as pessoas e a miséria geral em que viviam. Com frequência, uma família não podia pagar as calorias necessárias para alimentar todos seus membros; fazê-lo de forma saudável ou ao menos variada era uma fantasia de aristocratas, arcebispos, reis e papas. Ficar gordo era coisa de rico, era moda e a referência estética de beleza e sucesso social, porque só o pessoal que tinha dinheiro para queimar e os muito poderosos podiam permitir-se; as pessoas normais eram sempre famélicas e exibiam os ossos dos corpos como estas cadavéricas modelos da atualidade, eram desnutridas com o excesso de trabalho físico. Enfim… ser magro era coisa de pobre. Agora os pobres estão gordos (ou seria inchados?), ao menos no mundo desenvolvido, devido à má nutrição pese ao excesso de calorias; e os mais acomodados e endinheirados podem se permitir alimentos cuidados, orgânicos (uma falácia?) e tratamentos que permitem estar em forma de palitos.

Sujeira, ignorância, superstição, tirania.

O passado era um lugar sujo e fedorento, com ratos e parasitas por todas as partes. Onde tinha rede de esgoto, costumava ser aberto; só os ricos podiam pagar saunas, banhos e coisas do estilo. Na maior parte das casas, a higiene era um conceito desconhecido e desnecessário, porque ninguém sabia nada de micróbios.

Que demônios. Éramos ignorantes como pedras: uma multidão vil e analfabeta presa por tiranos, demagogos, clérigos, santarrões e toda classe de superstições. A alfabetização era um segredo gremial de escribas, monges e sábios; a maior parte das pessoas não sabia ler ou escrever nem seu próprio nome. As crianças não começaram a ter o costume de frequentar a escola sistematicamente até meados do século XIX. Até os nobres, e às vezes os reis, eram mais brutos que seus cavalos. O príncipe dos contos era um asno tosco e brutal. E o venerável sábio local de barbas brancas dos filmes antigos, era em realidade um analfabeto desdentado e fedorento, supersticioso e machista que adorava mandar bruxinhas virgens à fogueira.
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
As bruxas e em geral qualquer mulher, por sua vez, tinham exatamente os mesmos direitos que um pedaço de carvão em uma casa às escuras. Quanto as crianças, não eram mais que uma boca a alimentar, uma carga tratada a pau que ocupava o último lugar da casa, frequentemente abaixo do gado na ordem social. Isso de protegermos as criancinhas é outra modernice; no passado ninguém colocaria as necessidades e direitos de uma criança acima de um adulto capaz de ganhar seu próprio pão. Quanto às garotas, só não eram violadas quando pequeninas por respeito à honra de seu pai, supondo que o pai fosse um homem livre e já tivéssemos chegado a esse grau de civilidade. Se nascesse escrava ou em uma sociedade que ainda não tivesse atingido esse ponto, melhor nem falar o que acontecia.
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Em um mundo assim, toda classe de fraudes, medos, religiões e tiranias falavam sempre mais alto em amplas massas sociais, desprovidas das mais tênues bases intelectuais para desafiá-los. A forma comum de governo era à base da bordoada. Não entendeu o que deve ser feito, toma pancada! Não existia nada parecido à justiça; a ideia de que deveriam julgar com um juiz imparcial e um advogado defensor sob o império da lei só se estende ao povo a partir dos processos revolucionários do século XVIII. A vendeta, ordálio e Talião eram formas de justiça comum, bem como castigar até os delitos mais leves com tormentos infames.

Para os partidários que acham que devemos voltar ao endurecimento das penas, basta saber que existiu um tempo em que até o ladrão de galinhas ia para a roda de desmembramento, sobretudo se o dono da galinha pertencesse às castas superiores, e o absurdo é que mesmo assim nunca deixou de ter ladrões, violadores ou assassinos. De fato, existiam muitos mais do que agora: a miséria, a fome, a opressão e a incultura impeliam constantemente grupos da população para a delinquência, desde o pequeno roubo até o bandoleirismo e a pirataria. Em realidade, não tinha justiça nenhuma, no sentido atual do termo: só a vontade dos poderosos.

Há quem, por absurda idealização, ache que estes mundos do passado podiam ser melhores que o mundo presente. Não foram, nunca foram, jamais o foram: para a imensa maioria dos que viveram ali, constituíam um inferno só aceitável porque, ignorantes, não conheciam nada melhor e porque criam cegamente em paraísos religiosos. Mas se tivessem dito para qualquer pai ou mãe de 100.000 a.C., de 100 a.C., de 100 d.C., e até de 1.900 d.C., que chegaria um tempo em que poderia levar seu filho doente a um hospital com médicos e enfermeiros de roupas branquinhas, antibióticos, analgésicos, e tudo o mais, e que depois poderia levá-lo curado para casa para banhá-lo com água quentinha que sai diretamente de uma torneira por um preço ridículo -sim, ridículo: a lenha e o carvão custavam o salário de um mês-, colocá-lo em uma cama sem piolhos, carrapatos ou pulgas, cobri-lo com uma manta com cheiro de flores e dar-lhe de comer toda classe de alimentos e água filtrada tratada com flúor, ao certo teria problema para compreender, mas se tivesse a possibilidade de vislumbrar, ao certo teria pensado que este só poderia ser o paraíso dos deuses benevolentes em suas profecias. E então assinaria qualquer coisa para nunca mais sair daqui de 2013. Ainda que seja quase certo que não poderia. Não sabia assinar, coitado!
O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver
Apesar do fatalismo dos pessimistas, a humanidade demonstrou constantemente sua capacidade de melhorar, de evoluir, de progredir para um futuro melhor. Para isso tivemos que nos desfazer de um montão de obstáculos do passado, de desfazer-nos dos dogmas religiosos, estudar profundamente e transformar a realidade de formas radicais, às vezes pacíficas e às vezes violentas. E teremos que seguir fazendo se quisermos melhorar mais ainda. Em todo caso, nostalgia é bom, valeu a pena e segue valendo, mas que permaneça de forma incólume somente como uma lembrança boa. Prefiro morrer com morfina no mais vagabundo dos hospitais de nosso tempo que sem morfina em qualquer palácio suntuoso daquela Arcádia infeliz.

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