Esta é a face de um brasileiro de 10 mil anos

Reconstrução recente joga mais lenha no debate da imigração para a América

Parece um parente de Luzia, a paleolíndia brasileira que, ao ser reconstruída em 1999, pelo especialista forense britânico Richard Neave, causou um rebuliço na imprensa e na comunidade internacional.

A face de uma grande polêmica arqueólogica | Crédito: Cicero Moraes

A reconstrução não se parecia em nada com os índios atuais, mas com uma pessoa de características negroides, como os africanos subsaarianos ou os melanésios e aborígenes australianos. Achada em 1975, em Lagoa Santa, Minas Gerais, ela foi datada de 11500 anos atrás, então o mais antigo fóssil humano conhecido nas Américas. Ela continua polêmica, como veremos, mas perdeu esse trono: fósseis mais antigos foram encontrados.

O imponente busto de Apiúna / Cícero Moraes

O imponente busto de Apiúna / Cícero Moraes

Nosso amigo acima não é nenhuma celebridade (ao menos até agora). Apelidado de Apiúna, ele viveu há “meros” 10 mil anos – separado de Luzia por mais ou menos a mesma distância temporal que nós temos com o fim do Império Romano. Foi encontrado pelo arqueólogo húngaro-brasileiro Mihaly Banyai, no Parque Estadual do Sumidouro, em Lagoa Santa, e está no Museu Arqueológico da Lapinha, dirigido por sua filha, Erika.

A pedido dela, o designer 3D Cícero Moraes deu a ela o mesmo tratamento que Richard Neave deu a Luzia há quase 20 anos. No mesmo trabalho, ele reconstruiu outro esqueleto, batizado de Diarum (veja abaixo). Mais jovem, ele veio de outro sítio de Lagoa Santa. A pedido da diretora do museu, o designer resolveu experimentar uma outra variação de cabelo possível.

Segundo Erika, Banyai Diarum quer dizer "onça poderosa" / Cícero Moraes

Segundo Erika, Banyai Diarum quer dizer “onça poderosa” / Cícero Moraes

Em 1999, Neave decidiu que Luzia era negra através da análise do formato de seu crânio. Cícero decidiu por um teste cego. “Os crânios digitalizados foram enviados ao Dr. Marcos Paulo Salles Machado, Perito Legista do IML do Rio de Janeiro, que não tinha informação alguma acerca da origem do material”, afirma, em entervista à AH. “Ele examinou e nos forneceu os dados: homem, africano, 40-50 anos.” Cícero continuou a partir daí.

Tirando termos um paleoíndio com um visual completamente diferente dos índios, qual é a polêmica, então? Isso muda tudo o que é (ou tem sido) consenso sobre a colonização das Américas. Vestígios fósseis e testes de DNA (com uma exceção, veja abaixo) indicam que os índios do continente inteiro são descendentes de levas de migrantes vindos da Sibéria, através do Estreito de Bering, há cerca de 14 mil anos. E isso aparece em seu fenótipo, com características similares às dos leste-asiáticos. Se Luzia e Apiúna são mesmo africanos ou austronésios, a história da ocupação humana da América precisa ser reescrita. O continente foi colonizado mais de uma vez.

As etapas da reconstrução / Cícero Moraes

As etapas da reconstrução / Cícero Moraes

E, sim, existe um “se” aqui. A cor, a textura dos cabelos, o formato exato do nariz, nada disso pode ser tirado diretamente de um fóssil. O que Neave a agora Marcus Paulo Machado fizeram foi pegar um crânio e agir como um especialista forense moderno confrontado diante de um caso policial. Pelo formato, eles dizem “negro”, “branco”, “asiático”. Esse método sofreu várias críticas de antropólogos, que afirmam que a técnica forense se baseia em velhas ideias racialistas e os crânios em Lagoa Santa são compatíveis com o fenótipo dos paleoíndios que vieram da Sibéria.

Apiúna e Diarum no museu / Erika Banyai

Estariam então a reconstruções equivocadas? Fiquemos com isso para terminar: em 2015, um teste genético revelou que algumas tribos da Amazônia – e só elas – tem marcadores de DNA típicos de aborígenes e melanésios – e também siberianos. Terá o povo de Luzia e Apiúna tido o mesmo fim que os neandertais, absorvidos e extintos?

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