Práticas religiosas ativam cérebro como amor, sexo e drogas

Momento espiritual liga áreas de recompensa e concentração, aponta estudo

Já há algum tempo a ciência vem se interessando em decifrar como as experiências espirituais e religiosas se manifestam no cérebro humano e afetam, por exemplo, a saúde das pessoas. Uma das descobertas mais recentes, de acordo com neurocientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, e publicadas na revista “Neuroscience Social” é que essas práticas ativam áreas cerebrais ligadas à concentração e à recompensa, assim como acontece em situações em que há amor, sexo, drogas, música e jogos.

Crença. Estudo foi feito com mórmons, mas bem-estar é observado em outras religiões

Momento espiritual liga áreas de recompensa e concentração, aponta estudo

Para entender como o cérebro humano realiza essa atividade tão sutil, foram analisados 19 adultos jovens, com idades médias de 27 anos, sendo sete mulheres e 12 homens, e membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mais conhecidos como mórmons) durante a prática devocional.

Eles então foram submetidos a quatro tarefas em que esses sentimentos espirituais poderiam se manifestar, como citações de líderes religiosos mundiais, leituras de passagens, estímulos audiovisuais com vídeos produzidos pela igreja e descanso. Após o experimento, os participantes relataram ter identificado sentimentos de paz, sensações físicas de calor, batimento cardíaco mais acelerado e respiração mais intensa.

Já os exames de ressonância magnética funcional do cérebro mostraram exatamente a localização desse sentimento de fé na mente. Ao passar por essas experiências, foram ativados o núcleo accumbens – região responsável pelo processamento dos circuitos de recompensa –, o córtex pré-frontal medial – área ligada ao julgamento de raciocínio moral – e outras regiões ligadas a concentração e foco.

Ainda que o experimento tenha sido aplicado a devotos mórmons, o mesmo resultado de bem-estar possivelmente seria encontrado também em praticantes de outras religiões, segundo o professor de psiquiatria Alexander Moreira de Almeida, membro do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

A questão levanta, porém, diz o professor, duas hipóteses que ainda devem ser investigadas. Ele questiona se a ativação dessas áreas estaria levando a essas experiências espirituais ou o contrário, ou seja, se passar pelas experiências levaria à ativação dessas áreas no cérebro.

Segundo Almeida, outras pesquisas já demonstraram que, de modo geral, as pessoas com maior envolvimento religioso tendem a ter melhores níveis de felicidade, menos casos de depressão, suicídio e de uso de drogas, mas que também algumas formas de religiosidade podem ser deletérias.

Espiritismo. Alexander Moreira também pesquisou como o cérebro se comporta durante experiências espirituais, como a mediunidade e o sofrimento ligado a isso.

Para religiosos, a fé é algo que não precisa de comprovação

Momento espiritual liga áreas de recompensa e concentração, aponta estudo

O que é a fé?

O teólogo e padre José Cândido, da Paróquia São Sebastião, em Belo Horizonte, classifica os resultados de pesquisas como essas como “interessantes”, mas reitera que esses achados não são fundamentos para a fé.

“A objetividade do ato de fé e sua credibilidade não se fundamentam nesse tipo de pesquisa, mas unicamente numa pessoa, que é Cristo, e isso basta. Fé não é crença ou crendice, ela se baseia em uma revelação histórica. Acreditamos na história de que Deus nos revelou e se consuma em Cristo. Tudo o que vem além disso é interessante, mas não afeta a fé”, afirma.

Essa também é a opinião da gerente de comunicação e marketing do Hospital Evangélico, Ceci Gibram. “Para quem crê, a fé não é algo baseado no que se vê e se comprova. Não é científica, é da ordem sobrenatural, está além da dimensão da compreensão humana e terrena. Esse tipo de informação cientifica é irrelevante”.

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