Os 110 Anos Da Constelação De Machado De Assis.

Os 110 Anos Da Constelação De Machado De Assis.
Por ocasião dos 110 anos de criação da Academia Brasileira, nada mais justo do que homenagear o fundador desta constelação de quarenta astros de primeira magnitude da cultural nacional, recordando-o como um dos escritores que se ocuparam da astronomia em suas obras. O poeta canta, endeusa, namora esses pregos de diamante do dossel azul que nos cerca o planeta; mas lá vem o astrônomo que diz muito friamente – nada! isto que parece flores debruçadas em mar anilado, ou anjos esquecidos no transparente de uma camada etérea – são simples globos luminosos e parecem-se tanto com flores, como vinho com água. 23875_562852317069531_2126658182_nPor ocasião dos 110 anos de criação da Academia Brasileira, nada mais justo do que homenagear o fundador desta constelação de quarenta astros de primeira magnitude da cultural nacional, recordando-o como um dos escritores que se ocuparam da astronomia em suas obras. O poeta canta, endeusa, namora esses pregos de diamante do dossel azul que nos cerca o planeta; mas lá vem o astrônomo que diz muito friamente – nada! isto que parece flores debruçadas em mar anilado, ou anjos esquecidos no transparente de uma camada etérea – são simples globos luminosos e parecem-se tanto com flores, como vinho com água.
Esta comparação machadiana entre o poeta e o astrônomo, em uma de suas crônicas para O Espelho, em setembro de 1959, mostra que a astronomia, ou pelo menos os astrônomos, não estavam longe de suas preocupações cotidianas. Aliás, não são poucas as referências às estrelas, aos cometas e aos planetas em suas páginas, quer na poesia, no romance, nas crônicas e até mesmo nos seus ofícios como funcionário do Ministério da Agricultura. Sobre os cometas existe uma seqüência que mostra como o atraíam esses astros caudados.
Em 13 de junho, o astrônomo australiano John Tebbutt (1834-1916) anunciou a passagem da Terra pela cauda do cometa. Em crônica no Diário do Rio de Janeiro, de 3 de julho de 1864, Machado de Assis escreveu:
Estávamos tão contentes, tão tranqüilos, tão felizes – iludíamo-nos uns aos outros com tanta graça e tanto talento – abríamos cada vez mais o fosso que separa as idéias e os fatos, os nomes e as coisas fazíamos da Providência a capa das nossas velhacarias – adorávamos o talento sem moralidade e deixávamos morrer de fome a moralidade sem talento – dávamos à vaidade o nome de um justo orgulho -usávamos ao juiz de paz o primeiro que nos injuriasse – dissolvíamos a justiça e o direito para aplicá-los em doses diversas às nossas conveniências – fazíamos tudo isto, mansa e pacificamente, com a mira nos aplausos finais, e eis que se anuncia uma interrupção do espetáculo com a presença de um Átila cabeludo!.
Em crônica de 17 de outubro de 1864, no Diário do Rio de Janeiro, Machado de Assis relata um temporal que durou dez minutos. Se tivesse durado duas horas teria deixado, segundo Assis, a nossa cidade reduzida a um montão de ruínas. Para o autor de Dom Casmurro, os tufões eram os batedores do cometa Newmager. Retoma nesta crônica os seus comentários anteriores sobre o cometa Tebbutt (1861II).
Em Bons Dias!, crônica publicada na Gazeta de Notícias, em 13 de fevereiro de 1889, foi o Barnard (1889I), descoberto em 2 de setembro de 1888 pelo astrônomo norte-americano Edward Emerson Barnard (1857-1923), e observado no Imperial Observatório do Rio de Janeiro, no Morro do Castelo, por Luís Cruls e Henrique Morize (1860-1930). Em fins de janeiro de 1889, esse cometa foi observado a olho nu, como objeto de quinta magnitude. Em sua crônica, Machado de Assis começou expondo o seu inconformismo com os políticos em especial, com os da Câmara dos Deputados, quando recebeu um emissário do céu que lhe perguntou se já havia visto o cometa:
– Há algum cometa?
– Há sim, senhor, vá ver o cometa; aparece às 3 horas da manhã, e de onde se vê melhor é do morro do Neco, à esquerda. Tem um grande rabo luminoso. Vá meu amigo; quem não entende das coisas, não se mete nelas. Vá ver o cometa.
As noites estreladas de março – época dos anos em que vinte e duas das trinta mais brilhantes estrelas estão visíveis – inspirou Machado de Assis, em Dom Casmurro, um céu que recolhe a chuva e acendem as estrelas, não só as já conhecidas, mas ainda as que só serão descobertas daqui a muitos séculos, numa consideração profunda sobre a evolução permanente da ciência.
Às vezes, eu contava a Capitu a história da cidade, outras dava-lhe notícias de astronomia; notícias de amador que ela escutava atenta e curiosa, nem sempre tanto que não cochilasse um pouco. Na noite em que passaram mirando, da janela de Glória, o mar e o céu, Bentinho falava sempre do céu, às vezes de Sírius e do planeta Marte, para a sua Capitu que se perdia pois como reconheceria, mais tarde, suas lições de astronomia têm dessas confusões, entre distâncias e tamanhos. Todavia, reconhecia Bentilho: só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozando no céu os seus desafetos aumentarão as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas.
Lua ejetada do Pacífico?
Em fins do século XIX, as descobertas de asteróides, planetas situados entre as órbitas de Marte e Júpiter provocavam um grande interesse, pois o primeiro e o maior deles – Ceres – havia sido descoberto em 1801 pelo astrônomo italiano Giuseppe Piazzi (1746-1826). Em conseqüência da descoberta de um novo asteróide, Machado de Assis escreveu, em A Semana, a 23 de dezembro de 1894, um breve comentário ficcional, talvez influenciado pela teoria do astrônomo inglês George Howard Darwin (1845-1912), hoje totalmente ultrapassada, que explicava a origem da Lua com uma parte do globo terrestre que teria sido ejetada do Oceano Pacífico:
Andará a Terra com dores de parto, e alguma cousa vai sair dela, que ninguém espera nem sonha? Tudo é possível! Quem sabe se o planeta novo não foi o filho que ela deu à luz por ocasião dos tremores? Assim podemos fazer uma astronomia nova; todos os planetas são filhos do consórcio da terra e do Sol, cuja primogênita é a lua, anêmica e solteirona. Os demais planetas nasceram pequenos, cresceram com os anos, casaram e provocaram o céu com estrelas. Aí está uma astronomia que Júlio Verne podia meter em romances, e Flammarion em décimas.
Constelações, fenômenos e astrônomos
Sobre as constelações, Machado de Assis, em Quincas Borba faz de Rubião um contemplador dos céus: olhou para o céu; lá estava o Cruzeiro … Oh! se ela houvesse consentido em fitar o Cruzeiro! Outra teria sido a vida de ambos. A constelação pareceu confirmar este modo de sentir, fulgurando extraordinariamente; e Rubião quedou-se a mirá-la, a compor mil cenas lindas e namoradas, – a viver do que podia ter sido quando a alma se fartou de amores nunca desabrochados, acudiu à mente do nosso amigo que o Cruzeiro não era só uma constelação, era também uma ordem honorífica. Daqui passou a outra série de pensamentos. Achou genial a idéia de fazer do Cruzeiro uma distinção nacional e privilegiada. Já tinha visto a venera ao peito de alguns servidores públicos. Era bela, mas principalmente rara.
Na realidade, a astronomia está sempre presente não só como astros, fenômenos, como também no nome dos mais expressivos astrônomos de sua época, tais como: o astrônomo e do matemático francês Pierre Simon de Laplace (1749-1827), a quem Machado se refere sem esquecer a sua famosa obra Mecânica Celeste; o astrônomo e escritor francês Bernard Le Bovier de Fontenelle (1657-1757), por sua obra de divulgação da astronomia; Galileu (1564-1642) pelo seu processo em que foi vítima da autoridade pública, e o grande matemático maranhanse Joaquim Gomes de Souza (1829-1864), autor de célebre tese sobre o modo de indagar novos astros sem auxílio de observações diretas, em 1858. Além do escritor e astrônomo francês Camille Flammarion (1842-1925) e o escritor de ficção científica Jules Verne (1828-1905), o escritor de Brás Cubas também conheceu na Livraria Garnier dois grandes astrônomos do Imperial Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, o francês Emmanuel Liais e o belga Louis Cruls, com quem provavelmente discutiu e, sem dúvida, questionou sobre suas curiosidades astronômicas, tão vivas e atuais na obra machadiana.

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