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Como evitar que hackers ‘invadam’ seu cérebro no futuro

Parece um cenário digno de episódio da série distópica ‘Black Mirror’ – mas não é tão impossível quanto parece. Imagine ser capaz de navegar por suas memórias como se fosse em uma linha do tempo do Facebook, revivendo em nítidos detalhes seus momentos favoritos da vida e guardando os mais queridos. Agora imagine uma versão distópica do mesmo futuro, no qual hackers roubam essas memórias e ameaçam apagá-las se você não pagar um resgate.

Como evitar que hackers ‘invadam’ seu cérebro no futuro
Pode soar longe da realidade, mas o cenário não é tão impossível quanto parece. ABRINDO A CABEÇA Avanços no campo da neurotecnologia nos deixaram mais próximos da possibilidade de melhorar e turbinar nossas memórias, e em algumas décadas poderemos também ser capazes de manipulá-las e reescrevê-las. A tecnologia que provavelmente nos permitirá esses feitos é a dos implantes cerebrais, que estão rapidamente se tornando ferramentas comuns para os neurocirurgiões. Os implantes produzem a chamada estimulação profunda no cérebro, a DBS (da sigla em inglês, deep brain stimulation), para tratar gama ampla de condições, dos tremores da doença de Parkinson ao TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

Cerca de 150 mil pessoas no mundo já passaram por tratamentos experimentais com os implantes.

A tecnologia está sendo cada vez mais pesquisada nos tratamentos para depressão, demência, síndrome de Tourette e outras doenças psicológicas.

Pesquisadores estão agora começando a explorar os implantes no tratamento de distúrbios que afetam a memória, como os causados por eventos traumáticos.

A Agência de Projetos de Pesquisa em Defesa Avançada dos EUA (Darpa, em inglês) tem um programa para desenvolver e testar uma “interface neural sem fio totalmente implantável” para ajudar a restaurar a perda de memória em soldados afetados por danos traumáticos ao cérebro.

Superpoderes mentais

“Eu não me surpreenderia se um implante de memória estivesse disponível no mercado dentro dos próximos dez anos – essa é a escala de tempo de que estamos falando”, diz Laurie Pycroft, uma pesquisadora do departamento de ciências cirúrgicas na Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Em 20 anos, a tecnologia pode ter evoluído o suficiente para nos permitir “capturar” os sinais que constroem nossas memórias, turbiná-los, e redirecioná-los de volta ao cérebro.

No meio do século, é possível que tenhamos ainda mais controle, com a habilidade de manipular memórias.

‘Sequestro de memória’

Mas o controle também pode ter consequências ruins. Se essa habilidade cair nas mãos erradas, as consequências podem ser “gravíssimas”, diz Pycroft.

Se um hacker invadir um neuroestimulador de um paciente com doença de Parkinson, por exemplo, e alterar as configurações, ele poderia influenciar os pensamentos e comportamento do paciente, ou mesmo causar paralisia temporária.

Um hacker também poderia ameaçar apagar ou reescrever memórias.

Se os cientistas conseguirem decodificar os sinais neurais das nossas memórias, então os cenários podem ser infinitos: pense na quantidade de informação valiosa que hackers mal intencionados poderiam coletar invadindo os servidores do hospital de veteranos em Washington, por exemplo.

Avanços no campo da neurotecnologia são positivos, mas escondem alguns riscos
Como evitar que hackers ‘invadam’ seu cérebro no futuro

Em um experimento em 2012, pesquisadores da Universidade de Oxford e da Universidade de Berkeley, na Califórnia, conseguiram desvendar informações pessoais como senhas de cartão de crédito apenas observando as ondas cerebrais de pessoas usando um headset (conjunto com microfone, óculos de visão 3D e fone de ouvido) para jogos virtuais.

Controle do passado

“A possibilidade de ‘sequestro de cérebros’ e de alterações maliciosas de memória gera uma variedade enorme de desafios para a segurança – algumas bem novas e únicas”, diz Dmitry Galov, pesquisador de segurança virtual da empresa Kaspersky Lab.

A Kaspersky e a Universidade de Oxford colaboraram em um projeto para mapear potenciais ameaças e formas de ataque envolvendo essas novas tecnologias.

“Até no estágio atual de desenvolvimento – que é mais avançado do que as pessoas se dão conta – há uma evidente tensão entre a saúde e a segurança do paciente”, diz o relatório O Mercado da Memória: Preparando-se para um Futuro onde as Ameaças Virtuais Miram seu Passado, publicado pelo grupo.

Não é impossível imaginar governos autoritários do futuro tentando reescrever a história interferindo com a memória das pessoas, e até criando novas memórias, diz o artigo.

“Dá até para imaginar essa tecnologia sendo usada para mudar o comportamento das pessoas. Você pode fazer uma pessoa mudar imediatamente o comportamento estimulando a parte do cérebro que gera emoções indesejáveis”, diz Galov à BBC.

E vice-versa: também é possível seria possível encorajar determinado comportamento estimulando a parte do cérebro que gera prazer e alegria.

Acesso não autorizado

Hackear dispositivos médicos conectados a pessoas é, na verdade, uma ameaça que já existe. Em 2017, autoridades americanas fizeram um recall de 465 mil marca-passos depois de avaliar que eles estavam vulneráveis à ataques cibernéticos.

A FDA, agência americana de controle de remédios e alimentos, disse que pessoas mal intencionadas podem interferir com os mecanismos, mudando o ritmo cardíaco de alguém ou acabando com a bateria, o que poderia provocar morte.

Com o recall, ninguém foi ferido, mas a agência afirmou que com aparelhos médicos cada vez mais conectados, redes de hospitais, cirurgias remotas, etc, há um aumento do risco de pessoas mal intencionadas explorarem as vulnerabilidades de segurança virtual. “Algumas (dessas vulnerabilidades) podem afetar como os aparelhos médicos operam.”

É um problema para muitas áreas médicas, e a Kaspersky acredita que, no futuro, mais aparelhos serão conectados e monitorados remotamente. Médicos só serão chamados para assumir situações de emergência.

Defesas virtuais

Felizmente, reforçar a segurança virtual no início do planejamento e desenvolvimento de aparelhos pode mitigar a maior parte dos riscos.

Mas a medida mais importante, segundo Galov, é educar médicos e pacientes sobre precauções a serem tomadas, como criar senhas fortes.

O fator humano, diz ele, é uma das maiores vulnerabilidades, porque não podemos esperar que os médicos se tornem especialistas em segurança virtual e “qualquer sistema é tão seguro quanto sua parte mais fraca”.

Pycroft diz que, no futuro, implantes cerebrais serão mais complexos e mais amplamente usados para tratar um amplo conjunto de doenças. “A confluência desses fatores provavelmente deve tornar mais fácil e atraente realizar um ataque usando implantes de pacientes”, diz ele.

“Se não criarmos soluções para a primeira geração de implantes, a segunda e terceira gerações serão bastante inseguras.”

Travesti, trans, drag, identidade de gênero e mais: entenda a diferença

O que é ser cis ou trans? Drag queen é a mesma coisa que travesti? E os crossdressers no meio disso? Muitas dúvidas relacionadas à diversidade e terminologia surgem quando essa parcela da comunidade LGBT é posta em evidência. Mas muitos ainda confundem o que realmente é uma questão de gênero ou só forma de se vestir.

Travesti, trans, drag, identidade de gênero e mais: entenda a diferença

Com o auxílio de Amanda Valéria Luna de Athayde, diretora do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Universa elaborou este glossário de gênero, para esclarecer alguns dos termos mais utilizados. Confira:

Afinal, o que é ensinado em aulas de educação sexual nas escolas?

Identidade de gênero

É a forma como a pessoa se vê, seja mulher, homem ou outra denominação dentro do espectro de gênero. Não é uma ideologia. Pessoas cujo sexo biológico, ou seja, os genitais, estão de acordo com a forma como elas se veem são consideradas cisgênero –cis na abreviação.

Por exemplo: se ao nascer o bebê é registrado como menina e ao longo da vida ela continua se identificando dessa forma, ela é uma mulher cis. Aqueles cujo sexo biológico está em desacordo com a identidade de gênero são chamados de transgêneros –ou somente trans. E tem quem não se identifica com um gênero em específico: são as pessoas não-binárias —que não se identificam como só homem ou só mulher.

Identidade de gênero não tem a ver com orientação sexual: a orientação específica por quem você se atrai. Pessoas cis e trans podem ser heterossexuais, bissexuais ou homossexuais.

Expressão de gênero

É o jeito que a pessoa se apresenta ao mundo, e pode não concordar completamente com o gênero dela. Uma mulher pode se vestir de forma considerada mais “masculinizada” e ainda se identificar como mulher, e vice-versa. Como o nome diz, é somente uma expressão da aparência, não uma identidade de gênero.

Androginia

Pessoas andróginas têm feições que podem ser consideradas masculinas ou femininas. Nem toda pessoa andrógina está em conflito com seu gênero: muitas se identificam com um gênero em específico e também se sentem confortáveis com a aparência ambígua. Também não é uma identidade de gênero.

Transição de gênero

É o processo pelo qual pessoas trans passam para adequar seu corpo à sua identidade de gênero. Pode ser feito somente com o uso de hormônios para alterar as feições –homens transgêneros tomam, principalmente, a testosterona para adquirir barba e engrossar a voz; mulheres trans usam o estrogênio para afinar a voz, crescer seios e feminilizar o rosto e o corpo. Algumas pessoas trans também passam por procedimentos cirúrgicos: a cirurgia de redesignação sexual, conhecida vulgarmente por “mudança de sexo”, é a mais conhecida.

Transgênero

Transgênero é o nome usado atualmente para abarcar as pessoas trans. Um homem transgênero é alguém que foi identificado como mulher ao nascer e, ao longo da vida, passou a se reconhecer como homem. A mulher transgênero é o contrário: alguém nascido e classificado como homem descobriu com o passar do tempo que, na verdade, é uma mulher.

Transexual

Termo usado antigamente para falar sobre pessoas transgênero. Está em desuso para não dar a impressão de que ser trans é uma orientação sexual.

Travesti

Outro termo, mais comum em países como Brasil, Portugal e Espanha, para falar sobre mulheres transgêneros. Antes, acreditava-se que as travestis eram as mulheres trans que não estavam interessadas em realizar a cirurgia de readequação genital, mas essa definição já não se aplica mais. Para saber se a pessoa se vê como mulher trans ou travesti, o ideal é perguntar, pois trata-se de uma questão de identificação. Travestis devem ser tratadas sempre no feminino: “a travesti”.

FTM

Do inglês, é a sigla para a expressão “Female to Male” (mulher para homem), usada por homens transgêneros para explicar qual é a natureza de sua sua transição.

MTF

Também do inglês, significa “Male to Female” (homem para mulher). Usada por mulheres transgêneros para explicar sua transição.

Crossdresser

São, normalmente, homens que gostam de se vestir com roupas consideradas femininas de forma casual. Também não é uma identidade de gênero: crossdressers não têm conflito com o gênero que possuem e podem ser heterossexuais.

Drag queen

É uma performance artística, que “brinca” com os padrões de gênero. Pessoas que fazem drag exageram suas feições com maquiagem e enchimentos pelo corpo. Também não é uma identidade de gênero, somente uma forma de entretenimento. Existem drag queens, que performam como uma versão exagerada da feminilidade, e drag kings, que questionam a masculinidade. Qualquer pessoa pode fazer drag.

Transfobia

Nome dado para atos de preconceito contra pessoas transgênero. A transfobia pode se manifestar como exclusão social, agressão verbal ou física.

Disforia de gênero

A disforia é um transtorno psicológico. Ela acontece quando a pessoa tem uma aversão extrema ao próprio corpo, por estar em desacordo com sua identidade de gênero. A disforia precisa ser diagnosticada por um psiquiatra, e nem toda pessoa trans sofre do transtorno.

https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2019/01/29/glossario-entenda-a-diferenca-entre-trans-crossdresser-drag-e-mais.htm

 

Com acelerador de partículas, brasileiros observam neurônios em 3D

Visualização da estrutura pode auxiliar no estudo de alzheimer e parkinson

Um neurônio em três dimensões. Foi o que cientistas brasileiros obtiveram ao unir microtomografia de raio X feita a partir de um acelerador de partículas.

Neurônios em 3D

Neurônios em 3D

O resultado do trabalho pode, futuramente, impactar a compreensão da neurodegeneração e de doenças como alzheimer e parkinson.

A técnica, que parece complexa, pode ser resumida de uma forma simples. Trata-se de girar uma amostra do cérebro em frente a um feixe de raios X. Depois, como em um quebra-cabeças, as 2.048 imagens obtidas são montadas com matemática e computação. Assim forma-se a imagem do cérebro e
dos neurônios em 3D

Uma das principais vantagens do método é sua praticidade. “Conseguimos uma imagem da célula no estado íntegro dela. Ela está ali no órgão, não tivemos que fazer nenhum outro tipo de manipulação”, diz Matheus Fonseca, pesquisador do LNBio (Laboratório Nacional de Biociências, parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, Cnpem) e um dos autores do estudo.

Nos procedimentos atuais mais comuns há necessidade de limpeza e fatiamento —sim, literalmente— do cérebro objeto de estudo, de acordo com Fonseca.

Enquanto isso, na metodologia desenvolvida pelos pesquisadores brasileiros, basta mergulhar o órgão numa solução de mercúrio e obter as imagens a partir da microtomografia.

É aqui que entra o acelerador de partículas do LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron), em Campinas (SP). Os cientistas do centro de pesquisas usaram a radiação do acelerador para criar
as imagens em 3D.

 https://tv.uol/17CLV

“É exatamente a mesma tomografia que fazemos no hospital”, diz Nathaly Archilha, do LNLS e líder da estação de pesquisa de microtomografia de raios X. “A principal diferença é que conseguimos fazer isso numa resolução altíssima”, diz a pesquisadora

Segundo a cientista, em sua estação de microtomografia, ela consegue produzir visualizações de até 1 micrômetro. “É como se você pegasse um fio de cabelo e dividisse por 50 partes”, afirma.

Com acelerador de partículas, brasileiros observam neurônios em 3D Visualização da estrutura pode auxiliar no estudo de alzheimer e parkinson

Com acelerador de partículas, brasileiros observam neurônios em 3D
Visualização da estrutura pode auxiliar no estudo de alzheimer e parkinson

A amostra de Fonseca, por exemplo, tinha poucos centímetros (o cérebro inetiro do camundongo) e os neurônios mediam cerca de 10 micrômetros.

Assim que o Sirius —segunda fonte de luz síncrotron (radiação produzida com a aceleração de partículas, daí o nome do laboratório) de quarta geração no planeta, em construção também em Campinas— entrar em atividade, espera-se que seja possível obter resoluções até dez vezes superiores ao que se tem hoje, ou seja, alcançar a escala dos 100 nanômetros

“Essa tecnologia também vai permitir uma tomografia interior. Você faz uma imagem em baixa resolução e dá zoom exatamente na área de interesse”, afirma a pesquisadora do LNLS.

A imagem é muito bonita, é legal ver partes internas do corpo que só conhecemos por ilustrações de livros escolares, mas talvez você se pergunte: qual a relevância disso?

Fonseca diz que entender como os neurônios se comunicam e como a estrutura neural está montada para exercer determinadas funções —área de estudo conhecida como conectômica— é importante para compreendermos as doenças neurodegenerativas, como alzheimer e parkinson.

Com acelerador de partículas, brasileiros observam neurônios em 3D Visualização da estrutura pode auxiliar no estudo de alzheimer e parkinson

Com acelerador de partículas, brasileiros observam neurônios em 3D
Visualização da estrutura pode auxiliar no estudo de alzheimer e parkinson

“Através dessa técnica conseguimos ver o neurônio inteiro e entender os processos de neurodegeneração em diversas doenças”, afirma o pesquisador do LNBio. “Entendemos muito bem os mecanismos dessas doenças. Mas o que acontece, em nível celular, numa célula de um cérebro intacto? Como ela morre, onde ela morre?”

O cientista cita a doença de Parkinson como exemplo, na qual há acúmulo da proteína alfa-sinucleína. “Será que existe localização preferencial de acúmulo dessa proteína dentro da célula? Essas são perguntas para serem respondidas, principalmente se conseguirmos visualizar isso em três dimensões.”

Além disso, com o conhecimento detalhado das estruturas neurais —o mapa neural em desenvolvimento— é possível imaginar a criação de drogas que tenham ação específica em determinadas áreas de interesse para doenças.

Segundo Fonseca, uma colaboração com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) será realizada para que o estudo seja feito também com cérebros humanos.

O estudo foi publicado na segunda (13), na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

Cientistas criam método para reduzir testes em animais de laboratório

Com novo método, cerca de 57% dos testes podem ser feitos sem o uso de animais

Pesquisadores norte-americanos revelaram nesta quarta-feira (11) a descoberta de um método utilizando big data (um grande volume de dados) que pode reduzir em quase 60% a necessidade de testes químicos nos quase 4 milhões de animais utilizados todos os anos pela ciência.

Cientistas criam método para reduzir testes em animais de laboratório.

Trata-se de uma ferramenta informatizada construída com base em um enorme banco de dados de estruturas moleculares. Quando combinadas, essas informações não só substituem o uso animal como, às vezes, apresentam resultados melhores do que os testes em bichos. São citados como exemplos casos de sensibilização da pele e irritação nos olhos, segundo relatam os pesquisadores na revista especializada “Toxicological  Sciences”.

“Estamos entusiasmados com o potencial desse modelo”, diz a toxicóloga Nicole Kleinstreuer, vice-diretora de um centro que avalia alternativas ao teste em animais no NIEHS (Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental) em Durham, Carolina do Norte (EUA). A pesquisadora, que não esteve envolvida no trabalho, diz que usar “big data […] é uma via extremamente promissora para reduzir e substituir os testes em animais”.

A maioria dos países exigem que novos produtos químicos só entrem no mercado depois de passarem por alguns testes de segurança. Mas a prática de expor coelhos, ratos e outros animais a produtos químicos para avaliar esses riscos vem enfrentando objeções públicas cada vez maiores, especialmente por parte de entidades de defesa dos animais.

Em 2016, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei de segurança química que obriga as agências reguladoras federais a tomarem medidas para reduzir o número de animais utilizados pelas empresas em testes de segurança.

Uma das sugestões é usar o que já se sabe sobre alguns compostos existentes para prever os riscos apresentados em novos produtos químicos com estruturas semelhantes. Há dois anos, uma equipe liderada por Thomas Hartung, da Escola Bloomberg de Saúde Pública Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland (EUA), deu um passo em direção a essa meta ao reunir dados de 9.800 testes em produtos químicos regulamentados pela ECHA (Agência Europeia de Produtos Químicos).

Cientistas criam método para reduzir testes em animais de laboratório.

Cientistas criam método para reduzir testes em animais de laboratório.

No artigo publicado hoje, a equipe de Hartung explica como chegou ao resultado: os pesquisadores expandiram seu banco de dados para 10 milhões de estruturas químicas ao adicionar as informações do banco de dados público PubChem e do Programa Nacional de Toxicologia dos Estados Unidos.

Em seguida, compararam as estruturas e propriedades toxicológicas, gerando um total de 50 trilhões de comparações e criando um vasto mapa de similaridade que agrupa compostos por estrutura e efeito. Finalmente, os cientistas testaram o modelo: eles pediram para prever o grau toxicológico de um produto químico escolhido aleatoriamente e compararam os resultados a seis testes em animais realizados com o mesmo composto.

Em média, a ferramenta computacional reproduziu em 87% os resultados dos testes em animais. O percentual é maior do que os próprios testes em animais, diz Hartung. Na revisão da literatura, seu grupo descobriu que os testes repetidos em ratos e coelhos reproduzem os resultados anteriores em apenas 81% dos casos. “Esta é uma descoberta importante”, afirma o pesquisador. “Nossos dados mostram que podemos substituir seis testes comuns –que respondem por 57% dos testes toxicológicos em animais do mundo– e obter resultados mais confiáveis.”

O resultado poderia ajudar a acabar com a repetição desnecessária de testes. A equipe descobriu, por exemplo, que 69 produtos químicos foram testados pelo menos 45 vezes no chamado “teste de coelho de Draize” –um método que gerou protestos da opinião pública por envolver o uso de um produto químico no olho de um coelho.

Mas o sistema de big data não é perfeito. Embora possa prever efeitos simples, como irritação na pele, casos mais complexos, como câncer, ainda estão fora de alcance, diz Mike Rasenberg, chefe da unidade de Avaliação e Disseminação Computacional da ECHA. “Esse não será o fim dos testes em animais”, prevê, “mas é um conceito útil para reduzi-los”.

A questão agora é como as agências reguladoras vão reagir ao novo método. Rasenberg diz acreditar que os europeus o aceitarão para testes simples porque atende a seus critérios de validação. Nos Estados Unidos, o centro NIEHS está trabalhando na validação do método.

Depois disso, a EPA poderá revisar os resultados da avaliação para determinar como e se eles podem ser usados. Se a avaliação for favorável, esses modelos poderão ser usados em conjunto com outras ferramentas para classificar um grande número de substâncias.

Hartung espera que o método de rastreamento também seja de interesse para os países que estão se preparando para implementar novas leis químicas, como a Turquia e a Coreia do Sul.

Homem diagnosticado com ‘pior caso’ de supergonorreia do mundo acende alerta em médicos

Paciente internado em um hospital da Inglaterra teria contraído doença no sudeste da Ásia; serviço de saúde está atrás de pessoas que já fizeram sexo com ele para tentar evitar que doença se espalhe.

 Paciente internado em um hospital da Inglaterra teria contraído doença no sudeste da Ásia; serviço de saúde está atrás de pessoas que já fizeram sexo com ele para tentar evitar que doença se espalhe.

Homem diagnosticado com ‘pior caso’ de supergonorreia do mundo acende alerta em médicos

Organização Mundial da Saúde já havia alertado para a aparição de um perigoso tipo de gonorreia resistente a antibióticos. Agora, um grupo de médicos britânicos anunciou o caso “mais grave” já detectado no mundo dessa doença sexualmente transmissível.

O Serviço de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) explicou que o paciente é um homem que vivia uma relação estável com uma parceira, mas se contagiou com a “superbactéria” no início do ano quando teve um caso com uma mulher no sudeste da Ásia.

Ao aplicar o tratamento tradicional contra a doença – uma combinação de azitromicina e ceftriaxona – os especialistas constataram que o homem não respondia aos antibióticos.

“Esta é a primeira vez que um paciente apresenta resistência a esses medicamentos e à maioria de outros antibióticos frequentemente usados”, afirmou a médica Gwenda Hughes.

Até o momento não foram identificadas outras pessoas com infecções semelhantes, mas há uma investigação em curso do serviço de saúde britânico.

Funcionários de saúde estão tentando rastrear pessoas que tiveram relações sexuais com o paciente para conter a possível propagação da doença.

Testes realizados com o homem sugerem que apenas um tipo de antibiótico é capaz de curá-lo, mas ainda é preciso aguardar algumas semanas para verificar se o remédio realmente terá o efeito esperado.

Sexo oral e abandono do preservativo
Em julho do ano passado, um estudo da OMS revelou que o sexo oral estava produzindo uma perigosa forma de gonorreia, e o declínio no uso da camisinha está ajudando a espalhar a doença.

A entidade alertou que a gonorreia está atualmente muito mais difícil de tratar, porque a infecção sexualmente transmitida (IST) está rapidamente desenvolvendo resistência a antibióticos.

A gonorreia pode infectar os órgãos genitais, o reto e a garganta, mas a forma da doença que mais preocupa agentes de saúde é essa última.

Conforme a OMS, a gonorreia na garganta aumenta as chances de o micro-organismo desenvolver resistência a antibióticos, já que estes medicamentos são frequentemente administrados em menor dosagem para tratar infecções nesta área do corpo repleta de bactérias. Algumas dessas bactérias acabam desenvolvendo resistência às drogas.

O que é a gonorreia
A gonorreia é uma doença sexualmente transmissível causada pela bactéria Neisseria gonorrhoea. A infecção se espalha através do sexo desprotegido, tanto vaginal, quanto oral e anal.

Os sintomas podem incluir uma secreção verde ou amarela a partir dos órgãos sexuais, dor ao urinar e sangramentos esporádicos. Infecções não tratadas podem levar a infertilidade, doença inflamatória pélvica e podem ser transmitidas para o bebê durante a gravidez.

Entre os infectados, uma média de um a cada dez homens heterossexuais e de três em quatros mulheres e homens homossexuais não apresentam sintomas facilmente reconhecíveis.

Supergonorreia
Não é a primeira vez que um tipo de gonorreia resistente a medicamentos causa comoção na comunidade médica.

Também no Reino Unido, em 2015, foi detectado um tipo resistente à azitromicina. Mas os especialistas asseguram que o caso do homem internado atualmente é ainda “mais alarmante”.

Olwen Williams, presidente da Associação Britânica para a Saúde Sexual, disse que a aparição desta nova “supergonorreia” é “muito preocupante” e mostra um “desenvolvimento significativo” da bactéria que causa a doença.

A OMS está cobrando que países monitorem a dispersão da gonorreia resistente e invistam em novas drogas.

“A situação é bastante sombria”, comentou Manica Balasegaram, da Parceria Global de Pesquisa e Desenvolvimento de Antibióticos.

“Há apenas três drogas sendo produzidas e não há garantia de que alguma vá, de fato, funcionar”.
E, segundo a OMS, serão necessárias vacinas para interromper a dispersão da gonorreia.

“Desde a introdução da penicilina, que garante uma cura rápida e confiável, a gonorreia desenvolveu resistência a todos os antibióticos”, explicou Richard Stabler, da Escola de Londres de Higiene e Medicina Tropical.

“Nos últimos 15 anos, a terapia precisou ser trocada três vezes por conta do aumento das taxas de resistência no mundo. Estamos agora num ponto em que estamos usando as drogas como último recurso, mas há sinais preocupantes de falha no tratamento devido a cepas resistentes.”

Inteligência artificial redefine o humano, diz estudioso em “Blade Runner

Você pode nunca ter ouvido falar do autor americano Philip K. Dick (1928-1982), mas certamente já se divertiu com alguma de suas ideias. Suas histórias inspiraram filmes como “Blade Runner” e “Minority Report” e séries como “The Man in the High Castle” e “Electric Dreams”. Seu trabalho foi adaptado ao cinema e à TV mais do que qualquer outro autor de ficção científica, e um de seus maiores estudiosos acredita que suas histórias foram o pontapé para um debate sobre como robôs e inteligências artificiais nos obrigarão a redefinir o que significa ser humano.

Cena de "Blade Runner" (1982), clássico do cinema baseado em conto de Philip K. Dick...

Cena de “Blade Runner” (1982), clássico do cinema baseado em conto de Philip K. Dick…

Invenções assim são capazes de alterar radicalmente nossa realidade. É esse “papo-cabeça” que o físico espanhol Salvador Bayarri pretende trazer para São Paulo, durante a palestra que dará na quinta-feira (1º), na Campus Party 2018.

O físico, escritor e estudioso da obra de Philip K. Dick, o espanhol Salvador Bayarri.

Inteligência artificial redefine o humano, diz estudioso em “Blade Runner.

“Ele estava bem à frente de seu tempo. A maior parte da ficção nos anos 1950 e 1960 era sobre alienígenas e aventuras espaciais”, conta ele, que estuda a obra de Dick há mais de 15 anos. “Suas ideias influenciaram o movimento cyberpunk e filmes populares como ‘Matrix’ e programas de TV como ‘Westworld’ e ‘Black Mirror'”.

"Minority Report" (2002), dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Tom Cruise.

“Minority Report” (2002), dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Tom Cruise.

UOL – Como Philip K. Dick inspirou a ciência atual?

SB – Há duas áreas em que a visão de Dick é relevante para a ciência. Primeiro, ele podia ver que androides e inteligência artificial nos obrigariam a redefinir o que significa ser humano. Sua resposta foi que a empatia é o ingrediente-chave, independentemente da base física ou biológica.

Algoritmos superam as pessoas em jogos e resolvem problemas complexos, mas ainda estão longe de passar em um teste de empatia realista.

Uma IA (inteligência artificial) mais empática é essencial para aplicações como veículos autônomos ou sistemas de cuidados de saúde, em que a comunicação com as pessoas é importante e as decisões sobre vida e morte devem ser feitas.

A segunda área em que Dick deve ser uma inspiração é a consideração da realidade virtual como um conceito que deve abranger não só a tecnologia da informação, mas também a ciência social e cerebral. Na visão de Dick, a realidade é uma construção produzida como uma alucinação compartilhada, preenchida com memórias ou crenças verdadeiras ou falsas, crenças, sonhos e medos. Não se trata apenas de exibições montadas na cabeça, mas sobre como os dados e as interpretações que recebemos são filtrados e manipulados.

Inteligência artificial redefine o humano, diz estudioso em "Blade Runner.

Cena de “Blade Runner 2049”, continuação do clássico de 1982

UOL – O que acha dos recentes avanços em inteligência artificial e robótica? Precisamos de mais controle dos governos sobre isso?

Acho que estamos atingindo um estágio crítico e é importante pensar sobre o uso dessas tecnologias. Do mesmo modo que proibimos armas biológicas e químicas e tentamos controlar arsenais nucleares,

os esforços para proibir o uso ou “robôs assassinos” e outras armas autônomas são necessários antes que o uso desses aparelhos se espalhe para todos os tipos de mãos.

As aplicações de inteligência artificial estão crescendo exponencialmente. Algoritmos agora aprendem com outros algoritmos e podem evoluir por si mesmos. Não é algo que podemos parar, porque precisamos destas tecnologias, mas é uma boa ideia pensar sobre o que pode dar errado e tentar evitar.

A Comissão dos Assuntos Jurídicos do Parlamento Europeu
apresentou um relatório sobre as regras de direito civil em robótica, inspirado nas Três Regras da Asimov. A importante discussão que devemos ter não é apenas sobre “robôs assassinos”, mas também sobre como os empregos e decisões automáticos vão mudar a economia e como os impostos, as normas trabalhistas e todo o contrato social precisam se adaptar a essa transformação.

Inteligência artificial redefine o humano, diz estudioso em "Blade Runner.

Série da Amazon “Electric Dreams” também se inspira em contos de Philip K. Dick.

Série da Amazon “Electric Dreams” também se inspira em contos de Philip K. Dick

UOL – Acha que estamos perto de obter o mesmo nível de excelência dos replicantes do Blade Runner?

SB – Replicantes –“androides” era o termo original usado por Dick– são seres biológicos aprimorados com memórias e sentimentos artificiais. Estamos longe de projetar e construir algo como eles, seja biológico ou mecânico. No entanto, como queremos prolongar nossas vidas e também precisamos nos adaptar à vida no espaço e às mudanças no ambiente da Terra, é provável que a raça humana evolua para subespécies híbridas combinando órgãos e componentes artificiais e reforçados.

UOL – Stephen Hawking e outros cientistas estão certos de ter medo dos futuros robôs?

SB – Penso que eles estão certos em se preocupar e empenhar as nações a pensar sobre isso. Como Stanislaw Lem e outros autores de ficção científica sugeriram, as IAs evoluirão mais rapidamente do que nós. Em algum momento, será difícil para nos comunicar e entender esses sistemas complexos. Precisamos ter cuidado, adicionando salvaguardas às IAs da mesma forma que adicionamos verificações de segurança e de emergência em usinas nucleares. Nossa melhor chance, como Dick pode dizer, é construir empatia nesses “seres”, para torná-los tão humanos quanto somos, ou mais.

Série da Amazon "The Man in the High Castle", baseada em conto de Philip K. Dick, retrata como seria o mundo se o nazismo tivesse vencido...

Série da Amazon “The Man in the High Castle”, baseada em conto de Philip K. Dick, retrata como seria o mundo se o nazismo tivesse vencido…

Série da Amazon “The Man in the High Castle”, baseada em conto de Philip K. Dick, retrata como seria o mundo se o nazismo tivesse vencido

UOL – As previsões de Dick estão se tornando realidade?

SB – A ficção científica não tenta prever o futuro. É uma maneira de imaginar o que poderia acontecer e talvez nos ajude a aprender algo antes disso. Mas o futuro nunca se realiza como imaginamos. Hoje, vemos como nossa realidade pode ser moldada, pelas redes sociais ou por forças determinadas a influenciar nossas corações e mentes para seus interesses. Confirmar nossas crenças pela escolha das fontes “corretas” é um mecanismo de distorção tão poderoso quanto as drogas e “feixes de informação” que Dick usou em suas histórias.

Cena de "O Vingador do Futuro" (1990), estrelado por Arnold Schwarzenegger.

Cena de “O Vingador do Futuro” (1990), estrelado por Arnold Schwarzenegger.

UOL – Qual é a sua adaptação favorita das histórias de Dick para outra mídia?
Crescendo nos anos oitenta, para mim, os originais “Blade Runner” e “O Vingador do Futuro” estabeleceram um padrão muito alto, não porque fossem completamente fieis, mas porque conseguiram tirar os elementos mais profundos da visão de Dick e aprimorá-los. Muitas vezes, a ação adicional e os efeitos especiais ocultam grande parte das ideias básicas, como em “Minority Report”. Estou gostando muito da série de TV ”

Inteligência artificial redefine o humano, diz estudioso em “Blade Runner.

 

 

 

 

 

 

Dermatologista do HC explica os riscos de não usar protetor solar

Especialista do Hospital das Clínicas alerta para risco de câncer de pele, o mais comum do Brasil, e lista outras possíveis complicações

Dermatologista do HC explica os riscos de não usar protetor solar

Com a chegada do verão há um aumento na temperatura, os dias ficam mais ensolarados e até mais longos. A situação faz muitas pessoas se animarem para ir às ruas e também tomar sol, especialmente nos dias de folga e férias de fim de ano.

Entretanto, a exposição solar representa sérios riscos à saúde, especialmente da pele humana, e o alerta para o uso de filtro solar é constante. Mas qual é o risco real para quem se expões ao sol sem o uso de uma proteção?

“A mais importante consequência da exposição solar sem proteção é o surgimento do câncer de pele, que é a forma de câncer mais comum no Brasil”, alertou a dermatologista do Hospital das Clínicas, Marcella Soares Pincelli, que listou ainda outros riscos para quem não usa corretamente o filtro solar.

“A exposição ao sol sem proteção pode também causar: envelhecimento precoce da pele; surgimento de lesões pré-malignas, como as queratoses actínicas; causar manchas escuras, como as melanoses solares; diminuir a imunidade da pele, predispondo a infecções locais; e piorar doenças preexistentes, como a rosácea e o melasma”, detalhou Marcella, explicando ainda que há o risco de alteração dos mecanismos de defesa da pele, o que pode predispor a reativação de doenças infecciosas, como o herpes simples.

Diante de tantos possíveis problemas provocados pela exposição ao sol, Marcella orienta que vale ir além do uso do protetor solar, que deve ter no mínimo o fator de proteção 30. Para ela, o ideal é associar o protetor solar com outras medidas, além de fazer a reaplicação a cada 2 horas, ou logo após a imersão na água (de mar, piscina, ducha, represa, etc).

“Além do protetor solar, devem ser adotadas medidas de proteção mecânica contra os raios solares, como uso de guarda-sóis, chapéus, óculos de sol e roupas de mangas longas. Não é recomendada a exposição solar entre as 10 e as 15 horas”, declarou a especialista, deixando claro que é preciso ter muito cuidado com a exposição ao sol.

 

Vacina “anticocaína” avança e testes em humanos devem começar em 2018

Uma vacina contra a dependência em cocaína e crack teve bons resultados em testes com roedores feitos no Centro de Referência em Drogas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). A expectativa é de que seres humanos passem pelo experimento entre junho e julho de 2018.

Vacina “anticocaína” avança e testes em humanos devem começar em 2018

“Foi um projeto que a gente começou em 2012. Queríamos fazer uma modificação de uma vacina que estava sendo testada nos Estados Unidos para proteção de mães usuárias de crack e seus fetos”, relata Frederico Garcia, do Departamento de Saúde Mental.

A vacina seria uma forma de criar anticorpos que reduzam o efeito de prazer gerado pelo uso de drogas.

“O mecanismo farmacológico nasceu da observação que alguns usuários apresentam anticorpos antidroga mesmo sem uma estimulação imunológica. Esses anticorpos podem se ligar às moléculas de droga e, com isso, impedir que elas entrem no cérebro e produzam o efeito de prazer. Assim, é possível que uma vacina antidroga possa induzir o próprio corpo a produzir uma quantidade suficiente de anticorpos que impeçam a passagem da maior parte da droga para cérebro. Ao não perceber a sensação agradável, o usuário tende a diminuir ou abandonar a substância e romper o ciclo que mantém a dependência química.”

De acordo com Garcia, outros quatro grupos no mundo (três nos EUA e um na Coreia do Sul) trabalham em estudos parecidos, mas na UFMG eles alcançaram um diferencial. “As outras pesquisas desenvolveram moléculas proteicas, enquanto nós conseguimos sintetizar a V4N2  e a V8N2 em laboratório, ou seja, elas são mais específicas, estáveis e fáceis de produzir em larga escala”, garante.

Passo a passo até testes em humanos

Para a avaliação da vacina em humanos, três etapas ainda precisam ser vencidas. A primeira corresponde ao estudo da biossegurança da molécula em animais, exigência da Anvisa. O objetivo é assegurar que o novo medicamento não produz efeitos nocivos a ao menos duas espécies de animais. “Nosso grupo já iniciou esses testes em camundongos e, até o momento, tem obtido bons resultados”, afirma o pesquisador.

A segunda etapa corresponde a um estudo clínico de Fase 1, no qual serão repetidas avaliações de biossegurança em seres humanos para assegurar que os possíveis efeitos colaterais das moléculas são mínimos e atendem as normas internacionais.

Esta fase também permitirá avaliar se a V4N2 e a V8N2 são capazes de induzir a produção de anticorpos em seres humanos.A partir desses resultados, a droga pode ser testada em humanos.

Se a estratégia der certo, o futuro desenvolver moléculas semelhantes para conseguir inibir a sensação de prazer da nicotina e do THC, principais componentes ativos do cigarro e da maconha, respectivamente.

Efeitos não são para todo mundo

Vice-coordenadora da Comissão de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria, Carla Bicca não crê em solução definitiva para o vício, mas recebe os resultados positivos com otimismo.

“Em uma área tão escassa, a gente recebe com boas expectativas quando surge algo promissor. Não vai funcionar para todos, mas seria mais uma arma para ajudar os pacientes”, afirmou.

A psiquiatra lembra que existem medicamentos para inibir os efeitos agradáveis do consumo de álcool, mas não funciona para todos os dependentes porque parte deles passa a beber mais para alcançar a sensação desejada.

A visão é compartilhada pela chefe do departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Unicamp, Renata Azevedo.

A questão é definir quem vai ser o destinatário da vacina. Dentro de um contexto de tratamento e psicoterapia, pode ser uma ferramenta complementar para o paciente, mas corre o risco de aumentar o uso de quem que não estiver motivado a largar o vício. A dependência química tem um caráter multifatorial.”

Renata Azevedo, da Unicamp

Carla também aponta que outros projetos promissores esbarraram em um obstáculo comum: “Muitos estudos acabavam sendo muito caros e pouco acessíveis. Esse parece que vai conseguir vencer essa barreira”.

De acordo com ela, não existe pesquisa em curso neste momento que apresente resultados que vão eliminar o vício em cocaína e crack. “Psicoterapia e técnicas de reabilitação geram resultados escassos. A gente apoia todo e qualquer estudo que aparecer, tomara que um pouco de cada consiga ajudar mais pessoas”, afirmou.

Dificuldades em universidades federais

Antes de alcançar resultados positivos em roedores, os pesquisadores da UFMG tiveram de interromper o estudo no começo de 2017. De acordo com o o professor da federal de Minas Gerais, a falta de verba foi a responsável pelo atraso, cenário conhecido da comunidade científica brasileira, que organizou protestos neste ano contra o governo federal.

“Houve, de fato, uma redução de investimentos e criação de editais na área da ciência. Em razão disso que o Brasil enfrenta uma fuga de cérebros para outros países e a produção por aqui abaixou”, comenta o pesquisador.

Cápsula do suicídio feita por impressora 3D permite morte digna e indolor

O assunto é polêmico, mas necessário. No mundo, estima-se que mais de um milhão de pessoas cometem suicídio anualmente. Isso significa que há uma morte por auto-extermínio a cada 40 segundos, o que chega a representar 2% das causas de morte.

Cápsula do suicídio feita por impressora 3D permite morte digna e indolor

A Cápsula Sarco, produzida para oferecer uma morte digna e indolor a suicidas.

O Ministério da Saúde publicou estatísticas sobre suicídio no Brasil em apoio às campanhas do Setembro Amarelo, visando a diminuição das mortes por suicídio no país em ao menos 10% até 2020. Segundo a publicação, o auto-extermínio é a quarta causa de morte mais frequente entre jovens de 15 a 29 anos de idade. Os jovens pertencentes à etnia indígena, bem como adolescentes e jovens adultos LGBT, são os que mais se matam no país, dada a perseguição às minorias e a falta de diretos básicos. A publicação entende a diminuição das incidências de morte por suicídio como papel do Estado, solicitando o apoio da população.

Mas o que dizer sobre pessoas que estão em plena capacidade de julgamento e tomada de decisões e ainda assim decidem partir dessa para uma melhor? A discussão é acalorada, pendendo entre a possibilidade de se ofertar tratamentos que revertam males psíquicos que levem o indivíduo a tomar essa decisão, bem como a proteção da autonomia das pessoas em poderem optar por encerrar suas vidas, especialmente em contextos onde estão afetadas por doenças terminais ou que não possuem tratamento de controle.

Foi pensando em dar dignidade às pessoas que desejam colocar fim em suas vidas que a Exit International, uma organização que atua no âmbito do direito dos suicidas desde 1997 e que teve papel importante na aprovação de leis de eutanásia em todo o mundo, criou uma câmara para fornecer aos indivíduos que desejam morrer uma opção de método de auto-extermínio digna, privativa e sem dores ou incômodos.

O Dr. Philip Nitschke, fundador e diretor da Exit International, afirmou que “a Cápsula Sarco não utiliza nenhuma droga de uso restrito e não necessita de nenhum procedimento que requeira conhecimento prévio, como punção de veias”. Nitschke explicou também que há um teste que os interessados em se suicidar devem se submeter para averiguar se a decisão de morrer foi tomada com consciência e sanidade, para evitar que pessoas utilizem a Sarco para cometer suicídio de forma impulsiva ou sob o efeito de transtornos mentais, casos para os quais a Exit International recomenda tratamento psicológico ou psiquiátrico, conforme as necessidades de cada caso. Caso seja aprovado no teste, que é aplicado gratuitamente através da internet, o suicida recebe um código de quatro dígitos que, quando inserido na Sarco, permite a entrada do indivíduo na cápsula.

A morte se dá da forma mais confortável, indolor e letal possível: a câmara é gradativamente desprovida de níveis de oxigênio enquanto é inserido nitrogênio líquido, que contribui para a baixa de oxigênio disponível e permite a conservação do corpo após o processo, que não leva mais que alguns minutos.

A cápsula Sarco é dividida em duas partes: a primeira é uma máquina reutilizável, a segunda é uma espécie de cabine onde o suicida entra, passa por seu processo de morte e pode ser utilizada posteriormente como caixão. Ambas as partes foram desenvolvidas para que seja totalmente possível fabricá-las em qualquer lugar do mundo usando impressoras 3D.

Cinco equívocos que se afirma sobre a teoria da evolução

Quando o tema são buracos negros, os estranhos hábitos sexuais dos insetos ou se o que tem na sua geladeira causa/cura câncer, não tem polêmica: quase todo mundo solta um “uau, a ciência é fantástica, não, minha gente?”. Mas é falar em teoria da evolução, de Charles Darwin, e metade do público parece entrar em pânico, no modo “não é bem assim, minha gente”.

 Cinco equívocos que se afirma sobre a teoria da evolução


Cinco equívocos que se afirma sobre a teoria da evolução

O fato é que Hollywood, os quadrinhos e os videogames também fazem um baita trabalho em deseducar as pessoas sobre a teoria mais importante da biologia. A seguir, algumas das bobagens que pipocam em qualquer conversa sobre evolução – e já passaram da hora de serem enterradas.

 

 

1) É só uma teoria

Sim, a evolução é “só” uma teoria. Assim como a relatividade, a ideia de que a Terra gira em torno do Sol (heliocentrismo) e a teoria dos germes, que diz que doenças podem ser causadas por bactérias e vírus.

Teoria, em ciência, não é o mesmo que a “teoria” do dono do boteco de que jogadores de futebol de canelas grossas são piores que os de canelas finas. Uma teoria científica é uma explicação abrangente e amplamente aceita para fatos sólidos e bem conhecidos. No caso da moderna teoria da seleção natural, esse fato é a evolução.

Pois é, fato. Já se sabia da evolução muito antes de Darwin – a primeira teoria da evolução, o lamarckismo, surgiu no ano de seu nascimento, em 1809. O que torna a evolução um fato observável é que os animais de hoje não são iguais aos do passado, o que sabemos pelo registro fóssil, e que não existiam animais como os de hoje no passado. Isso quer dizer que os animais se modificaram. Evoluíram. Darwin só explicou como.

Outra variação desse argumento é dizer que não é “lei”, como a da gravidade. Leis, na verdade, são menores que teorias. Elas descrevem o que se esperar de uma situação muito específica – por exemplo, um objeto caindo. Teorias explicam o porquê, e contém as leis.

2) Evolução é contra a religião

A evolução pode não bater com o literalismo bíblico, acreditar que as coisas foram palavra por palavra como no Livro do Gênesis e o resto da Bíblia. Mas até aí, também não batem com isso a geologia, a genética, a astronomia, a arqueologia, a paleontologia, a história… enfim, com todo o respeito à fé de cada um, a realidade.

A maioria dos cristãos – inclusive a maioria dos brasileiros – não é assim. Eles não enxergam problema nenhum em acreditar em Deus e Darwin ao mesmo tempo, lendo a Bíblia mais como uma metáfora. De fato, essa é a posição oficial da Igreja Católica desde o papa Pio XII, e foi bastante reforçada por João Paulo II e seus sucessores. Para o fiel, a evolução pode ser entendida como o plano de Deus. Sem crise.

3) A evolução é a lei do mais forte

A seleção natural – cujo resultado é a evolução, não vamos confundir as duas coisas – favorece o mais apto. E mais apto significa quem se reproduz melhor e deixa mais descendentes, nada além disso. Quando a comida é escassa, por exemplo, ser menor (e gastar menos energia) pode ser uma vantagem. De nada adianta ser grandalhão e malvado e morrer de fome – isso não gera descendentes.

Não que a seleção natural não seja implacável de outra maneira. Pela amplamente aceita teoria do gene egoísta, ela trata pura e exclusivamente da reprodução num nível genético, não de espécie e nem de indivíduo. O indivíduo que se lixe. É por isso que existem coisas como genes letais, que fazem com que vários animais morram após se reproduzirem. Passou o gene, venceu.

4) Organismos ficam “mais avançados” com a evolução

Assim como a seleção natural pode fazer mal aos indivíduos, se isso ajudar os genes, ela não necessariamente leva a seres que acharíamos mais complexos, interessantes, bonitos, inteligentes – enfim, mais como a gente. Não existe plano na evolução. Animais que um dia foram capazes de voar – o que tem algo de poético para nós – deixam de ser quando não existe mais pressão seletiva para que isso aconteça.

Um caso interessantíssimo é o dos tunicados, seres marinhos às vezes bem bonitos, lembrando vasos de flores. Eles basicamente não tem cérebro ou órgãos dos sentidos e vivem como esponjas, os seres multicelulares mais simples que existem, fixos ao solo marinho e filtrando plâncton. Só que eles têm um segredo – são parentes distantes de nós. Em seu passado evolutivo, eles se pareciam com peixes e tinham cérebro, nadando livremente. De fato, eles ainda são assim em sua fase larval, o que faz com que sejam chamados de “animal que come o próprio cérebro”. No caso deles, a evolução decidiu que o cérebro era dispensável.

Pesquisa de Darwin não concluiu que evolução é a lei do mais forte

Pesquisa de Darwin não
concluiu que evolução
é a lei do mais forte

O ser humano que se cuide, aliás: desde a Idade da Pedra, nosso cérebro vem diminuindo.

5) Alguns animais – e gente – pararam de evoluir

Não corremos mais do leão nem precisamos matar uma mamute com a força dos próprios braços. Podemos passar o dia inteiro em frente à TV e ainda assim levar adiante os nossos genes. Sem essa pressão, será que a evolução parou?

Enquanto algumas pessoas tiverem mais filhos que as outras, não. Cientistas discutem em qual direção estamos evoluindo agora, com alguns apontando coisas como uma menopausa mais tardia. O que é certeza é que não estamos criando um cabeção alienígena supergênio. Só seria assim se gente como Stephen Hawking e Neil DeGrasse Tyson fossem os maiores ricardões do planeta.

Outra coisa interessante: os ditos “fósseis vivos”, bichos que praticamente não mudaram por milhões de anos. O fascinante neles é que não mudam porque a evolução não parou. Mutações acontecem o tempo todo – se um bicho mantém a mesma forma, é porque a evolução está filtrando essas mutações fora. Evitando que mude. Por isso que não existe bicho mais ou menos evoluído. Em time que está ganhando, não se mexe.